domingo, 22 de agosto de 2010
silêncio
silêncio... silêncio
minúscula folha da árvore voa
barulhinho rápido
silêncio... silêncio
aquela bica, aquela bica persiste na memória
vejo filete batendo em pequenas pedras
silêncio...
geralda fumando cigarro de palha
olhando o céu
silêncio
eu olhando ela
ela olhando o nada
silêncio... silêncio
vô e eu chupando manga
a água da bica passa por lá
silêncio...
desnecessárias palavras
desnecessárias.
silêncio
ploft
mais uma manga no chão
"prefira as do pé",
ele dizia.
hoje:
silêncio...
nos corredores do palácio
pela impossibilidade do saber
eu pedi
na certeza do pedido
eu jurei
silêncio
eu não vou quebrar
dom me ouviu
e eu não posso mais negociar
silêncio...
ontem:
silêncio... silêncio
o corpo no balanço vermelho
nhec....nhec
silêncio
o corpo não pensa
o corpo não ama
o corpo sozinho
nada quer
o vento passa
na varanda florida
os meninos passam
a vó passa
a campainha toca
eu, invisível
silêncio... silêncio
por Suzana Guimarães
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
MEU TIO MORREU DE AMOR
| (fotografia, por SCG) |
Meu tio morreu de amor. Eu não quero morrer de amor, mas quero morrer amando. Amo mais o amor que o amado. Amados são vários, passam. O amor é que me faz leve, tranquila ou sobressaltada. É ele que justifica eu tão abstraída, parada num trânsito caótico, esperando ser atendida pelo médico, numa viagem longa que não termina nunca. O amor me faz permanecer na fila de um banco o tempo que for, sem nem perceber. É ele que me distrai quando estou no supermercado, fazendo compras, lavando o carro, limpando a casa. É ele que me faz aturar aquela festa chata, aquela gente chata. O amor tira os meus pés do chão. Há quem tenha medo dele, eu não. Nem um pouco. Há quem diga que amar faz ferida, deixa cicatriz, mágoas, mágoas... pode até ser. Mas há tanta coisa nesta vida que faz o mesmo em nós e nem por isso ficamos nos esquivando delas, pois esquivar do amor é dar as costas para a existência. E a relatividade das coisas? Existe. Um mês para mim de férias, quer seja numa linda cidade praiana ou com neve, exausta-me, cansa, passo a pensar na minha cama, no meu quarto, minha mesa, minha cozinha. Tudo na vida faz bem e faz mal. A mesmice cansa, o mesmo gosto, entedia. O amor não se exclui de nada, balança-se também na relatividade das coisas. Hoje, muito bom, amanhã não.
O bom é o gosto do amor. É você tomando refrigerante num dia quente e abafado. É você saboreando um pedaço de chocolate, em um canto bem escondido da sua casa, para não ter que oferecer - ou o pior, dar - um pedaço para alguém. É quando você mergulha fundo na piscina e sai, lá do outro lado, e respira. O seu amor é seu. Bom, o meu amor é meu e a ninguém devo satisfação. Creio que nem Deus quer saber, nem Deus quer que eu me explique sobre o gosto que sinto.
Se o amado vem por um ou dois dias apenas, se não vem; se ele me traiu, se ele me abandonou ou nunca quis saber de mim, problema meu também. Sou eu quem tem a obrigação de saber lidar com isso. Sou eu quem tem que alargar a visão, esticar o pescoço e olhar em volta. Já chorei muito por amados, mas, na maioria das vezes, veio outro, claro como um dia, e desviou a minha atenção. Enquanto o amado feio não me queria, outro enlaçava-me e carregava-me nos braços. Então, para mim, pouco importa a duração do amor, ou o tamanho dele. O que importa é que, um dia - eu sei que às vezes demora - irei me lembrar daquilo que vivi e pensar que bom que vivi. O que não quero é passar a vida na secura dos meus gostos e dos meus pensamentos. Quero matéria para aguardar sentada e quieta à uma consulta numa sala de espera. Eu quero ótimas razões para tirar e colocar o carro da garagem vinte vezes ao dia, naqueles dias quentes, cansativos, chatos.
Quero o devaneio a que o amor nos leva. Sou eterna apaixonada dele, do amor.
Quando falo de amor, não estou falando de sexo. Sexo pode ser uma consequência dele ou não. Sexo para mim é uma ótima forma de relaxamento. Amor e sexo não são palavras sinônimas. O sexo é igual ao amor que pode acontecer quando você menos espera. O sexo também traz a leveza e pode, inclusive, trazer um amor daqueles que a gente não vai esquecer nunca. Mas, o sexo dura o tempo dele e só. Quando termina, você ainda fica um tempo sentindo lassidão, toques, arrepios tardios, mas tudo se vai rápido. Você se levanta para cuidar da vida ou dorme. Bem fazem os orientais que preferem estender ao máximo as preliminares. É melhor mesmo, gastar tempo e energia nesse momento, pois após o gozo, você acorda. Acorda e se sente realizado, sai deslizando atrás de comida na geladeira - se não for dormir ou cuidar da vida. Mas pode ser que acorde também e se lembre que deixou algo em casa e precisa ir buscá-lo. Nem sempre o sexo pode acabar bem. Aí, nesse ponto, ele também se parece com o amor pelo amado. Mas, amor você curte sozinho, saboreia o refrigerante na sua mais plena forma, você, um ser único, individual, um ser um, mesmo que em lágrimas. O sexo não lhe traz isso, você tem que fazer mais sexo, senão você acaba por esquecê-lo (conheci muitas pessoas que já nem se lembram mais do que se trata). Você pode carregar o desejo pelas ruas afora, ir ao banco com ele, assinar contratos com ele, mas você carrega não o sexo em si, você carrega a vontade de fazê-lo e imagina preliminares, imagina-se rolando nas brasas do fogo. Os bons desfechos não vêm garantidos.
O amor pelo amado também não garante nada. Mas o amor, sim. Eu não quero morrer feito o meu tio, mas da mesma forma que muita gente precisa do sexo - inclusive eu - para sentir areias se revirando ou aviões decolando e aterrisando dentro de suas barrigas, eu preciso do amor para alimentar a minha alma. Ele me garante que estou viva, que sou um ser que brilha e não uma nuvem no céu, daquelas insignificantes que nem medo e nem chuva fazem.
