sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Eles sabem para onde vão, por isso correm. Eu não, eu não sei para onde estou indo, por isso vou devagar.


 
(Fotografia, por SCG)
 
 
Eu nunca soube de cor o número do meu CPF. Aos vinte anos, eu tentava imaginar o que estaria fazendo ao completar 40 anos, só porque eu deveria renovar a minha carteira de motorista. Decorei três números de telefone, o da minha mãe, um do meu irmão e o meu. Atualmente, paro antes para me lembrar do meu. Outro dia, perguntaram-me, num estacionamento, qual o número da placa do meu carro, eu respondi que não sabia, ela, a moça que cobrava a permanência, que olhasse. Porém, recordo-me das datas de aniversários de amigos do passado, gente que nunca mais vi e nomes de ruas nas quais morei. Meu espelho é sempre a minha última fotografia, por ela vejo o que mudar ou não em mim.

Percebi que eu tinha os olhos tristes, apaixonados, perdidos. Percebi isso ao rever velhas fotografias que resgatei de dentro de caixas. Mas, eu nunca fui triste, eu tinha tristezas, apenas isso. Apesar da minha dificuldade para decorar números, sou ótima para saber de mim, mesmo quando finjo o contrário. Pois então, eu sei muito bem o que quero, eu sempre soube. Ou melhor, eu sabia.

Hoje em dia, qualquer vento pode me fazer cócegas e muitos dos meus princípios mudaram de endereço, perderam-se nas decepções da vida. Para que tanta definição de si mesmo? De mim mesma? Para merda nenhuma, que me perdoem o bom uso dessa palavra! Para que a minha eterna tabuada, pregada na barra da minha saia para eu colar de vez em quando e fingir que sou mestre?

Eu sei quem sou eu, sei, sim. Hoje, eu sei o que me faz feliz e que não faz. E só. Basta! Não preciso mais do que isso. Outro dia, conheci um menino que me fazia sorrir, conheci três, conheci dez! Entretanto, todos, em um determinado ponto, pararam de me fazer sorrir e, eu, muito tonta, continuei sorrindo para eles e traçando mapas para nós, delirando... Revejo esses meninos, revejo-me e nada mais encontro porque eu fui ali, saí, larguei o que eu carregava em cantos quaisquer, desfiz as magias tolas e fui ser feliz. Simples. Minha felicidade é o meu corpo, que cuido; minha alma que preservo, e minha inteligência, que me salva.

Eu não sei mais para onde estou indo, o GPS pifou. O mapa? Eu nunca soube mesmo para que lado posicioná-lo. A agenda de telefones? Demoro um ano para atualizá-la, estou sempre um ano atrasada, enquanto todo mundo corre. E todo mundo se espanta, ainda tenho agenda de papel. Ainda tenho tempo de me perder porque parei de dar importância ao traço do compasso. Nunca fui boa mesmo em aritmética, nem em ritmo e equilíbrio, tenho Labirintite, não aprendi a tocar piano e a andar de bicicleta. Só acertei o alvo quando gritei 'este, eu quero', e isso ocorreu poucas vezes. Durmo antes do terço acabar, ladainhas são soníferas... Minha reza é apenas uma conversa, às vezes, íntima, às vezes, nem tanto. Sempre houve em mim um quê de distração pelas coisas, desejos e pessoas... o que eu sempre soube fazer foi levantar voo; me dê uma razoável tranquilidade e eu já não estou mais onde você pensa que estou.

É que todo mundo corre porque já quer chegar. Eu estou sempre indo.
 
por Suzana Guimarães

domingo, 4 de novembro de 2012

(...)

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)

 
Há mais peças dentro da mala do que fora, nas gavetas.
Ele as dobra de forma lenta, ele está de partida, sem desejar por isso
É noite, eu olho o céu, penso nele.
Eu me calo
Assim igual a ele, que se calou faz tempo
Ele está indo aos poucos, em passos curtos
ele prolonga o tempo
Eu me calo.
É noite, eu o vejo por entre os mundos
através da ferida que se abre em mim
Eu o olho, imóvel estou
Nada posso fazer
Ele nem sabe mais quem sou eu
Mas eu sei quem ele é.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PARA PENSAR


 
Quando você tiver tempo para mim, eu irei sorrir, distante. Tenho ido à Monrovia, onde eu teço longas tranças, largas ou estreitas, sedosas... O tempo lá alcança-me, abraça-me e me diz que a gente só entende, quando a gente para. Querendo ou não, sou obrigada a estar lá, e venho aprendendo a arte dos sorrisos internos, independentes, livres. Durante cinco dias da semana exercito a ciência da espera calma, aprendo que uma certa organização sempre se faz necessária e, em Monrovia, eu venho entendendo que você apenas me desorganiza para nada. Você quer o nada e o tempo na Monrovia também nada quer, apenas se faz presente. Então, eu vou praticando até o dia em que você chegará, mais uma vez, e eu irei apenas sorrir, distante.

