quinta-feira, 31 de maio de 2012
Trinta dias não é nada, é só um punhado de tempo; é tudo, é só um punhado de bem pouco.
Trinta dias é o tempo que corre entre meus dedos e a flor com a qual enfeito teus cabelos. Trinta dias é o tempo que espero por um telefonema e o relógio só conta um dia todo. Um mês, trinta dias, é o tempo que não se conta, quando se espera. Ah, tempo!, graças tantas oferecidas, pois não mais me aflige o tempo do aguardo, pois aprendi com você, tempo, a gozar dentro deste espaço tão alto, tão baixo, tão rápido, tão curto e pouco... danço tua vulnerabilidade implacável.
Na prisão, no hospital, no caminho de quem se perdeu, o tempo não passa, materializa-se na dor do momento. Mas, há um tempo diferente, aquele que não se conta por ser ele dono de si mesmo e ao mesmo tempo amigo arteiro. Ele caminha em linha reta, mas lhe dá a sensação de que bem pouco ou bastante, com lágrimas ou risos, em dias claros de sol a pino ou em chuva que não para e mais um respirar teu que pode ser trinta dias respirando, e, você alcançará a estrela mais brilhante, pouco importando se pra sempre ou só agora. Ele lhe dará tua flor, e você sorrirá feliz, antes e durante, mas você precisa esperar.
Esperar, esperar, esperar. Aprendi. Não mais me doem as juntas invisíveis do corpo e da alma, não caminham líquidos venenosos pelas minhas veias, não perco o rumo, não me desespero, não tenho ânsias de grito e nem de clausura, posso contar um dia após o outro, em espera, na espera. E posso fazer festa com minhas aflições fugidias. Eu posso ser assim porque fui abrindo os braços devagarinho, quase que imperceptivelmente até eu abraçar-me toda. Quando fechei os braços em mim, em meu corpo maltratado por minhas incertezas e por golpes alheios, eu me vi, me conheci, reconheci. Sorri para mim mesma, assim como faço hoje ao contar regressivamente trinta dias.
Trinta dias não é nada, é só um punhado de tempo; é tudo, é só um punhado de bem pouco. É o tempo que eu poderia desprender absorvendo teus olhos nos meus, tocar a ponta de teus dedos, te puxar para mim, tirar tuas vestes - ah, eu gastaria trinta dias...; mergulhar meu corpo no teu e nadar, nadar, nadar até morrer na praia. Eu morreria trinta vezes trinta na beira da praia, sorrindo, olhando o mundo e toda a sua gente, gentilmente.
Cem anos foi muito. Três anos, bastante. Trinta dias é o tempo que existe entre os dois.
por Suzana Guimarães
quinta-feira, 24 de maio de 2012
QUAL O TEU MEDO?
Adriana sofre um longo tempo antes de viajar de avião. Na viagem, ela não ingere líquidos. Adriana morre de sede e vontade. O cara ao lado dela derrama coca-cola pela boca. No avião, ela não usa o banheiro, ela tem medo de fazer xixi no banheiro apertado da aeronave, mesmo que a viagem dure quinze horas ou mais. Miguel é engenheiro. Ele não assina documentos em frente aos outros, e, por isso, evita reuniões. Sandra não come em público. Carlos deixou de visitar o melhor amigo no hospital, em seus últimos instantes de vida, porque não entra em elevador. Há quem tenha medo de aranhas, baratas e eletrodomésticos.
E você? Qual o teu medo? Não se encabule se você esconde algum, mas também não ria, se você for a própria coragem em pessoa. A espécie humana só existe porque teve e tem medo. Foi o medo que nos preservou.
Adriana é uma profissional realizada, tem marido e amigos. O seu medo por avião não afeta a sua vida. Miguel é um dos sócios de uma empresa de engenharia, deixar para assinar os documentos em casa ou sozinho em seu escritório não prejudica em nada a sua profissão. Sandra deixou todos os seus familiares e amigos cientes de que ela está sempre de dieta e, em casa, come sem mastigar, com voracidade. Carlos perdeu várias chances de ascensão profissional e até o amor da sua vida porque ele não entra em elevadores. Carlos evita ao máximo, e, quando não consegue isso, sofre antes, durante e depois do passeio na caixa quadrada. Sofre depois, de vergonha de si mesmo.
Evitar o contato com insetos, bichos, eletrodomésticos e esportes de risco é fácil e não muda o destino de ninguém. Evitar o medo de ter medo é penoso.
Carlos sente medo só de pensar em estar num elevador. Por isso, sua vida é toda calculada em cima disso. Ele faz previsões, investiga antes, dispensa com facilidade, não conta para ninguém porque se sente ridículo por sentir medo de algo tão corriqueiro, que todo mundo faz. Carlos, em algumas ocasiões, se prepara antes bebendo vodca, porque a bebida, além de acalmar, não tem cheiro. Ele carrega uma garrafinha no bolso do paletó. Mas, pouco adianta. O medo lhe alcança bem cedo, ele sente calor excessivo, treme as mãos, a sua mente fica perturbada, confusa, ele não consegue conectar os pensamentos. Ele só pensa em fugir ou terminar logo com aquilo. Carlos é de bem com a vida, seria plenamente de bem se não existissem elevadores. Ele tem um bom emprego, amigos, é um cara socialmente muito bem visto e querido. Ele namora. Ele tem planos para o futuro, mas tudo precisa estar abaixo da altura de quatro andares. Às vezes, ele sobe todas as escadas de um prédio de onze andares, mas nem sempre isso é possível, e há muitos arranha-céus na cidade onde vive.
