domingo, 1 de agosto de 2010

VOCÊ

                                      Ilustração de R.Meneghini
    

Você girava na cadeira giratória. Talvez pensasse estar num parque de diversão. Talvez, não sei. Você rodava, rodava, meio sorriso, olhando para o nada. Eu cheguei sem avisar, a gente não se conhecia, entrei mais rápido do que o meu hábito, de andar manso. Você deu uma guinada e me viu. Foi quando eu vi o mar, numa terça-feira insossa, numa agenda com imprevistos, num escritório igual a qualquer outro do centro de uma cidade. Eu acabava de entrar, ventando numa saia verde, falando alto, fazendo barulho, cumprimentando os meus conhecidos. O que você viu, eu não sei, até hoje. Mas eu vi o mar e o céu num dia claro, de sol. Vi a pedra que se incrusta em nobres metais, vi os botões do casaco do meu avô, a tinta de colorir.

Você fez história comigo. Insistiu em escrever um livro de oitocentas páginas. Eu queria, eu não queira, mas as duas pedras me convenciam, a boca linda com dentes quadrados, os lábios gostosos de se morder. A cara torta (eu que sempre gostei de certas coisas desalinhadas, achei ótimo!). Fui encaixando-me em seus braços que se fechavam nas minhas costas e eu passava a estar então vestida com blusa de outra cor, a cor da sua camisa. E eu fui ficando, me encostando na rocha fria, na pedra fria que sabia usar a língua.

Você ficou em seus tropeços. Insistia neles, teimava neles. Contudo, você sempre perseverou nas poucas coisas em que colocou fé. E eu era a sua fé. Eu sou uma das suas maiores crenças, e, até hoje, eu não sei o que você viu... Eu nunca soube ao certo o tamanho de todos os seus desejos, mas você me mostrou que não ia para caminho nenhum porque você fazia o caminho. Chegar a algum lugar? Você ia, nem que montado num porco e seria capaz de morder esse porco se ele atrasasse você para nosso encontro. Eu ia em qualquer caminho porque eu não tinha rota, nem mapa e nem bússola – péssima em me achar, ótima em me perder. Você sabia tudo de bússola, de sobrevivência na mata, na água, nas ruas de qualquer cidade. Você sempre foi do mundo. Nunca foi de ninguém, mas insistiu que seria meu. Eu até hoje não sei o que você viu.

Locomotiva nenhuma esperou por você. Mas se eu estivesse nela, você se pendurava num gancho qualquer sem se importar com a velocidade dela e nem com a minha. Você nunca esperou o cavalo passar arreado, você caçava o cavalo. Mas, perguntava em sua correria, qual a cor, qual o tamanho, qual a raça que eu preferia. Você jogaria um urubu naquele avião se eu decolasse sem você. Você voou comigo por vários céus, mas o melhor foi o da Bahia. Você me convidou para ver o que você via, o mundo que Deus via. E aquele foi o melhor dos meus voos. Meus pés no céu, abaixo dele, o azul, doce plainar de asas. Na descida, o maior dos gozos, nós engolindo a terra que vinha que vinha que eu engolia para dentro da minha gargalhada. Se não fosse você, eu não saberia...

Você me fecundou. Você me amou. E você, que nunca foi de se dar, se deu para as suas crias porque eram as minhas crias. E elas, tão lindas, recordam você. Você sempre foi o meu primeiro soldado, meu primeiro tenente, aquele que eu sempre soube que me renderia. E você me rendeu todas as vezes em que eu me retirava um pouco do mundo, escapava dele e de seus donos, e ia, ia, ia e ninguém, nem eu, sabia com certeza para qual sina. Você que nunca soube ao certo se deveria respirar ou não, me tocar ou não, soprar os ventos ou não... Mas sempre soube o tempo de se afastar, esperar e cultivar a arte de não deixar perder. Você, tão dependente da sua rainha sem reino, você, eterno necessitado da insulina dela, você sempre soube a hora em que teria que comandar o batalhão, navegar a barca, fazer sombra ou não. E sua rainha lá ia, envolta em magia, abstraída.

Você continua o seu giro. Diverte-se em brincar na sua roda-gigante, no tobogã dos meus sentimentos por você, no carrossel que faço girar na minha constante inconstância com as coisas da vida. Para você, tudo não é mais que o parquinho de diversão. Para você, tudo brinde que ganhou. Você zela pelo parque, mas o faz de longe porque sabe que tudo na vida, um dia, pode parar, quebrar, mofar. Você sabe que posso voar, abrir os braços para o nada, para aquele precipício louco e fundo que tanto me atrai, mas você nem pisca, fixa os botões do casaco e conta as ondas do mar, desenha outros céus, faz coleção de bolinhas de gude cor blue... joga o jogo da paciência dobrando papéis, criando tsuru, sapinhos, florzinhas em origâmi, soltando-os aqui e acolá, em qualquer lugar por onde eu andar, só para dizer ao mundo que você não deixa a vida passar e nem o parquinho parar.

Parque de Diversão Primeiro de Agosto, 2010. Be happy!

                                                      por Suzana C. Guimarães