quinta-feira, 22 de junho de 2017


Tempo do ócio. É verão na América do Norte. É calmo outono em mim. 

Férias❣

Aos meus queridos leitores espalhados por este mundão de Deus, minha saudade antecipada de vê-los repetidamente nas estatísticas do blogger.com... eu nem sabia que Macedônia era um país (para mim, era uma região do passado), tampouco havia ouvido falar em Mayotte. 

Felicidades, sucesso... são meus votos a todos!

Suzana

segunda-feira, 19 de junho de 2017

domingo, 11 de junho de 2017

A crônica que eu nunca lhe escrevi.

(arquivo pessoal de SCG)





A garçonete perguntou-me como eu queria os ovos, em inglês, claro, moro na América do Norte. Apesar dos oito anos de residência, diga-se com muito pouco uso da língua, eu nunca me prendi a essa pergunta, nunca teve importância; eu repetia o que os outros diziam porque pouco sempre me importou como seriam os ovos. Mas, hoje, eu quis saber os nomes e deliciei-me com um deles, "sunny side up", oh, frase mais linda! Expressão das mais belas para um ou dois ovos fritos! E eu prontamente, "I like that, sunny side up, it is so pretty!". ​
Diante de mim, eles brilharam, lindos, lindos... eu pensei em um garfo, uma bela boca, em dois seios e essa boca neles...

Pensei em você.

Daí, essa crônica. Mas, estou na rede. Você não sabe, mas hoje tenho rede em casa e nela posso balançar-me e pouco importa, também, tal qual o jeito de cozinhar os ovos, pouco importa em qual dia da semana estou, ​quantas horas são... e você perguntaria - ou outra pessoa qualquer perguntaria - , por quê? Porque eu posso. Essa é a resposta, porque eu posso. Eu posso porque paguei o preço que você não pagou para estar aqui, balançando-se nessa rede...

​Mas essa crônica não é para mim, é presente meu para você. Por quê? Porque você pagou um preço para tê-la e ei-la, sua.

Essa crônica é para dizer de ovos ou de rede? De belas expressões? Não. Eu queria mesmo era falar de um livro que li em duas épocas diferentes da minha vida, aos 16 anos, e nada entendi, e aos 30, quando tudo fez sentido. "Não apresse o rio (ele corre sozinho)". A autora? Barry Stevens. 

Lava os pratos, cara, lava, e não pensa em mais nada a não ser neles sendo lavados por você. Suas mãos pegam o vidro de detergente, pegam a bucha e os pratos são ensaboados, tranquilamente e em perfeita concentração. Isso! Você já sabe! Só falta repetir, fazer disso um hábito!

Lava os pratos e isso é tudo. O resto não existe. O resto, mesmo que seja o resto da vizinha, não lhe pertence, portanto, é sua ilusão, é a ideia que você criou e amou; lembra-se de quando você era um tolo e amava ideias? ​Pois, a única realidade é você, o prato, a bucha e o sabão, ah, a água - não me lembra dela, ficou promessa.

Mas eu já sei lavar pratos há vidas, e não fixo meus olhos em pratos. Eu pego o caminho e nele caminho. Nem no caminho eu me fixo, eu pego e faço. Ou não faço. Como agora. Melhor essa rede. Esse balançar. Está frio, tenho uma coberta e um sorriso. 

Apesar de que já sonhei de olhos abertos, peguei aviões de olhos abertos, caminhei de olhos abertos, esperei de olhos abertos e caí em prantos, claro, de olhos abertos... mas isso faz parte. 

O que faz parte, não se rejeita, acolhe-se. Então, eu peguei o garfo e equilibrei ora um ovo, ora outro, e os enfiei na boca. Fechei bem lacrada boca e comi os ovos.

E você se questiona: bebeu muito? Talvez, talvez, tenha misturado drogas lícitas e ilícitas, tomei algumas Mimosas, mistura de champagne com laranja ou manga ou com o que você desejar. Contudo, apesar do tempo ligeiro e da minha indolência nessa rede a balançar, saiba que o melhor do ovo na boca é levá-lo a ela, guarda isso, é como lavar o prato, a água escorre, desce por seus dedos, você pode inclusive se abaixar ligeiramente e abocar - abocar, amei! - você pode abocar essa água e morrer ali mesmo na beira da pia, na esquina do mundo, na ideia morta. 

