terça-feira, 25 de junho de 2013

O TEMPO QUE NĀO TRAIU




Desconheço autoria da imagem



O tempo que não traiu... O tempo foi perfeito. Maestro de nossos desejos. Quem traiu, fomos nós, que criamos nossos caminhos, denominamos-os de vida e depois, sentados no nada, inconformados com o desperdiçado passado, falamos entre dentes, ' vida ingrata '.
 
Por Suzana Guimarāes.

sábado, 22 de junho de 2013

OUTONO NO BRASIL

(Desconheço autoria da foto)


 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

FELIZ!

Suzana Guimarães
 
 
A Suzana Guimarães, leitora e escritora, está de férias...
 
Tenho até vergonha de falar isso, mas estou num momento egoístico e preguiçoso, porém, diferente das outras vezes em que eu parei.
 
 Estou egoisticamente feliz!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

SOBRE ESCREVER

(Desconheço o autor da imagem)


Escrever não é fácil. Você tem que conhecer bem a língua na qual escreve. "Conhecer bem", apenas isso, pois conhecer bastante pode ser prejudicial, uma trava. Você precisa ter coragem, muita, pois quem escreve mentiras deixa passar verdades e quem escreve verdades colore os fatos, ou abranda o tom, finge. Quem tem coragem sabe que estará exposto e escrever é nudez, é imagem além de um corpo nu. Uma escultura ou uma pintura diz muito, mas termina em si, não diz um livro todo e um livro todo não diz somente uma imagem. Você precisa deixar-se de lado e ao mesmo tempo mergulhar fundo em si mesmo, então, você faz magia, quem escreve é possuído pelo momento. O momento é o agora, o tema é atemporal, pode ser um bebê recém-nascido ou um ancião dentro de você, que só lhe obriga, só lhe obriga.


Por Suzana Guimarães

domingo, 2 de junho de 2013

EM MIM


Fotografia gentilmente furtada de Rodrigo Rolim
 
 
Em mim, um tempo passado, incógnito, um todo que hoje é nada, por tudo que passa e às vezes resulta. Nada, nada, tudo vago pela desmedida da importância. Uma ponte branca que atravesso, e a esquina, a mesma, de ontem, de hoje, como se tudo fosse igual, mas não é, não é somente fato, é sensação. Refaço passos que nem mais existem.  
E vó chamava para o almoço, logo após o verdureiro largar a cesta pesada no chão e tocar a campanhia que eu nunca ouvia; apenas o barulho do cesto, o fôlego do homem cansado... e o som do balanço de dois lugares. E hoje, os galhos dos eucaliptos sacudiram suas folhas, e, no meio da rua, parei e ouvi; o mesmo som, inclusive meu pai dizendo, “ouça o balançar das copas das árvores”... o mesmo vento, tempo vivido, nem ontem, nem hoje, eterno.

Nada, nada que a tarde não engula e não me faça recordar, digestivamente. O riso estampado da minha mãe a dizer, “aguarde maio”. Um mar de folhinhas verdes abrindo o meu caminho, atrevidas e sorridentes... e por elas, eu passo, como passei a vida toda e tantas outras.

O que há no som e na falta dele que nos agrega neste mundo de tudo ou nada? Lembrança.

Na ponte, gaivotas sobrevoam o riacho que atravessa, mas, lá, só voavam pardais ou andorinhas.

E a minha outra avó dizendo: “olha, olha as noivinhas”, e eu pensava que pássaros eram todos os mesmos, até o dia em que compreendi que cada um nos vem e nos faz confidência.

Escuto a ave que se esconde. Escuto passos e o choro de um cão. A velhinha fixa o nada e eu a olho. Tudo transformável. Não há mais verdureiros e nem Benzico, o padeiro. Às vezes, um som ao longe, melodia saída de um carro, cujo motorista vende guloseimas; o barulho que a onda faz quando alcança a praia e vozes que parecem cochichos... É o tudo da minha existência; e é o nada.

Não há olhar mais adiante que o meu, imbuído de mim.

Em mim, um único som, dentro do peito, pêndulo do tempo sem fim.
 
 
Por Suzana Guimarães.

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

NÓS SOMOS FLORES EM UM QUENTE DIA DE MAIO*

Fotografia gentilmente cedida por Andrea de Godoy Neto
 
 
 
                                             Para Andrea de Godoy Neto
 
 
Toda manhã, passamos nós, quase os mesmos.
 
