sábado, 15 de maio de 2010

VI - Julho de 2005

  
     Você me disse que eu havia desistido do meu diploma de uma forma muito fácil. Chegou a me considerar uma dondoca. Vi certo desprezo em seus olhos, algumas vezes. Mesmo que você conscientemente não soubesse. Um olhar desviado dos meus, para o alto, para os lados, para qualquer lugar que não caísse em mim. Quantas vezes você me cobrou o exercício da minha profissão? Quantas vezes você se recusou a parar para pensar que eu poderia não conseguir? Sim, você pôde. Você se formou, fez e venceu. Esteve bem desde nossa formatura. Mas para mim o futuro não aconteceu conforme o planejado e sonhado. Criei uma fantasia e me sustentei nela durante muito tempo. Acho que até hoje sou um engodo, e ninguém viu. Nem você. Nem você que, nos tempos da faculdade, parecia me ver crânio adentro, num arremesso de olhada que eu não podia sustentar. Mas não havia outro jeito. Porque nem sempre podemos, apesar dos desejos.
     Depois que nos formamos, cismei que ia ser promotora de justiça. Um dia, me encontrei com um ex-colega de profissão do meu pai. Ele me aconselhou a fazer concurso para o Ministério Público. Mergulhei de cabeça naquela ideia. Acreditei que poderia conseguir, apesar dos meus “probleminhas” e assim me dediquei de corpo e alma aos estudos. Porém, as dificuldades foram muitas e cada derrota pela qual eu passava significava um abalo forte em minhas estruturas psicológicas que já não eram boas. E você não estava por perto. E você não soube do meu sofrimento. Até então, eu havia passado em tudo em minha vida. Nenhuma reprovação nos tempos do colégio, sequer uma recuperação. Testes de seleção para entrar nos colégios? Passei em todos que fiz. O vestibular foi um só. A faculdade você testemunhou: passei bem em tudo. Enfim, não estava acostumada a perder. Hoje penso que deveria ter tentado concursos mais fáceis. Mas não. Bati na mesma tecla, insistentemente, como se não houvesse outros caminhos. Fiquei cinco anos, dentre altos e baixos, isto é, muito estudo, pouco estudo, envolvida naquilo até me ver vencida por mim mesma. Percebi que o problema era eu. Não havia a mínima possibilidade de sucesso em meio às minhas dificuldades. Então fui pintar porcelanas. Muita gente não entendeu minha mudança de planos, mas para mim era bastante normal. Talvez, sem ter consciência, eu quisesse pôr cor onde só havia branco. O nada. Ou o tudo aprisionado. Passei a vida vendo minha mãe envolvida nas artes. Dos treze aos quinze anos, fiz cursos que ensinavam a trabalhar com argila e telas, por gosto. Mais tarde, no período dos concursos, fiz por três anos curso de pintura em tela com um impressionista mineiro. Após um ano pintando porcelanas, procurei Dr. J pela primeira vez. Foi então que meus “sonhos jurídicos” escorreram pelas minhas mãos. Não havia mais em mim a mínima vontade de ser advogada, promotora de justiça ou qualquer coisa. Eu queria ganhar o mundo. Sorvê-lo todinho. Eu queria comprar coisas e assinar cheques. Eu queria ir a bancos, usar cartões de crédito. Queria me destrinchar, abrir a alma, amar e odiar o mundo e as pessoas e as coisas todas do mundo. Queria me deliciar com minhas imperfeições, sentir gostinho bom de ser eu mesma. Durante um tempo, vivi apenas. Me casei. Você foi ao meu casamento e não se comportou com muita educação, lembra-se? Não cumprimentou o noivo. Antes de Dr. J, eu não me casaria, jamais. Casamento requer ritual, requer cravar assinatura num livro diante do padre, dos padrinhos, dos pais e de mim mesma, o que era pior. Como fazê-lo sem tremer, apavorar, suar, perder a razão, o controle? E fazer sem ser vista. Eu sempre precisei mostrar tudo muito perfeito. E mostrei. Unhas feitas, cabelos soltos ao vento, numa desordem organizada, alinhada. Adequadamente vestida. Adequadamente sorrindo e com batom nos lábios. Eu transpirava segurança e desenvoltura.
