![]() |
sábado, 18 de julho de 2015
que não se explica...
Foi assim que eu fui perdendo a minha identidade, morrendo toda noite e nascendo a cada manhã. Questiono se realmente é algo proveitoso termos alguma identidade, algo implicitamente desejado ou incutido como certo. É triste perder tudo e parecer de outro mundo - de tão inadequada -, mas é mais pleno, com certeza. Pertencer a nada e não possuir ninguém, muito menos ser possuída... parece-me que isso é cumprir o papel, um retorno ao início. Quando chegamos, de nada sabemos e vencemos esse momento e todos os outros posteriores. É a velha história, ou melhor, fato, coisa real: ser como tudo o que brota nos campos, alheio. Livre. Incomoda esse não pertencer, faz doer, mas retira toda e qualquer prisão.
Suzana Guimarães
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Eu quero falar um pouco sobre o meu país.
Meu filho está fazendo tratamento para acne. Aquele demorado, de seis meses. Para receber a próxima remessa de remédios, ele teve que fazer exame de sangue aqui e terá que enviar para o seu médico, nos EUA. É assim, acredito, no mundo inteiro. O pedido dele vem em painéis. A biomédica do Laboratório Hermes Pardini, via telefone e e-mail, destrinchou o pedido para mim porque cada laboratório tem a sua forma de realizar os exames. Ela os separou para fora dos painéis, traduziu e enviou os preços - são dezoito exames. Hoje, fomos ao laboratório. Gostei muito do atendimento, gostei demais! Um dos exames exige, aqui, no Brasil, que o paciente fique deitado por quinze minutos para repousar o corpo - algo que não acontece lá. Perguntaram-me se eu queria que tudo fosse traduzido. Hesitei por conta do preço, pensei em algo exorbitante, pois eu estava pagando tudo de forma particular. Podem acreditar? Dez reais. O preço. Dez reais. Ainda ofereceram a mim, que era apenas acompanhante, alguma bebida e pães de queijo. Nota 1.000 para este povo brasileiro que é bem maior que uma pequena parcela - nossos próprios irmãos - que nos roubam constantemente!
Julho, 17
quarta-feira, 15 de julho de 2015
ausência
a casa é a mesma
detalhes, não.
copos, talheres e edredons trocados. Algumas reformas pequenas. Espaços a mais.
sobre a mesa, jogo completo
onde falta uma carta
poderia não ser demais
Mas é pôquer sobre a madeira encerada. E é para nunca mais.
detalhes, não.
copos, talheres e edredons trocados. Algumas reformas pequenas. Espaços a mais.
sobre a mesa, jogo completo
onde falta uma carta
poderia não ser demais
Mas é pôquer sobre a madeira encerada. E é para nunca mais.
(Suzana Guimarães)
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Sobre o Brasil, por mim
A terra é úmida e verde. As mulheres, vaidosas. Vejo esmaltes, diversos. Os homens são morenos, mesmo que sejam loiros, eles têm algo de morno, escuro, pouca luz, o andar de todos é sutil... os garçons são gentis, amigáveis, os copos das mesas são trocados, a comida tem sal, tem sabor. Tem tristeza, tem cansaço, tem estresse e pobreza, muita, mas tem o que eu sempre vi, um algo mais, que nos caracteriza e não se explica. É como se fôssemos uma outra raça, vindos de uma outra galáxia... as propagandas nas tvs são mais criativas, há uma falta de endereçamento certa, certo somente a boiada dispersa. Eu gosto. Sou eu. Só nascendo de novo para ser outra.
Suzana Guimarães
terça-feira, 23 de junho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
domingo, 7 de junho de 2015
Do amor
| (arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
Há uma pessoa neste mundo que me emociona. Cava em mim túneis insondáveis. Arranca de mim um amor universal, dói em mim toda a dor do mundo e toda realização, pois é perfeita, assim, só para mim. Veio para ser minha e é, mesmo que um dia venha não mais querer. Porque não tem idade, nunca teve, atemporal, pois, eterna. Nunca vi ninguém assim, nunca vi ninguém melhor, com mais pureza; e dureza. Quando sofre, sofre em silêncio e me consome e me eleva e me faz lamber os esgotos onde a humanidade pisa. Nunca amei assim. Nunca soube o que era o divino em carne e osso. Respiro. Respiro-a. Inspiro. Essa pessoa saiu de mim. Essa pessoa veio para ser minha, mas não é. É posse da luz.
Por Suzana Guimarães
Para LRGM...
