quarta-feira, 2 de junho de 2010

XV - Novembro de 2004

    
     Você ainda entenderá que as coisas da vida não são bem do jeito que as pessoas dizem que são: basta querer e fazer, e que querer é poder. Pois eu ando agoniada. Meu rosto voltou a queimar de calor e tenho ânsias de me esconder debaixo dos lençóis e sumir para o mundo e as coisas do mundo. Acordo todas as manhãs com os joelhos na boca. Meu estômago dói.
     Dr.J não me enganou. Nunca me disse que eu me curaria para sempre. Por eu ter guardado a doença por treze anos e ela ter começado tão cedo, certamente dificuldades haveria. Eu tinha três chances: cura total (o que seria um pouco improvável), cura parcial (dosagem mínima de remédios) ou nenhuma melhora.
     Agora, hoje, descobri que caí no segundo caso. Sabe o que é isso? Um retrocesso e você não está nem sabendo. No mínimo, me imagina pulando tranquilamente da nuvem rosa para a azul, no meu mundo que para você é todo perfeito. O céu.
     Eu queria que você soubesse que pessoas com problemas de saúde mental muitas vezes não conseguem e não é porque não querem. Simplesmente não conseguem. Podem até conseguir realizar algumas tarefas, mas à custa de muito sacrifício. Eu me sentia torturada, cansada. No final, após cumprir tarefa, estava exausta, pois o esforço havia sido imenso, intenso e, muitas vezes, infrutífero. Esforço que não compensava!      
     Você então se esconde, não se revela de modo algum. É quando surge o processo de evitação. Evita-se para não viver aquilo novamente; para não correr o risco de ser descoberto; para não sentir o sentimento de impotência que sempre assola.
     Como é que alguém pode ter medo de ter medo? Eu tive. Como é que uma pessoa tão normal poderia ter "aquilo"? Só que eu não fui a única. Não fui amaldiçoada ao nascer. A fada má não bateu a varinha em mim e disse "só você passará por este mal e ninguém mais" e baixou a maldição. É comum, acontece por aí o tempo todo, só eu não sabia.
     Os piores sentimentos são aqueles que ninguém pode ver. Os piores males são aqueles que ninguém quer ver.
     Paguei caro pelo meu silêncio, mas eu só tinha dezessete anos quando tudo começou, e não começou de uma vez só. Será que os meus pais iam entender tanta fragilidade? Será que o pessoal da escola ia entender? E os pretendentes namorados que ora apareciam, ora desapareciam? Eu nem sabia lidar com eles, tinha os receios normais de uma menina. Sexo? nem pensar! Minhas colegas, algumas, já faziam sexo, tão tranquilamente, tão simplesmente!... Um dia, uma colega de quinze anos chegou na escola. Estávamos no primeiro ano científico, no Colégio Santo Agostinho. Sentou-se no banco que havia em frente à sala, onde sempre estávamos, esperando o professor chegar, e disse bem alto para todos nós, um grupo de seis ou oito, dentre meninas e meninos, "gente, putei!". E nós, muito sem graça perguntamos "foi bom? gostou?". E ela feliz e satisfeita nos disse: "Não, mas dei e foi bom porque ele queria, disse que agora será outro homem, deixará a barba crescer." E eu pergunto se, naquela época, poderia contar minhas pobres fraquezas... eu que fiquei chocada com o "putei", que até hoje, vinte e tantos anos depois, lembro-me da cena e do sentimento sem palavras que se apoderou de mim e transparecia no rosto dos meninos, aqueles tontos meninos de quinze anos, que com certeza nem na boca haviam beijado. Eu também não havia beijado na boca e a outra havia “putado” e estava enormemente feliz. Naquela época, eu sofria de timidez. Nada demais. Mas a doença já me espiava, ou melhor, surgia lentamente, deslizando pelas minhas veias, passeando pelas vísceras, acomodando-se feito um gato nas minhas engrenagens internas. Silenciosamente.