| (Suzana Guimarães - fotografia, por A. Guimarães) |
sábado, 31 de março de 2012
SOBRE FESTAS
Ela, minha mãe, anda dizendo que as festas perderam a graça, desde que parti. Ele, outro dia, disse-me: "você é a própria festa!". Sim, há algo de brilhantina em mim, fogos de artifício, barulho de pacote de balas, aquele tipo que incomoda no cinema - não, não faço barulho nesse lugar sagrado, mal respiro. Talvez, porque eu fale muito, muito depressa, e ria ao mesmo tempo, talvez porque estou sempre com pressa (mas meu passo é sempre lento!), talvez porque eu goste da brincadeira de esconde-esconde...
Faço festa por muito pouco, brindo qualquer coisa, e adoro contar histórias. Sou romântica sem freios, apaixonada de arder, sofri de medos tolos e até hoje os vigio de longe, mas, tenho emoções suicidas; não me desafie, não me seduza, não tente me ganhar e muito menos ameace me perder; não me diga que tenho medo, deixa de ser bobo, tenho sim, além dos tolos, hoje, amordaçados, e, por isso, posso ir muito além de tuas pobres palavras. Então, sou a véspera da festa, a véspera da chuva, dia quente na praia, palavra perfeita, flecha fincada no alvo, sou desejo secreto, leve embriaguez, feliz, feliz...
Mas, eu me guio para o silêncio das águas, dos mares calmos, das tempestades na madrugada. Não danço um frevo sem fazer uma pausa, não aprecio barulho sem fim. Gosto de apreciar o nada, de ouvir melodias internas, mesmo que desafinadas, gosto da concha, durmo em concha, em pouca luz, entre um punhado e um, eu fico com um.
Aprecio os brilhos, inclusive os falsos, o mundo seria paupérrimo se existisse apenas luz de verdadeiros diamantes.
Isso tudo para dizer que: há algo de chato nesta festa de um site de relacionamentos que se movimenta numa correria desembestada, sem razão para tanto, que me deixa tonta, que me deixa monga, sim, estou ficando parva, não pelos amigos (eu já disse, considero até os falsos), mas, por mim mesma, pois eu gosto de aconchego, sou mineira, cresci sem pressa, em cidades que continuam as mesmas de quarenta anos atrás. Gosto de me sentar em frente à uma mesa e tomar café por horas, comendo queijo em tiras. Gosto de saber que o tempo pode ser meu possuído, gosto de saber, apesar daquela pressa toda, que posso perder tempo. E, nesse local, eu ando apenas gastando meu tempo e desfolhando-me murcha.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 29 de março de 2012
QUERIDA EMILY (um segredo da vida: a pausa)
terça-feira, 20 de março de 2012
INTERAÇÃO
| (Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
Início de noite, o deserto em silêncio, ainda inverno quando senti passar pelas portas de vidro abertas o vento frio que uma terra seca também proporciona, toque macio, frescor.
Parei. Respirei fundo.
É preciso também saber renascer, aceitar o que a terra lhe promete, os sopros da bem-aventurança. E vi então, junto a tudo isso, o mesmo que já foi, o mesmo que com certeza virá, nos ciclos que se renovam. É sempre assim, há o tempo da secura e o da umidade, o tempo da enxurrada, e o tempo de ser. Porque a gente se perde muito no ter, ter um amor pra se cantar, um amigo para se dividir, ter beijos, afagos, ter algo pra se pensar ou sentir. Pronto, novamente, recomeço, e, como sempre, como todo reinício, dispenso a posse, almejo apenas ser.
Ser que respira fundo e ponto.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 15 de março de 2012
REVIEW
| (fotografia, por SCG) |
Certas músicas e certas imagens me trazem recordações profundas, de um encontro desnecessário, de palavras estupradas e profanadas, mas que eu respeito, porque foi um tempo meu, nele, deixei minha pele (ninguém viu), sal e água do meu corpo irrecuperáveis, uma energia gasta como água que escorre sem testemunhas, mas que eu sei. Não rejeito nem o pó que carreguei na sola dos sapatos. Ou eu conto a minha história para mim mesma de forma plena ou desisto da vida.
