segunda-feira, 10 de maio de 2010

II - Dezembro de 2005


     Este e-mail, eu não lhe enviarei. Ficará guardado junto aos tantos outros que escrevi, mas que também não os remeti a você. Porque você já não me responde mais, há tempos. Porque você, numa madrugada, me enviou um singelo e-mail, após anos separados, e pediu que eu o aceitasse de volta, que um amigo havia encorajado-o a me procurar, ao ver que você estava com as calças "borradas". Você disse que já havia abusado muito de mim, com os seus eternos sumiços e reaparecimentos, mas queria que eu o entendesse novamente, porque fui sempre (e disse que eu ainda era) mais corajosa que você. Disse ter sonhado comigo. Havíamos nos encontrado por acaso numa praça, e, eu com o mesmo cabelão da época da faculdade, bonita e sorridente. Você, triste. Sobre o que conversamos, você acordou sem se lembrar, mas quis me encontrar de novo.
     Você queria me enviar um e-mail longo, contando as últimas novidades ou a falta delas, já que estava tudo no mesmo. Mas disse que ia esperar um sinal meu. Se não houvesse resposta, era porque eu não queria mais nada com você.
     Pediu meus números de telefones e meu endereço. Enviou-me os seus. Perguntou pelos meus pais, minha irmã e meus gatos; por R e meu filho. Perguntou se eu continuava morando no Gutierrez, perto da pracinha.
     Disse ter me achado de novo através do meu irmão. Que, um dia, você viu a foto e o nome dele no Orkut de um amigo seu e aí pediu meu e-mail a ele. Pediu meu e-mail e eu o aceitei de volta, pois li que "amizade é matéria de salvação"e eu sempre gostei de você e naquela época eu andava com muita gente, mas só. Mas há tempos eu venho lhe escrevendo longas cartas, mil linhas enquanto dirijo pela cidade, enquanto tomo banho e me deito no sofá da sala para apreciar os quadros nas paredes, ou seriam os lustres?, as fotos ou o nada mesmo? E vem você então me assombrar (ou seria encantar meus pensamentos?) e eu queria lhe contar o meu dia-a-dia, meus medos que voltaram, mais brandos, mas voltaram. E que eu ando com o coração pequeno, do tamanho da minha pupila, apertado de medos e meus olhos se molham, mas eu não choro, não me permito. Porque ando vendo o mundo e as coisas do mundo muito grandes, maiores do que posso aguentar. Porque ainda não venci a minha primeira recaída. Escrevo as longas mil linhas porque não posso lhe ver, olhá-lo nos olhos e abrir a cortina da minha vida, mostrar o que tenho de belo e de feio. Escrevo mil linhas já que não posso lhe dizer uma só palavra.
     Ando pensando em fazer uma pira com as trezentas folhas de papel impressas de nossos todos e-mails que trocamos desde aquela madrugada. E não havia falta de tempo para nós. Nós nos comunicávamos como num ritual ou mesmo uma obsessão. Eu esperava por seus e-mails todos os dias e ficava triste quando não vinha nada. Você falou do seu casamento desfeito, da sua nova namorada, dos fuscas que insistia em comprar, reformar e vender incansavelmente. Sua eterna mania! Disse que eu tinha todos os motivos para lhe mandar para o inferno, mas que, no entanto, ainda respondia à mensagem sua depois de tanto tempo. Ah!, você sabia que eu não o procuraria mais, sabia que agora era a sua vez. Você se sentia infeliz porque dizia ter feito tudo errado. Brigou com todos por causa da sua mulher, principalmente comigo. Porém, eu prezo uma antiga amizade, pois traz junto aquela linha que nos une ao todo de nós mesmos e eu o aceitei de volta.
     Eu queria fazer uma fogueira com aqueles papéis. Um dia fomos colegas de carne e osso e eu o admirava, em silêncio, e você a mim com alarde, e você achava que eu era o máximo, a forte, a valente. Aquela que conquistaria quem e o que quisesse. Você via a falsa. Agora, fomos amigos virtuais, pouquíssimo contato e muita verdade, mas você se foi novamente, enclausurou-se no seu silêncio. Sumiu. E esse papéis me incomodam. Ando com eles numa pasta preta, fechada com zíper e não sei onde guardá-los. Quase todo dia, arrumo um lugar novo para deixá-los, mas eu queria queimá-los. Mas penso que posso vir a me arrepender. Posso apagar o que está salvo no computador, mas me falta coragem, me falta energia para descartar você de vez da minha vida, até dos meus guardados. Então escrevo mais cartas. Umas imaginárias, outras reais que jamais serão enviadas.