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
APANHADORA DE SONHOS
Texto de Valéria Sorohan
"Eu acredito em sonhos!
Eu acredito em chão
que se cobre de estrelas,
em fecundação da vida,
em precipícios
que se transformam em céu.
Por isto insisto
nos meus finais felizes.
Tenho como certo
que tudo recomeça
a cada instante.
E pactuo
com o amanhecer,
a esperança de saudar
um novo dia."
Apanhadora de sonhos,
Pegue os meus, por favor, por amor, e embale-os para mim. Embale-os em seu braços, embale-os para outros braços... Veja para mim, se o chão estará mesmo coberto de estrelas. Quero-as todas!
Suzana
Clica no endereço abaixo para você conhecer a Valéria:
http://rasurassobreviventes.blogspot.com/
sábado, 14 de agosto de 2010
SEM TÍTULO
Estou aqui, sentada na minha cama (enorme exceção que faço, pois, ou fico em minha mesa ou recostada no sofá), com o laptop no colo. Os olhos embaciados. O corpo parado, apenas os dedos se movem no teclado. Olho fixo na tela, mas os pensamentos infinitamente distantes, não de vocês. Eles fazem uns giros para trás, e reencontro-me, a menina magra, magra, que só tinha cabeça e joelhos. Que ria o tempo todo, apesar do eterno olhar tristonho. Ria tanto que fazia xixi nas calças. Eu era doce e silenciosa, mas desde cedo percebi que na infância também encontramos meninas e meninos maus. A pouca idade não poupa muitos da maldade. O que eu fazia era me esquivar, mais silenciosamente possível ou chamar para a briga - ninguém nunca aceitou. Eu já tinha o meu mundo
e para ele ia. Comprava água mineral gasosa, e elas vinham em garrafas escuras, de vidro. A mercearia ficava ao lado da minha casa e eu ia lá sozinha, fazer a minha compra, mandar colocar na conta do meu pai. Ia para a varanda da minha casa, sentava sozinha numa cadeira de madeira, em frente a uma mesa puxada de dentro da casa, tudo debaixo de uma samambaia que chegava ao
chão - tentativas de me esconder - com a única finalidade de tomar a água que fervia, em paz (com
certeza, eu sempre gostei de tudo que ferve).
e para ele ia. Comprava água mineral gasosa, e elas vinham em garrafas escuras, de vidro. A mercearia ficava ao lado da minha casa e eu ia lá sozinha, fazer a minha compra, mandar colocar na conta do meu pai. Ia para a varanda da minha casa, sentava sozinha numa cadeira de madeira, em frente a uma mesa puxada de dentro da casa, tudo debaixo de uma samambaia que chegava ao
chão - tentativas de me esconder - com a única finalidade de tomar a água que fervia, em paz (com
certeza, eu sempre gostei de tudo que ferve).
Depois, virei moça e odeio me lembrar desta época. Pulemos.
Hoje, estou aqui, lendo os comentários que recebo, presentes. Quando a menina virou moça, de tão esquisita ganhou muitos rótulos e ela teve que aprender a ser camaleoa e teve que abrir o armário do quarto e se enxergar no espelho. No espelho, não via nada que lhe agradava. Mas de tanto insistir, com o tempo, passou a descobrir as pedras brutas que poderia lapidar a fim de ser um ser incrustado de olhos de mosquito de diamantes, mas sem se importar com o tamanho da pedra lapidada, apenas se importando que havia conseguido catar alguma coisa, pontos brilhantes em si, que poderiam até ofuscar. Não. Não havia a intenção de concorrência, nem de anular alguém, era apenas uma arma carregada nas costas, feito aqueles agentes da polícia, aqueles chamados apenas para operações especiais, que passam por nós, empunhando armas pesadas, e a gente não sabe se o charme está neles ou nas armas tão ostensivas e imponentes. Talvez, apenas fetiche meu e ninguém sinta isso. Feito o prazer que sinto vendo o homem da câmera filmadora que nem sabe por onde pisa e segue sua presa com persistência, tenacidade, se levantando, se abaixando, se torcendo todo para filmar os melhores ângulos e nada mais vê ao seu redor. Sinto comichão por esses homens e nem sei se sentiria se faltassem as armas ou a câmera.
A moça procurou e se encontrou porque sabia que ninguém mexeria um dedo por ela.
Hoje, enfim, mulher. Uma mistura de cansaço com infantilidade. A criança que ria até fazer xixi nas calças, ainda permanece, apenas se controla, os anos ensinam.
Agradeço a todos que me agradecem e reconhecem minha sensibilidade, que venho carregando a duras penas. Hoje, já não sei onde termina eu e começa vocês que leem melhor que eu mesma, meus próprios textos. Vocês sempre reagem além do que eu esperava. São vocês que carregam sensibilidades, talvez eu tenha carregado apenas cargas. Mas, hoje, as cargas viraram plumas, me deito nelas, de tão macias, amaciadas por vocês. Vocês tocaram na minha alma - como conseguiram isso? -, viram textura, cheiraram e saborearam cores, descobriram os meus segredos - que custo tanto para afogá-los! -, não me mastigaram quando eu era flor, não se azedaram com minha realidade, decifraram-me sem qualquer tentativa de devorar-me. Aceitaram e respeitaram minhas estranhezas, minhas tolas tentativas de me armar contra guerras agora apenas imaginárias.
Publico aqui, um carinho que recebi do Santa Cruz, meu novo amigo no Blog, que mora nas belas terras portuguesas que ainda não pisei. Um carinho, um afago, um beijo leve, palavras, palavras, que para mim sempre soaram mágicas.
Obrigada, Santa Cruz!
Suzana Guimarães
O Amor de Susy
por Santa Cruz
Hoje minha mente se lembrou...
Como és Susy!
O Explendor de uma mulher bela;
O meu coração se rasgou?
Ao olhar para o teu lindo rosto:
E ao ver o teu lindo sorriso.
No meu silêncio...
Vi todo o explendor:
De uma bela e doce mulher.
Susy doce Susy....
Que o meu Senhor e meu Deus;
Te proteja e ilumine:
E te dê tudo o que desejas.
Para que durante...
A tua peregrinação na terra;
Seijas sempre feliz:
No meu eterno Jardim...
Eu te semeei;
E no meu coração:
Eu te guardei.
