quarta-feira, 23 de julho de 2014

HÁ UMA VARANDA DENTRO DE MIM

(Imagem gentilmente cedida por Carminha Guimarães Palhares Pereira)



O escritor chinês me deixou a lembrança da varanda... Não me lembro mais do seu nome e sequer o nome do livro, um exemplar bastante amarelado, guardado em minhas coisas, dentro de alguma caixa, no Brasil.

Ando tão confusa, preciso de um tempo interno. Escrevo daqui, da CA, para uma amiga no Brasil, sobre um escritor que viveu na China... Ando cansada... Esgota-me falar em várias línguas! Até do Português ando esgotada e estou errando muito.


Preciso abrir a minha varanda do nada e nela me encontrar. Ele, o escritor, escreveu que na China antiga, as pessoas construíam em suas casas uma varanda que haveria de ficar vazia. Uma varanda criada para o nada. Uma varanda para reflexão, imune ao desejo humano de decorar.

Tenho uma varanda à minha frente, enquanto escrevo. Hoje, mal a vejo, puxei as cortinas, entranhei-me em casa e em mim mesma. Nessa varanda há uma árvore que dá flores Havaianas, Espadas de São Jorge, uma única minirroseira, um jasmineiro que ressuscitei. Há um vaso de lily. Há cactos e descaso, não cuido muito dela. Por ela, eu passo, molho as plantas, vejo como está o tempo para escolher a roupa que usarei. E só.

Atrai-me a varanda interna. Todos nascem com uma varanda para reconstrução íntima, para juntar os cacos da alma que foi estilhaçada, do amor-próprio ferido, das dores todas do mundo. É... ando assim, para dentro, no começo pensei que fosse amor mal tratado o que me dilacerou, mas nessa varanda, encolhida nela, percebi que não foi amor por outro, foi apenas e pobremente amor excessivo por mim mesma. Fui menosprezada, largada, deixada de lado, fui preterida. E isso cortou fino, caco de vidro finíssimo rasgando rápido a seda da alma. O corte alcançou a pele do corpo, minha engrenagem interna, o fluxo sanguíneo, fiquei doente.

O escritor relatou a necessidade da varanda. Não tenho varandas propícias, e nem quero, tenho a principal, a que existe dentro de mim.

A de fora está no frio, é outono aqui. Ela para mim também é importante, apesar da minha quase desatenção, porque, por ela, percebo que escrevo sabendo que o mundo existe, e não enclausurada em minhas vãs filosofias. Por ela, vejo as pessoas passarem nos corredores do prédio, quando as cortinas não estão cerradas, feito hoje. A enorme porta de vidro que separa a minha mesa, o meu computador, dela, mostra-me isso.

A de dentro andava largada - eu também sei abandonar! - mas agora dedico meu tempo a ela, ao nada, a mim mesma. Faço varreduras, arejo com sal grosso, perfumo com alfazema, clamo por um poder maior às minhas pequenezes. Escolho as flores que amarei, as músicas que permitirei, evito possíveis invasões. Nela, tenho permissão para controlar os sóis, as luas, as marés e todos os ventos. Nela, tenho permissão, total e absoluta, para impedir a entrada de pés em lama.

O escritor deixou de lembrança a varanda. A minha amiga, Sil Antunes, deixou-me uma frase:

"Em teu mundo, não é qualquer pé que sabe entrar. Nem qualquer alma."


por Suzana Guimarães.




Nota: Crônica originalmente publicada na Revista Mostra Plural (São Paulo).