Eu disse que escreveria palavras de amor. Ei-las. Bebe!




Por Suzana Guimarães


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Fato!

(desconheço autoria)

domingo, 28 de maio de 2017

mensajero del tiempo...


"(...) en los Andes de América del Sur, el colibrí es un símbolo de resurrección. Representa que la muerte en las noches frías retorna a la vida con el cálido amanecer. En otras culturas el colibrí representa la reapertura del corazón luego de que este ha sanado de algo que causó una herida profunda..."

27/5/2017 - não importa a duração, importa o sentimento vívido.

sábado, 27 de maio de 2017

Triste é a procura do que já encontrou.

                   
                                          Foto: SCG 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Sobre zona de conforto e zona de desconforto

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(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)





Outro dia, eu li que a expressão "zona de conforto" é um erro ou uma ilusão, algo mais ou menos assim. A pessoa escreve que essa zona é de "desconforto", já que, dentro dela, você não se sente bem, quer sair, quer mudar, quer que seja diferente. Só é confortável no sentido de ser conhecida. A pessoa também fala que ser feliz dá trabalho, dá sobressaltos. 

Hoje, agora, encontro-me saindo de uma zona desconfortável, enfim, graças a Deus, amém! E, reconheço, dá trabalho, local onde a preguiça não ousar chegar. 

Mudar de endereço, mesmo que você já tenha feito isso dezenas de vezes, é um pesadelo, principalmente quando você carrega muitas coisas. Meu pai dizia que felizes eram aqueles que não tinham muita coisa e, por isso, podiam se locomover mais facilmente.

Dá sobressaltos. Dá medo e dúvidas. Mas, eu só saberei se serei feliz se eu for. Se eu ficar, permanecerei em minha zona de "desconforto", que já provou que é mesmo desconfortável, por longos sete anos, ou menos, talvez, uns três. O fato de eu já conhecer esse desconforto não ajuda em nada. 

Que eu vá! Que seja para outro desconforto, eu não sei, como saber? Só saberei se eu for. Então vou, fui. 

Volto em junho.​

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Uma carta para M.



(arquivo pessoal de SCG)



Em frente ao mar, maio de 2017, ainda primavera.


​Querida M.,


Hoje, o mar parece seus olhos, na cor, na calmaria, no brilho. É belo, assim como você, minha amiga.

É cedo, pessoas saem da igreja, eu saí, acabei de atravessar a avenida e me sentei neste Café em que estou para refletir, descansar e aguardar. Hoje, faz um lindo dia. Minutos atrás, eu senti redenção, enquanto caminhava para a igreja, enquanto lá dentro eu estava e muito mais ainda quando alcancei a rua. O mundo parecia feliz. Hoje, havia duas guardinhas de trânsito (Crossing Guards)​, e a novata estava muito sorridente, usava um chapéu de aba larga... moça alta, nova, feliz da vida. Vivo em uma pequena comunidade e eu me senti, hoje, num passado muitíssimo remoto, onde pessoas se cumprimentavam nas ruas, as mulheres usavam vestidos de saia rodada - eu estou de vestido, laranja, quase seda, quase crepe... Por segundos, naquele instante, no cruzamento de ruas, eu ouvi muito mais que todas as vozes presentes, todos os cochichos e barulhos de carros, as risadas da moça de chapéu, o "good morning" da outra... Eu ouvi além.

​Sentei-ne nesse Café por que, como eu disse, preciso estar comigo por alguns instantes. Os últimos dias foram agitados e exaustivos. Estou de mudança, vou para a costa leste americana, viverei por um certo tempo em uma megalópole, o que um pouco me preocupa pois deixei as grandes cidades há oito anos. O caminhão de mudanças já partiu, levou meu carro. Quando eu subir para o meu destino, o farei de avião. Sei, você deve estar se perguntando a razão de eu não pegar as estradas novamente... vontade dá, subir de carro, viver a experiência de trilhar o caminho pouco a pouco, hotéis baratos, a visão dos dias nascendo e morrendo e meu carro avançando. Mas, não é hora. Como eu disse, estou exausta. Dias e dias desmontando um apartamento, doando e vendendo coisas, jogando muitas outras na lixeira. Hora de reciclar! 