Onde encontrar o Santa Cruz (clica no endereço abaixo):
http://silenciodosmeussonhos.blogspot.com/
Onde encontrar o Santa Cruz (clica no endereço abaixo):
http://silenciodosmeussonhos.blogspot.com/
terça-feira, 10 de agosto de 2010
EU SOU UMA MULHER
| (SCG - arquivo pessoal) |
por Suzana C. Guimarães
Eu sou uma mulher que anda por ruas, avenidas, planícies... cujo corpo, eu posso abandonar em pleno cruzar de uma esquina, ao esperar um semáforo mudar de cor, ao caminhar à beira mar. Eu sou uma mulher de antenas, você não as pode ver, nem eu, mas sei que existem, pois são elas que me guiam ou mesmo me desvirtuam, mas depois acertam o caminho. Eu sou uma mulher que ama a si mesma. Eu sou um presente de Deus para mim mesma. E esse presente, eu preservo, amo, zelo.
Os meu pés, eu cuido. Hidrato. Massageio. As unhas sempre tão lindas! Porque eles são tudo o que tenho para me locomover. Eles me sustentam numa dança ou diante da espera, eles me suportam em tamanha maestria mais que qualquer um poderia fazê-lo. Eles caminham por mim e quando reclamam apenas imploram por leve toque das minhas mãos.
As minhas mãos... Ah, minhas mãos! Tudo o que há de mais belo em mim! Elas tocam peles, cabelos, alimentam. Elas batem, cuidam, acariciam. Elas escrevem cartas de amor ou desamor, assinam destinos, enxugam as minhas lágrimas, percorrem meu corpo, buscam a Deus nas madrugadas. As minhas mãos... elas falam, elas são gentis, possuem ar de madame por tão longas, finas, gestuais! Eu as hidrato, eu as banho em águas de rosas. Elas acenam adeus, elas enviam beijos, colhem flores e tiram os espinhos que me furam. Minhas mãos recusam beijos.
O meu tronco. O meu tronco às vezes se enverga muito, mas sempre me lembro do que passou e o levanto com rapidez e força. Eu sou uma mulher que anda por aí, por aqui, de cabeça erguida, alheia aos passantes, absorvida pela vida. Eu sou uma mulher que ama a si mesma; o meu passo é leve, sem pressa, mas eu não sei achar nada, só tenho certezas ou dúvidas.
Meus braços já não suportam mais tanto peso, mas recebem e se entregam. E, nos dias de solidão, eles me abraçam, embalam-me docemente, feito a um bebê e a minha voz surge soprando cantigas quaisquer. Os meus braços já quiseram abarcar o mundo, mas hoje aceitam o inevitável e o inquestionável.
Meu sexo me dá prazer, me deu crias, me deu dores, mas acima de tudo é o que carrega a esperança e a certeza de que o amanhã pode amanhecer bem melhor.
Minhas pernas me levam, se entrelaçam em outras pernas, mas principalmente se apertam em mim quando sento e choro, quando me deito e anseio o feto. Minhas pernas lembram-se de mãos, recordam pensamentos perdidos na maciez, aqueles minutos que nada dizem, nada dizem. Minhas pernas me guiam numa forma que nunca ninguém ousou fazê-lo.
Minha barriga, ah, minha barriga! Quantas vezes cortada? Quantas vezes crescida, inchada, doída? Minha barriga conta minha história que iniciou no umbigo, pariu outros e recebeu toques leves de mãos sedentas. Minha barriga possui a fome do mundo e a minha, a fome que comida nenhuma sacia.
Meu olfato, minha audição, minha língua, minha pele, meus vãos... amo tudo isso pois é tudo o que realmente possuo. Nada mais tenho além do meu corpo, exceto a alma que paira por cima, ao lado, ao redor.
Eu sou uma mulher que anda por aí, por aqui, e outras mulheres olham e admiram ou invejam. Eu sou uma mulher que caminha com prazer no andar e os homens amadurecidos são sempre tão gentis e me olham com olhos gulosos. Sabem que existo, imaginam quem sou eu . Eu sou uma mulher que os meninos admiram, aguam. Eu sou uma mulher que caminha e os mais velhos cumprimentam. Os tolos assobiam.
Eu sou uma mulher que enxerga muito além do permitido, pois, vejo através da janela do universo. E isso me eleva e isso me atira ao chão. Eu sou uma mulher que sonha. Eu sou uma mulher que tem urgência constante de interpretar cada sonho bem ou mal sonhado, mas que nem sempre consegue. Sim, sou eu uma bruxa! Aquela que predestina.
Vivo dentro da roda e cheiro a perfume de melancia. Eu sou uma mulher completa em si, algumas belezas nem sempre concretas, desvãos, defeitos e segredos, celulite, cicatrizes e manchas, mas que sabe que tudo lhe pertence e a ninguém dá nada, só troca.
Eu sou uma mulher que pode lhe tocar de leve, pedindo colo, ou então, puxar a toalha da mesa, ou o tapete, aquele mais próximo a você, para alcançar o meu objetivo tolo de fazê-lo sentir igual a mim. Porque eu sou uma mulher que não se importa de ouvir verdades. Eu sei que todos nós as temos. Mas eu passei a vida sonhando com pessoas que rasgassem as minhas fotos, picassem as minhas cartas, gritassem para mim o tanto que estavam magoadas comigo, só para eu ter o direito de me defender, só para eu ter o prazer de ver alguém totalmente despido.
Eu sou uma mulher que anda por todos os cantos, recantos de almas, esconderijos secretos. Eu sou uma mulher que já pressentiu a morte várias vezes, mas fez pacto com ela. Eu sou uma mulher filha de Deus. Eu sou uma mulher que grita bem alto para que Ele me atenda, mas que também sussurra implorando compaixão.
Eu sou uma mulher que pensa, pensa, pensa tanto e ferve tanto e espera tanto e fala tanto e sente tanto que é preciso tempo e vela para se reorganizar, se entender, mas durante anos, quis ser apenas bem centrada, bem controlada e fria, pois eu não queria pensar e não podia sentir.
Descobri que personalidade nasce junto e não há como se desgrudar dela, mas falar, alivia, e esperar é um vício bom.
Eu sou uma mulher tão assim assumidamente mulher porque me deram um livro para eu ler, numa língua que eu desconhecia e me deram um tempo curto, muito curto para decorar cada vírgula, cada frase, cada passagem à qual eu passaria.
