segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O QUE SEI SOBRE TRISTEZA

fotografia, por SCG


                                                                          Suzana Guimarães


Tristeza é a minha beca, meu vestido ornamentado, em pedras brilhantes, em outras foscas, linha dourada, pontos ínfimos, quase imperceptíveis. É meu vestido sem brechas que insisto em vestir e que aperta o corpo que não o aceita, mas que insisto, teimo. Não me cabe o vestido, não escorrega macio, aperta, estrangula minhas carnes arredondadas, esmaga sem dó os limites da fronteira. E não sei qual seria a melhor maneira de estar, pois incomoda o sentar, o levantar e nega descanso. Resta-me o andar incômodo, a sensação de prisão e há dias em que uma vez vestido, ele adere e fica.

Tristeza não é depressão. Não é chorar faminta, sentada diante de mesa farta, com ventos sacudindo as cortinas da janela, deixando passar claridade solar. Não é carência de sexo, beijos, abraços, pequenas rusgas, posso tê-los assim que estico o braço e abro a mão em busca. Doutores curam depressão, ou pelo menos aliviam, há remédios, há conversa, há um pouco de solução. Depressão é doença, tristeza não.

Dentro do meu vestido não anseio a morte, não estanco a fome, não me considero mais um neste planeta e quero sim muito sexo, beijo, abraço, mas o vestido aperta e eu insisto nele. Não jogo fora velhas fotografias, retratos, instantes, lapsos felizes de um tempo passado. Não limpo a casa, não supero a perda. Insisto no meu querer, na minha dor, maldita dor que conheço bem, com nome e endereço. Insisto em cantar aquela música, a mesma, a de sempre, a que nao é mais minha.

Diante do espelho, penso em arrancá-lo de mim, mas não sei como fazê-lo, não sei me livrar do nó, do aperto, da companhia silenciosa e perversa. Eu me sento para logo me levantar para logo deitar. Eu quero correr até o mar, afundar naquelas águas, abrir a boca e engolir um pouco mais, mas sempre na tentativa de salvação, bato os braços, ergo a cabeça, procuro uma saída, mas não é fácil nadar vestido.

Deitada na cama, à noite, o vestido apertado me faz lembrar e eu me dou alguns minutos de gozo fúnebre, alcanço o que me mata, beijo, abraço, acaricio. Disseram-me que abraçando a dor, recebendo-a, ela se vai. Sim. Ela se vai, porém retorna, idêntica, a mesma, inconfundível. Meu vestido tão belamente bordado vira fantasma.

Tristeza é o meu vestido que me cala.