Ele já pensou em mudar de endereço, morar na roça ou numa cidade bem pequena, mas ele não pode, tem medo de mudar seu 'status quo'. Ele já pensou em procurar o seu grande amor, contar tudo a ela, mas ele não pode, ele não consegue. Carlos sofre em silêncio há uma década. Sabe ao certo quando tudo começou, o primeiro dia de horror, de medo, quando se sentiu desconfortável e tonto dentro de um elevador que subia muito rápido e, de repente, parou e ficou entravado entre dois andares. Quando o socorro chegou, as pessoas presas pularam para fora, com ajuda do porteiro do prédio e do técnico, chamado para o conserto. Carlos não quis pular, sentia-se tonto, tudo rodava e ânsias de vômito o deixavam envergonhado. Após o ocorrido, Carlos seguiu em frente, chegou a se esquecer do mal sucedido, até que num dia comum, sem explicações possíveis, dentro de um elevador que subia para o vigésimo quinto andar, ele começou a sentir medo.
Carlos evitava elevadores, depois, passou a evitar aviões e o medo, tão pequeno no começo, agigantou-se. Hoje, ele tem seu próprio e tímido negócio, largou seu trabalho numa grande empresa multinacional, tem uma namorada que não lhe atrai muito, mas nunca faz perguntas e mora no primeiro andar de um prédio de três níveis. Ele deixou seus sonhos num canto de sua vida, faz de tudo para esquecer e se sentir bem, mas ele não é a Adriana, nem o Miguel e sequer a Sandra. Ele é ele próprio, igual aos demais, mas ele tem um problema, uma doença, e ele precisa de ajuda, mas, para Carlos, medo é apenas motivo de riso ou desprezo.
por Suzana Guimarães
Nota: texto a ser publicado na Revista MOSTRA PLURAL, em 30 de maio de 2012. Por erro meu, publiquei esse texto no Facebook, hoje. Nada mais podendo fazer a respeito, fica aqui também registrado.
domingo, 20 de maio de 2012
"AMANHÃ FOI CANCELADO POR FALTA DE INTERESSE" (frase escrita numa caneca)
Parei o carro no estacionamento quase vazio. Dia quente. Ventava bastante e as árvores à minha direita faziam o mesmo barulho de décadas atrás, embora fossem outras e outro também o pássaro que estardalhava, equilibrando-se nos galhos que se erguiam para depois descer... lá não tem corvos. Eu esperava meu filho e pensava em tudo que não esperei.
Foi o som que me levou para trás, em esforço mínimo...
Houve um tempo em que o sino da igreja badalava as seis horas marianas e a cidade parecia parar enquanto a voz do padre reverberava nos céus, recitando a ave-maria. Isso era todo dia. Por mais que eu estivesse desatenta, eu parava para perceber porque aquilo tudo dominava o lugar, enclausurado pelas montanhas.
Houve um tempo em que, enquanto eu escovava os dentes, podia perceber a toalha de rosto puída, o quanto ainda tinha de perfume no vidro em cima do balcão da pia, o tapete se desfazendo no chão tantas vezes admirado sem ser visto.
Houve um tempo em que eu tinha tempo para visitar as amigas da minha mãe, com ela. Uma delas era salgadeira. Quando íamos lá, o cheiro dos salgados assando nos fornos nos ganhava já no portão de entrada. Não tocávamos campainha. Percorríamos um corredor estreito, lateral aos fundos da casa, e chegávamos à uma cozinha que havia se estendido até o quintal. Tabuleiros pretos de uso empilhados nos cantos, e a mão de dona N., enrolada em panos de prato, segurando um tabuleiro, estendia-se para nós, oferecendo-nos um tira-gosto. Mas, aquilo na realidade era o gosto inteiro, era a minha festa, nunca precisei sequer ser convidada para algumas delas.
Houve um tempo em que meu pai fazia boca, nariz e olhos em abóboras e as deixava iluminadas em cima do muro da casa do vizinho. Houve um tempo em que eu cantava o Chico exaustivamente e sequer imaginava que o meu cavalo só iria falar Inglês...
Tempo, tempo, tempo... Para onde você foi? Onde está? Quando me deixou?
Eu podia desembaralhar as linhas soltas dos novelos de lã para a minha avó. Eu podia vigiar os passos de bêbados nas madrugadas, pendurada na janela do sobrado antigo; alheia a ele, ao tempo, mas em perfeita comunhão. Eu podia admirar os bichos-preguiça cochilando nas árvores da praça principal. Parava para ouvir sapo coaxar, subia ladeiras para ver a cidade de cima, enfiava meus pés nas águas escuras das enchentes.
Houve um tempo em que eu segurava a vida e nem sabia.
Por mim, o tempo poderia parar agora, mas eu não sei como se faz isso, não tenho a voz daquele padre anunciando a hora mariana, não sei mais apreciar detalhes, eu apenas finjo que olho, que toco, que engulo. Quero sair da pista de corrida, quero sorver este silêncio que me tomou de súbito.
O pássaro nada sabe de mim. Nem o tempo. Nem ninguém.