Eu sou uma mulher que quando morrer será cinza. A cinza de alguma flor. A flor de alguma cinza.
domingo, 8 de agosto de 2010
LÁ, ONDE O RIO É COLORADO AZUL E TUMBLEWEED NASCE, VIVE E MORRE. DEPOIS, VOA NO VENTO.
Na terra seca, meus olhos ardiam. Na terra seca, eles abrasavam porque o calor atravessava meu corpo e violentava minhas texturas mais íntimas. Eu porém não me sentia seca, estava úmida de lembranças. Na terra seca, eu me reencontrei. Percebi que muitas vezes sou ardor insuportável. Talvez eu arda inúmeras vezes sem necessidade, mas na terra do bafo quente onde qualquer vivente respira, tudo é esperado e normal. Talvez, isso seja muito apreciado por lá, pois vi sorrisos aguados.
Vi tanta areia e elas andavam por dentro da minha barriga, devagarinho... rolavam, giravam, passeavam e desciam involuntárias. Meus pensamentos faziam o mesmo movimento, ou eram eles que moviam as areias?
O que eu via da janela do carro era somente aridez, mas quando desci desse carro, senti um bafo tão quente, não do Sol, mas do próprio ar, uma outra forma de vida que eu deconhecia. Descobri que pouco sei de muita coisa. No meio da aridez, um rio azul cobalto, colorado, que meus olhos jamais haviam visto e eu podido imaginar. As lembranças ainda subiam e desciam em mim, faziam contrações feito as árvores retorcidas de calor, enquanto eu admirava a terra desolada, onde certo arbusto, o "tumbleweed", se contorce e se arranca do chão por quase nada, um fio fino que o segura, depois rola, rola e você pensa ver bola voando no balé dos ventos. Mas é apenas mato, nasce mato, depois seca, depois morre e mesmo morto ainda voa. Toda noite voa sem rumo. Desci do carro e entrei no rio. Eu que nunca havia mergulhado em águas tão doces, tão naturais... tudo, entretanto, antagônico, numa terra tão dura e quente, água tão leve e congelante... senti o quanto meu corpo estava pesado... mas eu forcei e imergi para sumir com toda aquela areia que remexia no ventre, para sumir com as contrações e com a brasa nos olhos. As águas revelaram-me meu corpo seco, quente, urgente, exigente que mal afundou. Descobri nessas águas, que muitas vezes, querendo ou não, fui e ainda sou passível de ser igual àqueles arbustos, mato que cresce em qualquer canto que haja um pouco de vida. Percebi que mesmo com pouco ar, mesmo morto, mesmo ardendo em brasa, mesmo tudo tão árido, tudo é vida. Mas nunca a mesma vida. Eu, tão igual àquele mato que espirra sementes aos ventos. Depois de seca, contorcida, se arranca do chão por quase nada, presa por muito pouco, e depois rola, rola, rola no vento... e joga sementes também aos ventos, esperando sempre feito aquela gente que espera por hábito de sempre esperar.
Saí daquelas águas, perplexa. Saí purificada. O rio azul levou aquela sensação estranha de que é ruim ser bem pouco.
À noite, choveu após longo tempo seco. E eu me refiz naquele movimento cíclico da vida, que, por vezes é feito também de pouco, bem pouco.
Suzana Guimarães
Suzana Guimarães
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
FUI COMPRAR BATOM - antes de sair para a compra, deixo este outro bilhete no espelho
![]() |
| (imagem de SCG) |
Eu poderia pedir a Deus que trocasse a minha tensão elétrica. Eu poderia pedir para baixar de 220 para 110V. Eu poderia pedir para ser menos. Eu poderia pedir para deixar de ser ventania, tempestade, tapa forte, ou simplesmente flor, e ser apenas dente-de-leão, fiapos de algodão juntos, e que, com um simples e pequenino sopro vai para os ares. Eu queria pedir, mas tenho medo. Tenho medo Dele realizar o meu desejo e eu sentir saudades de mim... Suzana
domingo, 1 de agosto de 2010
VOCÊ
Você girava na cadeira giratória. Talvez pensasse estar num parque de diversão. Talvez, não sei. Você rodava, rodava, meio sorriso, olhando para o nada. Eu cheguei sem avisar, a gente não se conhecia, entrei mais rápido do que o meu hábito, de andar manso. Você deu uma guinada e me viu. Foi quando eu vi o mar, numa terça-feira insossa, numa agenda com imprevistos, num escritório igual a qualquer outro do centro de uma cidade. Eu acabava de entrar, ventando numa saia verde, falando alto, fazendo barulho, cumprimentando os meus conhecidos. O que você viu, eu não sei, até hoje. Mas eu vi o mar e o céu num dia claro, de sol. Vi a pedra que se incrusta em nobres metais, vi os botões do casaco do meu avô, a tinta de colorir.
Você fez história comigo. Insistiu em escrever um livro de oitocentas páginas. Eu queria, eu não queira, mas as duas pedras me convenciam, a boca linda com dentes quadrados, os lábios gostosos de se morder. A cara torta (eu que sempre gostei de certas coisas desalinhadas, achei ótimo!). Fui encaixando-me em seus braços que se fechavam nas minhas costas e eu passava a estar então vestida com blusa de outra cor, a cor da sua camisa. E eu fui ficando, me encostando na rocha fria, na pedra fria que sabia usar a língua.
Você ficou em seus tropeços. Insistia neles, teimava neles. Contudo, você sempre perseverou nas poucas coisas em que colocou fé. E eu era a sua fé. Eu sou uma das suas maiores crenças, e, até hoje, eu não sei o que você viu... Eu nunca soube ao certo o tamanho de todos os seus desejos, mas você me mostrou que não ia para caminho nenhum porque você fazia o caminho. Chegar a algum lugar? Você ia, nem que montado num porco e seria capaz de morder esse porco se ele atrasasse você para nosso encontro. Eu ia em qualquer caminho porque eu não tinha rota, nem mapa e nem bússola – péssima em me achar, ótima em me perder. Você sabia tudo de bússola, de sobrevivência na mata, na água, nas ruas de qualquer cidade. Você sempre foi do mundo. Nunca foi de ninguém, mas insistiu que seria meu. Eu até hoje não sei o que você viu.
