terça-feira, 11 de maio de 2010

III - Abril de 2004


     Você não me entendeu. Acho que você pensa que tive Síndrome do Pânico. Ou será que entendeu, por fim, depois de alguns e-mails? Quero a sua compreensão. Por quê? Não sei ao certo. Será que sou eu que acho você o máximo? Será que sou eu que invejo a sua liberdade e coragem?
     Cheguei a falar da minha louca - ou seria tola? - permissividade? É um dos males dos fóbicos (gostou da palavra? Técnica. Forte. Concisa).
     Se pudermos enumerar, o primeiro mal é a evitação. O segundo, é a permissividade. O fóbico, assim que percebe que tem um problema, que lhe traz vergonha e sentimento de humilhação, faz de tudo para disfarçar e esconder, e, para isso, passa a dar permissão a todos. Principalmente aos mais próximos, àqueles que, num deslize, poderiam questionar muito, criticar severamente, ou mesmo, revelar ao mundo a estranheza, aquela coisa que parece que ninguém tem. Bom, para mim, isso seria um estrago avassalador.
     Não adianta procurar convencer um fóbico a fazer coisas que ele tem pavor de executar ou viver. Não há palavras bonitas, textos "eu estou ok, você está ok?", sucos de maracujá, chazinhos calmantes e nem mesmo os calmantes fortes, aqueles que simplesmente empacotam a gente, não nos deixando acordados para ver com clareza a situação. Nem reza brava, nem amor de mãe, nem aula de artesanato, massagem, Yoga, nada faz efeito sobre o  seu medo. Eu fiz tudo isso e de nada adiantou.
     Eu não tive pânico no sentido médico. Eu tive medo. Sofri de medo. A síndrome do pânico faz você ter sudorese, taquicardia, a sensação de que está tendo um infarte ou a certeza absoluta de que baterá as botas. Quem sofre de síndrome do pânico nem sai de casa e pensa que, inclusive dentro dela, está em risco e poderá vir a passar mal. É cruento. Já a fobia é medo. É terror, grande pavor diante de uma determinada situação. Dá sudorese, mas nada que escandalize. Ninguém percebe, ninguém vê! Dá tremor, as mãos não obedecem ao comando do cérebro. O rosto fica quente, parecendo febre. Você tem a sensação de que o mundo todo está lhe vendo, reparando seu jeito, investigando-lhe, quando, na realidade, está todo mundo olhando para o seu próprio umbigo. E não é timidez. Uma pessoa que sofre de fobia não é necessariamente tímida. Eu nunca fui tímida. Você sente angústia, mas você não chora. Não é fraqueza moral. Dá vontade de evaporar, sumir, cavar um buraco no chão e desaparecer. Eu evitei determinadas situações e fiz qualquer coisa para não ser descoberta, principalmente dei licença.
     Você não acredita, pensa "e toda aquela braveza?". Não se espante. Muita gente também não acreditou quando soube. E eu, eu nunca acreditei também. Principalmente eu. Parecia possessão demoníaca. Não ria, eu pensava em tudo! Eu me questionava muito, me sentia ridícula. Como eu poderia me estrebuchar diante de coisa tão corriqueira? Como é que eu poderia ter tanto medo do medo? Eu tinha medo de assinar o meu nome, de preencher uma ficha. Aí então, nesse caso, seria pior! Começou com a assinatura, mas depois passei a não conseguir escrever qualquer coisa que fosse. No Fórum, cheguei a levar processos para dentro do banheiro. Dr. J me disse que tinha pacientes empresários que jamais preenchiam papéis e, ou também, assinavam papéis em seus escritórios, em suas reuniões, tudo era levado para casa. É preciso jeito para convencer as pessoas, mas um fóbico aprende cedo a arte da sedução, do convencimento.
     A bola de neve que era tão pequena, cresceu. Avolumou-se tanto que ficou maior que eu. Eu me organizava de tal forma que passei a não precisar ir a certos lugares. Eu tinha conta no banco, mas nunca pagava com cheque. Só em dinheiro, cash. O meu inferno era dia de eleição, aquela fila ou a falta dela, os mesários, a espera para que encontrassem o meu cadastro... O meu inferno eu vivi quando trabalhei com uma advogada que não queria uma estagiária, alguém que poderia fazer todos os trabalhos, na proteção da sala fechada, longe de olhares alheios e de gente impaciente nas filas. Ela queria uma secretária, alguém que apenas organizasse os arquivos - fácil -, atendesse os clientes e telefonemas, anotasse recados... mas que também fosse às secretarias do Forum peticionar nos autos dos processos. Ela me dava um pedaço de papel escrito por ela e mandava eu transcrever para os autos. Naquela época, eu sofria por nada, apenas para servir a uma profissional muito esperta, gorda e grande que não podia carregar a própria pasta. Se eu sofresse aprendendo o ofício, talvez sofresse melhor.
     Fiz concursos públicos. Mas, e a prova escrita? A folha de presença teria com certeza um rabisco dizendo que eu estava presente, mas das provas eu não podia fugir. Até o dia em que cheguei à conclusão de que alguns chopes antes das provas, lá na rua, antes de entrar no prédio, ou mesmo uma garrafa  escondida no casaco pudesse resolver o problema. Várias vezes, bebi antes de ir para o local das provas; várias vezes, e me lembro bem, em pleno verão, eu ia de casaco grosso para poder carregar uma pequena garrafa dentro da roupa. Bebia dentro do banheiro. Bebia vodka para não dar cheiro. Mas não adiantava. O meu grau de ansiedade era tão alto que o álcool não fazia efeito. Só me deixava com dor de cabeça. E eu tremia do mesmo jeito.
     Para me livrar das eleições públicas, fui ser mesária. Para mim, era ótimo. Eu passava o dia todo lá e decidia o melhor momento para dizer aos meus colegas: "agora sou eu quem vai votar", logo após abrir o livro de presença e assinar meu nome.
     Escrevendo para você, eu volto ao passado...