Faz calor, faz frio, eu vejo que o homem que passa ao largo de mim está cansado, eu vejo rostos deformados de esforços. As árvores tão altas e alheias balançam-se de acordo com o vento... eu deveria fazer o mesmo!
Por Suzana Guimarães
Foi o som que me levou para trás, em esforço mínimo...
Houve um tempo em que o sino da igreja badalava as seis horas marianas e a cidade parecia parar enquanto a voz do padre reverberava nos céus, recitando a ave-maria. Isso era todo dia. Por mais que eu estivesse desatenta, eu parava para perceber porque aquilo tudo dominava o lugar, enclausurado pelas montanhas.
Houve um tempo em que, enquanto eu escovava os dentes, podia perceber a toalha de rosto puída, o quanto ainda tinha de perfume no vidro em cima do balcão da pia, o tapete se desfazendo no chão tantas vezes admirado sem ser visto.
Houve um tempo em que eu tinha tempo para visitar as amigas da minha mãe, com ela. Uma delas era salgadeira. Quando íamos lá, o cheiro dos salgados assando nos fornos nos ganhava já no portão de entrada. Não tocávamos campainha. Percorríamos um corredor estreito, lateral aos fundos da casa, e chegávamos à uma cozinha que havia se estendido até o quintal. Tabuleiros pretos de uso empilhados nos cantos, e a mão de dona N., enrolada em panos de prato, segurando um tabuleiro, estendia-se para nós, oferecendo-nos um tira-gosto. Mas, aquilo na realidade era o gosto inteiro, era a minha festa, nunca precisei sequer ser convidada para algumas delas.
Houve um tempo em que meu pai fazia boca, nariz e olhos em abóboras e as deixava iluminadas em cima do muro da casa do vizinho. Houve um tempo em que eu cantava o Chico exaustivamente e sequer imaginava que o meu cavalo só iria falar Inglês...
Tempo, tempo, tempo... Para onde você foi? Onde está? Quando me deixou?
Eu podia desembaralhar as linhas soltas dos novelos de lã para a minha avó. Eu podia vigiar os passos de bêbados nas madrugadas, pendurada na janela do sobrado antigo; alheia a ele, ao tempo, mas em perfeita comunhão. Eu podia admirar os bichos-preguiça cochilando nas árvores da praça principal. Parava para ouvir sapo coaxar, subia ladeiras para ver a cidade de cima, enfiava meus pés nas águas escuras das enchentes.
Houve um tempo em que eu segurava a vida e nem sabia.
Por mim, o tempo poderia parar agora, mas eu não sei como se faz isso, não tenho a voz daquele padre anunciando a hora mariana, não sei mais apreciar detalhes, eu apenas finjo que olho, que toco, que engulo. Quero sair da pista de corrida, quero sorver este silêncio que me tomou de súbito.
O pássaro nada sabe de mim. Nem o tempo. Nem ninguém.
Faz calor, faz frio, eu vejo que o homem que passa ao largo de mim está cansado, eu vejo rostos deformados de esforços. As árvores tão altas e alheias balançam-se de acordo com o vento... eu deveria fazer o mesmo!
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 16 de maio de 2012
ESTENDO O MEU BRAÇO E AINDA POSSO TOCAR O MEU AMOR.
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| The begining of time.by *juliadavis |
Eu tenho certeza de uma coisa nesta vida: quando estamos totalmente apaixonados, envolvidos, não sentimos vazio e nem falta de nada. O outro nos completa por inteiro. Mas, quando o tempo juntos é grande, acredito que a relação se desgasta... daí, a gente tem que pesar, ver o que vale a pena, continuar a união ou terminá-la.
Na verdade, não é o tempo que atrapalha - tempo não existe, é invenção nossa - o desgaste pode chegar com dez anos de relacionamento ou com um ano, o que conta mesmo é o tanto que o outro mudou. Se um muda e o outro, não, é preciso analisar se essa mudança está próxima, como se você pudesse medir a distância com teu braço... vocês então estarão em sintonia ainda. O mesmo para quando os dois mudam. Agora, quando a mudança é só de um ou mesmo de ambos, mas vocês ficaram muito longe um do outro em seus ideais, sonhos, conceitos e interesses, um tanto tão enorme que mal conseguem se enxergar (nem dá mais para se falar em casal), aí, é hora de pular para perto ou chamar o outro para fazer isso ou se separarem.
Por Suzana Guimarães
terça-feira, 8 de maio de 2012
Quando não se pode explicar, mas incomoda.
Há um excesso dentro de mim, suficiente para me satisfazer como gente e suficiente também, em contraponto, para esgotar-me. Como se o próximo passo fosse suplício, maratona em seus últimos segundos, e a palavra cansa durante sua pronúncia, bem no meio dela, impossível então falar a frase toda.
Às vezes, fujo desse excesso, às vezes, sinto-me especial por tê-lo, por sê-lo, por me diferenciar de uma gente que tolera o quase nada. Mas, também grita uma pergunta: o que é que eu venho querendo, já que o excesso anda dando lugar à uma vontade tamanha, bem maior que eu?
