segunda-feira, 21 de junho de 2010

XIX - Agosto de 2004

    

     Em 1991, três anos após a nossa formatura, um colega de musculação, ex-usuário de drogas, disse-me maravilhas do médico psiquiatra dele. Ele tratava com homeopatia, e, como eu havia, anos atrás, me curado de amigdalite crônica com remédios homeopatas, acreditei que teria a solução para o meu "problema".
     Problema sem nome, que eu não sabia nem como explicar, e também não conseguia, por vergonha. O psiquiatra, que ele indicou, me viu pouco. Dr. A. conversava comigo de forma lenta. Perguntava muito pouco e eu não conseguia enxergá-lo bem, pois, ele ficava de costas para uma enorme janela aberta, de onde vinha toda a claridade dos céus de Belo Horizonte.
     Aquela claridade incomodava-me e eu nunca reclamava. O que importava para mim era escolher as palavras certas a fim de expor meu problema. Palavras certas? Eu as perdia ou as ocultava. Confusão mental e muita luz na cara! Nada que me facilitasse.
     Lembro-me ter dito ser muito ansiosa, mas não falei da tortura do confronto, dos tremores, do medo. Ele receitou Bryophyllum calycinum D2 (argento cultum) e uns glóbulos brancos para o momento mais intenso de ansiedade. Eu tomava a medicação e aquilo não fazia nem cócegas em mim. Sei que o remédio é muito bom. É um ansiolítico. Sei de pessoas que fazem uso constante dele e se sentem bem, mais calmas, mais ponderadas. Mas para mim aquilo fazia o efeito de água com açúcar. Dr. A., que me lembrava um padre, com suas perguntas leves, agia como se eu tivesse sofrido um ataque histérico minutos antes e estava a enxugar a baba, após eu ser controlada por ele. Ele falava procurando as palavras, medindo-as, pensando nelas. Hoje, penso que nem ele tinha certeza do que dizia. Eu não me abria, mas ele também não ajudava. Não contei os fatos com a intensidade com que ocorriam, não pus força, certeza na minha fala. Eu parecia mais uma tonta disposta a pagar consultas particulares a um médico um tanto quanto distante, evasivo, e esse, parecia me ver como alguém que inventava problemas.
     Naquela época, R. e eu estávamos separados. Eu me sentia infeliz e não queria dividir nada com ele. Terminei o namoro no final de 1990 e tentava encontrar alguém interessante. Conheci o tal colega numa academia de ginástica. Ele me dizia estar se curando, falava de progressos, por isso, eu procurei Dr. A.. Um dia, porém, me enchi daquilo, do médico e do meu colega. Eu nunca me encontrava com ele, com o musculoso. As minhas consultas eram marcadas sempre no mesmo dia e em horário próximo ao dele, mas ele tinha o dom de, no dia, cair da escada, arrancar dente e dar hemorragia ou perder a hora. A gente nunca se via, para depois das consultas, eu planejava sempre, ir ao cinema, tomar uns chopes. Foi pura sorte minha, mais tarde descobri que ele era homossexual.
     Em outubro de 1995, tirei um jornal de 1992 da gaveta. Estava amarelado pelo tempo. Eu havia lido o livro do Gugu Keller, Síndrome do Pânico. Não me lembro bem onde li comentários a respeito do livro, mas fui ávida atrás de um exemplar para mim. Nesse dia, eu desconfiei que talvez o que eu tivesse fosse doença também; quem sabe, prima distante? Só sei que fiquei empolgada, pois, pela primeira vez na minha vida estava lendo a história de alguém que viveu o pavor do medo, que evitava situações, que procurava respostas. Encontrei um par! Um igual a mim, ou pelo menos, bem semelhante. Alguém que descrevia em minúcias e com total sinceridade - de cara limpa - os horrores de ter medo, pavor de coisas "irreais". Ele foi a mão que me empurrou para o consultório do Dr. J.. Li o livro de uma vez só, numa sentada só. Abri minhas gavetas e procurei o jornal velho, guardado sem muita finalidade. Vi a foto do médico e o esclarecimento dele a cerca de várias doenças da ansiedade e também da depressão. Não havia nada sobre medo de escrever ou assinar em público, mas eu desconfiei que havia chegado a hora.
