sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

SOLIDÃO





Solidão é você carregar a si mesmo, sentindo todo o tempo que nada, nada lhe preenche. E, quando pessoas e momentos tocam esse teu corpo vazio, você chora.


(Por Suzana Guimarães)

sábado, 17 de dezembro de 2011

OLHANDO VOCÊ, LAVEI MEUS OLHOS



(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)



Um ano que termina e eu quase me terminei nele. É dezembro! É final de ano, num final de mim, no recolher de flores do varal, ao perceber que uma decepção desorienta, dois desgostos e a certeza das perdas embaralham a mente; no recolher das frustrações, deparo-me com você.

Não sei bem ao certo quando você chegou. Nem sei se chegou. A sensação que me alcança é a de que você esteve sempre por perto, mesmo que distante a milhas... A você, dono dos meus mais belos poemas, do meu riso, dos meus dias felizes, este texto.

Eu dançava com fantasmas, num baile de solidão, e, perdida em minhas distrações, sequer percebi que escrevia para ti. Sim, para você, pousei os dedos no teclado, sem esforço, sem lágrimas - exceto um molhar feliz, agora - , para você, eu compus, teci, remendei, inventei. Por você, eu abracei cordas que me levaram a um infinito sempre azul, azul... virei pássaro, o bastante para fugir das prisões; virei gente, com pele, com vontade, renascida.

Olhando você, lavei meus olhos. Enxerguei. Olhando-o, entendi que a vida pode ser macia, pode ser sussurro, toque leve, mãos em nuvens. Entendi que palavras são na maioria das vezes, descabidas. Entendi que passei a vida fazendo esforço para me explicar e que isso nunca foi preciso. Entendi que eu nadava em mares de confusão. Vivi uma vida onde eu dominava a língua e eu falava, falava e ninguém me entendia... descobri que para me entender, desnecessário é o conhecimento de qualquer idioma, você provou isso. Basta me olhar, sou pouco, tudo se resume na minha face, basta ter olhos para ver, responder antes que eu pergunte, entender que compreender é entender junto, é ser companheiro, é estar com.

Deparo-me com você na curva da estrada, logo após o despenhadeiro, quando as rodas do carro cantam fino, mas você já estava ali, eu apenas não tinha olhos para vê-lo. Eu só tinha dedos, e a ti, escrevia. Hoje, sorrindo, carrego teu cheiro neles, nas pontas dos dedos, nas pontas d`alma.

Meus olhos viam cores no cinza dos outros. Meus olhos enxergavam demais. Eu colori outras vidas e desbotei a minha... Nos teus olhos, lavei os meus. Purifiquei minha alma. Reaprendi a sorrir, a rir, a desmanchar de rir. Reaprendi a respirar. Teu corpo carregou o fardo do meu, aquele que ninguém via, nem eu. Cada toque seu, um descarrilhamento meu, meu passado, esquecido, meu futuro, sem pensar, meu presente, meu hoje, para mim, o fluido que ninguém vê, que escorre de teus poros para os meus, lavando tudo, descarregando, depurando, no milagre do silêncio, a comunhão do nosso bem querer.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

RECORDAÇÃO DOS PASSOS


(by J. Borodina)



A cada passo
Um rasgo
Em eterno deserto

No tempo da maturação
As costuras
Em engasgos secretos

Não sei o que foi pior
Os rasgos
Ou os alinhavos


(Por Suzana Guimarães)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MINHAS MÃOS SÃO ROSAS



Minhas mãos, quando você as toca, são rosas
Quis eu mumificar-me
Parar as horas
Cessar meu respirar
Não seria morte,
Apenas vida...

porque é o pouco que me basta.

Se eu não tivesse anjos
Pararia de caminhar
(não preciso mais)
Pararia de pedir
(pois acabo de receber)
Pararia de sofrer
(acabou-se a busca)

Só assim,
eternizada por esse momento,
Lançar-me-ia a nado
ao encontro dos confins do mar da vida.


por Suzana Guimarães

sábado, 26 de novembro de 2011

O maior deleite é ler com as mãos

REVISTA MOSTRA PLURAL


A Francy`s e a Lu Guedes convidaram-me para ser colunista na Revista Mostra Plural, que acaba de nascer.

Nasceu em mim um texto, "Há uma varanda dentro de mim".

Os interessados em ler a revista, que terá seu primeiro volume distribuído gratuitamente, deverão escrever para a Francy`s, pedindo um exemplar, no seguinte endereço:



O maior deleite é ler com as mãos!

