sábado, 24 de outubro de 2015



(Arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

Eu não ouço vozes, não sou esquizofrênica, mas é como se alguém tivesse soprado aos meus ouvidos surdos, "Vá de coração aberto". E eu, então, fui.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cada vez que eu sorrio por alguém é como se Deus me abençoasse. Parece água benta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015


"Ando sem tempo para tempestades, apesar de gostar de dias chuvosos. Ando sem tempo para abraçar os problemas alheios, resolvi tentar superar os meus. Ando sem tempo para futilidades, para pessoas vazias e pessimistas. Ando sem tem tempo para quem também não tem tempo para mim. "Rosi Alves

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pouquíssimo



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)





P​ouquíssimo. 
Um cisco a adentrar meus olhos. 

O pouco que não sobrevive à vastidão escura, silenciosa e aguda deles. 
Pouquíssima presença que nada sustenta; 



só aos frágeis.


(Suzana Guimarães)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Uma carta para F.

(fotografia por SCG)



Los Angeles, 12 de outubro de 2015.


​Querido F.,


Como tem passado nesta ilha ainda sonhada por mim? Espero que bem. Às vezes, pego-me lembrando daquela história que você enviou-me para eu ler e dar a minha opinião, acredita? Os dois personagens principais se misturam a você, criando assim um terceiro que eu não sei se desconheço. 

​Descobrir ou mesmo lembrar que hoje é seu aniversário foi uma espécie de acordar - como se eu estivesse dormindo, mas eu não estou dormindo. Repeti novamente para mim mesma, "Que bela data para se nascer!". Hoje cedo a minha mãe, ao telefone, enviou beijos aos netos e a mim também, na altura dos meus 49 anos... senti uma pontada de alegria que nem sei lhe explicar. Sei que por um momento, alguns segundos, ela transportou-me para um mundo ao qual conheço.

Sim, F., há bastante tempo - não ouso lhe contar o tanto -, estou "como se estivesse dormindo, mas não estou...". Talvez isso possa explicar - esta carta lotada daquela que você conheceu, mas que estou sempre a sufocar para que não viva -, a razão de eu não ter ido ao seu encontro em minhas férias de verão. 

Sufoco a antiga Suzana deliberadamente porque preciso do tempo para cuidar dos meus filhos, da casa que andei abandonando, e de um não sei o quê que me toma toda tarde e obriga-me a vagar em um nada improdutivo. Saudades eu tenho de sentar-me em frente ao computador e escrever... saudade eu tenho de alinhar palavras, ou mesmo desalinhá-las só para sentir o prazer de estar bem viva. Mas, ao contrário disso, ausento-me e para me sentar aqui, tive que ajustar minha cadeira... todos por aqui se sentam, menos eu.​

​Houve um luto amargo, a perda também de algumas pessoas queridas e grande decepção com gente que andava em meu íntimo... e, durante isso, não havia tempo para mim, pois muitas eram as obrigações. Tudo mecânico, entretanto. Eu respirava e dizia para mim mesma, "Só hoje, amanhã, talvez, eu desista."​ E assim passaram-se meses, anos... 

​Agora, dedico-me mais aos filhos, mais ainda que no passado (engraçado isso!). Quando penso que voltarei ao mundo de Suzana descubro-os precisando de mim de forma emotiva, psicológica... tolice pensar que é no começo da criação que mais nos dedicamos a eles. Hoje, construo um homem e desenho em rascunho uma muher (ainda é criança, graças a Deus!).

​Eu não pude ir. Eu não poderia ir. Ninguém pediu para que eu não fosse. Entretanto, a presença triste deles em muitos momentos, quando era para ser dias de só alegrias, prendeu-me a ferro. O Brasil já não é para eles o melhor lugar para se estar. Os vínculos se apagaram, os amigos evaporaram e a certeza de que tudo parece sem sentido reina em nosso mundo quando estamos aí. Para mim, também. Mas, eu me salvo encontrando pessoas queridas. Ainda as tenho, e ainda as quero perto de mim.​

​Lembro-me de você, sinto falta de nosso contato que muitas vezes fica escasso, penso em livros, em histórias de arder, céus azuis, fogo de querosene a queimar nas varandas, os outonos que parecem eternos, a fuga para países exóticos, a mesmice do balanço de uma rede... Agradeço-lhe este momento, hoje, agora, em que me sento para lhe escrever como presente de aniversário. Agradeço sua leitura atenta, o suspiro que dará, o breve sorriso.

Feliz Aniversário!

Grande abraço,


Suzana


Por Suzana Guimarães​

Observação



(Arquivo pessoal de SCG)

Certas verdades assaltam-nos quando querem e não se revelam acanhadas, educadas... certas verdades simplesmente nos rasgam.

(Suzana Guimarães)

Parece fácil.

(Arquivo pessoal de SCG)



Quando avisei a minha saída do país, muitos disseram que estavam para fazer o mesmo. Quando escrevi um livro, "Ah, também escreverei um livro!". Na escola da minha filha, certa mãe, estrangeira também, compete comigo. Não sei bem ao certo no quê. Sei que compete sozinha. Tantas palavras só para dizer que comecei a apresentação de um amigo poeta centenas de vezes - trabalho esse no plano mental ainda. Monto e desmonto o intróito, acreditando que meio e fim virão na sequência... Sofro na incompetência do ato. Tenho tudo para ele e tenho nada. As frases desmancham-se no ar, caprichosas! Sinto a solidão disso. Pergunto-me onde estariam todos quando a gente se posta no caminho.

O título: Parece fácil

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

S.O.S

(desenho, por Hilário)


As pessoas precisam urgentemente aprender a ser amadas. É uma situação passiva em certo ponto, e, por isso, causa desconforto. Não sei se é consequência de um mundo cada vez mais frenético, mas, com certeza, é burrice o jogo, a rejeição e o desprezo.

Que venha a mim todo o amor porque sou prado seco...




Suzana Guimarães

terça-feira, 6 de outubro de 2015




Vai ao mercado. Compra uma melancia brasileira; brasileira porque tenho certeza de que é maior que a daqui. Compra um limão, aquele pequenino e verde. Coloca as duas frutas lado a lado. Compara. A vida dele é a melancia. A sua é o limão.

E, azedo!

domingo, 4 de outubro de 2015

Solta um laço por dia. Quando você perceber, sentirá somente que um dia houve uma fita bem amarrada e nada mais.

Tempo de encantos.



(minhas palavras na delicadeza de Dulcie Britto)