     Assisti a uma entrevista de uma médica psiquiatra, este ano, na televisão. Ela dizia de forma bem clara que fóbicos sociais têm medo de gente. Medo de gente. Para mim, um imenso absurdo. Como é que alguém consegue generalizar tanto? Eu nunca tive medo de gente. Sempre gostei do convívio, da amizade, das rodas de amigos. Nunca me importei com estranhos. Isso jamais foi problema para mim. Era, na realidade, minha salvação. Através de meus amigos passados e presentes, eu vivi. Se, quando olho para trás, sorrio de momentos bons e inesquecíveis, é porque eu tive amigos. Aventurei-me em caminhos desconhecidos, atrás da vida. Se eu tive medo de me envolver numa explosiva paixão, isso é outra história, não tendo nada a ver com meu passado fóbico. Acredito que a maioria dos fóbicos não tem medo de gente. O que deve existir é fóbico com fobia de gente. Há fobias para todos os gostos. Acredito que aquela minha imagem de forte era um reflexo verdadeiro do meu interior. Medos e  inseguranças era poeira que eu enfiava rápido por debaixo dos tapetes.
     Após o casamento, tentei engravidar e vender objetos de arte, o que foi em vão, mas vivi com certeza três anos de deslumbramento. Até que percebi que era hora de tentar as coisas do Direito novamente. Matriculei-me num curso preparatório para concursos. Sabia que precisava de tempo, pois estava bastante desatualizada e assim fui para lá com a intenção de ficar até passar. Ia às aulas e estudava em casa todos os dias, por dois semestres. No final de maio de 1999, engravidei. Resolvi fazer mais seis meses de curso e comecei a me inscrever para os concursos que apareciam. Contudo, parei no primeiro trimestre, no quinto mês de gravidez, porque vieram os problemas com as tentativas de retirada do Rivotril. Você sabe, não se pode tomar remédios durante os primeiros três meses. É uma precaução. Quantas crianças nascem defeituosas mesmo que a mãe não tenha ingerido nem uma aspirina? Muitas. Mas se você os toma e a criança nasce com problemas, não há perdão. Você não pode saber o quanto foi difícil. Não consegui retirá-lo de uma só vez. Delirei. Vi macaquinhos com rabo e tudo atravessando uma rua. Três juntos, de mãos dadas. E eram só crianças. Meu estado não era bom. Dr.J, R e eu tivemos medo de que eu perdesse o bebê. Voltei, grávida, a tomar Rivotril, e, até o final da gestação, tive que ir reduzindo a medicação aos poucos, para que o bebê não sofresse abstinência ao nascer. A cada redução de miligrama, eu sofria tremores, calafrios, uma sensação de que venenos corriam pelas minhas veias. A garganta ardia, numa necessidade de algo e meu peito queimava em ânsia. Eu sentia um incômodo constante. Uma agitação paralisante; estava em todos os lugares e em nenhum. Lugar algum era suficientemente bom para eu ficar. Nenhuma conversa era o bastante para distrair minha atenção para fora dos meus limites: meu corpo e minha mente. Fiquei recolhida dentro do meu corpo, presa, desorientada. Não vivi a paz de uma gravidez desejada. Eu só me sentia bem quando estava dentro d’água, nadando ou boiando, sentindo o sol em mim; ou quando conseguia dormir. No final, não andei pelas ruas. O chão parecia de nuvens e eu deslizava em total desequilíbrio. Me tranquei em casa.  Faltando setenta e duas horas para o parto, retirei tudo. Fiquei limpa. Zerada. Recebi parabéns na sala de parto. LR nasceu e eu fiquei com ele os dias inteiros. Não tínhamos empregada. Minha mãe ficou em minha casa até o décimo terceiro dia de vida do neto. Depois se foi. Ela e minha irmã tinham a vida delas e apareciam só de vez em quando. E quando apareciam, eu corria de um lado para outro, fervendo água para o banho, fazendo chás, colocando roupas na lavadoura e a louça suja na máquina de lavar. E elas ficavam com LR no colo, pedindo coisas a cada dois minutos. Não havia tempo nem para eu pentear meus cabelos. Quando elas chegavam, parecia que eu me incumbia de mais obrigações ainda. Elas surgiam quando sentiam vontade. E do mesmo jeito que apareciam, sumiam. Estando sozinha com meu filho, eu lavava panelas na pia da cozinha, empurrando com um pé o carrinho dele. Pendurava roupas no varal com ele pendurado no meu pescoço. Não sei como ele não caía! LR chorou sem parar até o quarto mês de vida. E eu chorei junto. Quando R chegava em casa à noite, eu colocava o bebê em seus braços, assim que ele abria a porta da sala. Entrava no banheiro, fechava a porta com chave. Ligava o chuveiro e me sentava num banquinho de plástico que já ficava dentro do boxe. Chorava com dor na alma. Eu queria tanto a maternidade, mas ela estava sendo maior que eu, bem mais que eu podia aguentar. Hoje penso que ser mãe não foi o problema. A grande dificuldade foi conciliar um bebê de treze dias com as obrigações domésticas. LR berrou até o dia em que decidi que não precisava de ninguém, apenas de R, e então começamos a viajar. Com as viagens, meu menino que já estava com cinco meses, mudou muito. Tornou-se mais calmo. E nós também. Até então, eu achava que deveria ter a permissão da minha família para tudo que dissesse respeito a ele, até mesmo se poderia viajar ou não. Se era viável ou não. Alcancei a liberdade quando passei a fazer as coisas do meu jeito. Deixei de ser permissiva. Creio que era tudo resquício da época longa da minha vida em que eu precisava da anuência dos que eu amava para tudo que fizesse, até quase o simples respirar. Talvez, quem sabe, o meu respirar fosse longo demais, ou curto demais, quem sabe... Você vai dizer “que exagero”, mas é verdade, chegou um momento, um momento negro da minha vida em que eu não queria desagradar nunca. Eu tinha coisas a esconder, não queria passar por certos tipos de exposição e precisava não fazer feio. Eu precisava ser uma paisagem perfeita.