Suzana Guimarães/LILY

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DOS HOMENS QUE GOSTO



(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)



Eu gosto dos homens de sorriso fácil, cujos olhos são sérios. Eu gosto dos homens que não me levam muito a sério, dos homens que se divertem com meu riso solto, minhas gargalhadas sem licença. Eu gosto dos homens que gostam de mim, que me entendem de forma fácil, mesmo que nada compreendam. Gosto dos homens que acreditam em certezas, mesmo que tenham dúvidas, mesmo que o tempo se feche, gosto dos homens que se entregam e dos que não me encostam na parede, são eles próprios a parede, onde posso deslizar feito pluma ou pesar feito chumbo. Não gosto de homens que gritam 'ai', prefiro a palavra feia. Não gosto de homens que não gostam de espelhos, principalmente os da alma. Gosto de homens com cheiro bom ou mesmo com cheiro nenhum. Gosto de homens que sabem abrir a garrafa de vinho, despejá-lo na taça, que saibam abrir um sutiã. Gosto de homens cavalheiros, gosto daqueles que acompanham, que fazem graça, só para ouvir meu riso ou meu xingo, que carregam sacolas, que dizem 'sim', que esperam pelo meu passo calmo na calçada; e dos que não se esforçam para abrir portas, gosto dos que não comparam sentimentos. Gosto de homens com respostas curtas, incansável bom humor, poucas promessas, mas valentes, fortes, despojados, senhores de si mesmos. Gosto dos homens que fazem cafuné. Gosto de homens educados, mas não gosto de príncipes, não gosto dos homens enciclopédia, e nem dos que fumam, dos que não praticam esporte, dos que falam alto, dos que acordam falantes, dos que não sabem apreciar o nada, dos que não aparam a barba. Gosto de homens que não pegam na minha nuca e dos que não beijam minhas mãos. Gosto de homens que esperam a hora e a minha hora. Gosto de homens que procuram compreender o que é sangrar e parir. Gosto de homens que elogiam minha pele despida. Gosto dos homens que entendem meu falatório barato e meus profundos silêncios. Gosto dos homens que não me deixam ranzinza, que me distraem e dos que gostam de aprender e de ensinar. Gosto dos homens com palavras doces, dos calmos, mas que sabem bater na cara de qualquer safado. Eu gosto dos homens que me fazem rir.


Por Suzana Guimarães

domingo, 20 de novembro de 2011

CONSTATAÇÃO





Ela só faltou gritar

Se tivesse gritado, ao pular, você a alcançaria?

Você pularia e juntos

ganhariam o vácuo, igual passarinhos?


Mas ela não gritou

Você também não pulou


E a vida rola mansa

No pomar, frutas secas, pendentes, anseiam o chão

Na cesta, as rosas murcham

O rio caudaloso secou


Mundo de descaminhos, precipícios que se abrem em vão

Quantas belezas em franco desperdício?


No pomar, sementes nascentes anseiam por você

Na cesta, rosas secas perfumam o ar que a rodeia

O rio caudaloso secou

Virou caminho, virou tudo aquilo que o tempo apagou



por Suzana Guimarães

sábado, 12 de novembro de 2011

A[S]SIM


(fotografia de Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


É mais ou menos assim, sou ave que não se pega, penhasco que não se alcança, essência que não se farta. Sou o beijo que deixei de dar, a lembrança do que dei e pedi, e também o sonho daquele que darei. Sou a água fina que escorria da bica, no quintal da casa grande. A casa era maldita, mas havia poesia por lá, os passantes a deixavam, os pássaros, o riacho escondido atrás do morro.

É mais ou menos assim, sou um bicho arisco, forte, perigoso porque conheço o medo, sou muitas vezes a bebida amarga além do gosto da boca, a comida que desce agarrando, mas posso ser o único alimento que alimenta teu vazio, teu buraco em meio ao peito. É mais ou menos assim, sou excesso de vírgulas para você saber que imponho limites, mas sou também reticências, sou promessa concreta, pois desconheço sonho sem pernas, desconheço palavras sem ação.

Sou mais ou menos, nunca serei o que habita entre os dois.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

NAQUILO EM QUE NÃO PUDE SER, FUI APRENDIZ


fotografia de SCG - arquivo pessoal



Como é que alguém pode ser quase? Acredito em quase beijo, quase abraço, quase fim, quase tropeço, mas em quase pessoa, quase gente ou quase qualquer coisa que seja (do verbo ser), eu não creio e não aceito . Pois eu só sei ser. Eu sou. Eu sou mulher, sou brasileira, sou mãe, sou esposa, sou advogada, sou artista de nascença.

Em minha plenitude, vago nos mundos que quero e sou livre.

Andam confundindo literatura - pois estou escrevendo poemas, contos, cartas e crônicas - com a minha vida pessoal. Esmiuçam-me, caçam em minhas letras minha essência. Fiz a graça de criar dois Blogs. Em O Medo de Suzana, escrevo verdades; em Contos de Lily, ficção. E quem é que acredita nisso? Quem é que acredita que consigo separar esses dois mundos?

Se confundo, perdoem-me, mas eu nunca me vi como esclarecedora de coisa alguma. Sou sim, questionadora. Questiono tua alma, questiono teu querer, tuas verdades e mentiras. Questiono você inteiro, mesmo sem nunca ter visto o brilho dos teus olhos. Artistas de nascença ganham o dom. Há em mim uma janela de frente para o universo e por ela vejo muito além do que meus olhos me permitem.