Parece sina, não é? Desde sempre, desde ainda dentro da barriga da minha mãe, estou locomovendo-me de residência em residência. Parei de contar, parei de tentar relembrar os nomes daquelas ruas onde vivi...​ e esse não será meu último endereço, com certeza, ficarei dois anos e depois de nada sei...

Sobre o meu sentimento de redenção, eu poderia dizer-lhe que estou a livrar-me da pena da mágoa e da raiva, principalmente da primeira. Você sabe, sou lenta em minhas emoções, preciso de tempo, muito tempo para fazer acalmar o que revira-me por dentro. Hoje, M., eu me lembrei de uma pessoa e senti com + paixão. Assim mesmo, do jeito que escrevi! Tive com + paixão por aquela insana criatura que se divertiu enlouquecendo-me. Claro, ela, a pessoa, não fazia festa, soltava rojões e gritava pelas ruas suas maldades para comigo - talvez, nem tivesse a devida consciência do mal -, mas, com certeza, antes, durante e após nossos desentendimentos, ela acariciava seu ego como se acaricia um bichinho de estimação... Livrei-me! Ela está "ferida de guerra", de suas próprias guerras, e, agora, posso parar para refletir, olhá-la e senti-la. Silenciosamente, estamos em simbiose. Nossos machucados viraram um só. Então, por isso, sinto com (ela) paixão. 

E você, M.? Como você está? Tenho notícias das suas viagens, sei dos seus bons momentos com seus filhos, mas eu queria saber mais, queria saber o que caminha neste seu coração dengoso e arteiro... quero saber como vai a vida na sua cidade. Fala-me de você por estas ruas que ainda não conheço...

O cheiro de maresia está forte. Li algo outro dia, não me lembro o autor, contudo, "Metade de mim é maresia". É a primeira vez que moro em uma cidade praiana e deixá-la já está doendo. Como quase todo morador, não "vivo" na praia, como alguns imaginam e sonham, mas eu sei que ele está ali, o mar, e sei que, quando preciso, ele me recebe, abarca-me em suas águas sempre geladas, mas limpas. 

Estou me despedindo. Estou saudosa, mas animada. Aprecio coincidências - elas não existem! -, mas sentir essa com + paixão justamente agora, nesses dias de mudança, renova minhas energias.

Brindo esse dia com chocolate quente e essa carta para você, minha querida amiga! 

Beijos!


Suzana


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Uma carta para W.



Los Angeles, 27 de abril de 2017.


Querido W.,

Como vai? Espero que tenha se recuperado plenamente da cirurgia. Espero que esteja feliz e pronto para novos caminhos, novos planos e decisões. Eu estou bem. Emagreci alguns quilos por conta de uma dieta rígida que aceitei fazer. Na realidade, estou ainda na fase das tentativas, com avanços diários, mas sem obsessões; detesto isso, você deve saber. "No fruits, no milk, no cheese, no bread"... algo meio desesperador em um primeiro momento... Eu simplesmente disse à médica que, ao nascer, ganhei um queijo de presente, que sou mineira, que gente do meu estado não vive sem queijo... mas, passo a passo vou aceitando a dieta... sou assim, gosto de vivenciar o novo, gosto de me testar, gosto de ver até quando e onde posso ir, e, por ser assim, muita coisa se torna diversão para mim. Amanhã, talvez, eu me canse disso e volte à antiga rotina alimentar.

Estamos na primavera. Já sinto saudades do inverno e já me preocupo com o verão nesta costa americana quente e seca. ​O deserto me atrai tanto quanto qualquer novidade porque ele parece realmente conter em si algum segredo, mesmo que eu já o tenha percorrido na força da rosa dos ventos, mesmo que não pareça mais algo novo... porque, saiba, se você sair das cidades e tocá-lo em seu estado mais do que puro você se surpreenderá. Há pouco tempo, visitei Death Valley, um parque nacional. Os confortos da atualidade nos protegem, nos fazem avançar, mas, mesmo assim, o deserto grita bem alto tudo o que somos, pó. Pó. Corpos frágeis. Almas ignorantes. Solitários seres brincando de divindades... O calor é cruel, é seco, parece que você não respira, seu nariz entope, sua boca permanece seca após beber água, os ventos ora fortes, ora nem tanto, sempre presentes, quase sempre agressivos chegam a você em pedrinhas que batem em seu rosto, em seu pescoço, parecem desejar arrancar seus cabelos. Não há sombra porque as plantas são quase rasteiras. Não há delicadezas nem nas flores. As grandes montanhas ao longe parecem deixar recados em imagens de rostos, de animais, sabe, sabe aquela brincadeira de tentar ver figuras nas nuvens? No deserto, você parece vê-las em cada canto, num mato, numa pedra, na estrada seca, nos céus claríssimos. Bom, eu vi. Eu vi até o que eu não queria ver. Penso que seja uma forma de abstração para passar sobre, para estar acima do que nos é ofertado. Aquilo lá é vida! E toda vida tem sua mensagem para ser lida, vivenciada... Eu obtive a minha. Tenho muitas fotos. Se quiser, envio-as para você poder apreciá-las.