Um tempo de candura, quentura, um tempo que agarrei sozinha, pensando estar acompanhada; que acreditei, pensando estar em sintonia... tudo ilusões. Na realidade, segui a falsidade de verdades inventadas, aquelas vestidas a caráter e a gente acredita. Fizeram-me crer e eu cri, fizeram-se levitar e eu levitei, fizeram-se contente em baile de carnaval, à espera das melhores surpresas. Fui conduzida por um caminho que vi e escolhi, por fim, eu tive que me refazer, sozinha. Engraçado, não me estraguei sozinha, mas a cura foi solitária.
Aquelas palavras todas precisaram de novo dicionário, frases suplicaram por uma nova gramática... e ficou a certeza em mim mesma de que eu não entendo nada, nada de Línguas. Ouvi minha própria Língua, amada, idolatrada, base do meu país, meu emblema, tatuagem irremovível. Para quê? Entendi tudo errado. Acreditei no olhar estendido a mim, nos silêncios que falavam muito alto, na maneira de ser conduzida pelas calçadas. Vivi um enorme equívoco e hoje me vejo com medo de abrir a boca, de soltar os dedos nos teclados, apavora-me a comunicação. Quem sabe, talvez isso tudo tenha servido para me mostrar que em qualquer lugar em que eu estiver neste mundo, preciso ouvir (aqui, entenda-se ler e também ver) o outro com olhar estático para compreender melhor. Mas, e aí, tornar-me-ei então uma autômata? Não sei ser estática. Sei muito bem ser interna, introspectiva, pensante, quase delirante de tão irreal que soa a mim mesma. Sei me abstrair em pleno meio-dia numa praça gigante, apinhada de gente. Tenho enorme facilidade em lidar com minhas vísceras emocionais. Falo muito, mas conheço a mudez de conservatório (onde só a música bela da vida predomina). Pensei em fazer votos de silêncio, em clausuras, em contemplação, mas meu instinto, meu código genético me empurrou a vida toda para justamente o contrário.
Disseram-me que, quando há um erro de comunicação, a culpa é daquele que comunicou. Já tentei me queimar na fogueira dos infernos, pensando ter ocultado peças importantes para ambos, falas preciosas naquele encontro, já tentei autoflagelação emocional, mas, voltei atrás, no caminho em que me deixaram só, eu refiz o passo a passo e me inocentei. Nunca fui de grandes exposições. Meus barulhos sempre foram balas de festim, sem serventia. Para as pedras preciosas, reservei o melhor de mim, em cantos inacessíveis a qualquer um. Mas, sei de todos os instantes em que me entreguei e esperei pela recíproca ou mesmo pelo desprezo total. Mas, até isso tive que aprender, há quem lhe mata beijando-lhe a face.
Por Suzana Guimarães
Nota: primeiro parágrafo publicado originalmente no Facebook, em 14 de março de 2012.
sábado, 10 de março de 2012
QUERIDA EMILY (e as minhas asas? São teus braços, respondeu o anjo),
| (Suzana Guimarães, por Luís R.Meneghini) |
Querida Emily,
Vou reorganizar minha agenda, remodelar os "biscuits" de anjos que enfeitam os cantos da casa. Reaprender a escrever com caneta, deslizar a tinta, alongar um pouco as letras que sobem, descer com elegância as que descem... Vou montar novo álbum! Nele, constarão todos aqueles que de alguma forma eu os achei belos, daquela beleza que fala sempre mais alto, grita. Nele, estarão todos aqueles que limparam meus sapatos nos dias dos lamaçais e bateram de leve em minhas costas, esvoaçando o pó que carrego há tanto tempo.
Mas, conte-me, conte-me sobre o menino do cabelo escuro e escorrido. Diz para mim, o que a faz se lembrar dele enquanto espera a luta que trava se findar. Conte-me. Enquanto espero em silêncio por tua vitória. O mal pode fazer crescer raízes perversas, mas eu acredito em milagres e no poder da vida. Vai ver, onde se multiplicam células, onde perturbada está a vida, crescida em excessos, está a cura de outros. Tua doença cura os males ao teu redor, pense nisso. Ou não, não pense, fale-me do menino indefinível que você reconhece no vento que chega bem antes dele. Conte-me, até que chegue o dia em que você pulará deste leito e irá até ele e a mim também, disposta a ver comigo minhas renovações. Nos mistérios que a cercam encontra-se meu norte.