Revirei esse sentir, não se trata de ansiedade, não é tédio, não é sequer tristeza. Aprendi que a ansiedade lhe dá tudo, menos o teu objetivo - e, por isso, eu a evito; que tédio é irmão do medo e que é possível controlá-los e compreendi, após longo tempo, que tristeza tem razão de ser, é fruto de alguma perda ou dor. Refiro-me a algo que está berrando nos meus ouvidos surdos, que ordena, que me cutuca, que por vezes parece já estar impaciente e eu não sei o que é. Acostumei-me faz tempo em viver o dia de hoje, e planejar até amanhã somente. É claro que não sou tola e estoquei o que caberia devidamente num canto para ser vivido no momento certo, num futuro ainda distante, só quando a ocasião nascer, mas o cotidiano com suas singelezas não caminha até o final da semana. Eu vivo o agora sem traumas, sem paúras.
Há um excesso dentro de mim, parece que alguém grita junto com ele, me puxa, diz todo dia que poderia ser hoje, e eu continuo na brincadeira de ser dispersiva. Não escuto vozes, não sou esquizofrênica, não vejo e nem converso com pessoas que não existem, mas parece que alguém recita um poema, ou repete um ditado, confere uma receita, parece que alguém faz ladainhas com meu nome, parece repeti-lo, repeti-lo, até que o som se perde em lembranças vividas ou delírios de um sonho. Não sei.
Talvez, quem sabe, a palavra esteja pulando da boca, as mãos da alma esperando abertas, aflitas, meus olhos tentando enxergar no escuro do silêncio que ninguém vê e minha boca quer gritar bem alto dentro dele... Talvez, seja alguma verdade contra à qual luto desprovida de armas precisas, talvez seja o rapaz da biblioteca, que todo dia diz um livro inteiro para mim, e eu não consigo ouvir. Talvez, ele nem diga, e eu inventei, porque inventar é cismar e eu cismo em viver. E viver para mim é estar amena ou dilacerada em emoções. Não sei viver como se esperasse o próximo trem parar na estação porque o motorista não viu meu aceno, tímido ou em estardalhaço, mas feito.
Por Suzana Guimarães
domingo, 6 de maio de 2012
CARTA DE ENCONTRO, NÃO NOS CABE DESPEDIDAS
| (Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
Los Angeles, 6 de maio de 2012.
Querido,
Maio me chama, assim como você. Maio pede as minhas madrugadas, você pede que eu não vá. Não, esta não é uma carta de despedida, é de encontro.
Aquele avião ainda não alcançou os céus, os céus de maio são para serem voados com pés em terra. Eu ainda não invadi o aeroporto com minhas bagagens, não entrei no táxi amarelo, não fechei a porta de casa, nem arrumei as malas, indecisa por não saber organizá-las... eu ainda não lhe disse adeus, até breve, I`ll see you, bye, good bye... eu ainda estou aqui. A noite correu solta sem minhas rédeas e a madrugada chegou antes mesmo que eu tomasse pelo menos um chá, um bom e demorado banho quente, revesse o dia, amansasse meus desejos. E aqui estou, porque é maio. Porque penso em teus olhos doces, parados, despedindo-se. Como você se despede de mim! Quantas vezes? Quantos adeus? Há quanto tempo? Não pense, não pense, não tente desvendar nosso encontro, ele é sagrado, imune a nós mesmos.
Maio pede cartas, pede caminhadas, passos lado a lado, pede riso, muito riso e chão. E quantas voltas eu daria neste mundo para nunca mais me despedir? Você diz que parto em caminhada leve, eu sei, uma única viagem, dois destinos distintos; de um lado, quem vai, parece que sempre vai mais leve, do outro lado, quem fica e carrega o peso do vazio. Ah, como pesa o vazio, teus olhos dizem e também o silêncio do último dia, que grita, mudo! A ausência mais presente que o mais presente e barulhento dos convidados de uma grande festa. Um corpo que você vê passar, mas não passa. Um cheiro que você sente em golpes de vento, mas que do nada sai, umas vozes e um certo riso que se assemelham, mas que não são.
Eu pareço leve? Como, se levo você comigo? Digo que meu adeus é breve, você diz, longo. Como, se cheguei ao fim da longa jornada? Acabo de chegar, deitar o peso no chão e pousar meus olhos nos teus, gruta onde eu poderia adormecer, pela segurança da certeza.
Essa não é uma carta de despedida, é carta de confissão, porque é maio, porque me perco em certas madrugadas, porque ando vendo teus olhos gravando na memória meus passos, meus atos, meus vãos, lugares onde guardo você, silenciosamente, lugares perdidos, cidades proibidas... um dia, quem sabe, abro a porta desses sítios onde você reina, senhor e dono absoluto da senha, da palavra principal. Diga, diga o que lhe pende dos olhos e eu lhe direi que sim.
Beijos,
Suzana Guimarães
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Coça, eu sei, e você é incapaz de lidar com isso
Você é o próprio advogado do Diabo. Tua sanha é caçar os defeitos ou as idiossincrasias alheios, tudo o que você não aceita, não gosta, ou mesmo sequer tem uma opinião precisa e convicta formada a respeito. Isso é a coceira que lhe dá no corpo, aquela que passa pela tua cabeça quase o dia todo, e, por não conseguir coçar, você tenta provocar o outro. Você faz picuinha, atiça de longe; gente igual a você foge do confronto, do cara a cara. Você procura no outro, o defeito, o feio, o que parece convencer os próximos e lhe garante audiência. Você não olha teu umbigo, porque você não pode. Você tem bastante, conquistou gente e algumas coisas, mas ainda há algo, a coceira, que aparece e coça, coça em cantos que você não pode e não consegue alcançar sozinho. Daí, você pega um instrumento qualquer, um computador, um telefone, e ataca. Sim, é um ataque. O mundo vem em bolhas de sabão para você e você, delirante, perde o rumo e o prumo tentando estourar todas, mas é muito, e, então, às vezes, você se recolhe para descansar. Até que a coceira volte.