Por Suzana Guimarães
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ELE, A LIBIDO E EU

 
(fotografia, por SCG)
 
 
Eu queria um tempo para poder entender, eu queria escrever cartas, enviá-las e aguardar o retorno. Eu queria pregar alguns botões de roupa, cheirar o perfume que comprei... mas, compreendo que o tempo todo do mundo não seria suficiente para meus cálculos infinitos, um tal de dois mais dois são quatro. Não escrevo cartas, envio mensagens rápidas por telefone, não cumpro promessas e não vejo outras tantas alheias serem cumpridas. Ando me deixando por aí, naquele aeroporto onde fiquei em desalento; no consultório da dentista; naquele cinema que fui com a minha mãe; no estacionamento da faculdade - realmente, cismei com o lugar, como se eu caminhasse no deserto nu.
 
Ando me deixando aos poucos, e eu queria mesmo era andar toda compactada. Eu queria ser um tanque de guerra, mas os ventos sempre foram mais fortes, desfragmentaram-me em assovios finos, em barulho de balanço, daqueles antigos, de dois lugares, com almofadas quadradas, geralmente vermelhas, em ferro branco, num vai-e-vem cadenciado, criando um barulhinho sem fim, bem compassado... esse barulho, ando ouvindo na academia; as entradas de ar no teto levam-me à varanda da casa da minha avó, décadas atrás.
 
Quando eu caminhava solenemente para ser compacta, um trator, ele chegou.
 
A cor do cabelo dele combina com tom de boate, com casais aos beijos, dançando, na beira do porto, onde eu vi aquela moça levantando cadeiras, varrendo o chão, limpando e parecendo dançar, sim, ela parecia dançar. Só se via o que as cortinas de plástico transparente permitiam... a balsa ia ao longe e ao longe eu fui atrás dele. Pergunto-me se ele poderia sentir que eu dançava com ele.
 
Ontem, fritei bifes. A cozinha ficou impregnada de óleo e carne, mas eu pude sentir o cheiro dele, assim que me abaixei no chão para pegar uma panela no armário. E eu pensei no tanto que tudo pode ser não crível e por isso não entendível. Não é um cheiro que se compra nas farmácias ou lojas, nem se fabrica no balcão da pia, nem é ofertado pela natureza. Não é o cheiro da recordação, do perfume do primeiro namorado ou das merendeiras escolares. É o cheiro dele; que sinto quando o toco e depois, disfarçadamente, tento gravá-lo no olfato.
 
A moça limpava a boate de quinta categoria para a noite que se anunciava - e eu fui até ele, em pensamento.
Ontem, ele se aproximou de mim?
Naquela balsa, eu teria todas as palavras do mundo para ele, ou somente um convite para nos arriscarmos naquela espelunca. E eu poderia então enfiar meus dedos naqueles cabelos, puxá-los, me apertar contra ele, boca na boca, aspirando aos pouquinhos a sua pele que me fascina. Ou seriam os olhos, o corpo todo?
 
Eu não sei bem se ele se aproxima de mim ou se sou eu que, sem tempo, sem romance, sem sexo, sem namoro, sem risadas na madrugada, sem libido e grito oscilo entre o tanque de guerra e o vento, entre ser e morrer, entre o que se queria e o que realmente se tem, naquela mesma distância da balsa para a boate, que só aumenta e se vai.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SOBRE ELE

  
Ele é como um livro que já li, lembro-me  de certas partes da narrativa, e, por isso, eu poderia pular certas falas, por já conhecer. Ele traz o aconchego da certeza de que sei como termina... mas, eu não me lembro muito bem mais como é esse desfecho, pois, muito tempo se passou desde a última leitura.
Não me é desconhecida a capa dura, as folhas que se viram sem esforço, o segredo da história, guardado no título. Sua pele é folha macia que canta, parece que os poros fazem coro em uníssono, chamando-me. O cabelo em tom mais escuro que o escuro de todas as noites, eu conheço há mil anos, algo me atrai, nas coxas, acima um pouco dos joelhos, na nuca, um pouco abaixo do negro da noite que sorri para mim, convida-me. É mais ou menos assim, olho-o de ponta a ponta, seus poros cantam, os ventos que o rodeiam quando ele passa, assobiam para mim, e o visgo que não se esconde entoa cânticos aos anjos.
Nada queima, não há infernos, há frescor, há sensação de que se alcançou a beirada da praia, quando a lua beija o mar, em prata.
Ele é como um livro e também o recanto macio onde eu posso lê-lo, recostada, em paz. Ele é a paz, a sensação de que tenho a posse de todos os dias, todos os anos, as décadas - sou dona do tempo. Sou o tempo que existe, ontem, hoje e futuro num só, quando por mim, ele passa.
Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

QUANTAS GIRAFAS PODERIAM ME SALVAR?

 
Fotografia de Suzana Guimarães - arquivo pessoal
 

Borbulha. A água da panela não borbulha mais que eu, nem o Mauna Kea e o Mauna Loa conseguiram tanto. Borbulhou, borbulha ainda. Ferve. Borbulha sentimento ruim em mim. Borbulha tudo aquilo que você me fez engolir e eu ainda não ingeri. É preciso que o tempo ajude. E eu olho os céus, olho o mar, as ruas silenciosas, as pessoas que passam, só não olho para dentro, porque, lá dentro, aqui dentro, borbulha ainda.

Sou rápida com as palavras, sou rápida no agir. Lenta no sentir. É preciso que o tempo ajude. Mas, outro dia, a minha filha quis comprar uma girafa do tamanho dela. Um balão de soprar preso entre seus dedinhos, que subia, subia ao alto e descia aos poucos, parecendo caminhar. Seguia leve e inconstante atrás da minha filha. Caminhamos até o carro, e eu guardei a girafa no porta-malas. Depois, antes de abrir a porta, para que a minha filha entrasse, eu voltei e abri novamente o porta-malas para guardar minha bolsa. A girafa fugiu.
 