Nesse meu mundo que ganhei e que criei para mim, posso escrever sobre dor, sobre sexo, amor, flor, risos, festas e também sobre a merda do cachorro na calçada. Escrevo sentimentos, sensações, e muito mais que os cinco sentidos juntos.

Mas há quem confunda a minha arte de escrever comigo mesma. E, se carrego dor na alma ou não, isso é problema meu. Claro, claro que carrego, eu sou plena, não sou quase. Sou um ser completo. Guardo mágoas, sim. Guardo dor. Guardo o que bem entender. Guardo vitórias e muitas. Ganhei da morte várias vezes, tenho dois filhos, na realidade tive quatro, perdi dois dentro da barriga, mas foram os meus filhos, pouco importando nome e sexo. Recomecei minha vida após os 40 anos. Sou plena. O corpo já não mais acompanha tão bem quanto antes o espírito, mas as horas em cima de um tatame ajeitam músculos e peles, e, principalmente, mente, no topo. Muitas vezes, entro na academia arrastando-me feito lagartixa, mas saio sempre de lá, uma águia.

Ah, uso a literatura também para xingar. E, naquilo em que não pude ser, fui aprendiz.


                                            por Suzana Guimarães

domingo, 30 de outubro de 2011

SOBRE A FALTA DE ADEUS




O que sei, é que não se entra na vida de alguém anunciando ' estou entrando, viu? '. A gente entra por acaso ou por vontade, por curiosidade, porque gostou, achou bonito, e muitas vezes sem ao menos saber que entrou. Mas, entrou. Abriu janelas, fechou, bagunçou gavetas ou não, mas entrou e se mostrou e foi visto, foi aceito, cortejado, amado. Se o invadido ou seduzido permitiu ou não, pouco importa.


Excetuando os casos de invasão imprópria, indevida ou abusiva, ninguém gosta de quem entra, fica um tempo longo ou curto, ou incontável, e depois some, desaparece.

Não se entra na vida de alguém com lista de por fazer pregada no peito ou no meio da testa. Acontece. Entra-se. Instala-se no sofá, compartilha música, vinho, segredos, risos e muitas vezes rios de águas, águas fáceis, que escorrem no rosto amparado por dois olhos atentos, presentes, quem sabe chorosos também.

Excetuando os casos ' foi melhor assim', aquelas saídas silenciosas, porém necessárias, ninguém gosta da falta de adeus, da falta de anúncio de morte comprovada.

Chegou a mim, uma comprovação de morte, mas não chorei. Simplesmente porque chorei quando o corpo desapareceu. Chorei demais! Na época, gritei, emudeci, tentei correr mesmo que para lugar nenhum, pensei enlouquecer, sofri, doeu, incomodou dia e noite, fiquei sem saber se era fome ou má sorte. Enfim, me descabelei, me rebelei e depois calei.

Quando se entra na vida de alguém, deixa-se pelo menos um nome, aquele que, mais tarde, você encontrará na sala de embarque de um aeroporto, numa voz aguda que chama por alguém que se atrasou; na sala de aula, no programa da televisão. Em letras garrafais num 'outdoor', miúdas em folha de jornal, num bilhete perdido numa sala de cinema... um mesmo nome, um outro alguém.

O que sei, é que quando se entra na vida de alguém, ocupa-se um espaço.

Ontem, eu não chorei, meus olhos apenas umedeceram. Senti um aperto no peito. Seco. Um estranho silêncio apoderou-se do ambiente à minha volta, digo, do espaço até onde vai o brilho de minha aura - silêncio de dor. Coisa só minha, incomunicável, indizível. Não se morre duas vezes.

Foi a comprovação da morte de alguém que sumiu sem dizer adeus, volto já, vou ali pra nunca mais, me esqueça. Um certo alguém que entrou na minha vida, ficou um certo tempo e se foi, sem deixar um sinal sequer de despedida. Depois, arrependido ou sentindo falta, quis voltar. Tarde demais.



Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

36 HORAS DE CONSULTA PSIQUIÁTRICA AO LONGO DE 10 ANOS...

(SCG fotografada por Ana Diniz Echabe)



Meu cabelo é marrom escuro, mas a partir do momento em que os brancos começaram a aparecer, eu comecei a colorir minha cabeça. Ora preto, ora vermelho, dourado, Henna e hoje, um cabelo totalmente artificial. Ficou loiro demais, loiro quase branco, apesar do fundo escuro... Mas, eu estive pensando que isso não é de todo ruim. Esse detalhe falso talvez faça bem em mim, uma pessoa tão transparente, tão nua, desprovida de máscaras.

Há quem diga que tenho armadura, que sou dura demais, crítica demais, mão pesada. Há quem esconda e não diz, mas deixa claro que não tolera minhas rebatidas, minhas palavras ácidas que caem da ponta da língua, minhas opiniões sinceras e francas, sem dó. Nesse último quesito, defendo-me: não falo tudo o que eu gostaria de dizer, nunca fiz isso. Deixo muita coisa por dentro da manga da camisa, para uma ocasião propícia ou enterro para sempre, por delicadeza. Mas, há quem sabe, isso há, que também sou eterna menina, em saia de roda, leve, serena.