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 7 de março de 2012
QUERIDA EMILY (uma palavra: nenhuma)
Por que eu lhe escrevo se você jamais irá me ler?
Outro dia, choveu forte. Respirei fundo ao alcançar o portão da varanda da casa onde moro. O tempo acolheu-me e levou-me aos braços da minha mãe, nos tempos todos que hoje representam um só. Naquele dia, pensei que onde eu estava poderia ser lá, qualquer lugar, ou mesmo aí onde você se encontra. E eu queria lhe dizer isto, que o tempo é mesmo muito vago, não se preocupe então com ele, ele é vago e senhor de si, passante. No portão de casa, neste leito que lhe dói os ossos do corpo, naquele país maravilhoso, esplêndido em suas florestas tropicais, de chuvas - sei, sei, vocês chamam de florestas de chuvas e eu acho isso lindo! -, aqui, agora, onde estou, de frente para o computador, noite, cortinas fechadas, movimento constante em casa e meu corpo reclamando de dores e incômodos que minha alma despreza saber, o tempo pode ser o mesmo.
Era dia, era noite. Eu não sei, eu nunca sabia. Eu perguntei todas as vezes em que estive lá, "Que tempo faz lá fora?". Numa das vezes, ouvi: "Não se importe com ele, é o mesmo de ontem e de hoje." Uma vez, pedi: "Você poderia abrir a janela para eu ver um pouco o lado de fora?". "Não". Ele respondeu. "Há um muro feio, fundos de um prédio, janelas trancadas, vozes muito ao longe, muito de vez em quando". "Esqueça".
"Esqueça. Sim, esqueça, criatura", eu pensava. Vire-se para o lado, há um mundo circulando à sua volta, olhe para ele, viva-o, ele espera por você, por sua participação.
Querida Emily,
A alma pede a bola, pede o jogo, o grito de vitória. A alma quer contar para as amigas que o menino mais bonito do colégio olhou por mais de um minuto, fixamente. A alma quer o beijo, pegar na mão, tocar aquele cabelo escuro e escorrido... mas, o corpo tenta pequenas manobras apenas: uma tentativa de virar um pouco mais para o lado,
coçar as costas que queimam.
E a noite alcança. Não há relógios, nem janelas abertas. Há um abrir e fechar de portas eternos. Há toques e picadas nos braços. Ninguém dorme, mas o rapaz que proíbe janelas abertas já se foi, agora é outro, então é noite.
Querida Emily,
A vida que tínhamos até ontem, onde deixamos o livro marcado com uma flor seca ou um fio de linha dourada, o início de uma carta, uma lista de compras para o Natal, ou mesmo a matéria para a prova do dia seguinte, essa vida, a gente guarda no armário de metal do quarto.
Por Suzana Guimarães
Por Suzana Guimarães
segunda-feira, 5 de março de 2012
QUERIDA EMILY (um ordinal: primeiro)
| (fotografia, por SCG) |
Querida Emily,
Perdoe-me, não aprendi tua língua, não consegui quebrar a pedra, transpor o muro, somente para estar frente a frente com você. Desculpe-me. O medo é uma figura de transfiguração e dele sei tudo, mas eu queria era saber de ti.
Limitei-me em cordas frágeis, mas fortes o suficiente para me manterem longe de ti, do passo que eu daria, do abraço que eu alcançaria, do melhor que de mim eu poderia extrair. Perdi-me em meus próprios corredores.
Mas, a menina da grande estrela me olha dentro a fora, precisa, exigente, por pouco não me sacode. Ela diz "sunny day", ela disse isso hoje, e também, ontem. Ao varar os meus olhos, alheia às minhas dores e queixas, sabendo-se apenas de si própria, diz que penteia meus cabelos, enquanto os penteia; diz que os enfeita com flores, enquanto faz guirlandas em torno de minhas orelhas. Ela roda na saia rosa, embaixo de um Sol de inverno, e você mal consegue se fixar nela, pois o gramado é bem mais extenso que qualquer teoria. Ela colhe flores, as mais lindas e diz me cuidar, e meu corpo estático decora-se, ela assombra a morte de mim.
Querida Emily,
Faz silêncio lá fora. É noite. Deitada em minha cama, vejo as frestas iluminadas. Passam sem esforço pelos filetes abertos da porta e na veneziana fazem festa de luz, quando os carros passam com seus faróis. Ainda há claridade, mesmo dentro deste escuro em que estou.