Ela alcançou o cruzamento em frente ao estacionamento do shopping, num voo rápido e leve, dez pistas que cruzavam dez outras pistas. Era sábado, à tarde, muito movimento, muitos carros, eu gritando em Português, desesperada, sem saber se segurava a mão da minha filha que gritava também ou corria atrás da fugitiva. Eu gritava para que ninguém atropelasse a girafa, para que a vissem; ela, que subia e descia, parecia desviar dos carros. Alguns diminuíram a velocidade, outros desviaram.

Ela, a girafa, foi salva, já do outro lado, na esquina em diagonal a mim. Um carro parou, uma mulher desceu e pegou o balão elegante, como toda girafa deve ser. A minha filha ficou contente, eu, também, e a volta para casa foi em meio às gargalhadas - uma pequena vitória do dia.

Borbulha ainda a tristeza por tudo o que você me negou, borbulha o desejo de vigiar tua casa e teus passos, para contar os tombos, só para isso. Borbulha. Sentimento ruim também é para ser vivido. É preciso cortar o pão duro com os dedos, espremê-lo entre os dentes, tentar algum alimento.

É preciso que eu olhe os céus, olhe o mar, as ruas silenciosas, as pessoas que passam, as girafas que fogem, que voam, todas elas, vivas ou não vivas, mas suficientemente capazes de desviar meu olhar para longe e me façam gritar qualquer coisa, mesmo que sem importância, desviar a rota que você desenhou para mim e eu, tola, caminhei em cegueira.

É preciso que fatos ocorram, olhares se cruzem e muitos passeios eu caminhe.

Bomba foi feita para aluno; perdas para caminhantes, ódio, para humanos, mas eu não gosto disso, eu só queria ter te amado. Borbulha o que poderia ter sido amor.

Por Suzana Guimarães
 

sábado, 29 de setembro de 2012

E SE...

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


E se eu lhe dissesse que fiquei mais forte, mais bela e singela? E se eu lhe dissesse que os dias se tornaram rasteiros ou lentos, no compasso de nossos passos? Que meus passos espreitam os teus, que meus braços pedem os teus? E se eu lhe dissesse que toda a verdade solta à pele, que falo e de minha boca cai líquido desejo?... porque há em ti um vento frio que me acolhe e me chama e me diz que o sol que arde lá fora é momentâneo e só nós eternos, desde que, veja bem, desde que meu corpo esteja próximo ao teu e eu entendo que existe, sim, existem oásis de verdade, um deles és tu.
 
E se eu lhe dissesse que não somos dois, somos um?
 
 
 por Suzana Guimarães

sábado, 22 de setembro de 2012

CARTA PARA LUNNA


Imagem retirada da Internet, por Dulcie Duda, que conhece a arte da delicadeza.



Los Angeles, 21 de setembro de 2012.
 
Querida Lunna,
 
Esta carta começou ontem, mas ficou apenas na data. Minha filha me chamou para brincar. Brincamos por três horas e ela não se deu por satisfeita. Convidei meu marido para me substituir, meus olhos estavam pequenos, semi-cerrados de sono... tomei um banho e fui dormir.
 
Estamos em total sintonia. Eu me ardo neste deserto que é a Califórnia. O sol castiga sem dó. No céu azul límpido nenhuma nuvem, sequer um risco. Os pássaros se escondem. Até os corvos procuram um pedaço de sombra e aqui não há árvores frondosas para nos aliviar. Elas são pequenas, raquíticas, quando não são palmeiras e coqueiros, altos e alheios. Do chão, parece brotar fumaça; o mar, ao lado, traz algum vento, mas, quanto mais para o interior, mais sufocante fica e a faculdade onde estudo fica distante dele.
 
A sede é uma constante e meu interior caminha em sintonia, eu ando ardendo e doendo, um fósforo encosta-se em meu nervo. Fugir para o passado ou para o futuro é impossível, tanto quanto escapar desse calor dos infernos.
 
Insatisfeita? Não, não estou. Decepcionada, sim, bastante. Você escreveu: "Fecho os olhos e só vejo paisagens. Tudo esbranquiçado. Aos pedaços. Nada me pertence e talvez nem mesmo a você." É o que estou. Andei forçando a miopia para não enxergar, mas a verdade sempre força a porta. E ela andou batendo na minha cara inúmeras vezes e, inúmeras vezes, eu fingi não perceber o tapa, o choque, a sensação de fim. Bateram portas na minha cara e eu andei dizendo que tudo entendia. Mania de ser Pollyanna!
 
Daí, me fiz silêncio, passo leve e curto. Às vezes, bate certa raiva e eu esbravejo, solto minhas ironias, sacudo, debocho. Mas, dói assim mesmo, vingando-me. Porque o que me machuca não é ímpar, não é singular, é um plural de gente, de fatos, e, inclusive, de obrigações.
 
A menina, que às vezes gostava de brincar sozinha, grita dentro de mim, pede ar, pede espaço. Eu queria dar as mãos, fazer roda, cantar junto, acompanhar, mas não posso, não consigo, independe de mim, ando só, por desgosto. E nele fico e aceito, abraço-o, pois não sou a cara do palhaço, de sorriso aberto e colado, eterno, para sempre, mesmo que entre lágrimas e dor. Não sei ser assim.
 
