quarta-feira, 12 de maio de 2010

IV - Outubro de 2004

    
     Ando arrumando gavetas e cabides. Separando roupas que já não me servem. Sapatos que não quero mais. Perfumes que me recordam o passado que não me importa muito. Encontrei um antigo presente, embrulhado em lenço. Um presente que você me deu, há muito tempo. Você se lembra? Creio que sim. Um presente sem par, sem igual. Cheio de sentidos, único em todos estes anos, inesquecível, porque na realidade é seu. Não meu. Nunca será meu, apesar de estar no meio das minhas coisas, apesar de estar dentro dos cheiros que são só meus. Mas ele está lá e continua impregnado do seu poder. Pôr as mâos nele é tocar em você. E eu quero devolvê-lo. Penso que tenho a vida toda para fazê-lo e que também não tenho mais tempo nenhum. Eu não deveria ter aceitado-o. O seu anel de formatura. Um anel enorme, que não cabe em nenhum de meus dedos. Você queria que eu sempre me lembrasse de você. Mas você não serve em meus dedos. É isso, ou os meus dedos não servem em você.



     R andou desempregado por longo tempo e não sei se pelas consequências disso ou pelo meu defeito de fábrica, voltei a sentir meus medos voltando. No começo foram pequenas crises de labirintite até que tive uma que me jogou com força na cama. Dr.J me disse que são patologias diferentes, uma coisa é a fobia de desempenho (ou social) e outra coisa é a labirintite, mas que há sintonia (não foi essa a palavra que ele usou) entre elas, algo como linhas paralelas (que um dia se encontram sim!). Quem tem labirintite pode nunca sofrer de fobia, mas às vezes ela vem junto, ou melhor, logo depois. Essa doença pode abrir caminho para a fobia. No meu caso contribuiu. Minha primeira crise de labirintite, eu tive com dezessete anos, logo após ter passado no vestibular. Fiquei quinze dias de cama. Durante os anos em que me tratei da fobia não tive tais crises, nem sequer brandas. Estou novamente me tratando com os meus velhos remédios. Estou tomando Zoloft, que está sendo muitíssimo usado não só para tratar depressão, mas também fobias. Voltei a tomar Rivotril e aumentei a dose diária de Inderal.



     Hoje estou cansada. A televisão está ligada na maior altura, R parece ser surdo e LR está pulando pra lá e pra cá com uma bola de soprar. Vejo a bola e penso que sou ela. Fico flutuando pra lá e pra cá. Numa flutuação incômoda, pois não quero o flutuar, quero pés fincados ao chão. Eu deveria trabalhar mais. Mas gostaria de estudar um pouco e tentar novamente os concursos. Aí eu teria que estudar muito, não é? Eu queria mais tempo para mim. Queria ler mais. Reclamar menos. Preocupar menos com dinheiro. Com contas. Que o mundo se danasse e eu fosse mesmo a bola a voar aqui e lá, mas não posso. Tenho que prender a linha em algum lugar. Penso se largo o Direito de vez, se invisto mais no trabalho com as porcelanas ou se paro tudo e volto a estudar apenas. Todos são investimentos, mas qual deles é o melhor?



     Desde os dezessete anos, vivemos nós dois de encontros (culpa sua que gosta de sumir), mas os separo em dois momentos: o primeiro quando cursamos juntos a faculdade e éramos colegas - amigos?, e que se estendeu até o meu casamento. O segundo, o dos e-mails trocados. Considero o último o mais verdadeiro, principalmente porque contei minhas verdades, lembra-se? Você me ofereceu o ombro via Internet. E então eu me abri, porque você me conduziu com ternura ao caminho do simples. Você tem o dom de esquecer, apaga tudo. Eu, ao contrário, não tenho o botão delete. Armazeno tudo, quase que para sempre. Tem gente que abre janelas. Minha cunhada é assim: ela abre uma janela, dá uma olhada e fecha. Quando fecha, esquece. Se precisar, abre novamente. O problema é quando uma janela vai abrindo em cima da outra, diz ela. Penso que, às vezes, era melhor esquecer para sempre; eternamente esquecido.