A mulher estaciona o carro, ou de um lado, ou do outro, onde há vaga maior. Eu a vejo. Sai do carro, bate a porta com displicência, aciona o alarme e caminha sempre para o mesmo lugar, tenho certeza, para a igreja da outra esquina. Uma outra passa de bicicleta, lenço na cabeça, chapéu de pano, óculos escuros. Pedala devagar e bem no meio da rua estreita, e, como eu já sei que ela não pensa em morrer, faço a curva de todos os dias, no mesmo lugar, na quase mesma hora, da mesma forma, quase lentamente. O homem de branco, cabeça branca, tênis também brancos caminha cumprimentando a todos que passam. Ele pensa em cumprimentar-me, tenho certeza, mas não o faz.
 
O que é que faço naquele lugar? Cumpro um ritual.
 
Andrea, nada aconteceu, acredite, tudo apenas acontece. Ontem morreu. Escuta, toda manhã é quase sempre a mesma, mas ela existe e tudo o que não existe é que faz tremendo esforço para acontecer. Tenho tido sonhos repetidos, neles, despeço-me dos que amo porque estou de partida para bem longe, estou de mudança, deixarei meu país e todas as minhas comodidades, meu passado... e eu choro copiosamente... acordo angustiada, pois o sentimento é terrível, parecendo perda eterna, último adeus... Porém, quando percebo a minha cama, vejo meu quarto, identifico o espaço, constato o óbvio, já fui embora, já fiz, já aconteceu. Não acontece mais o que não mais é.
 
O que tinha que ser se fez em ordinário dia, sem vela, sem reza, sem régua para medir, sem calculadora, bastou o estar. É tão leve, tão suave, que emerge naturalmente igual à chuva que cai, lenta e contínua em cima do telhado, a grama que nasce nas ranhuras do cimento, a palavra nascida. Tranquilo voo do pássaro que ninguém vê, porque canta todo dia, naquela mesma árvore...mas é onde tudo acontece, no cotidiano insípido, porque o voo se faz, voando.
 
Quando eu parti, Andrea, não chorei, nem lamentei, ninguém pensou que aquilo era a morte, aquilo tudo o que aconteceu foi tudo o que deveria acontecer. Os recorrentes sonhos são lembranças do que nem foi, pois muita coisa ocorre apenas dentro de nós.
 
A menina que haveria de nascer já nasceu. Xi Pan já retratou mulheres que poderiam ser nós. Charlote foi à França e Dom está na janela, olhando a rua. O trem partiu há pouco. Helena terminou o curso de Espanhol e a solitária mulher de muito longe está em um curso de tapeçaria... O tapete arraiolo está pronto. A carta? O carteiro acabou de deixá-la na entrada da tua casa, talvez, talvez.... quem sabe... você ainda não a tenha visto.
 
Amanhã, estarei lá, novamente, e também a mulher, a ciclista sem medo da morte que sorrirá para mim e o homem que caminha em suas manhãs. Tudo sempre parecendo o mesmo, nós quase os mesmos, porém, uma minúscula certeza, algo feito um banho, um novo respirar, algo extremamente sutil e sem muita significância palpita esperando o seu momento. Quem é esperto, espera.
 
Por Suzana Guimarães.  
 
 

 * por Ana Luísa Guimarães Meneghini - versão original: "We are flowers in the hot Day in May".
 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

FRÁGIL

Imagem gentilmente cedida por Daniela Ferreira.

As letras de Suzana completam três anos de inteira nudez. 

Escrevo como se lenços de seda bailassem em mim, provocando-me a expor um corpo nu, o meu, ou atiçando-me a cortá-lo em tiras, o teu.
Em meus momentos de extrema cegueira e insano desejo, sou seda mansidão, sedução; nos dias evidentes, não.
Ou começa sua semana santa ou seu carnaval.

Por Suzana Guimarães



Nota: este beijo é promessa que deixo.

sábado, 4 de maio de 2013

Carta para uma flor, Érica.



Los Angeles, maio de 2013.


Querida Érica,

Desde sempre, eu vivo em busca de um tempo parado, que pode existir entre mim e ele, uma pausa, um hiato. Não tão breve quanto a vírgula, e nem tão longo feito um ponto. Seria então a pausa do ponto e vírgula que pouquíssimos apreciam. Em Inglês, ponto se chama "period", e eu sempre penso que ele realmente fecha um período.

Bom, já estou divagando, quase alcançado esse tempo... mas, só para terminar, eu queria dizer que hoje amanheci pensando numa frase que ouvi, "Você precisa aprender a se despedir". É, moça, eu preciso aprender que um período acabou, que vários períodos estão findos.