     Fui então, atrás das minhas próprias verdades. Conheci um verdadeiro psiquiatra. O outro, quis ser padre e foi ser médico. Dr.J. falou e me deixou falar. Caminhamos juntos ao encontro do diagnóstico. Eu o ajudei e ele me ajudou. Havia sintonia em nossa conversa. Ele fechou a questão na primeira consulta, naquele dia de sol. Senti o vento da esperança. Eu não era mais só. Aquele senhor de idade, sentado em seu sofá de couro, à minha frente, passou toda a confiança que eu precisava, me mostrou que eu era doente. Apenas isso. E não mais uma mocinha nervosa, filhinha de papai. Eu acreditei nele, porque a verdade e a sabedoria brotavam dele, como água que brota da fonte. Só que, depois do primeiro ano de tratamento, pensei que, apesar de ter acertado em cheio comigo, Dr.J. não servia para mim, que ele era muito chato, muito bravo e muito sistemático. Bebê ainda, achava ser eu a super-mulher adulta, aquela que fazia e acontecia e que outros psiquiatras menos chatos fariam o mesmo que ele. Fui embora sem dar satisfação.
     Consultei-me uma única vez com um psiquiatra do meu convênio e ele, a cada dez minutos, levantava-se da cadeira, ia até à porta do consultório, abri-a, dava uma olhada rápida, voltava e dizia: “Pode continuar”. Terminou a consulta perguntando qual era o remédio que eu tomava, e, se eu queria receitas. Ao sair, vi que a sala de espera estava lotada. Nunca mais voltei.
     Quando a medicação acabou fui a um outro psiquiatra, indicado pelo meu dentista, que era também meu amigo. Aleguei a ele, ao dentista, uma constante ansiedade que atrapalhava a minha vida. Até então, eu não assumia nem a doença e nem os remédios. O psiquiatra interrompia minha fala para, às 7 da manhã, atender a esposa aflita ao telefone, porque a babá do terceiro filho ainda não havia chegado. Esse me disse que eu gostava de ser doente. Que eu criara a doença para poder usufruir o dinheiro do meu pai de forma tranquila. Bom, eu não gostei do que ouvi e então respondi que eu não fazia diferente dele. Que meu pai podia me ajudar e eu aceitava tal qual ele, que teve a Pós-Graduação em Medicina, nos Estados Unidos, toda paga pelo pai, que também podia ajudar a prole. Informação preciosa que eu tinha, heim? O doutor engoliu sequinho.
     Voltei correndo para Dr.J., para o consultório dele, onde eu sempre pude sentir paz e segurança. Onde cada peça da decoração tem uma história e está sempre lá, no mesmo lugar. Voltei para onde se pode ouvir o silêncio, mesmo sendo numa rua movimentada. Voltei para a “sala do choro”, onde um sofá de couro está estrategicamente posicionado em direção ao sofá dele. Onde há uma cortina que deixa passar a luminosidade suficiente. Depois de tudo conversado, caminha-se para o escritório. Atravessa-se um pequeno corredor com seu relógio cuco na parede, e lá, nesta outra sala, eu posso me deliciar olhando livros arrumados em estantes, pequenos objetos presenteados por pacientes, fotografias emolduradas nas paredes, a cortina semiaberta, os estofados de tecido xadrez e a mesa toda arrumada, com um abajur sempre aceso, onde ele prescreve a medicação. Essa é a sala da conversa mais solta, relaxada, onde fala-se de tudo, enquanto se espera a secretária que buscará as devidas anotações e depois voltará com as receitas digitadas. E eu rezo para que ela receba mil telefonemas, para que se atrase, assim podendo aumentar meu tempo naquele lugar que me recebe como a criatura mais importante do mundo. Um ovo. Um ninho.
     Voltei correndo, mas de rabo baixo, morta de vergonha. A chata, era eu. A preciosista, era eu. Fui recebida da mesma forma solene, porém atenciosa, afetuosa, como se eu nunca tivesse partido. Lá fiquei por muitos anos, comparecendo, de três em três meses para a consulta de controle. E, sempre que necessário, volto. Aquele mal, eu curei, mas uma vez descido a ladeira, pode-se voltar a descer.
     Hoje, está tudo sob controle, e zelarei por isso. Não mais hesito em questionar, esmiuçar, escarafunchar os sintomas químicos, físicos e psíquicos do meu corpo. Aprendi que posso controlá-lo, mesmo que com ajuda de medicamentos, mas, os remédios sozinhos não podem tudo. Não podem me fazer sair de casa, encarar o mundo com todos os seus medos e pavores. Eu tenho que dar o primeiro passo.