Ninguém fica do jeito que fiquei por acaso ou por nascença. A gente vai se transformando, no meu caso, houve uma ajuda profissional, competente, humana, um médico que me salvou de mim mesma, de meus medos, de minhas fugas sem rumo.

Trinta e seis horas, ao longo de 10 anos, consultando com Dr. Jorge Paprocki, médico residente em Belo Horizonte, Brasil. Trinta e seis horas que empurraram-me, primeiro, em direção a mim mesma, para 'des-cobrir' o que eu não enxergava, segundo, para me conduzir 'armada, adequadamente armada', para o mundo.

Houve o uso de remédios. Medicação que ainda faço uso, mas simplesmente porque quero, porque quero sempre melhoria de qualidade de vida, e, em doses pequenas ajuda a manter uma certa flegma neste mundo frenético.

Trinta e seis horas? O que são trinta e seis horas? Não chega a dois dias.

No dia em que ele me falou isso, ao telefone, eu já morando aqui, nos EUA, não mais como paciente dele, fiquei perplexa. Meu marido ficou. Minha mãe também. Quem não ficaria? Até ele ficou. Por curiosidade, ele mandou a secretária dele fazer um levantamento e me enviou: duas consultas em outubro de 1995, seis, oito, duas, uma... fevereiro, março, dezembro... dez anos, e apenas um tanto de horas.

Um tanto de horas que me deixou assim, firme, determinada, por vezes dura (eu já escrevi que a vida não é um passeio singelo por campos floridos), por vezes medrosa. Claro, serei sempre uma pessoa que foi doente, um pé estará sempre lá, a sombra dele, mostrando-me que o pé poderá ir por inteiro, em carne viva ou mesmo os dois. Portanto, medo é um conhecido meu, que às vezes, me alivia, às vezes, me sufoca, faz doer o corpo todo, inventa doenças, desestabiliza, me faz acreditar que o chão em que piso não é de verdade, é utópico, e, de verdade, apenas algo quente e venenoso que corre pelas minhas veias, angustiando-me e me proibindo os movimentos, levando-me ao eterno 'deixa pra depois'.

Trinta e seis horas e realmente esse cabelo não haverá de me incomodar. Ele irá crescer, as raízes ficarão brancas pedindo retoques escuros e terei tempo, então, o suficiente para pensar se gosto ou não. Se a artificialidade caiu bem ou não.

Trinta e seis horas é muito pouco, mas o muito bom mora dentro de nós, na maioria das vezes, totalmente oculto, e as horas precisam correr, precisam existir, o momento, o ato, o movimento, o pelejar... para que possamos estar muito bem, mesmo que entre cercas, entre falsos, entre nós mesmos.


Suzana Guimarães

domingo, 16 de outubro de 2011

SOBRE A VERDADE


Eu, em minha finita humanidade, criatura que sou, pedi ao criador o caminho.

Eu, em minha infinita ingenuidade, aleguei coragem e força.

Recebi um mapa, uma trilha, uma estrada...

Antes de iniciar a rota, desisti.

Senti então o empurrão, aquele indubitável e fui.


O criador, em seu infindo poder, mostrou-me que, quem pede um caminho,

pede a verdade.

Dei de cara com ela, assim que alcancei a soleira da porta de entrada,

o fim da trilha, um mapa já podendo ser rasgado.


Era noite, era manhã. Era tarde.

Era dia, mês e décadas, pareceu durar séculos.

Era a verdade.

Sem hora, sem fantasia

Senhora de mim


Ó, criador, voltasse o tempo para trás, pois eu, humana, preferiria a mentira.


Era tarde.


Minha senhora mostrou-me o céu, marrom, da cor do desgosto.

Minha senhora mostrou-me o chão, movediço, traiçoeiro.

Lançou em mim as jóias, que eram falsas...

e toda a comida do mundo, sem gosto.

Arrancou minhas vestes e apontou um bueiro

Mandou que eu olhasse


Vi a escuridão de uma alma


Ouvi o meu berro.


                                                       Por Suzana Guimarães

A MOÇA DE LONGE ENVIOU-ME UM TEXTO... a moça se chama Samara Bassi.




(fotografia de SCG, arquivo pessoal)


Que apesar das minhas ausências, suas portas estejam também abertas às minhas andanças, tão nuas, e cruas
como aquelas que em lua cheia, refletem sem pretensão alguma, sua face distraída, debruçada na janela, num vento frio de minuano, e sangue quente, vertendo vermelho tinto, o vinho de colorir caminhos.


Andarilha como as luas e as manhãs que caminham sem saber pra onde, sem saber por quê.
Mas conhece das belezas disponíveis, aquelas mais simples que em lugares de gelo, aquecem o coração como aquele café quente descendo garganta abaixo e fumegando os pensamentos viajantes como grãos de poeira finíssima.