Sou o silêncio que ouço enquanto caminho do carro até a minha sala de aula, sob sol que machuca. Sou o sufocamento que sinto quando entro no carro quente e abafado.
 
Minha amiga, é preciso tempo, não o mesmo tempo que espero para que o ar condicionado do carro faça algum resultado, mas aquele que não se conta, por medo de se sabê-lo infindo.
 
Um abraço,
 
Suzana
 
Por Suzana Guimarães

       para www.lunnaguedes.wordpress.com

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

QUE SEJA CALMA

 
 
Imagem retirada da Internet, na delicadeza da colheita, por Dulcie Duda
 
 
Que seja calma a música que toca, em som baixo, para não despertar mais nada... que sejam silenciosos os passos, os sentidos e as batidas do coração. É preciso adormecer. Que as vozes não façam eco, não reverberem, apenas completem os espaços entre os vazios do silêncio, só o bastante necessário.
 
Que tudo se guarde, se acalme, seja raso, seja lento, seja nascituro, tudo ainda imbuído no ventre. Que o momento seja este: aquele em que o ponteiro parou. É preciso adormecer.

Por Suzana Guimarães

terça-feira, 31 de julho de 2012

RECADO


(Imagem retirada da Internet, na arte de colher belezas de Dulcie Duda)


Hoje, eu sonhei com você. Você estava vestido de branco. Apenas não sorria. 
Eu também não, quando penso em você. 

Saudade não faz sorrir.

(por Suzana Guimarães)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A CERTEZA DO FIM


(Suzana Guimarães por LRMeneghini)


                                                           
Ele me perguntou em três Línguas se eu estava pronta. E, em três Línguas, perdida, eu pensava em malas, bagagem, bolsa de mão. Nunca fui aquele tipo de pessoa que faz a mala, coloca-a no alto do velho guarda-roupa, senta e espera. 

Ele me perguntou em três Línguas para ter certeza da comunicação e eu disse que não. "Cedo demais" , respondi. Ele insistiu, não queria saber da bagagem, queria saber se os meus sentimentos estavam prontos.


Meu Deus! Se ele falasse discursos seria fácil, mas ele se expressa em frases sem par! Quais sentimentos? Do que ele falava? Em que tempo verbal? O que ele quer saber que eu nem sei? 


Sou estranha em minha própria cama. Desconheço as ruas que pisei infinitas vezes. Sou um corpo bem disfarçado de real no meio da praça. Nela, passei mil vezes mil meses. Os rostos que passam por mim são quase os mesmos, mas eu sou um corpo desconectado, a mais ou a menos, alguma coisa não mais adequada ao ambiente. Eu ando, sento, espero, olho, falo, respiro o ar e sei que hoje é o presente. Vasculho o passado. Nada encontro. Nem pó de lembrança viva, tudo remoto e distante, visto do alto de um satélite. Sim, claro, não me tornei desmemoriada, sei onde estou e sei o tanto que caminhei, mas meus olhos mal enxergam. 


Se ele pudesse me ouvir, eu gritaria que tudo é mais real para ele que para mim, ele que nem sabe de mim. Eu queria sacudi-lo. Sou uma estranha na praça. Como alguém pode andar por antigas conhecidas ruas se sentindo ficção? Virei um filme de mim mesma. Assisto às cenas e nelas vejo apenas a informação de que por ali passei. Há votos de boas-vindas. Há mesa farta à minha espera. Contudo, eu não voltei mais, mas, por ser a criadora da história, retornei para checar. Não, não creia no que todo mundo pensa ver. Conferi o resultado e eu realmente não voltei. Fui embora para sempre.

Eu não sabia que podia tanto...


No meio da praça, descobri a resposta para ele: é preciso a certeza do total desconhecimento do lugar, fato, pessoa ou coisa, para se dizer enfim acabou. A certeza da estranheza no ninho é a prova do fim, exigência de recomeço. Vesti o vestido por longos anos, dormi e acordei com ele, acreditei muito e desacreditei o mesmo tanto, criei fantasia e depois eu mesma a matei sem dor ou nostalgia. Acordei em cores fortes ou desbotadas, quase mortas, e dormi inúmeras vezes pedindo a Deus alguma cor. 


Hoje, na praça, o vestido se mostrou totalmente estranho, nunca visto. Eu realmente o vesti? Ele parece irreal, de alguém magro, magro, deitado esparramado na cama. Eu o olho, tão feio! 



Ele perguntou se eu estava pronta para a jornada. Eu queria sacudi-lo, de raiva, de amor, de ódio, e dizer a ele que, eu fiz as malas, mas as esqueci no lado esquerdo do corredor que leva ao quarto. Em cima, uma caixinha de lenço de papel esperando uma pessoa que passaria correndo, em lágrimas, para pegá-las, levá-las, e com elas retornar... 


Eu queria responder à pergunta que ele fez: a caixa de papel tornou-se inútil.

