quinta-feira, 13 de maio de 2010

V - Março de 2004

    
     "A imagem que toda a nossa turma tinha de você era outra. Todos acreditavam que você ia ser uma das mais brilhantes, ou como advogada ou promotora de justiça, ou em qualquer outra coisa na qual se envolvesse. Você era a mais brava e corajosa de todos, era a que enfrentava a turma e todos os professores. Era caxias, sabia tudo, tinha resposta para tudo, era inteligente e audaz.
     Eu perdi um de seus melhores confrontos: aquele em que você descobriu que o ladrão que rondava a nossa sala estava dentro dela mesma. Nós, tão tolos, acreditávamos que alguém entrava em nossa sala na hora do intervalo das aulas e nos furtava. Ou tão covardes, preferíamos crer nisso para não criarmos confusões. Até o dia em que você foi furtada e o mundo desabou. Eu não assisti ao desabamento, mas o assunto durou dias. Alguém, anonimamente, pregou uma carta para você no mural de avisos. Eu me lembro bem, o anônimo dizia que seríamos péssimos advogados pois sequer conseguíamos defender a nós mesmos. Um de nós estava nos lesando , mas preferíamos o silêncio por puro medo. Excetuou você. Ele próprio se disse medroso para revelar a cara. E, no final do texto, escreveu que você, com certeza, seria a única de nós a dar certo. 
     Agora, de repente, essa imagem se desfaz em pedaços quando você me conta que, por trás desta capa, havia uma doença incapacitante, crônica, disfarçada tão bem por tanto tempo. É difícil  acreditar”.


     No auge da doença tive que ir à luta várias vezes. Dei minha cara a tapa: fiz um curso superior, tirei carteira de motorista, estagiei, advoguei (pouco, mas fiz) , namorei, fiz amigos, saí à noite para dançar, beber, me divertir, me apaixonei por alguns homens que não me quiseram, desprezei outros, viajei bastante, enfim, fiz o que podia. Eu tinha que fazer. Eu tinha que fazer força como todos devem fazer. Tem muita gente que não tem doença mas nada faz. E, se faz, se agarra na força do outro. Para muitos, inventar dores e desculpas é mais cômodo. Tem gente que vive por viver, senta na mala e espera o dia da mudança. Eu vivi. Não sentei na mala e esperei. Fui tentando, ao longo do caminho, enchê-la de tudo aquilo que me agradava. Eu podia não alcançar os resultados, mas carregava-a com vontade, pois não ia passar pela vida carregando uma mala vazia! Mesmo que cheia  apenas de sonhos, haveria de transbordar. Falta vontade nas pessoas, falta esforço, como se a vida não exigisse força. Desde que nascemos, fazemos força. O nascimento de uma pessoa não é um passeio alegre e fácil pelos campos.