domingo, 12 de setembro de 2010

CÓDIGO DE BARRAS

ilustração, R.Meneghini


Eu não ando por aí de chita e chinelão.

Não nasci para vestir uma canga branca e ganhar o mundo carregando uma sacolinha, vivendo da bondade alheia e elevando o meu espírito. Admiro estas pessoas, que abandonam os bens materiais, seus castelos e principados para buscar o nirvana. Creio que até as invejo. Há momentos em minha vida que eu gostaria muito de fazer isso. Pegar a sacolinha e partir.

Gosto do poder do dinheiro, de possuí-lo e com ele satisfazer as minhas necessidades e também as desnecessárias vaidades humanas, mas isso é acessório, acompanha o principal, mas não é o principal .

Odeio todos os "sites" de relacionamento. Já tive Orkut duas vezes, não tenho mais, para nunca mais. Tenho Facebook, mas apenas suporto aquilo, vou pouco lá. Tenho Twitter, e até hoje não sei para que serve. Tenho MSN, poucos contatos, não dou o endereço para ninguém e pouco vou lá. Para mim, ótimos lugares para se disputar quem tem mais amigos, postar fotografias da última viagem e não responder aos amigos uma pergunta simples.

Sou estranha. Se eu entrar no seu carro, não me pergunte depois se os estofados eram de couro ou não. Não me pergunte a marca do carro e muito menos o ano. Não me aponte aqueles carros conversíveis, pois eu vou olhar com desdém. Ferrari para mim era o sobrenome do amigo do meu pai.

Mas eu não viveria numa "motorhouse", cortando os EUA. Gosto de casa fixa. Gosto da certeza do meu endereço, pois já basta a mim, o tanto que minha mente vagueia feito balão se soprar.

Não gosto de copos e talheres de plástico, pratos de papel. Faço questão de beber as bebidas em seus copos apropriados. Não me sirva em copo, vinho, café... cerveja no bico. Aprecio cristais, toalhas finas, brancas, estendidas para um banquete e uso tudo o que tenho. Há pessoas que guardam certos objetos para "ocasiões especiais", dias de festa. O dia da festa para mim é hoje, a hora é agora. Dizem que eles quebram, os cristais, e as toalhas mancham com o vinho derramado, mas e eu, e eu que me quebro também, todos os dias, e meu corpo que se marca, mancha-se, corta-se e  costura-se, e ele?

Hoje, uso taças de vidro. Nego-me a possuir o que já tenho, mas que se encontra guardado em caixas, numa sala solitária e fria em Nova Lima, que empoeiram e ninguém olha, nem mesma eu. Guardei coisas de valor material para um dia usar, pois nem sempre podemos carregar tudo o que queremos. Guardei um pedaço grande da minha vida em papelão, e nem sei se um dia vou resgatá-lo, pois, perdi as pedras que caprichosamente levava nos bolsos. Larguei os cristais, livros, os belos quadros, fotografias em papel, as porcelanas e os torrões de amargura e dependência lá.

Adoro aquelas lojas que vendem coisas para se montar um salão de beleza. Foi uma das primeiras lojas que procurei quando cheguei na América. Sou atraída por elas feito agulha para o ímã. Compro mais esmaltes que preciso ter. Hidratantes, maquiagem, coisas pequenas com tantas finalidades que me perco nas instruções. E uso tudo, até acabar. Sinto prazer em vê-los terminando.

Não gosto de quebrar unha e de sujar as mãos. Odeio ficar na fila para almoçar ou jantar. Não, eu não odeio, apenas não fico. Procuro outro lugar. Odeio que me apressem, já sou apressada por natureza. Qualquer coisa além é aberração. Mas, meu passo é calmo, lento.

Meus três relógios de pulso são velhos. Um deles já debutou. Nunca tenho mais de dois frascos de perfumes. Em compensação, tenho mais sapatos que a necessidade de andar por aí e mais bolsas que meus braços e mãos possam suportar.

Gosto de pão e água, considero um manjar, mas não dispenso caviar e sei a diferença entre as ovas do esturjão e as torradinhas.

Vivo intensamente, até exagero. Não perco meu tempo, só se for para comigo mesma, eu e eu. E não gosto que me deixem esperando, pois eu não deixo ninguém a me esperar, se não chego na hora, chego cinco minutos antes.

Odeio gente que cola em mim. Gosto dos ares da liberdade que me deixam flutuar, uma pessoa agarrada só atrapalha o processo. E odeio gente que tenta me usar. Não uso pessoas, só uso coisas. Odeio aquela gente tola que pensa poder me manipular, subir na minha energia (tão dificilmente equilibrada) para alcançar algo. Definitivamente, não sou escada para ninguém.

Se eu quiser, se eu cismar, faço-me degrau, escadinha, pezinho... o que for para o outro. Mas, só se eu quiser, e as regras do uso, eu as dito.

Respeito lugares sagrados. Repeito a fé do outro. Respeito diários alheios. Sou uma pessoa que pode ir e voltar, voltar e ir na sua vida, mas jamais ofenda o meu pedaço sagrado, pois, nesse caso, não há volta.

Gosto de livros e revistas questionadoras, mas não dispenso aquelas fúteis. Porém, não sigo moda, não sigo padrão, tendência. Minhas roupas são a extensão de mim mesma, talvez por isso eu goste tanto de saias e vestidos, pois, no meu passo manso, eles balançam ao vento. Gosto daquela confusão de pernas e saias ao sair do carro. Gosto de roupas que revelam o que sou e não que me escondam ou me mostrem diferente.

Não tolero nem coisas e nem gente falsa. Uma pessoa falsa, um perfume falso, uma bebida falsa, um amor falso não deixa nem cheiro depois que passa. Talvez, dor de cabeça.

Ah! eu não olho os bancos de um carro, mas reparo os calçados das pessoas.

                                                                 Suzana C. Guimarães