Por Suzana Guimarães

terça-feira, 26 de junho de 2012

EU ANDO NO ESCURO


(Suzana Guimarães por LRMeneghini)

Minha avó era pequena. Ela se esticava toda para pegar as coisas nos lugares altos, dizia que era preciso alongar, forçar o corpo para não atrofiar de vez. Eu ando no escuro para viver um pouco um mundo à parte, que não domino. Vasto mundo, esse. No escuro, raramente acerto no primeiro movimento, mas nem por isso corro atrás da luz. No escuro, eu sinto mais, calculo o passo e o dou, não fico apenas na expectativa dele. No escuro, o mundo parece se encolher e ao mesmo tempo se perder de mim e eu dele. É um exercício que faço. Minha avó se esticava, o que não aumentou o seu tamanho, mas lhe deu um certo jeito, uma boa flexibilidade para se virar sozinha, aos 80. Eu ando no escuro, para saber até onde podem ir meus braços, e, percebo que eles podem ir longe e facilmente, mas é preciso cuidado e uma certa calma, além de determinação. Mais fácil seria acender a luz. Mais fácil pegar a fruta na fruteira. Mas, cadê a fruteira? É preciso fazer esforço, o que a maioria não quer. A maioria quer maçãs caindo em acasos, quer saber o número do bilhete premiado. Se eu sonhasse para você, você seguiria as diretrizes, você diria sim? Não adianta sacudir o vidro do remédio antes de tomá-lo se você não tem disciplina para ingeri-lo, não adianta você sacudir a sua vida, se você não sabe o que fazer com ela.

por Suzana Guimarães

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O inesquecível dos amores é aquele que acontece sem estardalhaço, que cozinha em fogo brando, sem alarde.

Suzana Guimarães - arquivo pessoal

Você ainda me ronda e eu a ti. Vêm os sonhos, lembranças inoportunas nos dias singulares. Vêm recordações, recortes do longo tempo de um amor calado. Talvez seja você quem se senta à beira da minha cama e tenta me dizer mil coisas, mas, se vai, desesperançoso de minhas respostas, pois eu durmo e eu me assusto e eu não gosto de vultos, mesmo que de amor.

Sonhei com você, noite passada, e por isso, só por isso, um simples sonho, eu irei carregá-lo pelo dia que segue, irei recordar tudo o que se foi. Às vezes, até paro para lembrar melhor, para captar mais forte... No sonho, o mesmo você. Meus amores se desbotaram ou perderam o feitiço. Alguns, nem reconheço e me pergunto se eu gostei mesmo, se foi tão intenso como parecia ser; hoje, tudo feia carcaça. Mas, você... Você se mantém, nem belo e nem feio e muito menos útil e eu que tanto admiro a frase do poeta*, pergunto-me a razão de você ser assim para mim, uma permanência, e isso é muito.

A música diz "você foi o melhor dos meus erros", sim, você foi. Eu fui a tua maior coragem e você, o maior e melhor dos meus desacertos.

Tenho 45 anos, e tenho certeza de que, aos 70, diante do mar, sentada, sozinha, lembrando, revivendo a minha história, eu vou me lembrar de que fui capaz de ultrapassar linhas divisórias, fui capaz de quebrar regra, ignorar normas, enlouquecer serenamente, por um dia e um pouco mais, e que isso foi e será um de meus orgulhos e você me ajudou a protagonizar isso, essa façanha, esse gostinho de que sou humana e cometo erros e que um erro pode ser uma bênção.

Sou quase um cálculo, eu me fiz, eu fui me fazendo, alguns ajudaram, outros, não, poucos construíram junto, e eu consegui manter tijolos internos quase que bem alinhados, quase que bem aceitos por mim mesma... e você sabe que eu calculo, apesar de ser péssima em matemática - isso, eu não sei se você sabe.

Mas, você não é um número a mais ou a menos, você não é conta que se faz, matemática que se apaga, ou talvez, somos nós dois juntos que resultamos tão bem! Você não multiplicou em mim, nem dividiu (nem isso!), jamais subtraiu, nunca pensou em somar, não foi incógnita e nem questão fácil. Você não foi o número zero, e não é sequer meia dúzia deles. Você é um número permanente, fixo, que carrego comigo porque quero, que não esqueço porque seria tolice.

Talvez, você não seja todo este texto que lhe dedico, e eu apenas o contenho por ter aprendido a difícil arte de amar sem esperar algum troco, entendi que amar alguém não significa somar e subtrair (essa conta é caminho certo para o desconforto), mas apenas resultar. E, hoje, você resulta para mim como resultou tantos anos atrás, naqueles inesquecíveis dias, inclusive naquele momento presente, existente, nem um dia a mais ou a menos além daquelas horas que batiam ao nosso lado: meu melhor erro.


Por Suzana Guimarães

* A frase do poeta John Ruskin, "não toleres aos pés de ti, nada que tu não aches belo ou que não lhe sejas útil."

terça-feira, 19 de junho de 2012

A COLECIONADORA DE REMÉDIOS E O HIPÓCRITA.

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


Conheço uma mulher que coleciona remédios. Ela tem vasto estoque em casa, todas as caixas devidamente etiquetadas com seus prazos de validade à vista, lindamente organizadas em caixinhas de plástico transparente. De tempos em tempos, ela vai lá, dar uma olhada, conferir, viver o momento especial, aquele em que ela se sente orgulhosa de si mesma por ter à mão o remédio que, por acaso, poderá vir a precisar.

