sábado, 12 de junho de 2010

XVII - Novembro de 2005

“Fico pensando em você. Será que você perdeu mesmo os melhores anos da sua vida, ou melhor, os anos em que a gente faz as maiores escolhas que vão se refletir mais tarde em nossas vidas? Você é inteligente e perspicaz, pega as coisas no ar, adivinha o pensamento das pessoas. E diz na lata como são as coisas. E acerta. Você era uma das melhores, principalmente em Direito Penal. O que você poderia ter feito se não fosse esta doença?"


     Eu lhe respondi? Acho que não. Relendo nossa correspondência, encontrei este e-mail. Deixei de responder a certas perguntas porque não sabia o tanto que você pretendia me entender. Quando você abre uma janela, fecha uma porta. Quando abre uma porta, fecha a casa toda.
     Você já ouviu falar em ferida pessoal, aquela que ninguém vê, mas que sangra por dentro? Eu já me fiz a sua pergunta milhares de vezes. Sabe a Boceta de Pandora? A doença foi a própria. Foi a origem de todos os males. E, acrescento, todas as bondades também, porque eu realmente não sei o que foi bom, o que foi mau, o que poderia ter sido ou não, quem eu poderia ter sido, quem eu poderia ter escolhido para marido ou para amigo, quem eu perdi, quem ganhei, o que paguei, se é que paguei, o que deixei de ganhar, o que ganhei em troca, o que poderia ter sido eu.