Locomotiva nenhuma esperou por você. Mas se eu estivesse nela, você se pendurava num gancho qualquer sem se importar com a velocidade dela e nem com a minha. Você nunca esperou o cavalo passar arreado, você caçava o cavalo. Mas, perguntava em sua correria, qual a cor, qual o tamanho, qual a raça que eu preferia. Você jogaria um urubu naquele avião se eu decolasse sem você. Você voou comigo por vários céus, mas o melhor foi o da Bahia. Você me convidou para ver o que você via, o mundo que Deus via. E aquele foi o melhor dos meus voos. Meus pés no céu, abaixo dele, o azul, doce plainar de asas. Na descida, o maior dos gozos, nós engolindo a terra que vinha que vinha que eu engolia para dentro da minha gargalhada. Se não fosse você, eu não saberia...
Você me fecundou. Você me amou. E você, que nunca foi de se dar, se deu para as suas crias porque eram as minhas crias. E elas, tão lindas, recordam você. Você sempre foi o meu primeiro soldado, meu primeiro tenente, aquele que eu sempre soube que me renderia. E você me rendeu todas as vezes em que eu me retirava um pouco do mundo, escapava dele e de seus donos, e ia, ia, ia e ninguém, nem eu, sabia com certeza para qual sina. Você que nunca soube ao certo se deveria respirar ou não, me tocar ou não, soprar os ventos ou não... Mas sempre soube o tempo de se afastar, esperar e cultivar a arte de não deixar perder. Você, tão dependente da sua rainha sem reino, você, eterno necessitado da insulina dela, você sempre soube a hora em que teria que comandar o batalhão, navegar a barca, fazer sombra ou não. E sua rainha lá ia, envolta em magia, abstraída.
Você continua o seu giro. Diverte-se em brincar na sua roda-gigante, no tobogã dos meus sentimentos por você, no carrossel que faço girar na minha constante inconstância com as coisas da vida. Para você, tudo não é mais que o parquinho de diversão. Para você, tudo brinde que ganhou. Você zela pelo parque, mas o faz de longe porque sabe que tudo na vida, um dia, pode parar, quebrar, mofar. Você sabe que posso voar, abrir os braços para o nada, para aquele precipício louco e fundo que tanto me atrai, mas você nem pisca, fixa os botões do casaco e conta as ondas do mar, desenha outros céus, faz coleção de bolinhas de gude cor blue... joga o jogo da paciência dobrando papéis, criando tsuru, sapinhos, florzinhas em origâmi, soltando-os aqui e acolá, em qualquer lugar por onde eu andar, só para dizer ao mundo que você não deixa a vida passar e nem o parquinho parar.
Parque de Diversão Primeiro de Agosto, 2010. Be happy!
por Suzana C. Guimarães
sexta-feira, 30 de julho de 2010
MENTIRA insistida, VERDADE inventada
Suzana Guimarães
Quando você mente para o seu avô, seu pai, seu filho, você mente e permanece leve em seu caminho. Essa mentira não o acompanhará. Ela ficará com o seu avô, com o seu pai, com o seu filho.
Quando você mente para si mesmo, você se sente temporariamente leve. Mais tarde, ao se deitar para dormir, ela, a mentira, deita-se com você, apaixonada, ela lhe dá amor, enlaça longos dedos em seus cabelos, eternamente enamorada. Você se agita na cama, o sono perturbado lhe incomoda, mas é apenas ela que insiste em lhe agradar, quer se fazer lembrada, e, para isso, relê para você histórias antigas. Pela manhã, ao se levantar, você se olha no espelho do banheiro e a vê sorrindo no reflexo brilhoso. Você come um sanduíche e ela lhe sorri, abraça um corpo, e ela lhe sorri, dirige o seu carro e ela lhe sorri. Ela é a sua mentira insistida mil vezes. Ela agora é a sua verdade. Ela grudou em você, no seu corpo, em sua alma, ela precisa apenas ser respirada. Ou você a inspira e a expira carinhosamente ou ela o devorará até o resto do fim dos seus minutos.
VAI
Vai...
Saia por aí
Falando mal de mim
Eu sempre estou,
Eu sempre espero,
Eu sempre fico,
Eu sou assim.
Eu sempre fito.
Eu sempre quero.
Eu sempre rimo.
Vai...
Saia de mim.
Suzana Guimarães
terça-feira, 27 de julho de 2010
PERGUNTO
Suzana Guimarães
Como você vai se dar... Se você ainda não acumulou?
Como você vai entender... Se você ainda não perdeu?
Como você vai orar... Se você ainda não teve
que se ajoelhar?
Como você vai se perder... Se você ainda nem se achou?
Como você vai amar... Se você ainda nem se perdoou?
Como voce vai falar... Se você ainda não aprendeu a ouvir?
Como você vai escrever... Se voce ainda não tentou?
Como você vai gozar... Se você ainda não se entregou?
Como você vai esquecer... Se você ainda nem entendeu?
Como você vai sair
por aí, na chuva,
Se ainda nem choveu?
Como você vai se dar... Se você ainda não acumulou?
Como você vai entender... Se você ainda não perdeu?
Como você vai orar... Se você ainda não teve
que se ajoelhar?
Como você vai se perder... Se você ainda nem se achou?
Como você vai amar... Se você ainda nem se perdoou?
Como voce vai falar... Se você ainda não aprendeu a ouvir?
Como você vai escrever... Se voce ainda não tentou?
Como você vai gozar... Se você ainda não se entregou?
Como você vai esquecer... Se você ainda nem entendeu?
Como você vai sair
por aí, na chuva,
Se ainda nem choveu?
PALAVRAS AO FIO
Suzana Guimarães
O telefone chamou, chamou... até que ele atendeu (ele nunca atende, nunca também gostou de atender).
Eu não o toco. Pouco o vejo. Raro o ouço. Mas ele atendeu. Eu poderia ser a amiga dela, a irmã dela, a outra filha dela.
Mas eu era só eu e já sabia que ia ser um pouco triste, um pouco saudoso, um pouco difícil.
Ele perguntou o meu nome três vezes. Ele perguntou onde eu estava.
Depois, novamente, ele perguntou onde eu estava...
Eu respondi perguntando o que ele fazia.
Ele descreveu a agenda que conheço
E eu fui diminuindo, diminuindo...
Se tudo foi difícil, difícil,
Ficou a lembrança de que ele já havia me dado vida e também já havia me salvado (dado segunda vida). Foi o primeiro que me tirou dos braços da mulher de preto, aquela bruxa velha, tão terna!