Tem gente assim, mas que faz o mesmo com pessoas. Coleciona gente. De vez em quando, na certeza de estar passando despercebidamente, dá uma olhadinha no outro, faz um agrado, envia uma carta amorosa, envia flores, fala que a relação atravessa tempo e estrelas... um pouco antes, ou um pouco depois de não responder a chamados, não se ocupar da pessoa de forma devida e amiga. Não carrega malas, não chama um táxi, não convida para passear, não mostra a cidade, não faz turismo de amizade - todo mundo sabe que mostrar aquilo que se vê todo dia é uma chatice -, corta a fala da pessoa, interrompe, alegando pressa, muito trabalho, uma correria só.

Há muitos remédios para se conferir, há sempre pouco ou nenhum tempo e um conjunto de mentiras! Quem dera fosse uma mentira apenas, pois, uma, convence, mais de duas, fica ridículo.

Há uma gente sempre muito ocupada, que trabalha pra caramba! Há remédios ocupando espaços, mas é preciso ter todos, para os casos de necessidade, um remédio salva, ou, pelo menos, é panaceia.

Há também um prazer oculto: o de se saber possuidora do lenitivo, da cura, daquilo que irá lhe dar de bandeja a realização de desejos, uns dias de pouso, um mapa bem explicado, alguém para desabafo ou risadas; o prazer incomensurável de se sentir possuidor de alguém.

A mulher que adora sua coleção de remédios pensa que ninguém sabe, mas todo mundo sabe. A pessoa que coleciona gente também pensa que ninguém percebe, principalmente a sua vítima do momento, mas é puro engano.

Os atos e passos do amigo de verdade são tal qual um dia claro, meio-dia em ponto, não há sombras. O amigo de verdade é amigo porque é, não mascara, não precisa, não justifica, já que a consciência não lhe pesa, ele não precisa puxar o saco.

A mulher dos remédios é uma coitada, com certeza, solitária, doente, perdida, carente. O colecionador de gente é um ator de teatro muito medíocre que pensa agradar a plateia, que pensa convencer.

Eu dispenso em minha vida, ambos, a colecionadora e o charlatão. Prefiro pessoas naturais, que fazem uso mediano das palavras e dos agrados... não suporto gente que brinca com o poder que pensa ter, que se convida sem convidar antes, que não é capaz de lhe dizer meia dúzia de palavras, precisadas ou não, naquele momento certo e bom, mas que depois lhe cobra um discurso inteiro. Não suporto gente que me tolera. Não quero tolerância de ninguém, quero o devido afastamento. Não aturo pessoas que sempre estão precisando de ajuda e pensam que ninguém mais. Não tolero o uso indevido das palavras amor e amizade.

Eu queria que as pessoas tivessem consciência do quanto são transparentes todos aqueles sentimentos feiosos, escondidos debaixo do travesseiro, que fazem roer as unhas, que doem o estômago e os olhos. Eu sempre quis muita coisa, e esse é mais um de meus desejos absurdos, pois, assim caminha a humanidade, já disse alguém, um dia.


por Suzana Guimarães

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Há um quê nos outros que me desgosta e cansa.


(Suzana Guimarães por LRGM)

Há um quê nos outros que me desgosta e cansa.

Suzana Guimarães

segunda-feira, 4 de junho de 2012

LEMBRAR É POUCO

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


Eu me lembro de você. Não fique triste por isso e muito menos feliz. Apenas me recordo, da mesma maneira que me lembro da Iolanda, conhecida da minha mãe, uma mulher infeliz com o marido, ele batia nela e eles tinham um filho. O quarto do menino era delicadamente decorado, ela era dedicada. Eu tinha 12 anos ou menos, ouvia as palavras da minha mãe para ela, palavras inúteis pois Iolanda não se defendia, não lutava, não ouvia ninguém, até que um dia já não pôde fazer mais nada, mesmo que quisesse, morreu.

Eu me lembro de você, assim como me lembro da Telma, já grande, no colégio, fazendo xixi na calça, parada, com o rosto vermelho, envergonhada, assistida pelas freiras e pelo pai que chegava às pressas para buscá-la. Eu me lembro da cena.

Lembro-me de outra menina, é claro, trocarei todos os nomes, a essa darei o nome de Bela, lembro-me de seu cabelo ruivo, das sardas, lembrei-me dela por anos, sem qualquer motivo, ou talvez, o único, o irmão dela parecia ter problemas para andar. Aquilo incomodava a menina observadora que eu era. Bela se viciou em drogas. Está num hospício há mais de 15 anos, pois, aos vinte e poucos tentou matar o irmão.

Eu tinha uma fileira de meninas para lembrar por lembrar, pois, sequer chegaram a ser minhas amigas. A cidade era muito pequena, o colégio e o nosso mundo. Fiquei sabendo que Alexandra morreu aos 32 anos de infarte e a Lidiane, aos 30, também, pela mesma razão. Leontina misturou insulina com droga e deixou a vida aos 17. A menina popular, que cantava numa banda, foi internada como louca num sanatório, porque se envolveu com drogas e se assumiu homossexual. Após um tempo, a família permitiu que ela voltasse para casa, agora, sim, louca, de tanto choque que levou. Quase tive uma crise histérica ao telefone, ouvindo a preleção de Mariana (que encontrei no Orkut), fiquei abismada com o rosário de desgraças. Lembrei-me dos retratos 3x4 guardados em minhas caixas, com dedicatórias, recebidos das colegas. Sim, meninas, apenas meninas naquele colégio.