Me sinto péssima, inclusive agora. Agora, em que estou longe no tempo e em distância de tudo aquilo. Como eu lhe disse, eu guardei os nossos e-mails, trocados anos atrás, e, me sento aqui, hoje, para transcrever. Nem mais consigo copiar, vou mudando os nossos e-mails porque o tempo passou e o que escrevi antes já não soa tão bom como foi. Hoje, vejo tudo de forma bem diferente. Porém, ficou a cicatriz. Dr. J me falou sobre isso: passaria mil anos e eu poderia tocar a ferida já seca. E eu entendo bem de cicatriz. Tenho várias pelo corpo. Há certos dias em que elas coçam ou ardem e as minhas não se apagam, sequer numa linha branca. E essa cicatriz é a pior, a mais feia delas,  e ninguém pode ver.


     Para que tudo? Para que todos os meus esforços? Será que foi o carrasco da dona E. ? Será que foi herança genética? Será que nasci com defeito de fábrica? Será que houve culpados? Será que fui culpada sozinha?


Desde ontem, eu estou feliz. Sabe aquela felicidade que não dá para esconder? E que você nem quer esconder? Hoje, enquanto caminhava na calçada da praia, eu chutei pedras e coquinhos de tanta alegria. O mar até acompanhou, ele estava naquele tom do Brasil, azul-esverdeado... e batia cheiro forte de maresia.  Mas agora estou triste. Às vezes, você não sofre apenas porque você parou de se lembrar, não que tenha esquecido. Mas agora eu lembrei muito. Refiz partes do passado... Eu poderia parar por aqui e não continuar a contar essa história, mas sei que um dia, já bem velha, não me perdoarei. Estou aqui e tenho que estar por mim mesma, para jogar aos ventos a minha antiga dor. Quem sabe os ventos possam levar ajuda a quem precisa... quem sabe?!