segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

VERMELHO ESCARLATE

(desconheço autoria da imagem)


Era uma tarde como outra qualquer, quando vi o já esperado sangue sujando a minha calcinha. Mais dois meses, e eu completaria 12 anos. Lembro-me do banheiro da casa velha, do momento, da cor do dia e eu comunicando o fato à minha mãe. Ela ficou triste, muito cedo, oh, cedo demais! Para mim, algo normal, aguardado.

Tudo estava bem até que o sangue passou a ser cachoeira, rio caudaloso, uma sangria desandada. Dores insuportáveis que me faziam sentar no meio-fio da calçada e ranger os dentes de dor. Fazer xixi no banheiro da escola? A crueldade de vivenciar algo maior que eu, jatos de sangue desciam pelas pernas, sujavam o banheiro. Eu poderia sujar qualquer lugar onde me sentasse. Muitas vezes, era preciso usar dois absorventes. Tempo da vergonha. A solução foi ir para a escola com a blusa de frio amarrada na cintura. Um dia, uma colega falou que eu estava 'dando bandeira', aquilo durava de três a cinco dias e todos então sabiam que eu estava em meus dias vermelhos. Passei a usar a blusa amarrada à cintura o mês inteiro. Regulador Xavier número 1 ou 2, um dos dois, de nada valia.

Hoje, sou mulher feita. Os anticoncepcionais diminuíram as dores e os fluxos. Passei a dispensar o que os outros poderiam pensar. Sangrar todo mês não é nenhuma maravilha, mas é feminino, é ser fêmea, é ser mulher, é a frustração do corpo, mas também a glória de poder fazer um ser dentro de si. Sinto prazer ao dizer para um homem que estou menstruada, que estou com cólicas, que hoje não será possível, meu bem, e ver na cara dele, estampado respeito. Sinto-me poderosa por saber quando estou ovulando, e, por isso, ter feito um menino e uma menina. Sinto-me bem quando o desejo de sexo me assalta nos dias que antecedem à menstruação, tenho sonhos eróticos, tenho vontades. Faço parte também do pequeno grupo de mulheres que sente desejo sexual quando a frustração não acontece e o óvulo é fecundado. Penso e quero sexo dia e noite. Os hormônios gritam, berram, atacam meus sonhos. Tenho delírios... e eu já engravidei quatro vezes e por quatro vezes, a tara reinou absoluta, dona de mim. 

Antes e durante, o vermelho escarlate faz doer. Os seios incham, os bicos deles ficam mais sensíveis. A barriga avoluma-se. Tenho ânsias de comer chocolate, tenho ânsias de comer o mundo e de mastigar e triturar os chatos e atrevidos. Tenho ira. Tenho irritabilidade sem causa.

Às vezes, não. Às vezes, mal percebo o desfecho do ciclo. É tudo muito instável para poder ser explicado, são as fases da Lua, são as engrenagens que perpetuam a espécie humana. É instável e bagunça os calendários. Chega quando quer na idade da ainda menina, acaba aos 'trancos e barrancos' ou não; faz algumas mulheres ficarem mais valentes e outras mais chatas... dá causa a algo surpreendente, une as mulheres, faz de todas elas, cúmplices.

O corpo da mulher é o templo de Deus. Os homens deveriam proteger esse lugar sagrado, de onde saíram todos eles.


Por Suzana Guimarães


Nota: texto anteriormente publicado em 6 de março de 2013, na Oficina Casulo.