sábado, 21 de dezembro de 2013

CARTAS DE DEZEMBRO - a quarta

Suzana Guimarães - arquivo pessoal


Long Beach, 20 de dezembro de 2013. 



Querida S.,

Escrevo-lhe para contar das minhas saudades, pois, hoje, um passado muito antigo e guardado pegou-me de assalto, logo cedo, enquanto eu dirigia em direção às escolas dos meus filhos. Lembrei-me de algum Natal ou todos eles, de uma só vez, que passamos  na casa da vó. Talvez, porque chovia, porque eu jamais tenha esquecido de verdade aquela época, talvez porque senti um cheiro especial, daqueles tempos, algo que fez saltar da minha memória a cozinha, os afazeres em torno do fogão, um entra e sai naquela casa... cheiro de assados, doces caramelados, eu não sei.

Fiz então uma viagem rápida, para trás, imperceptível, pude ver a avenida, em frente ao supermercado Cruzeiro, alagada, os carros passando, a gente indo comprar alguma coisa a pedido da vó. Hoje, era manhã; em minha lembrança, um início de noite. Um lapso. Um cometa rasgando o céu, a rapidez do piscar de olhos. Éramos nós. 

Éramos você e eu, a cidade que se perdeu - ou nós a abandonamos, os tios e tias, os laços que não se rompiam... tudo girando em torno daquela senhora baixinha de cabelo cinza... eu só fui feliz naqueles dezembros e nunca mais. Os demais foram forçosos, cansativos, uma ladainha sem fim de lamentos, a televisão programando a nossa alegria, ninguém mais querendo esperar a meia-noite.

De tanto desgostar de todos os Natais que se seguiram, de tanto desejar fugir, eu fugi, me escondi aqui, bem longe, ao lado do Pacífico, mesmo sabendo que da nossa história, não escapamos. Não me arrependo de nada. Sou feliz. Assimilo dia a dia uma outra cultura. Cuido do meu pequeno mundo, lotado de minhas ideias e devaneios. Parei inclusive de olhar para trás, com aquela insistência que eu tinha, fixei meu olhar para o amanhã. Porém, não ultrapasso esse amanhã. A gente economiza dinheiro, deixa nossos últimos desejos por escrito, e isso é pensar para frente, mas, no meu caso, só vou até aí. Agrada-me olhar para os céus, principalmente nos dias cinzas, e imaginar os lírios crescendo sozinhos...

Há um arrastar de malas de rodinhas pelos corredores do prédio onde moro e nas calçadas, nos elevadores... Frenesi no ar! Em mim, meu luto, que ainda dói. A família vai lentamente dissolvendo-se... virão outras, mas nunca mais aquela, que a vó manteve unida. 

Lembro-me de nossos pais, sempre próximos nas festas, lembro-me de nossas viagens, dois carros, uma casa alugada, quinze dias em Iriri... meu pai tão falante e agitado, o seu, calmo, pacífico, dos meus tios, o que eu mais gostei, o melhor deles e pensar que era um tio 'torto'... Uma dupla que deu certo, os dois. E, vejo, hoje, outra: nós duas. 

Saudades, saudades, saudades. Nossas idas ao cinema, nossos filmes preferidos, nossos papos, as viagens, tudo, tudo, coisa boa e ruim, tudo embolado dentro de mim. Um correr de anos, Natais, finais de semana, nossos desencontros, nossas eternas tentativas eficazes de reaproximação, de entendimento...

Há uma cena que insiste em mim: na casa dos meus pais, nós, sentados à mesa da sala de jantar, meu pai tão velhinho, calado, apenas nos olhando, nada mais dizendo (isso doía, ele nada mais falava, como maltratava aquele silêncio!) e você, carinhosamente, catando os fios de cabelo, brancos como neve, do casaco de frio dele. Fotografei para sempre, guardei para mim. Eu nunca disse nada, digo agora. Eu queria tanto lhe dizer isso, digo em carta, pois, pessoalmente, jamais direi. Eu não sabia que você gostava tanto dele...

Já é noite. Deixei essa carta inacabada na tela do computador. Parou de chover faz tempo. Não escuto mais os sons de fora, todos já se recolheram em seus apartamentos. A Califórnia também sabe se fazer invernal. Gosto desse tempo para dentro, reflexivo, menos alvoroço, praias desertas, um frio a silenciar nossas dores e também nossos sonhos. Como se tudo hibernasse. 

Farei uma feijoada no dia 25. Não haverá convidados. Poderia ser você, a nossa, vindo da forma que eu lhe disse, outro dia, carregando apenas a bolsa de mão, sorridente, leve e livre, que fosse por três dias, que fosse por dez... mas, fosse. Temos uma longa praia para caminharmos, toda ela para rirmos de engasgar, temos este mosaico humano que é a minha cidade para contemplarmos. 

Você diz que é utopia, eu digo que é amanhã.

Um abraço apertado,

Suzana


Por Suzana Guimarães