Lembro-me de você, sem muito alarde, sem muita graça ou desgraça, mas lembro.

Quando penso na precariedade da vida, penso na minha, e, aliviada, agradeço a mim mesma, por tudo que fiz e vivi. Tudo pouco, nunca fui de me lambuzar até o enjoo, mas tudo pleno. Evitei as loucuras e a ignorância, porque eu me lembro também do meu pai dizendo que ele só tinha medo de dois tipos de pessoas: dos loucos e dos ignorantes. E ele estava certo.

A ti, ofertei o melhor de mim, sei que, junto, foram coisinhas que você talvez não tenha gostado, mas que tenho certeza, hoje, fazem falta em teu mundo. Eu alegrei os teus dias com meu riso, bom humor e uma certa falta de horário; com meu amor escancarado, meus conselhos, minha atenção, minha presença certa - você sempre soube que haveria um retorno, uma resposta, uma volta.

Hoje, estou calada e assim permanecerei. Não sou de loucuras, repito, e qualquer passo ou ato seria me lançar na vertigem do desassossego. Sou de doideiras mansas, aquelas que não fazem mal a mim e a ninguém, só mostram que a vida pode ser bem mais interessante.

Sou teu desejo de voo, sou decisão. Sei viver bem dentro do não e do sim. 'Talvez', 'acho' e 'não sei' me irritam. Nunca lancei moedas na fonte dos desejos. Não construí castelos. O pouco que idealizei para mim, não aconteceu, mas, ganhei muito tudo o que nem imaginei, e, cedo, percebi que o segredo era castrar a vontade.

Lembro-me de você e percebo que eu perdia naquele jogo o tempo todo - um jogo que eu nem sabia estar jogando - como nem sabia estar observando a Iolanda, a Telma e tantos outros. Sou crua nos sentimentos, vejo-os como se apresentam para mim. O tempero e o cozer sempre caberão ao outro. Faltou a você, o sal, a pimenta, a mostarda. Faltou a você, mãos decididas, sou mulher, e você só sabia pensar, grande erro. Mulheres esperam ação dos homens, biologicamente já é assim. Ah, isso me lembra as aulas de Direito Penal e o professor dizendo ser impossível um homem ser estuprado, poderíamos falar em várias outras condutas abusivas e delituosas, mas nunca em estupro. Ele dizia, "se ele não quiser, o órgão sexual não funciona, gente, não funciona mesmo!". É, lembro-me sempre dessa época boa da minha vida, incomparável a qualquer outro momento como estudante, mas não sofro, assim como não sofro por você e por todos os homens sem mãos que conheci e que desconhecem o valor de um tempero.

Lembro-me de tudo, da roupa da minha primeira comunhão, do nome que ninguém se lembra, da palavra presa na ponta da língua e que não sai, de tuas palavras e de você. Nada me angustia porque conjuguei todos os verbos e cantei a tabuada inteira, não errei o discurso de saída e muito menos as boas-vindas.

Mas, lembrar é pouco, a mim, não basta, é o mesmo que ir ao cinema, basta na hora e um tempo depois; mais tarde, vira uma contação de caso, igual a essa.

por Suzana Guimarães

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Trinta dias não é nada, é só um punhado de tempo; é tudo, é só um punhado de bem pouco.


Trinta dias é o tempo que corre entre meus dedos e a flor com a qual enfeito teus cabelos. Trinta dias é o tempo que espero por um telefonema e o relógio só conta um dia todo. Um mês, trinta dias, é o tempo que não se conta, quando se espera. Ah, tempo!, graças tantas oferecidas, pois não mais me aflige o tempo do aguardo, pois aprendi com você, tempo, a gozar dentro deste espaço tão alto, tão baixo, tão rápido, tão curto e pouco... danço tua vulnerabilidade implacável.

Na prisão, no hospital, no caminho de quem se perdeu, o tempo não passa, materializa-se na dor do momento. Mas, há um tempo diferente, aquele que não se conta por ser ele dono de si mesmo e ao mesmo tempo amigo arteiro. Ele caminha em linha reta, mas lhe dá a sensação de que bem pouco ou bastante, com lágrimas ou risos, em dias claros de sol a pino ou em chuva que não para e mais um respirar teu que pode ser trinta dias respirando, e, você alcançará a estrela mais brilhante, pouco importando se pra sempre ou só agora. Ele lhe dará tua flor, e você sorrirá feliz, antes e durante, mas você precisa esperar.

Esperar, esperar, esperar. Aprendi. Não mais me doem as juntas invisíveis do corpo e da alma, não caminham líquidos venenosos pelas minhas veias, não perco o rumo, não me desespero, não tenho ânsias de grito e nem de clausura, posso contar um dia após o outro, em espera, na espera. E posso fazer festa com minhas aflições fugidias. Eu posso ser assim porque fui abrindo os braços devagarinho, quase que imperceptivelmente até eu abraçar-me toda. Quando fechei os braços em mim, em meu corpo maltratado por minhas incertezas e por golpes alheios, eu me vi, me conheci, reconheci. Sorri para mim mesma, assim como faço hoje ao contar regressivamente trinta dias.

