sexta-feira, 16 de novembro de 2012

UMA CARTA PARA UMA AMIGA, sobre tesão de ser gente, ou não

 
 
( Desconheço autoria, imagem retirada da Internet, na delicadeza da procura de Dulcie Duda)
 
 
 
Novembro Longo 15, 2012.
                                       

Querida F.,

Naquele Café, eu sentia o teu vazio triste encostando-se em mim, embora você estivesse do outro lado da mesa. Ah, F., do lado de cá, digo-lhe que não adianta onde você esteja e nem com quem esteja, teus olhos brilharão muito melhor na medida do querer do outro. Bom, e aí você me diria, "mas você sempre diz que felicidade é estado de espírito". Sim, é. Mas, eu seria muito tola se negasse a força do outro sobre nós.

Naquele Café, eu não estava feliz, muito menos desinfeliz, eu apenas guardava nos bolsos do casaco um punhado de esperanças. Eu queria muito passá-las para você, mas teus olhos buscavam o nada, ou os carros que passavam do outro lado da rua, alheios.

F., onde estão elas, as esperanças? Sachês perfumados que eu carregava... e saía por aí, distribuindo-os. Fiz isso gratuitamente. Engano! Fiz, não! A gente age querendo a troca, o compartilhar, querendo ser do outro e tê-lo como nosso, em brevidade ou para sempre, porque não somos pessoas geladas, temos tesão pela vida. Temos o dom da gargalhada, o calor de todos os desejos. Temos a ânsia; o querer muito, quase insano.

F., há um quê de desbotado em alguns homens, não se esqueça disso, não dê cor a eles, se eles não puderem entender tua aquarela. Há quem viva em preto e branco. Alguns, com o passar do tempo, vão-se acinzentando. Cores da morte, o preto e o branco, cor do vazio, o cinza.

Há quem não queira a vida, F., há quem se senta no rabo e vive a cutucar o nariz. De vez em quando, dá uns saltos, cai no mesmo lugar, e volta a colocar o dedo n`algum orifício, para gozar sozinho, porque, compartilhar significa dar e muita gente não quer dar nada porque dar dá trabalho. Dá trabalho fazer a oferenda, melhor é esperar a primeira barata que passar para comê-la. Mais fácil. Alguns, mais tarde, reclamam que na terra deles nunca choveu...

Descobri que eu perfumei em demasia alguns. Ah, e eles foram felizes! Extasiados, lambiam-me com os olhos, cheiravam minha chegada, aguardavam por ela. Nunca dentro deles houve tantas batidas de tambor! Entreguei os sachês, dei-lhes meu melhor sorriso, promessas que se cumpririam antes do amanhecer. E havia sempre orquestra e festa. E havia eu. Não sou mais linda e nem mais esperta, sou gente. E, sendo gente, posso ofertar amor. Andaram lhe ofertando amor, F.? Sei, eu sei, na medida deles, na medida entre um salto e uma cutucada no orifício.

F., este novembro se faz longo e ingrato, mas não é o primeiro deles. Estou com alma alquebrada, recolhida, ainda sentindo os ventos gelados com que me presentearam, justo quando eu imaginava estar montando cenário de festa.

Conheci homens que maltratavam falando palavras doces, eu, tão tola, dizia palavras ásperas, amando.
                                                                
Beijos,

Por Suzana Guimarães