Querida Emily,
Silenciar um grito ou dois dentro do peito incomoda, e eu imagino todos os que você abafa, com teus dedos longos, com tua beleza que estonteia o diabo que lhe assombra nas madrugadas frias. Eu queria lhe dizer que o inverno é muitas vezes rigoroso para todos em determinado ponto do caminho, e que dói pensar sobre ou falar, mas ele pode um dia virar fotografia, apenas lembrança.
Eu peguei o meu grito, embalei-o carinhosamente, cantei para ele, escrevi versos, olhei para ele pedindo calma, mas ele foi mais forte, arvorou-se de mim, emudeceu minhas vontades, todas... e, ao fazê-lo, calou meu canto, secou minha voz, fez de minhas palavras um punhado de tosse. Deu-me febre, dor no peito e uma queimadura que parece eterna no fundo da garganta, lá, onde nem o médico alcança a vista.
Suzana Guimarães
domingo, 29 de janeiro de 2012
SOU ÁRVORE, NÃO CONHECI O REI
Por Suzana Guimarães
Meus textos são frutos que caem de mim, árvore velha e marcada, quase amarga ao toque, porém, ainda cheia de flores e frutos. Alguém me lê na Romênia. Acredito que seja a mesma pessoa, nem sei por quê. Lembro-me então da bailarina que dançava para o rei. Mas, eu não sou bailarina, e não existe o rei, sequer cheguei a segurar a coroa por entre as revoltas dos meus cabelos... nunca fui a amante preferida ou cortesã desejada. Nada vi de mil noites, e por mim, ninguém montou em um cavalo para me salvar, eu me salvei sozinha, todas as vezes, as incontáveis vezes, e gravei meus atos, no livro dos sonhos, para não me esquecer. E também desconheci o desespero da exigência da lembrança, não houve reis para me cobrá-la. Sou apenas aquela que passou, correndo por arvoredos, mergulhada nas sombras da noite, aclamada pela valentia; sou aquela que matou quem se atreveu desejar ser rei, aquele que morreu de medo, e, medo é o meu escudo, meu punhal e meu próprio túmulo. Sou aquela que matou o rei que não existiu. Dos novecentos fantasmas, nenhum apareceu para me assustar, inclusive o rei, que me daria o susto do amor.
Mais provável que assim seja, um único leitor, absorvido pelos frutos que deixaram a árvore, ou, entretido com o reflexo que vê. Ele ou ela me lê silenciosamente. Quando venta em meus galhos e minha copa balança freneticamente, eu me desgosto. Ando procurando saber até onde vão meus galhos, minha sombra, o odor que de mim, exala. Sei das raízes, mas, elas não me atraem tanto quanto antes, pois sei que viverei enquanto as possuir e isso me basta. Eu me desgosto com o barulho das ventanias porque causa em mim ânsia, por querer saber até onde tudo em mim chega e o que posso ainda descobrir em todo aquele que em mim se encosta, em lânguido prazer, ou devassa revelação. Constato, ao ler o nome do país, que também passei por lá, e hoje, sou memória, sou o tempo estagnado.
Sou árvore. Não fui bailarina. Não fui amante do rei. Não roubei o rei. Não rezei para o rei, não entreguei meu corpo como oferenda, sou Suzana. Antes que ele pudesse estender os braços longos para me alçar, cortei a veia, e, hoje, corto a raiz da árvore. Que morra seca, sedenta, de tanto pedir por água.
Por Suzana Guimarães
domingo, 22 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
CRÔNICAS DE SUZANA GUIMARÃES
| REVISTA MOSTRA PLURAL |
Fui convidada a escrever para a REVISTA MOSTRA PLURAL
Crônicas já publicadas :
HÁ UMA VARANDA DENTRO DE MIM
A SOLIDÃO NÃO MORA NAS CIDADES E NEM CABE EM MIM
Caso queira me ler no papel, basta clicar AQUI ou entrar em contato direto com:
Telefone
+55 (11) 9322-3102
P.S.: não sou responsável pela Revista.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
SOLIDÃO
Solidão é você carregar a si mesmo, sentindo todo o tempo que nada, nada lhe preenche. E, quando pessoas e momentos tocam esse teu corpo vazio, você chora.