Nota: originalmente publicado no Facebook às 4h30min, de 7 de junho de 2015.
sábado, 6 de junho de 2015
sábado, 30 de maio de 2015
SOBRE O MEU PAÍS
Todas as coisas trouxeram-me até aqui, todos os fatos isolados e a conjunção deles. Eu tinha um armário lotado de casacos de inverno e não entendia para quê. Os fios de água alcançam rios que alcançam mares e ninguém presta muita atenção, mais ou menos assim foi se formando o meu caminho. Quando tudo mudou, eu nada vi, apenas ia, em frente, sem pensar muito. Cedo me disseram que tudo aquilo que precisa de muita reza para dar certo não presta. Nem houve reza! Tudo está em seu devido lugar e eu gosto de tudo do jeito que está. Contudo, aquele país verde, gigante, morno, de calçadas esburacadas, aquele país que joga na minha cara seu bafo quente assim que piso o chão do aeroporto de Belo Horizonte - ou que seja o chão de São Paulo -, e lança em mim seu cheiro inigualável, aquele país parece gritar, chamando-me, porque um ano passa, dois anos, não, agarra tudo na saudade. Eu amo a minha gente porque é minha, sou eu, e eu a entendo via poros, brilho nos olhos, e eu posso amá-la e odiá-la. Todas as coisas trouxeram-me até aqui e deixaram envelope selado e endereçado, para retorno.
Suzana Guimarães
terça-feira, 26 de maio de 2015
| (arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
Alguma coisa sempre há de incomodar. Às vezes, em doses pequenas, às vezes, em avalanches. Uma coisa atrás da outra incomodando. Um monte delas e você começa a pensar no sentido da vida. Isso até que você insiste com alguém na razão de um olhar tão triste... É quando nos alcança algo avassalador e nos cala. A moça de 19, "quase 20", diz, "Minha mãe morreu. Ontem. 40 anos. Câncer." Fim.
Suzana Guimarães
(Publicado originalmente no Facebook, em 25 de maio de 2015)
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Rosa dos Ventos
Dica: quando eu disser que vou para o norte, me espera lá, mas pensa também no sul. E não se esqueça de que há leste e oeste. Quatro lados! Mas, pensa bem porque a Terra é redonda!
(Suzana Guimarães)
domingo, 10 de maio de 2015
Dias de calmaria...
![]() |
| Imagem: Daniela Ferreira |
Indeterminado é tudo aquilo que não pode ser decidido, resolvido ou estabelecido... Determinado, claro, o contrário. E eu vejo o quão é determinado meu desejo de apossar-me daquela terra aprazível e chamativa, gritante, eco de desejos passados, todos eles. Determinada vontade de afundar-me nessa terra, como nunca antes, pela primeira vez e que seja essa a última, que seja, pouco importa. Mas, afundar sem escrúpulos, apalpar cada centímetro, vasculhar o que faz promessa; tocar o que chama, ardendo. Terra estranha que nada entende da minha língua. Água escondida. Céu que nunca vi. E voltaria eu lá, quantas vezes fosse a vontade, pouco importa. Indeterminado é o desejo de não prosseguir na caminhada, é parar antes da hora. Cansei de gozos antecipatórios. Quero morrer todas as vezes, na hora do grito - de todos eles - que ainda não dei.
E assim eu estaria em dias de calmaria...
Suzana Guimarães
sábado, 9 de maio de 2015
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Suzana sem freios
![]() |
| (arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
Só agora dei-me conta de que estou há dezoito anos comemorando a maioridade. Fazendo contas, para esclarecer, tenho 48 anos, então, estou desde os trinta anos bem pior do que eu era. Porque eu era bonitinha e boazinha e só de vez em quando eu surtava. Meus surtos não foram poucos, mas, para ser franca, ah, como engoli sapos! Hoje, dezoito anos após, sou prazerosamente madura e isso significa que não dou satisfações, não explico direito, debocho e espano a sua cara quantas vezes eu entender interessante porque, passando a vontade, abstraio-me e vou para onde bem quero; sem você no pensamento, claro, sem qualquer coisa. Viver de verdade é algo meio que ser nada, ser vento, ser à toa, ser mesmo qualquer coisa. E qualquer coisa é melhor que gente chata e pequena. É isto: sou maior de idade. Eu sei a minha. Você sabe a sua?
P.S.: perdi os freios. Não me socorra, por favor!
domingo, 3 de maio de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)