E voltou a dor antiga misturada com alegria, histórias de um livro já antigo, tão escrito e desmanchado e reescrito.
Eu me despedi. Ele perguntou novamente o meu nome. Já não havia mais tempo para mim, há quem possa lhe derrubar com muito pouco. Custei a falar. A voz agarrou, fraca na garganta. O meu nome que ele tanto achava lindo! E, por fim,
De onde mesmo você fala?
O telefone chamou, chamou... até que ele atendeu (ele nunca atende, nunca também gostou de atender).
Eu não o toco. Pouco o vejo. Raro o ouço. Mas ele atendeu. Eu poderia ser a amiga dela, a irmã dela, a outra filha dela.
Mas eu era só eu e já sabia que ia ser um pouco triste, um pouco saudoso, um pouco difícil.
Ele perguntou o meu nome três vezes. Ele perguntou onde eu estava.
Depois, novamente, ele perguntou onde eu estava...
Eu respondi perguntando o que ele fazia.
Ele descreveu a agenda que conheço
E eu fui diminuindo, diminuindo...
Se tudo foi difícil, difícil,
Ficou a lembrança de que ele já havia me dado vida e também já havia me salvado (dado segunda vida). Foi o primeiro que me tirou dos braços da mulher de preto, aquela bruxa velha, tão terna!
E voltou a dor antiga misturada com alegria, histórias de um livro já antigo, tão escrito e desmanchado e reescrito.
Eu me despedi. Ele perguntou novamente o meu nome. Já não havia mais tempo para mim, há quem possa lhe derrubar com muito pouco. Custei a falar. A voz agarrou, fraca na garganta. O meu nome que ele tanto achava lindo! E, por fim,
De onde mesmo você fala?
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O QUE AS MULHERES FAZEM QUANDO ESTÃO COM ELAS MESMAS
Postado por Manosca , do Blog "QUEM SOU EU?"- EU SOU O TEU ESPELHO!
(Um texto de IVAN MARTINS - Editor-executivo da Revista ÉPOCA)
(Um texto de IVAN MARTINS - Editor-executivo da Revista ÉPOCA)
"Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima.
Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler.
Sozinha.
E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali.
Eu que era desesperado, inseguro, carente.
Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente:-
a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora.
Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta.
Transforma o mundo para se distrair por perversidade, para não ter de olhar para dentro, onde dói; necessitam de auto-afirmação e fazem das pessoas suas verdadeiras muletas e não conseguem ter um olhar amplo das diferentes mulheres que o cercam.
Talvez preciso falar em nome de todos os homens, por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa.
Realizadora, também, claro.
Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior?
Quantas catedrais para preencher o meu vazio?
Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim.
Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado.
Todo mundo está fazendo barulho.
Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa.
Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior e do próximo – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana?
Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana?
Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas.
Nós não nascemos assim.
Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa.
Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar.
Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar.
O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina.
Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero.
Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia.
Pode haver escolha, tenho certeza!
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos.
Nem sempre é fácil."
Nem sempre é fácil."
terça-feira, 13 de julho de 2010
BILHETE NA PORTA DA GELADEIRA
Querido(a),
Vou me ausentar.
Volto na minha primavera!
Beijos,
Suzana
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
Vou me ausentar.
Volto na minha primavera!
Beijos,
Suzana
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
ODEIO FLOR QUE NÃO SE CHEIRA
"Flor perfume leve... tempestade devassa destruição..."
(Rafa Feck)
Ao criar o Blog, dois meses atrás, me deparei com o espaço em branco para eu responder "quem sou eu". Nem tentei preenchê-lo, pois sempre penso em tudo diante dessa situação e o tudo não resolve.
por Suzana C. Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
(Rafa Feck)
Ao criar o Blog, dois meses atrás, me deparei com o espaço em branco para eu responder "quem sou eu". Nem tentei preenchê-lo, pois sempre penso em tudo diante dessa situação e o tudo não resolve.
Uma malagueta me irritou na terça-feira, logo pela manhã, e hoje, sem que eu ainda me lembrasse dela, retornou. Me irritou novamente.
Lembrei-me então da auto-definição do Rafael Feck e entendi a razão de eu ter lido a frase mil vezes, na época. Eu lia a minha própria definição, mas não sabia. Você com certeza concordará comigo, definir a si mesmo, dizer quem tu és, não é tarefa fácil.
Sim, eu sou flor, perfume leve... sei que é preciso que você, se quiser se aproximar, tenha a árdua tarefa - ou prazerosa, isso fica a critério de cada um - de encontrar o caminho do jardim. Se, se alcançá-lo, tu me sentirás. Mesmo que com pétalas secas ou rígidas ou desfalecidas, mesmo que com pouco cheiro, nunca doce, mas leveza que lhe passa ao respirar, sou flor. Sou flor que você pode cheirar, pois não suporto aquelas flores de plástico ou fedidas, já podres, ou simplesmente miragem floral, que não podem ser cheiradas, porque feito o príncipe que vira sapo, elas viram um vespeiro que você não pode sequer tocar. Se você me encontrar flor, tocará flor, sentirá flor, cheirará flor. Mas,
se você me encontrar vento forte, tempestade, o mundo sacolejando debaixo dos seus pés, não pense em jardins, jardineiros e tratamento do solo, afaste-se, corra se possível, porque, se tu me tocares, com certeza, encontrarás apenas devassa destruição.
Só o tempo, só Deus, só a voz da minha mãe, só os olhos dos meus filhos poderão conter a ira dos ventos. Nem eu mesma poderei. E, na minha devassa destruidora ventania não sei de flores, não sei de aromas. Mas sou o que tu vês, não sou a flor que você não poderia ter cheirado.
por Suzana C. Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
LILY INVADE
Suzana Guimarães
Lily nasceu na primeira semana de maio de 2010. A gestação durou um mês. O parto, apenas alguns minutos, o tempo que se gasta para escolher um nome. Adotei Lily com amor, como se fosse a minha quinta cria. Eu, Suzana, queria muito contar uma história. Para ser sincera, eu sempre gostei de contar histórias, algo que herdei do meu pai. Foi quando Lily surgiu. A mim caberia a história real, a ela, as outras, fantasiosas. Pensei que Lily iria contar apenas contos, pequenas histórias que ouviu contar e que guardou na memória, mas a menina foi mais longe. No início, estava receiosa, perguntou para mim o que deveria postar em seu caderno virtual e eu lhe respondi: conta aquela história daquela morte, daquele velório que era para ser um e virou dois. Dá-lhe o nome de "O Enterro."