Aquela moça, que mostra apenas um olhar querendo descobrir segredos daqueles cofres trancados no peito de quem passa por ela num mosaico ambulante e faces envidraçadas, emolduradas pelas ruas...

Aquela moça, de cabeça coberta, e janelas abertas que reflete a luz pelas retinas do seu questionamento ocular.

Que guarda as horas debaixo do seu cobertor cor de cinzas de fogueira recém apagada para somente aquecer os pés e leva num sorriso desmedido, um tamanho incrível de fazer sorrir.



Por Samara Bassi, para mim.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CARTA A MEU PAI

   

(fotografia de SCG - arquivo pessoal)


                                                             Los Angeles, 13 de outubro de 2011.


                                                            
                                                             Pai,


Estamos na primavera, mas o calor ainda é de verão, neste deserto à beira-mar. Se você estivesse aqui, provavelmente, já teria feito tuas malas e ido embora, com aquele teu jeito decidido de resolver as coisas, de uma vez só! Se você estivesse aqui, mas você nunca estará e posso sim, com certeza, usar a palavra nunca. Você que nem sabe mais quem sou eu. Que sequer irá ler esta carta. Talvez, mãe a leia para você, talvez, não.

Eu me despedi de você, viu? Você estava dormindo, era madrugada. Eu lhe dei um beijo na testa e lhe disse em pensamento que todas, sem excetuar uma, todas as mágoas do passado, eu deixei para lá. Para lá, um canto qualquer, um lugar qualquer. Tua alma me ouviu, pois foi sincero e forte, foi de alma para alma.

O tempo cuidou de tudo. A vida. Agora, distantes, vejo-o melhor. Vejo que você foi o pai que pôde ser, que conseguiu ser e não o idealizado por mim, se é que eu algum dia idealizei algum. No fundo, por ser parecida com você, eu dei o meu jeito e me virei com o que tinha. Além de ter me colocado no mundo, cuidado de mim e salvado a minha vida, assim que nasci, você me deixou legados inestimáveis.

O que era no passado, azedume, temperamento irascível, difícil, hoje, para mim é uma forma de conduzir a vida. O que para mim foi desatenção, predileção por outro, frieza, indiferença é para mim alicerce, é tudo o que eu precisava para seguir em frente. Doeu, machucou, fez cicatriz nos cantos da alma, mas me empurrou ladeira abaixo, para me fazer subir sozinha, acreditando em mim mesma, nos meus próprios valores, principalmente, na força de caráter, na independência emocional, essa, acima de tudo.

Sou tua criatura. Vejo-me repetindo tuas frases e pouco me importa se doem ou incomodam. Algumas são otimistas. R. também as repete. Outro dia, com o corpo enfiado quase que pela metade por baixo da pia da cozinha, suando, cansado, louco para ter uma crise histérica diante daquilo que transbordava água suja, ele respirou, parou, respirou de novo, olhou para mim e disse que pelo menos havia perdido 200 gramas, 'como diria teu pai'...

Lembro-me de você quando estou na academia, fico rindo sozinha, lembrando-me de tuas palavras 'eu não pago para me cansar e sentir dor'. No supermercado, evito olhar para a prateleira da padaria, com suas pilhas de bolo caseiro, de laranja, coco, limão... evito vê-los lá, idênticos aos que você, por toda a tua vida, comprou.

Você me corrigia, queria que eu sempre falasse e escrevesse corretamente, 'mim não faz nada'. Ensinou-me a apreciar um dicionário, a ler livros grossos, a ter postura diante de uma autoridade e diante do mais pobre dos pobres. O poder e a autoridade que você tinha por conta de tua profissão não o fizeram melhor ou pior que ninguém. Se teu gênio era péssimo, amargo, tua justiça, teus atos para com aqueles que não tinham a quem recorrer eram magnânimos. Eu o vi pagando e carregando caixão de criança pobre, doando comida, roupas, mandando muita gente de topete calar a boca e lhe obedecer.

Eu vi você dando uns tiros para o alto, mandando correr, e vi também tua paciência com gente velha e doente. Você nunca teve paciência, mas teve determinação e sabia o que queria e o que não queria. Sou tua criatura... por causa da tua genética, sou capaz de passar um dia inteiro diante de uma carta, sem abri-la; sou capaz de morrer de vontade, mas passarei um dia todo, e todo o resto da vida, se preciso for, aguando diante de uma panela de brigadeiro, bem quente, feito na hora, se eu não puder comê-lo.

Sou assim feito você, exagerada, com os nervos esticados, sou ansiolítica. Mas, sei me deitar pra ver as copas das árvores balançando seus galhos, sou capaz de jogar conversa fora por horas, sou contadora de casos. Herdei tua magreza (hoje, nem tão magra assim), teu nariz de quem não aceita imposição alheia, o cabelo anelado, o gosto pelo mundo jurídico, por doce de leite, por livros, por relógios carrilhão.