Trinta dias não é nada, é só um punhado de tempo; é tudo, é só um punhado de bem pouco. É o tempo que eu poderia desprender absorvendo teus olhos nos meus, tocar a ponta de teus dedos, te puxar para mim, tirar tuas vestes - ah, eu gastaria trinta dias...; mergulhar meu corpo no teu e nadar, nadar, nadar até morrer na praia. Eu morreria trinta vezes trinta na beira da praia, sorrindo, olhando o mundo e toda a sua gente, gentilmente.

Cem anos foi muito. Três anos, bastante. Trinta dias é o tempo que existe entre os dois.


por Suzana Guimarães 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

QUAL O TEU MEDO?



Adriana sofre um longo tempo antes de viajar de avião. Na viagem, ela não ingere líquidos. Adriana morre de sede e vontade. O cara ao lado dela derrama coca-cola pela boca. No avião, ela não usa o banheiro, ela tem medo de fazer xixi no banheiro apertado da aeronave, mesmo que a viagem dure quinze horas ou mais. Miguel é engenheiro. Ele não assina documentos em frente aos outros, e, por isso, evita reuniões. Sandra não come em público. Carlos deixou de visitar o melhor amigo no hospital, em seus últimos instantes de vida, porque não entra em elevador. Há quem tenha medo de aranhas, baratas e eletrodomésticos.

E você? Qual o teu medo? Não se encabule se você esconde algum, mas também não ria, se você for a própria coragem em pessoa. A espécie humana só existe porque teve e tem medo. Foi o medo que nos preservou.

Adriana é uma profissional realizada, tem marido e amigos. O seu medo por avião não afeta a sua vida. Miguel é um dos sócios de uma empresa de engenharia, deixar para assinar os documentos em casa ou sozinho em seu escritório não prejudica em nada a sua profissão. Sandra deixou todos os seus familiares e amigos cientes de que ela está sempre de dieta e, em casa, come sem mastigar, com voracidade. Carlos perdeu várias chances de ascensão profissional e até o amor da sua vida porque ele não entra em elevadores. Carlos evita ao máximo, e, quando não consegue isso, sofre antes, durante e depois do passeio na caixa quadrada. Sofre depois, de vergonha de si mesmo.

Evitar o contato com insetos, bichos, eletrodomésticos e esportes de risco é fácil e não muda o destino de ninguém. Evitar o medo de ter medo é penoso.

Carlos sente medo só de pensar em estar num elevador. Por isso, sua vida é toda calculada em cima disso. Ele faz previsões, investiga antes, dispensa com facilidade, não conta para ninguém porque se sente ridículo por sentir medo de algo tão corriqueiro, que todo mundo faz. Carlos, em algumas ocasiões, se prepara antes bebendo vodca, porque a bebida, além de acalmar, não tem cheiro. Ele carrega uma garrafinha no bolso do paletó. Mas, pouco adianta. O medo lhe alcança bem cedo, ele sente calor excessivo, treme as mãos, a sua mente fica perturbada, confusa, ele não consegue conectar os pensamentos. Ele só pensa em fugir ou terminar logo com aquilo. Carlos é de bem com a vida, seria plenamente de bem se não existissem elevadores. Ele tem um bom emprego, amigos, é um cara socialmente muito bem visto e querido. Ele namora. Ele tem planos para o futuro, mas tudo precisa estar abaixo da altura de quatro andares. Às vezes, ele sobe todas as escadas de um prédio de onze andares, mas nem sempre isso é possível, e há muitos arranha-céus na cidade onde vive.

Ele já pensou em mudar de endereço, morar na roça ou numa cidade bem pequena, mas ele não pode, tem medo de mudar seu 'status quo'. Ele já pensou em procurar o seu grande amor, contar tudo a ela, mas ele não pode, ele não consegue. Carlos sofre em silêncio há uma década. Sabe ao certo quando tudo começou, o primeiro dia de horror, de medo, quando se sentiu desconfortável e tonto dentro de um elevador que subia muito rápido e, de repente, parou e ficou entravado entre dois andares. Quando o socorro chegou, as pessoas presas pularam para fora, com ajuda do porteiro do prédio e do técnico, chamado para o conserto. Carlos não quis pular, sentia-se tonto, tudo rodava e ânsias de vômito o deixavam envergonhado. Após o ocorrido, Carlos seguiu em frente, chegou a se esquecer do mal sucedido, até que num dia comum, sem explicações possíveis, dentro de um elevador que subia para o vigésimo quinto andar, ele começou a sentir medo.

Carlos evitava elevadores, depois, passou a evitar aviões e o medo, tão pequeno no começo, agigantou-se. Hoje, ele tem seu próprio e tímido negócio, largou seu trabalho numa grande empresa multinacional, tem uma namorada que não lhe atrai muito, mas nunca faz perguntas e mora no primeiro andar de um prédio de três níveis. Ele deixou seus sonhos num canto de sua vida, faz de tudo para esquecer e se sentir bem, mas ele não é a Adriana, nem o Miguel e sequer a Sandra. Ele é ele próprio, igual aos demais, mas ele tem um problema, uma doença, e ele precisa de ajuda, mas, para Carlos, medo é apenas motivo de riso ou desprezo.


por Suzana Guimarães



Nota: texto a ser publicado na Revista MOSTRA PLURAL, em 30 de maio de 2012. Por erro meu, publiquei esse texto no Facebook, hoje. Nada mais podendo fazer a respeito, fica aqui também registrado.