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Chorar não é feio e nem pode causar assim tanta comoção, chorar é natural, sou eu água procurando chão.
Eu queria ter um tempo ou dois, seriam minutos, um dia? Ou seria um tempo infindo, incontável, aquele que desprezamos ao olhar os ponteiros do relógio mas que só ele edita minha história e a de vocês, a nossa?
Queria ter esse tempo para chorar todas as lágrimas que não caíram e também, inclusive, as que cairão. Sim, quero chorar tudo de uma vez só. Quero chorar sem dó de mim e sem desejo de solução. Não quero me recorrer à mandigas, simpatias, benzeção. Não quero me perder em fotografias. Não quero lembrar, recordar o já vivido e tudo aquilo que imaginei viver e nem cheguei perto. Não quero conselhos. Não quero o consolo da profecia. Eu só quero chorar, não de fraqueza ou insegurança, eu quero chorar para expurgar de mim tudo que acumulou, que foi demais, que ultrapassou minhas fronteiras.
Não importa mais o que me fere, quem me feriu, o que perdi, o que fui obrigada a largar. A importância deu lugar ao cansaço, e, por cansaço, eu prefiro me render. Na rendição, encontro esse tempo incalculável, encontro a minha pele, a sensação que sempre carreguei comigo, a de que posso me manter bem em cima de minhas pernas, e caminhar, mesmo que o terreno pareça bem maior que elas, minhas pernas, pois só saberei atravessando-o. E eu quero fazer isso e quero chorar, porque chorar não é feio e nem pode causar assim tanta comoção, chorar é natural, sou eu água procurando chão.
por Suzana Guimarães
Nota: texto originalmente publicado em 24 de abril de 2012, no Facebook.
SOBRE CASULOS
| (fotografia, por SCG) |
Querida Lunna,
Outro dia, escrevi para a Andrea, o anjo do Sul, "preciso continuar no meu casulo, frágil casulo que rompo a cada dois ventos...". O que é esse vento? Ou melhor, quem seria esse vento? Só gente seria capaz... É ela, é você, é a minha mãe tão longe de mim. São meus filhos. Uma prima convidando-me para um almoço ou dois... Um colega que questiona "que cara é esta?".
Outro dia, escrevi para a Andrea, o anjo do Sul, "preciso continuar no meu casulo, frágil casulo que rompo a cada dois ventos...". O que é esse vento? Ou melhor, quem seria esse vento? Só gente seria capaz... É ela, é você, é a minha mãe tão longe de mim. São meus filhos. Uma prima convidando-me para um almoço ou dois... Um colega que questiona "que cara é esta?".
Casulo prata, da cor das águas frias do Pacífico quando batem na areia e molham meus pés. Casulo verde, da cor dos cactos, lírios e ervas que ando namorando, inclusive das rosas brancas que parecem irreais de tão fabulosas, rodeando casas de telhados vermelhos...Casulo vermelho, da cor da paixão que mato todo dia, paixão pela efervescência.
Casulo de silêncio oculto em alguns risos falsos, quase de carnaval.
O casulo me chama, me atrai, e os ventos também. Cartas pedem para serem escritas, boca para ser beijada, amizade pra ser esquecida, passado pra ser enterrado. E um medo medonho me faz derramar lágrimas, tenho medo de telefonemas que gritam em horários incomuns.
Casulo de silêncio oculto em alguns risos falsos, quase de carnaval.
O casulo me chama, me atrai, e os ventos também. Cartas pedem para serem escritas, boca para ser beijada, amizade pra ser esquecida, passado pra ser enterrado. E um medo medonho me faz derramar lágrimas, tenho medo de telefonemas que gritam em horários incomuns.
Assim, venho me refazendo e desfazendo, talvez embaralhando as linhas dos novelos, mas é preciso. Hoje, o rio da minha vida segue curso próprio, alheio à queixas, mas enamorado por ventos, por gente, por poemas... por um anjo que vela na vela acesa, eterna."
Por Suzana Guimarães
Nota: texto originalmente publicado em 17 de abril de 2012, no Facebook.
domingo, 8 de abril de 2012
VOU ALI, APRENDER A OLHAR DE LONGE
"... Ocasionalmente precisamos descansar de nós mesmos, olhando-nos de cima e de longe e, de uma artística distância, rindo de nós ou chorando por nós; precisamos descobrir o herói e também o tolo que há em nossa paixão do conhecimento, precisamos nos alegrar com a nossa estupidez de vez em quando, para poder continuar nos alegrando com a nossa sabedoria..." Friedrich Nietzsche
sábado, 31 de março de 2012
SOBRE FESTAS
| (Suzana Guimarães - fotografia, por A. Guimarães) |
Ela, minha mãe, anda dizendo que as festas perderam a graça, desde que parti. Ele, outro dia, disse-me: "você é a própria festa!". Sim, há algo de brilhantina em mim, fogos de artifício, barulho de pacote de balas, aquele tipo que incomoda no cinema - não, não faço barulho nesse lugar sagrado, mal respiro. Talvez, porque eu fale muito, muito depressa, e ria ao mesmo tempo, talvez porque estou sempre com pressa (mas meu passo é sempre lento!), talvez porque eu goste da brincadeira de esconde-esconde...