Você já não sabe mais se sou a moça que tem dois filhos, a visita, se sou a irmã de mãe, se sou aquela que esteve aí, mas já se foi. E mãe insiste em nos apresentar, e eu vejo que você procura ser educado, dá um pequeno sorriso e diz que sabe sim quem sou, mas teus olhos negam, distraídos.

Eu sou tua filha, mesmo que você não saiba mais, isso não importa. Importa sou eu saber quem você é.



                                                                 Com carinho,


                     Suzana, o nome que você escolheu.




           (Um texto de Suzana Guimarães)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A PORTA PARA COMENTÁRIOS ESTÁ ABERTA

(fotografia de SCG, arquivo pessoal)


Ok! Vocês venceram! Reabro a porta da casa, o espaço é de vocês. Só não prometo mais a reciprocidade que antes cobrei e que uso como lei na minha vida.
Sejam bem-vindos!
Foram os comentários de vocês que mantiveram a casa aberta.
Um abraço,

Suzana/LILY



Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.





sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SOBRE O AMOR E SUA LEITURA



Ando precisando ler mais. A leitura cotidiana que venho fazendo de mim mesma, desde a descoberta de que eu poderia amar sem enxergar bem, numa luta inglória, onde só eu perdia, pois amava sozinha, e buscava dentro de mim todas as respostas; desde a descoberta de que o verdadeiro mistério é claro e fácil como qualquer amanhecer - a gente é que não repara... Isso tudo mostrou-me que não se ama pra dentro, ama-se é para fora. Não preciso mais ler a mim mesma. Agora, vivo outro amar. Agora, eu quero ler o lado de fora.

Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

PARA O MEU AMOR

(imagem retirada da Internet - desconheço autoria)



Já posso sentir o cheiro forte dos lírios (quem sabe eles sempre estiveram presentes?)

Já posso ouvir o som macio, quase nenhum, de nossos passos pelo caminho (quem sabe enfim se encontraram?)
É noite, mas amanhecer dentro de mim...

Carrego a tua presença serena, silenciosa,
carrego como se abarca o orvalho da manhã, feito um beijo lançado ao vento e a gente sente.

Já posso dar quantos passos quiser (pois, encontrei os teus, para fazer par)
Já posso entrefechar janelas e cortinas (para ninguém nos alcançar)

É noite, mas no escuro, caminhamos juntos, não se perca mais de mim!


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

FATO




(fotografia, via celular, por R. Meneghini )

A noite engoliu a tarde que devorou a manhã e eu nem vi, absorta na lembrança dos dias inteiros em que eu é quem os devorava.
Tédio.
O nome é esse.
Entediada manhã que a tarde usou para conquistar a noite, essa, ardida em febre.
Febre.
O nome é esse.
Febre de ser. Ser qualquer coisa, além destes contornos que me compõem, qualquer coisa preenchida, terna, imune à dor do mistério e da consciência.

(Por Suzana Guimarães)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

SILÊNCIO VENTOSO

(fotografia, por SCG)


Não sei bem se tu és porto, se tu és alegre

Não sei se tu és cinza...

Pouco vi

Quarenta e poucas horas

Quarenta ruas

Quarenta pessoas

Quarenta palavras

E mais nada.


Não, não! Havia um silêncio ventoso...

chegou em mim já no aeroporto

Eu poderia pegá-lo, de tão presente

Eu poderia materializá-lo, de tão irreal.

Algo que alcançou além da carne, no osso.


Um vento fino e frio, distante

vinha com ele

subia pelas bainhas do vestido

alcançava minhas pernas.


Lá no alto, ao chegar à sacada

Bateu macio em meu rosto

silêncio ventoso...


Perseguiu-me pelas ruas, no encalce de minhas palavras

Mudas!

Na casa do poeta famoso instalou-se de vez: eternizou-se.


E se fez desnecessário o riso das moças, o zunir das crianças invisíveis, o bater dos martelos...

Nem era preciso esforço

Silêncio ventoso...


Não sei bem se tu és porto, se tu és alegre

Não sei se tu és cinza...


Só sei que tu me deixaste assim que os céus desceram arrastados
quase alcançando as aves de metal, os terraços alagados...


Tu me deixaste?


Não, não. Tu nunca me possuíste, eu apenas passava...


(Por Suzana Guimarães)


Poema dedicado à cidade de Porto Alegre/RS/Brasil

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SOU DO BRASIL

(fotografia, por SCG)


Há uma pequena bandeira no vidro do meu carro...
Dentro de mim, um país em forma de coração, verde, gigante.

Há em mim a bunda redonda, o andar gingado, de balanço inigualável. Há o riso solto, ora inocente, ora maldoso e o olhar atento, manhoso, malandro, perigoso. Há cheiro de chuva tropical, inundação. Há o silêncio das mangueiras, das jabuticabeiras. Cheiro de cigarro de palha, de água de bica, pingando, avisando... sou premonição.

