sexta-feira, 28 de maio de 2010

XII - Março de 2004



     "Gostei de três mulheres - feito a música, ao contrário. A primeira preferiu ficar com a família dela. A segunda, tinha que cuidar da mãe. A terceira, dos filhos. Fiquei então com as outras, com as que cabiam em mim. Elas queriam viver aquilo. Elas gostavam do jeito que era. Se ficavam, é porque gostavam.
     Que bom! Não tenho mais complexo de inferioridade. Eu tenho baixa autoestima!
     Eu poderia ter um carro grande, uma moto grande... mas não tenho. Eu poderia ter a mulher que eu quisesse, mas não tenho.
     E fica assim. Ponto."
     
      Lembro-me da universidade. Você e a P colavam de mim em Direito Constitucional e, na última prova, que valia trinta pontos, você copiou algumas coisas e foi embora. Disse que eu escrevia demais. Eu disse para você não ir. A P e eu fomos para o próximo período, fazer a matéria seguinte e você foi reprovado. Não é de hoje que você teima em não me ouvir. Falo demais, escrevo demais, critico demais...
     Você não sabe, mas cortei o cabelo, bem curto. Curtíssimo. E a tolerância foi com os cachos... palavras de R.
     Elis Regina disse: "quando cortei o cabelo bem curto, descobri a minha cara".
     Ele está cortado há mais tempo que a descoberta dessa fala da cantora. Cortei aos poucos, na medida em que fui sarando, sem perceber, sem voluntariedade. Todo mês, um pouco. Porque eu também me encontrei, feito a moça, e dizem que mulher quando quer mudar de vida, corta, pinta, faz permanente, aplique, o que for preciso. E eu fui mudando tanto que ficou faltando cabelo para eu cortar. Os cabelos tampavam a verdade diante do espelho. E até quando passo as mãos nele, eu gosto. Pouca coisa para pegar. A cura trouxe o desprendimento de muitos preciosismos. Você começa a querer encher menos a mão. E a cabeça, por consequência.
     Adoro as suas respostas "okay, ponto". Apesar de querer esganá-lo em outras muitas vezes. Mas eu não posso torcer o seu pescoço, mas posso provocá-lo com as minhas palavras. E, observação, não ligo nem um pouco se você se importa ou não. Como dizia o meu pai, papel aceita tudo. Você aceita se quiser, se for um papel, ou querer  brincar de ser. Depende de você. Lanço a flecha e você que corra ou não corra, faça o que quiser. Com a cura, também deixei de me importar com a opinião alheia, nem sua e nem dos amigos. Me importo apenas com o que penso de mim mesma e com o que Deus pensa de mim. E também não me importo se você chama Deus de "aquele cara". Tenho certeza de que Ele também não se importa com o que você pensa dele.
     Sua última namorada! Para mim, o namoro era apenas a ressonância de seu próprio vazio. Tantas mulheres e nenhuma! Tantas camas e uma estreita e seca em sua casa. O sinal do oco que você se nega a preencher. Nada que o identifique. Nem um quadro na parede ou um origami para o denunciar. Nem luzes, nem cheiros. Apenas o seu suor de macho que busca a antiga cortesã. Ah! Porque eu sei que você, nas caladas das manhãs, num tempo curto demais, que não se pode e deve contar, você busca o velho corpo, distante um tempo suficiente longo de você. E você se satisfaz com a furtividade da coisa. Como se fosse boa a amplitude do nada. 
     Você deveria aceitar conhecer algumas das minhas amigas. Mulheres que o conduziriam delicadamente de encontro a si mesmo. Mas você tem medo. Mas você não quer. Não aceita. Rejeita, como um dia rejeitei procurar Dr.J. Você poderia descobrir espaços alagados dentro de si mesmo, longe do corpo grande e árido. Lá onde um dia deixou depositadas esperanças e sonhos. Por que será que a gente resiste a ser feliz?
     Você me disse um dia, lembro-me bem, e foi pessoalmente, que não havia nada, nada mesmo entre vocês. Eu entendi: não havia amor, tesão, desejo. Havia um namoro tão-somente. Às vezes penso que sonhei, imaginei você ter falado isso. Mas falou sim. Você estava sentado no sofá da casa da sua mãe, eu numa cadeira, daí você disse isso e se levantou e foi para a cozinha. Sua eterna mania de falar e sair andando, como se não tivesse falado coisas importantes e deixa a gente com a sensação que alucinou de vez e anda ouvindo demais.
     Com suas mulherzinhas você só faz sexo. Você não beija na boca. Beijar na boca é mais que o ato em si. É uma arrebatação: o meu feliz eu e o meu infeliz ego se abrem no peito, quase que explodem. É mais fácil fazer sexo que beijar na boca. Viver é beijar na boca. É se arriscar, é ir além, é sorver o desconhecido.