Faço festa por muito pouco, brindo qualquer coisa, e adoro contar histórias. Sou romântica sem freios, apaixonada de arder, sofri de medos tolos e até hoje os vigio de longe, mas, tenho emoções suicidas; não me desafie, não me seduza, não tente me ganhar e muito menos ameace me perder; não me diga que tenho medo, deixa de ser bobo, tenho sim, além dos tolos, hoje, amordaçados, e, por isso, posso ir muito além de tuas pobres palavras. Então, sou a véspera da festa, a véspera da chuva, dia quente na praia, palavra perfeita, flecha fincada no alvo, sou desejo secreto, leve embriaguez, feliz, feliz...
Mas, eu me guio para o silêncio das águas, dos mares calmos, das tempestades na madrugada. Não danço um frevo sem fazer uma pausa, não aprecio barulho sem fim. Gosto de apreciar o nada, de ouvir melodias internas, mesmo que desafinadas, gosto da concha, durmo em concha, em pouca luz, entre um punhado e um, eu fico com um.
Aprecio os brilhos, inclusive os falsos, o mundo seria paupérrimo se existisse apenas luz de verdadeiros diamantes.
Isso tudo para dizer que: há algo de chato nesta festa de um site de relacionamentos que se movimenta numa correria desembestada, sem razão para tanto, que me deixa tonta, que me deixa monga, sim, estou ficando parva, não pelos amigos (eu já disse, considero até os falsos), mas, por mim mesma, pois eu gosto de aconchego, sou mineira, cresci sem pressa, em cidades que continuam as mesmas de quarenta anos atrás. Gosto de me sentar em frente à uma mesa e tomar café por horas, comendo queijo em tiras. Gosto de saber que o tempo pode ser meu possuído, gosto de saber, apesar daquela pressa toda, que posso perder tempo. E, nesse local, eu ando apenas gastando meu tempo e desfolhando-me murcha.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 29 de março de 2012
QUERIDA EMILY (um segredo da vida: a pausa)
terça-feira, 20 de março de 2012
INTERAÇÃO
| (Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
Início de noite, o deserto em silêncio, ainda inverno quando senti passar pelas portas de vidro abertas o vento frio que uma terra seca também proporciona, toque macio, frescor.
Parei. Respirei fundo.
É preciso também saber renascer, aceitar o que a terra lhe promete, os sopros da bem-aventurança. E vi então, junto a tudo isso, o mesmo que já foi, o mesmo que com certeza virá, nos ciclos que se renovam. É sempre assim, há o tempo da secura e o da umidade, o tempo da enxurrada, e o tempo de ser. Porque a gente se perde muito no ter, ter um amor pra se cantar, um amigo para se dividir, ter beijos, afagos, ter algo pra se pensar ou sentir. Pronto, novamente, recomeço, e, como sempre, como todo reinício, dispenso a posse, almejo apenas ser.
Ser que respira fundo e ponto.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 15 de março de 2012
REVIEW
| (fotografia, por SCG) |
Certas músicas e certas imagens me trazem recordações profundas, de um encontro desnecessário, de palavras estupradas e profanadas, mas que eu respeito, porque foi um tempo meu, nele, deixei minha pele (ninguém viu), sal e água do meu corpo irrecuperáveis, uma energia gasta como água que escorre sem testemunhas, mas que eu sei. Não rejeito nem o pó que carreguei na sola dos sapatos. Ou eu conto a minha história para mim mesma de forma plena ou desisto da vida.
Um tempo de candura, quentura, um tempo que agarrei sozinha, pensando estar acompanhada; que acreditei, pensando estar em sintonia... tudo ilusões. Na realidade, segui a falsidade de verdades inventadas, aquelas vestidas a caráter e a gente acredita. Fizeram-me crer e eu cri, fizeram-se levitar e eu levitei, fizeram-se contente em baile de carnaval, à espera das melhores surpresas. Fui conduzida por um caminho que vi e escolhi, por fim, eu tive que me refazer, sozinha. Engraçado, não me estraguei sozinha, mas a cura foi solitária.
Aquelas palavras todas precisaram de novo dicionário, frases suplicaram por uma nova gramática... e ficou a certeza em mim mesma de que eu não entendo nada, nada de Línguas. Ouvi minha própria Língua, amada, idolatrada, base do meu país, meu emblema, tatuagem irremovível. Para quê? Entendi tudo errado. Acreditei no olhar estendido a mim, nos silêncios que falavam muito alto, na maneira de ser conduzida pelas calçadas. Vivi um enorme equívoco e hoje me vejo com medo de abrir a boca, de soltar os dedos nos teclados, apavora-me a comunicação. Quem sabe, talvez isso tudo tenha servido para me mostrar que em qualquer lugar em que eu estiver neste mundo, preciso ouvir (aqui, entenda-se ler e também ver) o outro com olhar estático para compreender melhor. Mas, e aí, tornar-me-ei então uma autômata? Não sei ser estática. Sei muito bem ser interna, introspectiva, pensante, quase delirante de tão irreal que soa a mim mesma. Sei me abstrair em pleno meio-dia numa praça gigante, apinhada de gente. Tenho enorme facilidade em lidar com minhas vísceras emocionais. Falo muito, mas conheço a mudez de conservatório (onde só a música bela da vida predomina). Pensei em fazer votos de silêncio, em clausuras, em contemplação, mas meu instinto, meu código genético me empurrou a vida toda para justamente o contrário.