     Antes do início dos passeios, quando LR completou dois meses, consegui me acertar com uma moça, diarista, que ia à minha casa duas vezes por semana. Um dia, eu estava almoçando e conversando com ela, na cozinha da minha casa, enquanto ela lavava panelas. LR estava deitado no carrinho dele, perto de mim. Por um momento, me esqueci dele e desabafei toda a tristeza que vinha presa no meu peito. Eu quis chorar, mas não consegui. Minha empregada ouviu calada. Quando acabei, empurrei o carrinho até o quarto dele. Me sentei no sofá e olhei para ele. Eu sempre tive dificuldade para chorar. Paisagens belas são aquelas que não desagradam. E choro desagrada na maioria das vezes. Vivi o hábito, que ainda está um pouco enraizado em mim, de manter uma massa, um punhado de angu quente preso na garganta. Chega a doer. Uma camada forte de pressão que agarra e por mais que eu queira, não consigo expelí-la. Seria o ridículo daquela pessoa que engasga e bloqueia o engasgo, e o angu ou aquilo que provocou o mal estar fica lá, parado, incomodando, para não incomodar. Mas então eu me deparei com os olhos de LR. O olhar de LR. Ele tinha dois meses de vida e me olhou com o olhar de amor que eu nunca havia visto. Ninguém nunca havia me olhado daquela forma. Nunca esquecerei o choque que levei. O susto do amor. Olhos tão pequeninos que diziam me amar. Eu vi. Eu não criei aquele olhar para consolo meu. Não fantasiei. Nunca mais ninguém me olhou daquela forma, nem ele próprio. É claro que pelos caminhos da minha vida vi olhares de amor. Olhos que se fixaram em mim, e neles havia amor, mas vinham outros elementos também, juntos com o sublime sentimento. Vi olhos de amor com desejo. Vi olhos de amor com paciência, com dor. Vi olhos de amor com curiosidade, com dúvidas. E eu chorei ao levar o susto. Saiu o engasgo, o angu quente, a dor de dentro do meu peito. Chorei copiosamente.
     Quando LR fez um ano, eu já tinha pleno controle da minha vida, mas decidi colocá-lo numa escola somente quando ele completasse dois. Voltei à minha medicação anterior, no décimo mês de vida dele, porque eu sabia que meu caminho era longo. Eu não me sentia plenamente curada, e, mesmo que desse para viver com o que já havia conquistado, eu queria qualidade de vida. Nunca quis um semi-tratamento. Pelas metades, eu havia vivido muito. Assim, não estudei e nem trabalhei por dois anos. Foi nessa época que surgiu a possibilidade de vender porcelanas numa loja, mas apenas minha mãe pintava e eu então passei a frequentar cursos de pintura na louça. Pensei que seria uma boa oportunidade de ganhar dinheiro e comecei a trabalhar com ela. Trabalhei também como voluntária num Juizado Especial. Você apareceu nessa época e me criticou porque eu trabalhava de graça. Não me importei com a sua crítica. Lá, eu ia duas vezes por semana. Quando completou um ano, saí. Foi gratificante trabalhar no Juizado, conheci ótimos profissionais, fiz amizades. Pude ajudar pessoas carentes e perdidas. Realizei um sonho antigo de cidadania. Saí porque não surgiu nenhuma oportunidade de trabalho remunerado e não é mesmo fácil ser cidadã sem dinheiro.        
     Você, certa vez, me disse que eu deveria ter posto meu filho num berçário, mas eu fiz o que realmente era o melhor para mim. Em meio às minhas frustrações, LR chegou e me resgatou das tristezas, da minha constante sensação de inutilidade.