É noite, são sete horas. Estou em casa. Dei-me férias de muitas atividades. Estou em fase de recolhimento, quase em um delicioso ostracismo. Muitas pessoas têm medo da solidão, eu nunca tive. Estar comigo mesma é a única maneira que tenho de dizer que sou plena, como se eu, desse jeito, pudesse desenhar o que é um ser humano respirando. Estar só é respirar. Respirar é estar só. Anos atrás, eu tive um problema de saúde e pude constatar quão maravilhoso é esse ato. A gente não liga muito porque ele é mecânico, mas, no meu caso, eu aprendi a vê-lo como preciosidade. Quando estou muito tensa, eu respiro bem devagar, como fiz naquele terrível dia e nos posteriores... Bem pouco, puxa o ar pelo nariz, levemente, solta pela boca aos poucos, assim, puf, puf, puf, em prestações, e vive.

Eu queria ter começado essa carta de outra forma. Eu a escrevi mentalmente dias atrás, enquanto dirigia. Eu pensava em conselhos que as pessoas nos dão ou soltam ao vento e às vezes a gente os agarra, às vezes, não. Falam muito em atravessar a porteira, dobrar a esquina, isso!, dobrar esquinas, eu mesma já escrevi sobre isso, uns poemas bons, viu?, algumas crônicas... eu concordo, temos que ir além, eu gosto disso, eu aprecio quem tem coragem e faz; eu adoro saber que a vida é um verbo e não um sujeito... mas, cá entre nós, é para se atirar mesmo, mas tenha um mapa nas mãos, não saia por aí vagando sem rumo porque isso soa ruim, soa quase desespero de quem teve e perdeu, de quem quer provar algo. Viver é simples, assim como é respirar, assim como é caminhar no deserto cru. E, provar qualquer coisa, para mim, só se for nos Tribunais ou perante um delegado nervoso. Dobra esquinas, conheça o mundo, reconheça você nos seus diferentes, mas tenha finalidades, tenha um plano, de preferência de longo prazo, daqueles que demoram anos para serem finalizados. Esquece os castelos de areia nas beiras das praias, romantismo e drama só ficam bem nas novelas, no cinema, nas artes. Viver é uma arte, mas arte simples, sopro de areia.

Meu querido, eu queria escrever uma carta para você, contudo, perdi-me em devaneios, em meus dramas ocultos - ah, isso me faz sorrir!
Dramas! Quem sabe, hoje, eu escrevesse uma ópera? Não. Ouço David Bowie. Ouço repetidamente "Wild is the wind". Para a ópera, eu teria que ter um mapa, um programa, ou esboço... e eu só tenho essa singela missiva, que chegue a você carinhosamente.


Grande abraço,


Suzana




Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Tenho saudade do mundo em 1980. Exatamente esse ano. Meu mundo era do tamanho do meu passo na rua.
Para você, Franck Santos.

domingo, 2 de abril de 2017

Uma carta para M. M.



Los Angeles, 2 de abril de 2017.


Hoje é domingo. Pela janela descortinada, sopra vento levemente frio, chega a mim o som dos carros na avenida. Tudo calmo, à espera de amanhã. Talvez tenha sido um dia de sol, praia, pessoas nas ruas, satisfeitas pela chegada da primavera. É abril. E eu nem vi. Não vi o dia, os meses, não estou vendo o ano passar.

