sábado, 29 de janeiro de 2011

CARTA À MINHA MÃE


(SCG - arquivo pessoal)

                               

                                 Los Angeles, 29 de janeiro de 2011.


                                                      Mãe,

Ontem, lembrei-me da morte. Lembrei-me dela em sua forma mais cruenta e não com toda aquela autoridade que costumo ter, dizendo que não é o fim, que tudo de mim permanece em alma, fora deste meu corpo cansado e limitado. Lembrei-me dela, mãe, e chorei. Chorei meu choro escondido no banheiro, debaixo da ducha. Há tempos não choro naquela forma explícita, escancarada, dentro do carro, dirigindo, olhando os passantes, parada no semáforo. Ou diante da lagoa debaixo de fina garoa, no aeroporto, na porta da escola ou vendo meu filho cantando cantigas às mães. Escondi meu choro, mãe, da mesma forma que escondi algumas flores em botões, alguns desejos procrastinados, olhares velados... algumas cenas e alguns rostos, inclusive o teu, pois não posso aprofundar meu pensamento em ti, é dolorido, é machucado exposto.

Você sabe que a morte e eu temos um pacto oculto, do qual não me lembro mais, mas ela, sim. Para mim, ela é aquela mãe que ameaça o filho com palmadas e nunca as dá e por fim ela perde o respeito. Assim sou eu, não a temo. Lembra-se, mãe? Lembra-se daquela manhã na Casa de Saúde? Ela ficou do lado de fora do prédio, sentada num banquinho. No início, pensando se me levava ou não, logo na minha primeira hora neste mundo... você sofria, eu sofria, vó sofria e pai se fazia de durão, e ela, sentada, tomando um pouco de Sol de inverno, pensava e catava florzinhas de mato, brancas, amarelas, surgidas na força de tantas pisadas e de nenhum trato. Encantada em arrancá-las do chão, perdeu-se no ato de cheirá-las e enfiá-las nos bolsos negros da veste... Noutras vezes, ela retornou, mas sempre um pouco alheia, um pouco distraída, na principal volta, esqueceu o relógio para trás.

Eu poderia, mãe, escrever-lhe contando sobre o tempo aqui, o melhor da América. Perguntando sobre as chuvas tropicais... sei, fazem estragos enormes aí, minha pátria mãe, mas cá de longe atenho-me apenas nas levezas, uma forma de auto-preservação.

Cá de longe, opto pela saudade dos dias felizes, da mesa servida para o café, dos nossos passeios de carro, de nós olhando vitrines, e você querendo me dar presentes, fazendo-me sempre levar mais de um. Daquelas idas correndo à igreja para assistir à missa rápida de dia de semana, das visitas às tias velhas, do passeio no mercado e das paradas para tomar um café "capuccino". Lembro-me de todas as vezes em que eu não tive um amigo, uma amiga, um colega para tomar um sorvete, ir a um cinema, e você foi, satisfeita pela escapulida dos seus afazeres. Lembro-me de nós e de nossas gargalhadas, de nossos feitos, de flores. Ah, as flores! Eu as vejo tanto... não, não as naturais, mas sim as de couro ou tecido. Vejo-as aplicadas em bolsas, sandálias, sapatos, fivelas de cabelo. Passo uma das mãos, como quem nada quer, mas quebrados os ossos de saudade, chego a sentir a moleza, a dor descendo pelos braços... vejo você nelas e lhe toco. Sinto você, mãe. Eu poderia fechar os olhos, estender a mão, sentir tua presença, contornar tua cabeça, relembrar teus olhos brilhantes, hoje tão apagados, teu sorriso de dentes quadrados, enfileirados, brancos. É um instante, mãe, um instante, é quando perco a chave do esconderijo e abro a porta da lembrança.

Mãe, ontem eu pensei na morte. Pensei nela dona de si e nem um pouco distraída, esquecida... eu a vi, lançando um meu amado por mim ao chão. Um corpo caído, esgotado. Entregue. Totalmente passivo. Rasga-me pensar na notícia da chegada dela. No vento forte e quente, abrasivo, ou frio feito pedra batendo em minha cara, na certeza. Imagino quem dará a notícia, como falará... igual eu fazia nos tempos de criança, na adolescência, até pouco tempo atrás, naquele meu masoquismo de me fazer vivenciar algo que temo, que sei que a mim chegará e que nunca saberei como lidar. Deixei o vazio da notícia pesada de lamentos apoderar-se de mim, no meu corpo cansado, molhado, debaixo da água quente, perturbado pelas palavras de T., ao telefone, dando-me notícias que você não as dá, aquelas outras, que você faz questão de esquecer de contar, pois o que você quer, a única coisa, eu sei, é ouvir minhas risadas, minhas besteiras faladas ao telefone, meus delírios de eterna romântica e sonhadora (que só você conhece), ou mesmo meus xingos, minha cólera, meus milhões de atos desfeitos que se refazem horas depois.

Horas depois de eu ouvir tua voz, em tantos e diversos tons, em nossa conversa eterna em que muitas palavras muitas vezes não são ditas, mas muito bem entendidas. Nem que no meio delas, a gente reclame daquele que nos interrompeu, perguntando onde pôs as chaves, pedindo para que fechemos a porta, nem que a ligação caia, e a retomamos, teclando os números com raiva e pressa. Nada, nada, perturba nossa cumplicidade.

Eterna, suave, suave companhia a minha a ti, e, principalmente a tua a mim.

Saudades, mãe. Saudades tão doídas que ninguém pode alcançar. Carrego você em mim, pendurada feito amuleto bom, mas eu não a tenho e hoje, hoje, mãe, depois de ontem, tão sombrio e perdido, eu não quero me enganar... Enganar a ti? Como enganar você? Você me entende e me conhece ao ouvir a minha primeira palavra ao telefone, ou mesmo um segundo antes, parece que um vento sopra-lhe segredos aos ouvidos. Às vezes, mãe, dou umas tossidas para tentar lhe enganar, para tentar disfarçar o desconsolo na voz, mas você sempre sabe, sempre adivinha, tem certezas. Aquelas que insisto em esconder, que a ninguém revelo e sou capaz de esganar com meus dedos quem insistir.

A ti, todas as minhas verdades e tentativas tolas de esconder o que só você vê, minhas cores, fortes ou desbotadas, minha alma nua. Para ti, meu íntimo, pleno ou não, mas todo teu. A ti, só posso lhe oferecer minha voz, minha gargalhada, meu choro ou mesmo meu silêncio naqueles dias em que demoro um certo e difícil tempo para emitir som.

A ti, esta carta que escrevo tentando ser adulta ao mesmo tempo em que caço, nos meus cantos internos, aos prantos, a menina magricela, aquela feinha que você achava normal, aquela menina calada que você entendia e segurava pela mão. Aquela que virou as costas no aeroporto e não teve coragem de olhar para trás. Que carregou e carrega uma única certeza, a certeza de lhe pertencer mesmo quando presente em lugar nenhum.

                                                            Beijo.
                                                           
                                                            Sua filha,

                                                            Suzana Costa Guimarães