Há uma pequena bandeira no vidro do meu carro...

Dentro de mim há montanhas. Silêncio e nostalgia, aviso de não ultrapasse, não se aproxime, há cheiro de clausura no ar, claustrofobia. Mistério. Sou gente de uma gente calada, que, quando fala, é pra confundir. Sou gente de uma gente que come pela borda, ao redor. Sou da terra do ouro, das pedras ricas, da pedra-sabão.

Sou de uma terra queimada, bacias de frutas à venda, no caminho, nos montes que só sobem, só sobem. Paredes caiadas. Calor, calor, calor. Ruas estreitas, labirintos, calçadas de extrema beleza, porém largadas, deixadas. Uma terra de meninas deixadas, compradas, abusadas. Uma terra de milagres, também. Terra das mães e pais de santos, terra da encruzilhada florida. Terra do saci, do muro alto, da cerca elétrica, do passo em falso, do bom gosto de Deus.

Sou o contra-ponto, sou a cara da minha terra. Sou alegria, sou introspecção quando a chuva cai, sou cachoeira escondida, trilhas verdes, águas mornas, enchentes que devastam, aclives que desabam, sou quarta-feira de cinzas, sou samba que canta tristeza.

Há uma pequena bandeira no vidro do meu carro...

Fora de mim, o rastro de muitas vidas, as histórias, lampiões, fome, a boiada dispersa no pasto, o boiadeiro pitando um cigarro, pensando na farra da noite, do boi, da zona boêmia...

Sou da terra grande que esconde becos, amantes famosos e uma gente que tem a dança no pé, feito sapato. Sou da terra dos meus pais, vô e bisavô, sou da terra dos nomes compridos, dobrando esquinas, das ruas de pedras pontudas. Sou ilusão, sou brilhantina de carnaval.

Filha de gente esquentada, que cozinha em fogão à lenha, que mastiga biscoito seco pra passar a raiva. Sou índia, sou branca, sou atrevida, sou de briga, sou filha de todos os santos, sou do Brasil.


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DESPEDIDA

(fotografia, por SCG)


Estendi o lençol da cama

Por cima, lancei almofadas de cetim.


Desliguei a música
Refiz atos,
revi as janelas trancadas
Olhei para tudo o que fica


Agora só faltava o caminho para a porta de entrada...


Voltei e molhei a planta, ao lado da pia
só o suficiente para hoje.
Poderia ser fresco para ela,
era tudo o que eu poderia lhe deixar.


Só faltava alcançar o lado de fora
Por dentro, tudo como deveria estar
Mas, voltei...


Havia me esquecido de retirar
além da música, das cores e dos móbiles
Havia me esquecido do odor do meu perfume


Fui atrás dele, revirei a casa
já não importava mais a delicadeza
mexi em tudo até encontrar


meu cheiro
meu último vestígio.


(Por Suzana Guimarães)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"Porque sem a essência, até o amor perde o sentido, vira só uma sequência de letras." (Maggie May, do Blog 2+2=5)

(fotografia, por SCG)


O mundo se fez de um verbo

Mas nada existiria se não o completasse as ações...


Karlinha,


Um novo ano começa, o verdadeiro, aquele contado por você e não pelo grupo de humanos. Você receberá muitos cumprimentos pelo teu dia, mas depois tudo cairá no esquecimento, só você perseverá na conta. Contará teu ano, do primeiro ao último dia, e assim, sucessivamente.

Então, para teu novo ano, o meu presente são palavras, mas é tudo apenas um grupo de letras e elas fazem pouco, quando sozinhas... por isso, fica a cargo teu a feitura da mais bela manta de crochê, tricô ou de retalhos, aquela com a qual você cobrirá teu corpo e tua alma. Não importa a riqueza da linha, do fio, se será ou não um punhado de retalhos agrupados. O que importa realmente é o teu toque nela, o destino que você dará à coberta de tua existência.

Amor é encontro, não se perca na gritaria da paixão ensandecida, ela apenas confunde, dá dor de cabeça, cobra sem direito e se faz de eterna vítima. Paixão é mistura de desejo com amor próprio, na maioria das vezes, ferido. Paixão anda de mãos dadas com o egocentrismo. Se bobear, você sequer precisará de um parceiro, gozará em frente ao espelho, só de se ver lá refletido.

Amor acontece. Você o encontra geralmente quando não está pensando nele. Você pode chegar a tocá-lo e não saber que é amor, de tão silencioso ele é.

Amor acontece, não é inventado. Você não precisa planejar os toques, os beijos, os abraços, nem as palavras. Amor flui, feito água da fonte, atrevidamente... todo mundo vê e se cala, em sinal de respeito, pela soberania que ele carrega.

Na paixão, os olhos se estreitam um pouco, porque carregam apenas perguntas. No amor, os olhos crescem, se abrem ao outro em mar aberto, onde só se encontra plenitude, a essência de tudo o que você realmente é. Eles não lhe dão respostas, essas, surgem de você para você mesmo.

