quarta-feira, 27 de março de 2013

PARA A NOITE ÓBVIA


Fotografia gentilmente cedida por  Érica Amorim

 
Quando o ar faltar,
as persianas por fim se fecharem sobre
raízes podres e raquíticas debaixo de sol frio e distante;
quando a chuva deixar de ser poesia,
e não houver mais conforto em braços e olhos alheios...
quando tudo se tornar insuportável como a agonia dos que morrem por não saberem do remédio
eu lhe peço, sopra um vento raso e breve, lento, em meus ouvidos, ordena-me, implora-me, amarra-me à vida, mesmo que bem pouco seja tudo que você possa fazer.

 
Quando tudo parecer argila mal modelada, mal esculpida e espalmada,
quando as ruas parecerem sempre as mesmas, as trilhas sempre óbvias;
quando faltar o mistério, o aroma bom de um dia que se anuncia ou se extingue, e a minha presença for o mesmo que a minha sombra,
diz-me uma só palavra, a plena, aquela suficiente, que ressuscita. Diz que você está presente.

 
Quando a graça der lugar à desgraça e o mundo for apenas descrença no outro, olha-me, diz para mim um jardim inteiro de alegrias,
mostra para mim que nunca estive só, que sempre o tive, mesmo nos momentos de vácuo, quando as almas se perdem atrás de seus corpos.
 
Por Suzana Guimarães