Mas o tempo foi passando e Lily, esperando a mãe, no caso, eu, claro, liberar contos guardados, amarrados debaixo do colchão, decidiu escrever o que bem lhe agradasse. Enquanto escrevia, Lily visitava os vizinhos. Um dia, ela me disse para fazer o mesmo, largar tanta obrigação, tanta lista a cumprir e mudar de direção, ir para lugar nenhum. Ela disse para eu me largar de mim mesma, dar o tempo que nunca mais havia dado, desde que havia deixado de ser menina. Sempre achei a Lily mais razoável, mais equilibrada, mais mansa que eu e decidi, então, acompanhá-la...
Eu mudei, ponto. Não há muito a dizer. Tenho a certeza absoluta e irrefutável de que mudei. Tenho vida suficiente para saber disso. Eu mudei no dia em que primeiro abri a janela da minha casa, delicada casa, no endereço Rua do Blog, número oito. Depois, aos poucos, quase voando, fui abrindo as portas, os basculantes. Larguei o portão da varanda de entrada sem trancas. Arranquei a portinha de madeira pro bicho passar (ela lhe batia às costas). Revirei essa minha casa em sofreguidão, os calçados ficaram onde foram deixados no instante da entrada, ou soltos, sem pares, espalhados por toda a casa. Abri baús, gavetas emperradas, mexi em todos os armários, experimentei todas as bebidas, comi comida crua só pra saber o sabor, aspergi perfumes sem querer me perfumar, apenas pelo prazer de sentir aquele ar sufocante a ponto de engasgar. Eu mudei, tenho certeza! Cada vizinho visitante que espiava pela janela, ou se sentava no sofá, ou abria a geladeira, ou bebia no meu copo para tentar me desvendar, ou simplesmente entrava e saía todos os dias da minha casa delicada casa, silenciosamente, feito gato de tão leve, foi peça fundamental nessa mudança. Os ares passaram pelas frestas, pelos buracos das fechaduras e se instalaram em minha medula óssea, no meu núcleo celular. Eu não sei mais andar, eu flutuo. Eu não sei mais me locomover, eu vou através.
Sim, eu mudei, e foi através, pois quando ao abrir a minha casa, invadi outras. Não, invadir é muito. A minha mãe me educou e disse que gentilezas e bons modos não ocupam lugar - quase num mesmo tempo em que o meu pai dizia que o saber, o conhecer não ocupa espaço. Através da minha então educada visita às outras casas, especialmente àquelas de cor semelhante à minha, eu deixei para trás vestes velhas puídas pestes. Entrei em casas inesquecíveis feito poema inesquecível, livro eterno, cartas seladas ou não, empilhadas em mesinhas, por sobre louça branca, para eu poder saborear. Casas singelas, amáveis, tão doces, feito aquela de guloseimas, mas também feita de morangos, suculentos morangos. Vi decoração nova, vi discos nas prateleiras, vi despedidas de amor voando aos céus. Vi jarros de suco de maracujá, vi o dono bebendo a música de uma cantora enquanto ele fitava o mar. Vi casas de sedas cheirando a perfumes não muito caros. Vi tanta chuva que escorria que parecia inundação de um amor perdido tentando se agarrar. Vi casas com sorridentes cachorrinhos nas portas, vi outras que se abriam apenas à noite. E o dono de uma delas, apaixonado, esculpindo letras para formar palavras para um amor sonhado, embalado. Vi casas de sorrisos fáceis, palavras fáceis, vi também alguma doença lá instalada, mas deitada ao lado da tia valentia. Entrei em muitas delas, em outras, parei na porta, só espiei. Numa casa, me mandaram abrir gavetas, portas, janelas, e me convidaram a deitar no sofá, pôr os pés sobre a mesinha de centro. Perguntaram-me se eu queria beber alguma coisa e acabei por me embriagar. Vi casa ausente sem aviso de volto já, mas com porta entreaberta. Numa ou noutra, cheguei a cochilar, não de tédio, mas de prazer de ver minha alma se esticar. Entrei em algumas casas para ler bilhetes escritos nas paredes, mas também para me deliciar com música tocada feito pano de fundo. Fui tão longe... ouvi falar de respirar, o dono mandava respirá-lo e eu bem que tentei, treinei bastante e saí de lá respirando, respirando-o. Numa das primeiras casas que visitei, a dona tinha nome tão singelo e foto de moça de um filme apaixonante. Numa casa voltei ao passado, cheguei em terras nascidas, antigas. Senti saudade do cheiro de toda a minha existência. Às vezes, vou lá, só para respirar a minha própria história, sentada num quarto sépia. E paro os olhos na maquininha de escrever, igualzinha àquela que meu pai me ofertou do seu tempo de trabalho, de um passado brilhante. E alguma coisa, que eu não sei bem o que é, lembra a minha mãe. Em muitas casas, às vezes choro, às vezes rio, às vezes choro e rio e até sinto comichão. Em todas, eu penso em Deus.
Eu mudei e ponto. Renasci. Sou Lily.
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
sábado, 3 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
DEIXA PRA LÁ!
Suzana C. Guimarães
Lá, passei por tantas pingelas,
Estive tão só,
Engoli tantas mazelas.
Senti da terra, o pó
bem próximo ao nariz
E me vi com dó.
Lá, cresci minha barriga quatro vezes,
perdi com poucos meses...
Ganhei bebês
que tentei tantas vezes.
Lá, trabalhei
Abandonei
Morri de arrepender.
Me deixei prender
e já quis ficar mais de uma vez
igual à única vez.
Lá, deitei no chão para ler poemas de amor
E deitei no mesmo chão para ser o amor de um poema
Lá, gritei no lugar errado,
e falei baixo quando não era adequado,
me senti uma ema.
Lá, chorava por nada
pensando no mar.
Lá, já ri de velório
E vi o relógio
parado na visão
do sonho da fada.
Lá, caí no chão
só para sentir felicidade
contra uma faixa preta no roupão
vi tanta facilidade...
Vivi de roldão,
pois que então.
Lá, me curei de doenças.
Por pouco perdi minhas crenças...
Aprendi a curvar
Aprendi a amar
Aprendi a triste arte de desamar.