(Por Suzana Guimarães)
sábado, 17 de dezembro de 2011
OLHANDO VOCÊ, LAVEI MEUS OLHOS
| (Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
Um ano que termina e eu quase me terminei nele. É dezembro! É final de ano, num final de mim, no recolher de flores do varal, ao perceber que uma decepção desorienta, dois desgostos e a certeza das perdas embaralham a mente; no recolher das frustrações, deparo-me com você.
Não sei bem ao certo quando você chegou. Nem sei se chegou. A sensação que me alcança é a de que você esteve sempre por perto, mesmo que distante a milhas... A você, dono dos meus mais belos poemas, do meu riso, dos meus dias felizes, este texto.
Eu dançava com fantasmas, num baile de solidão, e, perdida em minhas distrações, sequer percebi que escrevia para ti. Sim, para você, pousei os dedos no teclado, sem esforço, sem lágrimas - exceto um molhar feliz, agora - , para você, eu compus, teci, remendei, inventei. Por você, eu abracei cordas que me levaram a um infinito sempre azul, azul... virei pássaro, o bastante para fugir das prisões; virei gente, com pele, com vontade, renascida.
Olhando você, lavei meus olhos. Enxerguei. Olhando-o, entendi que a vida pode ser macia, pode ser sussurro, toque leve, mãos em nuvens. Entendi que palavras são na maioria das vezes, descabidas. Entendi que passei a vida fazendo esforço para me explicar e que isso nunca foi preciso. Entendi que eu nadava em mares de confusão. Vivi uma vida onde eu dominava a língua e eu falava, falava e ninguém me entendia... descobri que para me entender, desnecessário é o conhecimento de qualquer idioma, você provou isso. Basta me olhar, sou pouco, tudo se resume na minha face, basta ter olhos para ver, responder antes que eu pergunte, entender que compreender é entender junto, é ser companheiro, é estar com.
Deparo-me com você na curva da estrada, logo após o despenhadeiro, quando as rodas do carro cantam fino, mas você já estava ali, eu apenas não tinha olhos para vê-lo. Eu só tinha dedos, e a ti, escrevia. Hoje, sorrindo, carrego teu cheiro neles, nas pontas dos dedos, nas pontas d`alma.
Meus olhos viam cores no cinza dos outros. Meus olhos enxergavam demais. Eu colori outras vidas e desbotei a minha... Nos teus olhos, lavei os meus. Purifiquei minha alma. Reaprendi a sorrir, a rir, a desmanchar de rir. Reaprendi a respirar. Teu corpo carregou o fardo do meu, aquele que ninguém via, nem eu. Cada toque seu, um descarrilhamento meu, meu passado, esquecido, meu futuro, sem pensar, meu presente, meu hoje, para mim, o fluido que ninguém vê, que escorre de teus poros para os meus, lavando tudo, descarregando, depurando, no milagre do silêncio, a comunhão do nosso bem querer.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
RECORDAÇÃO DOS PASSOS
A cada passo
Um rasgo
Em eterno deserto
No tempo da maturação
As costuras
Em engasgos secretos
Não sei o que foi pior
Os rasgos
Ou os alinhavos
(Por Suzana Guimarães)
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
MINHAS MÃOS SÃO ROSAS
Minhas mãos, quando você as toca, são rosas
Quis eu mumificar-me
Parar as horas
Cessar meu respirar
Não seria morte,
Apenas vida...
porque é o pouco que me basta.
Se eu não tivesse anjos
Pararia de caminhar
(não preciso mais)
Pararia de pedir
(pois acabo de receber)
Pararia de sofrer
(acabou-se a busca)
Só assim,
eternizada por esse momento,
Lançar-me-ia a nado
ao encontro dos confins do mar da vida.
por Suzana Guimarães
sábado, 26 de novembro de 2011
O maior deleite é ler com as mãos
| REVISTA MOSTRA PLURAL |
A Francy`s e a Lu Guedes convidaram-me para ser colunista na Revista Mostra Plural, que acaba de nascer.
Nasceu em mim um texto, "Há uma varanda dentro de mim".
Os interessados em ler a revista, que terá seu primeiro volume distribuído gratuitamente, deverão escrever para a Francy`s, pedindo um exemplar, no seguinte endereço:
O maior deleite é ler com as mãos!