Talvez, eu esteja apenas ocupada demais, preocupada demais, talvez, eu tenha visto esse ano percorrer noventa dias, sim, e finjo que não vi; por ser mais fácil. Talvez, repito, eu tenha vivido intensamente, à baforadas de ar, forçando pulmões e pernas, forçando a coluna ereta, o olhar elegante, assim, como se carregasse livros na cabeça...

Talvez é uma palavra quase covarde.

Querida M. M., escrevo-lhe essa carta porque, em uma noite solitária, absorvida por palavras alheias, eu reclamei não ter destinatários para uma eventual carta, para um encontro assim, na forma mais amorosa de alguém compartilhar rotina, boas notícias, más, uma certa melancolia, um certo desejo de forçar esperança... qualquer coisa. E você, então, disse-me, "Escreve para mim".

Cá estou. Vejo a tarde definhar diante dos meus olhos, sentindo o cheiro forte de lavanda na almofada em que me recosto para escrever. Hoje, mais cedo, deixei um vidro da essência se quebrar. O que salvei do produto eu passei em alguns cantos do meu quarto. Gosto das essências de lavanda e limão, elas acalmam e ao mesmo tempo revigoram. 

A vizinha está em casa, ouço música vindo do seu apartamento. Ouço também o barulho da minha máquina de lavar roupa, ouço uma sirene ao longe. Ouço tudo. Vejo demais. Estou exausta, minha amiga. Pareço um animal acuado, anseio apenas por um canto para não mais interagir com o mundo, e, somente esperar; esperar, esperar. 

Esperar o quê, você me perguntaria... claro! Esperar o machucado ou seriam os machucados... sim, esperar os machucados sararem.

Já posso dizer, é noite. É noite na costa oeste americana e eu gostaria de estar justamente aqui e ao mesmo tempo, bem longe, em um país distante e desconhecido, para poder dar uma risada, uma única risada, que ecoaria no poço da desgraça, fazendo subir e descer o som, na cadência de um velho balanço de jardim.

Talvez é uma palavra covarde. Então, direi a você, a única certeza que tenho é que o mundo é o cão deitado, na soleira da porta, que deixa qualquer um passar. O mundo é o cão que permite que um ou outro ultrapasse limites, e dá até licença... Mas, toda manhã virá, enfraquecerá em tarde e morrerá no escuro do olho desse cão. E esse cão morde na hora que quer, no tempo que desejar e, jamais, lhe dará alívio se não for a hora.

Certa disso, essa tal risada é totalmente desnecessária.

Recosto-me na lavanda, sorrio ligeiramente, descanso todas as dores em meu peito e escrevo-lhe, ofício esse acalentador. Tudo está em seu devido lugar. Eu estou. Você está. O dono do poço da desgraça também.

Inclusive o cão.

É mais do que noite. A lavadora ainda bate. A vizinha desligou o aparelho de som. A cortina fechou-se por conta do vento frio e fino...

Deixo-lhe um beijo e o meu muito obrigada por me ler.

Suzana


Por Suzana Guimarães.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A loucura de Deus

​No templo, sorvendo o silêncio, mastigando perguntas sem respostas, triturando o coração em um quase masoquismo...
Respostas dispensáveis. Pensando assim, devagarinho, revendo a história.
No templo, somos nós. Deus é louco! E eu a louca apaixonada por Ele.
Quisera quem usa drogas para conhecer o incognoscível, quem usa a si mesmo para reconhecer-se, quisera um só deles conhecer a loucura de Deus.
Meios dispensáveis. Pensando assim, rapidinho, revendo a mim mesma.
Deus é louco! E eu a louca apaixonada por Ele.​
(Suzana Guimarães)


Fotografia de Elena Kalis.

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sábado, 25 de março de 2017

Para os inabaláveis


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)



Eu gosto dos sentimentais, eu gosto de gente carregada de dores e amores, parecendo quase explodir. Gosto de emoção. E gosto também, e muito, dos inabaláveis, principalmente para comigo. Gosto de gente que se sustenta bem em suas pernas quando eu faço o mundo balançar. Não gosto dos susceptíveis a qualquer vento meu, porque esses meus ventos não são divinos; não sou divina. Nada tem de especial qualquer coisa que eu faça, boa ou má, então não vejo razão no excesso de preciosismos.


Suzana Guimarães

Nota: originalmente publicado em: clica aqui