quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CARTA A MEU PAI

   

(fotografia de SCG - arquivo pessoal)


                                                             Los Angeles, 13 de outubro de 2011.


                                                            
                                                             Pai,


Estamos na primavera, mas o calor ainda é de verão, neste deserto à beira-mar. Se você estivesse aqui, provavelmente, já teria feito tuas malas e ido embora, com aquele teu jeito decidido de resolver as coisas, de uma vez só! Se você estivesse aqui, mas você nunca estará e posso sim, com certeza, usar a palavra nunca. Você que nem sabe mais quem sou eu. Que sequer irá ler esta carta. Talvez, mãe a leia para você, talvez, não.

Eu me despedi de você, viu? Você estava dormindo, era madrugada. Eu lhe dei um beijo na testa e lhe disse em pensamento que todas, sem excetuar uma, todas as mágoas do passado, eu deixei para lá. Para lá, um canto qualquer, um lugar qualquer. Tua alma me ouviu, pois foi sincero e forte, foi de alma para alma.

O tempo cuidou de tudo. A vida. Agora, distantes, vejo-o melhor. Vejo que você foi o pai que pôde ser, que conseguiu ser e não o idealizado por mim, se é que eu algum dia idealizei algum. No fundo, por ser parecida com você, eu dei o meu jeito e me virei com o que tinha. Além de ter me colocado no mundo, cuidado de mim e salvado a minha vida, assim que nasci, você me deixou legados inestimáveis.

O que era no passado, azedume, temperamento irascível, difícil, hoje, para mim é uma forma de conduzir a vida. O que para mim foi desatenção, predileção por outro, frieza, indiferença é para mim alicerce, é tudo o que eu precisava para seguir em frente. Doeu, machucou, fez cicatriz nos cantos da alma, mas me empurrou ladeira abaixo, para me fazer subir sozinha, acreditando em mim mesma, nos meus próprios valores, principalmente, na força de caráter, na independência emocional, essa, acima de tudo.

Sou tua criatura. Vejo-me repetindo tuas frases e pouco me importa se doem ou incomodam. Algumas são otimistas. R. também as repete. Outro dia, com o corpo enfiado quase que pela metade por baixo da pia da cozinha, suando, cansado, louco para ter uma crise histérica diante daquilo que transbordava água suja, ele respirou, parou, respirou de novo, olhou para mim e disse que pelo menos havia perdido 200 gramas, 'como diria teu pai'...

Lembro-me de você quando estou na academia, fico rindo sozinha, lembrando-me de tuas palavras 'eu não pago para me cansar e sentir dor'. No supermercado, evito olhar para a prateleira da padaria, com suas pilhas de bolo caseiro, de laranja, coco, limão... evito vê-los lá, idênticos aos que você, por toda a tua vida, comprou.

Você me corrigia, queria que eu sempre falasse e escrevesse corretamente, 'mim não faz nada'. Ensinou-me a apreciar um dicionário, a ler livros grossos, a ter postura diante de uma autoridade e diante do mais pobre dos pobres. O poder e a autoridade que você tinha por conta de tua profissão não o fizeram melhor ou pior que ninguém. Se teu gênio era péssimo, amargo, tua justiça, teus atos para com aqueles que não tinham a quem recorrer eram magnânimos. Eu o vi pagando e carregando caixão de criança pobre, doando comida, roupas, mandando muita gente de topete calar a boca e lhe obedecer.

Eu vi você dando uns tiros para o alto, mandando correr, e vi também tua paciência com gente velha e doente. Você nunca teve paciência, mas teve determinação e sabia o que queria e o que não queria. Sou tua criatura... por causa da tua genética, sou capaz de passar um dia inteiro diante de uma carta, sem abri-la; sou capaz de morrer de vontade, mas passarei um dia todo, e todo o resto da vida, se preciso for, aguando diante de uma panela de brigadeiro, bem quente, feito na hora, se eu não puder comê-lo.

Sou assim feito você, exagerada, com os nervos esticados, sou ansiolítica. Mas, sei me deitar pra ver as copas das árvores balançando seus galhos, sou capaz de jogar conversa fora por horas, sou contadora de casos. Herdei tua magreza (hoje, nem tão magra assim), teu nariz de quem não aceita imposição alheia, o cabelo anelado, o gosto pelo mundo jurídico, por doce de leite, por livros, por relógios carrilhão.

Você já não sabe mais se sou a moça que tem dois filhos, a visita, se sou a irmã de mãe, se sou aquela que esteve aí, mas já se foi. E mãe insiste em nos apresentar, e eu vejo que você procura ser educado, dá um pequeno sorriso e diz que sabe sim quem sou, mas teus olhos negam, distraídos.

Eu sou tua filha, mesmo que você não saiba mais, isso não importa. Importa sou eu saber quem você é.



                                                                 Com carinho,


                     Suzana, o nome que você escolheu.




           (Um texto de Suzana Guimarães)