Disseram-me que, quando há um erro de comunicação, a culpa é daquele que comunicou. Já tentei me queimar na fogueira dos infernos, pensando ter ocultado peças importantes para ambos, falas preciosas naquele encontro, já tentei autoflagelação emocional, mas, voltei atrás, no caminho em que me deixaram só, eu refiz o passo a passo e me inocentei. Nunca fui de grandes exposições. Meus barulhos sempre foram balas de festim, sem serventia. Para as pedras preciosas, reservei o melhor de mim, em cantos inacessíveis a qualquer um. Mas, sei de todos os instantes em que me entreguei e esperei pela recíproca ou mesmo pelo desprezo total. Mas, até isso tive que aprender, há quem lhe mata beijando-lhe a face.
Por Suzana Guimarães
Nota: primeiro parágrafo publicado originalmente no Facebook, em 14 de março de 2012.
sábado, 10 de março de 2012
QUERIDA EMILY (e as minhas asas? São teus braços, respondeu o anjo),
| (Suzana Guimarães, por Luís R.Meneghini) |
Querida Emily,
Vou reorganizar minha agenda, remodelar os "biscuits" de anjos que enfeitam os cantos da casa. Reaprender a escrever com caneta, deslizar a tinta, alongar um pouco as letras que sobem, descer com elegância as que descem... Vou montar novo álbum! Nele, constarão todos aqueles que de alguma forma eu os achei belos, daquela beleza que fala sempre mais alto, grita. Nele, estarão todos aqueles que limparam meus sapatos nos dias dos lamaçais e bateram de leve em minhas costas, esvoaçando o pó que carrego há tanto tempo.
Mas, conte-me, conte-me sobre o menino do cabelo escuro e escorrido. Diz para mim, o que a faz se lembrar dele enquanto espera a luta que trava se findar. Conte-me. Enquanto espero em silêncio por tua vitória. O mal pode fazer crescer raízes perversas, mas eu acredito em milagres e no poder da vida. Vai ver, onde se multiplicam células, onde perturbada está a vida, crescida em excessos, está a cura de outros. Tua doença cura os males ao teu redor, pense nisso. Ou não, não pense, fale-me do menino indefinível que você reconhece no vento que chega bem antes dele. Conte-me, até que chegue o dia em que você pulará deste leito e irá até ele e a mim também, disposta a ver comigo minhas renovações. Nos mistérios que a cercam encontra-se meu norte.
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 7 de março de 2012
QUERIDA EMILY (uma palavra: nenhuma)
Por que eu lhe escrevo se você jamais irá me ler?
Outro dia, choveu forte. Respirei fundo ao alcançar o portão da varanda da casa onde moro. O tempo acolheu-me e levou-me aos braços da minha mãe, nos tempos todos que hoje representam um só. Naquele dia, pensei que onde eu estava poderia ser lá, qualquer lugar, ou mesmo aí onde você se encontra. E eu queria lhe dizer isto, que o tempo é mesmo muito vago, não se preocupe então com ele, ele é vago e senhor de si, passante. No portão de casa, neste leito que lhe dói os ossos do corpo, naquele país maravilhoso, esplêndido em suas florestas tropicais, de chuvas - sei, sei, vocês chamam de florestas de chuvas e eu acho isso lindo! -, aqui, agora, onde estou, de frente para o computador, noite, cortinas fechadas, movimento constante em casa e meu corpo reclamando de dores e incômodos que minha alma despreza saber, o tempo pode ser o mesmo.
Era dia, era noite. Eu não sei, eu nunca sabia. Eu perguntei todas as vezes em que estive lá, "Que tempo faz lá fora?". Numa das vezes, ouvi: "Não se importe com ele, é o mesmo de ontem e de hoje." Uma vez, pedi: "Você poderia abrir a janela para eu ver um pouco o lado de fora?". "Não". Ele respondeu. "Há um muro feio, fundos de um prédio, janelas trancadas, vozes muito ao longe, muito de vez em quando". "Esqueça".
"Esqueça. Sim, esqueça, criatura", eu pensava. Vire-se para o lado, há um mundo circulando à sua volta, olhe para ele, viva-o, ele espera por você, por sua participação.
Querida Emily,
A alma pede a bola, pede o jogo, o grito de vitória. A alma quer contar para as amigas que o menino mais bonito do colégio olhou por mais de um minuto, fixamente. A alma quer o beijo, pegar na mão, tocar aquele cabelo escuro e escorrido... mas, o corpo tenta pequenas manobras apenas: uma tentativa de virar um pouco mais para o lado,
coçar as costas que queimam.
E a noite alcança. Não há relógios, nem janelas abertas. Há um abrir e fechar de portas eternos. Há toques e picadas nos braços. Ninguém dorme, mas o rapaz que proíbe janelas abertas já se foi, agora é outro, então é noite.