Suzana Guimarães/LILY
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
DOS HOMENS QUE GOSTO
| (Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
Eu gosto dos homens de sorriso fácil, cujos olhos são sérios. Eu gosto dos homens que não me levam muito a sério, dos homens que se divertem com meu riso solto, minhas gargalhadas sem licença. Eu gosto dos homens que gostam de mim, que me entendem de forma fácil, mesmo que nada compreendam. Gosto dos homens que acreditam em certezas, mesmo que tenham dúvidas, mesmo que o tempo se feche, gosto dos homens que se entregam e dos que não me encostam na parede, são eles próprios a parede, onde posso deslizar feito pluma ou pesar feito chumbo. Não gosto de homens que gritam 'ai', prefiro a palavra feia. Não gosto de homens que não gostam de espelhos, principalmente os da alma. Gosto de homens com cheiro bom ou mesmo com cheiro nenhum. Gosto de homens que sabem abrir a garrafa de vinho, despejá-lo na taça, que saibam abrir um sutiã. Gosto de homens cavalheiros, gosto daqueles que acompanham, que fazem graça, só para ouvir meu riso ou meu xingo, que carregam sacolas, que dizem 'sim', que esperam pelo meu passo calmo na calçada; e dos que não se esforçam para abrir portas, gosto dos que não comparam sentimentos. Gosto de homens com respostas curtas, incansável bom humor, poucas promessas, mas valentes, fortes, despojados, senhores de si mesmos. Gosto dos homens que fazem cafuné. Gosto de homens educados, mas não gosto de príncipes, não gosto dos homens enciclopédia, e nem dos que fumam, dos que não praticam esporte, dos que falam alto, dos que acordam falantes, dos que não sabem apreciar o nada, dos que não aparam a barba. Gosto de homens que não pegam na minha nuca e dos que não beijam minhas mãos. Gosto de homens que esperam a hora e a minha hora. Gosto de homens que procuram compreender o que é sangrar e parir. Gosto de homens que elogiam minha pele despida. Gosto dos homens que entendem meu falatório barato e meus profundos silêncios. Gosto dos homens que não me deixam ranzinza, que me distraem e dos que gostam de aprender e de ensinar. Gosto dos homens com palavras doces, dos calmos, mas que sabem bater na cara de qualquer safado. Eu gosto dos homens que me fazem rir.
Por Suzana Guimarães
domingo, 20 de novembro de 2011
CONSTATAÇÃO
Ela só faltou gritar
Se tivesse gritado, ao pular, você a alcançaria?
Você pularia e juntos
ganhariam o vácuo, igual passarinhos?
Mas ela não gritou
Você também não pulou
E a vida rola mansa
No pomar, frutas secas, pendentes, anseiam o chão
Na cesta, as rosas murcham
O rio caudaloso secou
Mundo de descaminhos, precipícios que se abrem em vão
Quantas belezas em franco desperdício?
No pomar, sementes nascentes anseiam por você
Na cesta, rosas secas perfumam o ar que a rodeia
O rio caudaloso secou
Virou caminho, virou tudo aquilo que o tempo apagou
por Suzana Guimarães
sábado, 12 de novembro de 2011
A[S]SIM
| (fotografia de Suzana Guimarães - arquivo pessoal) |
É mais ou menos assim, sou ave que não se pega, penhasco que não se alcança, essência que não se farta. Sou o beijo que deixei de dar, a lembrança do que dei e pedi, e também o sonho daquele que darei. Sou a água fina que escorria da bica, no quintal da casa grande. A casa era maldita, mas havia poesia por lá, os passantes a deixavam, os pássaros, o riacho escondido atrás do morro.
É mais ou menos assim, sou um bicho arisco, forte, perigoso porque conheço o medo, sou muitas vezes a bebida amarga além do gosto da boca, a comida que desce agarrando, mas posso ser o único alimento que alimenta teu vazio, teu buraco em meio ao peito. É mais ou menos assim, sou excesso de vírgulas para você saber que imponho limites, mas sou também reticências, sou promessa concreta, pois desconheço sonho sem pernas, desconheço palavras sem ação.
Sou mais ou menos, nunca serei o que habita entre os dois.
Por Suzana Guimarães
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