Lá, carreguei a veste negra
bordada de meninas.
E, com ela,
amei, chorei, me cortei.
Não pensei quando pensar parecia ser demasia,
não respirei;
muito era o mundo que eu via...
sequer rezei,
Enquanto todo o tudo,
eu perdia,
se esvaía...
Lá, briguei,
xinguei.
Forcei a barra
e peguei você na marra
depois fiquei tão brava...
Lá, deixei meus pais
Larguei meu país,
meu berço lindo,
Tão belo quanto Paris
Mas que me deixou só, assitindo...
feito nos velórios em que fiquei rindo.
Vivi a limpar gavetas,
mil vezes.
Afoguei você,
Quantas vezes?
Lá, me molhei de prazer.
Me sequei toda ao desfazer
nós que custei a fazer
carinhos que custei a ter
orgasmos que eu não quis ter.
Lá, fui obrigada a aprender medicina,
Vi tanta gente permissiva...
Lá, fui empurrada para as quinas
e pensei ver gato preto em toda esquina.
Lá, eu era menina
e não era minha...
Vivia triste sina
pra alcançar a colina.
Lá, aprendi a falar entrelinhas,
tentei escrever em rimas...
Aprendi a não ficar tão em cima
e quase caí de cima
de um cavalo que era uma cisma.
Lá, eu subia em mangueira, goiabeira, jabuticabeira
em toda a redondeza,
Hoje, sou estrangeira
E sei quase tudo de estranheza,
mas saí da beira.
Lá, já paguei língua.
Já morri à míngua,
delirando com sua língua
e pude ver que toda lua míngua
ou finda...
Lá, da vida fui faca para amolar
Lama para Deus moldar
Mas para lá,
não pretendo voltar.
Lá, passei por tantas pingelas,
Estive tão só,
Engoli tantas mazelas.
Senti da terra, o pó
bem próximo ao nariz
E me vi com dó.
Lá, cresci minha barriga quatro vezes,
perdi com poucos meses...
Ganhei bebês
que tentei tantas vezes.
Lá, trabalhei
Abandonei
Morri de arrepender.
Me deixei prender
e já quis ficar mais de uma vez
igual à única vez.
Lá, deitei no chão para ler poemas de amor
E deitei no mesmo chão para ser o amor de um poema
Lá, gritei no lugar errado,
e falei baixo quando não era adequado,
me senti uma ema.
Lá, chorava por nada
pensando no mar.
Lá, já ri de velório
E vi o relógio
parado na visão
do sonho da fada.
Lá, caí no chão
só para sentir felicidade
contra uma faixa preta no roupão
vi tanta facilidade...
Vivi de roldão,
pois que então.
Lá, me curei de doenças.
Por pouco perdi minhas crenças...
Aprendi a curvar
Aprendi a amar
Aprendi a triste arte de desamar.
Lá, carreguei a veste negra
bordada de meninas.
E, com ela,
amei, chorei, me cortei.
Não pensei quando pensar parecia ser demasia,
não respirei;
muito era o mundo que eu via...
sequer rezei,
Enquanto todo o tudo,
eu perdia,
se esvaía...
Lá, briguei,
xinguei.
Forcei a barra
e peguei você na marra
depois fiquei tão brava...
Lá, deixei meus pais
Larguei meu país,
meu berço lindo,
Tão belo quanto Paris
Mas que me deixou só, assitindo...
feito nos velórios em que fiquei rindo.
Vivi a limpar gavetas,
mil vezes.
Afoguei você,
Quantas vezes?
Lá, me molhei de prazer.
Me sequei toda ao desfazer
nós que custei a fazer
carinhos que custei a ter
orgasmos que eu não quis ter.
Lá, fui obrigada a aprender medicina,
Vi tanta gente permissiva...
Lá, fui empurrada para as quinas
e pensei ver gato preto em toda esquina.
Lá, eu era menina
e não era minha...
Vivia triste sina
pra alcançar a colina.
Lá, aprendi a falar entrelinhas,
tentei escrever em rimas...
Aprendi a não ficar tão em cima
e quase caí de cima
de um cavalo que era uma cisma.
Lá, eu subia em mangueira, goiabeira, jabuticabeira
em toda a redondeza,
Hoje, sou estrangeira
E sei quase tudo de estranheza,
mas saí da beira.
Lá, já paguei língua.
Já morri à míngua,
delirando com sua língua
e pude ver que toda lua míngua
ou finda...
Lá, da vida fui faca para amolar
Lama para Deus moldar
Mas para lá,
não pretendo voltar.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
TEU RETRATO E EU
Suzana C. Guimarães
Teu retrato,
Em dois dias,
Se dissolve.
Se, de saudades minhas
Se, de morte tua.
Se tu ousasses,
Teu retrato petrificaria,
Eterno
Indecifrável
Enigma.
Porém, tu não ousas
E eu vou a cada dia
Clarificando-me.
Não sou retrato,
Sou presença.
Nasço na praia
E por tão clara,
Ofusco-te!
Não! Não desejo ofuscar-te!
Desejo contemplar-te
E, em enleio, vigiar teus passos
Se caminhas em praias claras
Haverás de me achar
Dispensa tu,
Tuas lentes verdes,
Desfaça tu o vezo das vestes.
Procuras ver mais para dentro,
Menos para fora, onde estou
Resgatas a ti mesmo
E tu poderás em mim fixar
E teu retrato em mim não desmancharia,
E eu jamais te ofuscaria
Permaneceríamos...
Bem acima do enigma.
Teu retrato,
Em dois dias,
Se dissolve.
Se, de saudades minhas
Se, de morte tua.
Se tu ousasses,
Teu retrato petrificaria,
Eterno
Indecifrável
Enigma.
Porém, tu não ousas
E eu vou a cada dia
Clarificando-me.
Não sou retrato,
Sou presença.
Nasço na praia
E por tão clara,
Ofusco-te!
Não! Não desejo ofuscar-te!
Desejo contemplar-te
E, em enleio, vigiar teus passos
Se caminhas em praias claras
Haverás de me achar
Dispensa tu,
Tuas lentes verdes,
Desfaça tu o vezo das vestes.
Procuras ver mais para dentro,
Menos para fora, onde estou
Resgatas a ti mesmo
E tu poderás em mim fixar
E teu retrato em mim não desmancharia,
E eu jamais te ofuscaria
Permaneceríamos...
Bem acima do enigma.
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