Querida Emily,
A vida que tínhamos até ontem, onde deixamos o livro marcado com uma flor seca ou um fio de linha dourada, o início de uma carta, uma lista de compras para o Natal, ou mesmo a matéria para a prova do dia seguinte, essa vida, a gente guarda no armário de metal do quarto.
Por Suzana Guimarães
Por Suzana Guimarães
segunda-feira, 5 de março de 2012
QUERIDA EMILY (um ordinal: primeiro)
| (fotografia, por SCG) |
Querida Emily,
Perdoe-me, não aprendi tua língua, não consegui quebrar a pedra, transpor o muro, somente para estar frente a frente com você. Desculpe-me. O medo é uma figura de transfiguração e dele sei tudo, mas eu queria era saber de ti.
Limitei-me em cordas frágeis, mas fortes o suficiente para me manterem longe de ti, do passo que eu daria, do abraço que eu alcançaria, do melhor que de mim eu poderia extrair. Perdi-me em meus próprios corredores.
Mas, a menina da grande estrela me olha dentro a fora, precisa, exigente, por pouco não me sacode. Ela diz "sunny day", ela disse isso hoje, e também, ontem. Ao varar os meus olhos, alheia às minhas dores e queixas, sabendo-se apenas de si própria, diz que penteia meus cabelos, enquanto os penteia; diz que os enfeita com flores, enquanto faz guirlandas em torno de minhas orelhas. Ela roda na saia rosa, embaixo de um Sol de inverno, e você mal consegue se fixar nela, pois o gramado é bem mais extenso que qualquer teoria. Ela colhe flores, as mais lindas e diz me cuidar, e meu corpo estático decora-se, ela assombra a morte de mim.
Querida Emily,
Faz silêncio lá fora. É noite. Deitada em minha cama, vejo as frestas iluminadas. Passam sem esforço pelos filetes abertos da porta e na veneziana fazem festa de luz, quando os carros passam com seus faróis. Ainda há claridade, mesmo dentro deste escuro em que estou.
Querida Emily,
Silenciar um grito ou dois dentro do peito incomoda, e eu imagino todos os que você abafa, com teus dedos longos, com tua beleza que estonteia o diabo que lhe assombra nas madrugadas frias. Eu queria lhe dizer que o inverno é muitas vezes rigoroso para todos em determinado ponto do caminho, e que dói pensar sobre ou falar, mas ele pode um dia virar fotografia, apenas lembrança.
Eu peguei o meu grito, embalei-o carinhosamente, cantei para ele, escrevi versos, olhei para ele pedindo calma, mas ele foi mais forte, arvorou-se de mim, emudeceu minhas vontades, todas... e, ao fazê-lo, calou meu canto, secou minha voz, fez de minhas palavras um punhado de tosse. Deu-me febre, dor no peito e uma queimadura que parece eterna no fundo da garganta, lá, onde nem o médico alcança a vista.
Suzana Guimarães
domingo, 29 de janeiro de 2012
SOU ÁRVORE, NÃO CONHECI O REI
Por Suzana Guimarães
Meus textos são frutos que caem de mim, árvore velha e marcada, quase amarga ao toque, porém, ainda cheia de flores e frutos. Alguém me lê na Romênia. Acredito que seja a mesma pessoa, nem sei por quê. Lembro-me então da bailarina que dançava para o rei. Mas, eu não sou bailarina, e não existe o rei, sequer cheguei a segurar a coroa por entre as revoltas dos meus cabelos... nunca fui a amante preferida ou cortesã desejada. Nada vi de mil noites, e por mim, ninguém montou em um cavalo para me salvar, eu me salvei sozinha, todas as vezes, as incontáveis vezes, e gravei meus atos, no livro dos sonhos, para não me esquecer. E também desconheci o desespero da exigência da lembrança, não houve reis para me cobrá-la. Sou apenas aquela que passou, correndo por arvoredos, mergulhada nas sombras da noite, aclamada pela valentia; sou aquela que matou quem se atreveu desejar ser rei, aquele que morreu de medo, e, medo é o meu escudo, meu punhal e meu próprio túmulo. Sou aquela que matou o rei que não existiu. Dos novecentos fantasmas, nenhum apareceu para me assustar, inclusive o rei, que me daria o susto do amor.
Mais provável que assim seja, um único leitor, absorvido pelos frutos que deixaram a árvore, ou, entretido com o reflexo que vê. Ele ou ela me lê silenciosamente. Quando venta em meus galhos e minha copa balança freneticamente, eu me desgosto. Ando procurando saber até onde vão meus galhos, minha sombra, o odor que de mim, exala. Sei das raízes, mas, elas não me atraem tanto quanto antes, pois sei que viverei enquanto as possuir e isso me basta. Eu me desgosto com o barulho das ventanias porque causa em mim ânsia, por querer saber até onde tudo em mim chega e o que posso ainda descobrir em todo aquele que em mim se encosta, em lânguido prazer, ou devassa revelação. Constato, ao ler o nome do país, que também passei por lá, e hoje, sou memória, sou o tempo estagnado.
Sou árvore. Não fui bailarina. Não fui amante do rei. Não roubei o rei. Não rezei para o rei, não entreguei meu corpo como oferenda, sou Suzana. Antes que ele pudesse estender os braços longos para me alçar, cortei a veia, e, hoje, corto a raiz da árvore. Que morra seca, sedenta, de tanto pedir por água.
Por Suzana Guimarães
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