Você anseia pelo amor, aquele verdadeiro, aquele que lhe trará paz e certeza de que o caminho é chão para se pisar, eu sei, e faz bem procurá-lo, pois há mais desamor entre dois corpos colados que guerra no mundo. Há muita gente falando 'eu te amo', como se pedisse, por favor, ligue a televisão (para eu me distrair)... há muita gente querendo apenas preencher buracos d`alma, alimentar egos famintos ou carregar nos braços um belo e invejado adorno.

Amor é a certeza de que se chegou na essência de si mesmo, é flutuar em mar tranquilo, sem medo.

"Sem a essência, até o amor perde o sentido, vira só uma sequência de letras."  Do Blog 2 + 2 = cinco.


                                                                     Por Suzana Guimarães


Nota: texto confeccionado especialmente para KARLINHA FERREIRA, pelo seu aniversário no dia 25 de setembro. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

DES(COBERTA)

(fotografia, por SCG)

Mergulhei sem esforço, nadei, atravessei dois oceanos, passei por três desertos, visitei a Lua, vasculhei quatro países, os jardins do imperador, entendi que na dobra da rua, ali, do outro lado do alpendre da casa vizinha, posso emergir do fundo daqueles olhos.

                 (Por Suzana Guimarães)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

INOCÊNCIA


(fotografia, por R. Meneghini)




Se tivesse sido um tapa na cara

Seria bom, eu teria revidado

Se tivesse sido indiferença

Seria melhor ainda, eu teria esquecido

Mas foi um golpe certeiro

que ceifou o riso do anjo vivido em mim



Anjo que só entendia de cultivo de jardins

Anjo que desconhecia a imundície da lama



Eu não sabia que havia lama seca escondida entre teus dedos

Só quando o anjo chorou pude ver.



Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

UMA CARTA PARA LUNNA GUEDES

                                                                            

(fotografia, por SCG)



                                       Long Beach, 12 de setembro de 2011

                                              

                                                  Querida Lunna,

Antes que o dia acabe, que a dor que sinto na alma me paralise, antes que você me diga que setembro já se foi... Antes que eu esqueça que devo continuar e não mais recomeçar (lembra-se da minha longa e demorada viagem? Aprendi que continuar é melhor). Antes que a tempestade que se agita dentro de ti leve-a para longe de mim (mais do que já é)...

Peguemos o caminho já começado, um setembro pelo meio. Gosto de metades. Já escrevi sobre isso, gosto da laranja, mas só metade, gosto de dormir na metade da cama, por mais que ela seja enorme e eu esteja só. Gosto de meia-luz, gosto de meio caminho andado. Mas, odeio meias palavras. Gosto da palavra inteira, mesmo que seja um engodo.

Querida, passei os últimos meses arrumando e desarrumando malas. No final, carreguei oito na volta para casa. Eu trouxe livros, bandejas, toalhas de mesa ricamente bordadas... sim, esvaziei caixas e catei coisas para trazer para cá, assim como você, vou deixando pedaços de mim pelo caminho. Quando saí do aeroporto de Los Angeles, e caminhei em direção a um carro bem grande que me traria até aqui, senti o vento da terra adotada beijando minha face, brincando com meus cabelos. Senti fino frio passando entre braços e pernas, lembrando-me que aqui é que é o meu lugar.

Abri a porta do meu apartamento e um cheiro de Suzana antiga sorriu pra mim. Tudo quieto, carregando saudade, o vazio da minha presença pela casa, às vezes esfuziante, às vezes meditabunda. Estranhei tudo. Dois meses e meio fora de casa e a Suzana nova olhou espantada para a antiga, sentada num canto do sofá, esperando-me.

Enfileirei as malas no corredor de entrada. Coloridas malas, pretas, vermelhas e alaranjadas, resistentes. Abri uma delas e peguei um tapete de couro de boi, no formato natural. Preto e branco. Meu quarto é preto e branco. Às vezes, um pontinho de cor para quebrar o tom, um quarto aconchegante, porém. E eu que pensava que quartos dessa cor seriam frios demais, sem aconchego, mas é justamente o contrário. Mas pensar errado é o que mais faço... Estendi o tapete sobre o chão, ao lado da metade da cama que ocupo. Minha filha se pôs a pular em cima dele, fazendo giros, rolando, esfregando-se toda, satisfeita pelo contato. Ah, minha amiga, sei tão pouco de ti! Se me disser 'coitado do bicho', eu lhe respondo que sinto muito, mas minhas botas e meus sapatos também são de couro e também algumas bolsas.

O tapete é o símbolo da minha viagem. Misto de dor e prazer. Algo que irei lhe contando, com o passar do tempo, com o passar da minha dor.

                                          Beijos,


                                          Suzana Guimarães


Nota ao leitor: as cartas trocadas com a Lunna serão publicadas, no futuro, em livro. Mas, serão pouquíssimas as publicadas aqui no Blog.