quarta-feira, 27 de março de 2013

PARA A NOITE ÓBVIA


Fotografia gentilmente cedida por  Érica Amorim

 
Quando o ar faltar,
as persianas por fim se fecharem sobre
raízes podres e raquíticas debaixo de sol frio e distante;
quando a chuva deixar de ser poesia,
e não houver mais conforto em braços e olhos alheios...
quando tudo se tornar insuportável como a agonia dos que morrem por não saberem do remédio
eu lhe peço, sopra um vento raso e breve, lento, em meus ouvidos, ordena-me, implora-me, amarra-me à vida, mesmo que bem pouco seja tudo que você possa fazer.

 
Quando tudo parecer argila mal modelada, mal esculpida e espalmada,
quando as ruas parecerem sempre as mesmas, as trilhas sempre óbvias;
quando faltar o mistério, o aroma bom de um dia que se anuncia ou se extingue, e a minha presença for o mesmo que a minha sombra,
diz-me uma só palavra, a plena, aquela suficiente, que ressuscita. Diz que você está presente.

 
Quando a graça der lugar à desgraça e o mundo for apenas descrença no outro, olha-me, diz para mim um jardim inteiro de alegrias,
mostra para mim que nunca estive só, que sempre o tive, mesmo nos momentos de vácuo, quando as almas se perdem atrás de seus corpos.
 
Por Suzana Guimarães


domingo, 24 de março de 2013

ROL DE QUEIXA





Incerto o início do mergulho. 

Num sorver de ar, alguma novidade
Uma palavra amarga, outra amiga. 
Um ato de fé, outro que se desfaz. 
Alegria, alegria, próximo segundo, outra imersão. 

No fundo d'água, pressão que a vida faz. E assim, mergulho e ar,
Agonia, agonia, em retornados mergulhos. 
No fundo d'água, a paz que a vida dá. 

O que dói é o rio não ter fim.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Dominós enfileirados, um cai e assim segue..."

 

 Pela manhã, você acorda. Você pensa que a manhã é a mesma de ontem e anteontem, mas não é. As manhãs são as peças do dominó que estão a cair, uma por uma... apenas isso. O que me aguça é a oca sensação do que virá após todas as quedas. A alegria das quedas é o encontro com o outro.
 
Ela chegou ontem, embora esteja aqui o tempo todo. Eu abri dois pesados livros para ela, ou talvez, mais. Tantas palavras, frases, textos e mais textos... ela apontou algumas peças, uma delas caiu porque, estar numa mesa de jogo, é real demais para quem sonha apenas com o dia do jogo, enquanto isso, masturba sua alma no delírio alheio. Ela apontou uma outra peça, chocada, constatou que a peça imaginava-se inferior às outras... e não bastava e não adiantava e nada resolveria eu dizer que não era bem assim, que o que a peça continha em si era bem mais que fazer parte de um jogo de dominó.
 
Eu não soube ler a história do dominó. Ela contou para mim, como a gente faz para aquele que quer ler, mas não pode fazê-lo. Ela contou para mim a história de algumas peças e eu pedi que parasse, pois tenho vários amanhãs.
 
A alegria das quedas é o encontro com o outro. Agora, já posso ver tudo o que eu não via e queria ver... A peça que dispensa a realidade do jogo, para mim, é descartável. Desfez-se do contexto dos meus amanhãs.
 
A peça que se sente menor, enfileirada e caída, eu a coloquei novamente na mesa, mesmo que ela não queira. Posso guardar em mim quantos jogos e amanhãs eu quiser. Se cabem em mim ou não, problema meu, de mais ninguém, nem da peça. Guardo em mim o que quero pois é tudo o que eu realmente tenho, minha morada interna.
 
A peça me leva para longe das letras, não preciso mais da palavra, da forma que precisava antes. Apraz-me a verdade que alcancei ao saber os motivos daquela queda... e o dia se fez cinza clarinho e frio, meninos em jaquetas vermelhas, ardidas na brancura do lago ao fundo, deslizam-se em seus skates a caminho da escola. Eu deslizo também, pensando em alecrim, jasmim, em cheiro de boas manhãs, no entendimento do outro, numa boca que se fechou para mim, tão bela boca!
 
O que dói não é o medo. O que mais dói é ver alguém medindo-se menor do que realmente é.
 
Ó, pássaro, ó, saia da beira desta janela, alcança a vastidão que espera por você e voa, e, quando quiser, canta para mim um canto rouco...
 
Por Suzana Guimarães
 
Dedicado a Mary Cristiane Araújo.

sábado, 9 de março de 2013

Especial Suzana Guimarães, com carta do Teopha!

Suzana Guimarães, a Lily. Ilustração de Antonio ClaudioTuca Zamagna




HÁ QUEM PREFIRA MIGALHAS AO PÃO

 

Ontem, à noite, bateu-me algo maior que eu..."Parece que algo em mim, por dentro, vai tombar, algo horrível...", e, na ânsia de desviar a rota, escrevi para alguns amigos, pedi socorro. Um deles, o mais querido, foi cuidar de sua horta, foi dar leite para o gato, ocupou-se em juntar migalhas para formar um pão. Hoje, pela manhã, quatro mulheres já estavam na caixa de meus e-mails, passeando em espírito aqui na minha casa, pedindo às luzes, alento para mim... Algumas pessoas não entendem, outras, sim, se sou um sussurro, um caminho, um grito ou mesmo um exemplo, ou uma diversão, se sou indisponível, importante, se posso tocar sem colocar as mãos ou perceber e compartilhar sem estar perto é porque alguém se preocupou em cuidar disso. No livro "Não apresse o rio, ele corre sozinho", a autora nos diz que não se pergunta "posso carregar suas malas?", simplesmente, carrega-se. Pois bem, há muitos desejosos de compartilhar o que carrego em minha malas porque eles pensam precisar, mas poucos ajudam a aliviar o peso. Se você me quiser, sopre vento fino e manso, porque vendavais só me assustam, e também me assusta a total falta de preparo de alguns em lidar com o que não podem entender ou aceitar. Infelizes esses que não compreendem nem uma migalha de pão de si próprios.
 
 
Por Suzana Guimarães.
 
 
 
Texto originalmente publicado em 6 de março de 2013, em minha página no Facebook.