Quando criança, eu procurava estar sozinha, mesmo sendo uma menina comum, com irmãos, amigos e vizinhos. Estar só sempre foi vital para mim, mas isso se tornou quase impossível, atualmente, e eu lastimo e me sinto velha, cansada e feia. Nenhuma roupa me agrada, nem meu cabelo, meu corpo, meus dentes, minhas mãos, o mundo se desbota, claro, é a minha visão interna, tumultuada do muito. O único excesso que aceito é o meu próprio, pois faz parte de mim, é defeito e graça, qualidade, não posso sair por aí desmoronando a minha personalidade.

Enquanto lia a tua carta, noite alta, e eu estava exausta de estudar, alcancei meu ponto e vírgula, o mesmo que o estágio final de um relaxamento, duas doses de bebida forte ou a companhia de um bom homem... sim, um bom homem, aquele que tira teu mundo, teu chão por sob teus pés com qualidade de mágico. Só de imaginar, já sinto a dormência...

Percebe o tanto que você, com tua carta, levou-me às tuas próprias viagens? A gente comungou, a gente comunga. Estou com você no trem, no ônibus, no barco, sim, num enorme navio ou numa jangada, estou com você na esquina, comprando 'érica', porque estar junto não precisa estar ao lado.

Moça, eu realmente disse, "Vou comprar flores", assim, do nada, de uma hora para outra, num dia qualquer em que eu decidi dar flores para mim mesma e eu peguei a chave do carro, minha bolsa, e fui atrás de algo púrpura, lilás, algo que combinasse com meu momento, que combinasse com alfazema... eu também saboreio as palavras, al-fa-ze-ma... amenas alfazemas... minha alma rima, minha língua rima, talvez porque eu veja tudo em pares, aos pares, em sintonia, cadenciadamente. Eu, que não sei cantar e nem tocar e que nada entendo de música.

Entendo de ponto e vírgula, e você levou-me a ele, ao comentar sobre o livro e o filme que coincidentemente eu li e assisti. E, tuas últimas palavras "Compra flores mais vezes... compra-as para você. Algumas delas nos lembram que a fragilidade também resiste aos climas áridos", também me lembraram a minha mãe dizendo-me que a música "Fragilidade" do Sting era o meu retrato, numa época em que eu acreditava ser tudo, menos uma flor surgida no asfalto ou em um impiedoso deserto.

Érica, vivo num deserto, mas as mãos dos homens o transformaram em um jardim dos mais belos, onde eu olho incrédula rosas aos cachos esparramando-se por cercas e gramados... a prova de que a boa interferência do ser humano é sinal de que temos alguma partícula de divinos.

Apesar dos espelhos, principalmente os dos meus olhos, refletirem uma mulher cansada e sem graça, há flores em minha casa! Há um balde de alumínio com flores que parecem nunca morrer, no balcão da cozinha; há um galho delas enfiado numa garrafa de vidro que se transformou em jarra, no banheiro social; há em cima da mesa da sala de jantar, um bule branco com flores... há um tempo que nos é dado, um tempo que expira rápido apenas se você não se importar, e, é nele que eu atualmente me floreio, o tempo entre dez coisas a se fazer e uma a se perder.


Beijos,

Suzana


Por Suzana Guimarães.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

UMA HISTÓRIA DE SUZANA


(Arquivo pessoal de Suzana Guimarães)




Um beijo, Suzana!

Um beijo, Suzana, tudo de bom aí para ti!
Um grande abraço, Suzana!
um abraço
Fica bem...
 
abraço
é bom te ter por perto...
abraço Suzana...
um beijo
um abraço...
beijos,
Manoel...
um beijo carinhoso
um beijo e um abraço grande!
beijos e até mais! 
um beijo... dois... três... quantos quiser...
um beijo, Suzana!
Um grande abraço, Suzana!
um abraço
Fica bem...
 
abraço, Suzana...
Tapa ou beijo?
Beijo... Abraço... e carinhos respeitosos (os que se fizerem mais necessários pra te acalmar)...
 
um beijo
um abraço...
beijos.
Manoel...
 
beijos... daqueles superficiais e vazios...  
beijo
beijos! Pra vocês uma ou pra ti duas!
um beijo (da forma que tu aches melhor para começar a semana)
beijos! 
um beijo, um abraço, uma mão na nuca com dedos adentrando teu cabelo!
um beijo... de bom dia, na testa, com minhas duas mão segurando teu rosto...
beijos sem graça? Sem graça nada, brabo é deixar a meu critério, eu sou muito criativo para essas coisas...
beijos... mas esses de agora deixo também a teu critério...
(olha eu todo saidinho)
beijos  e um abraço bem apertadinho!
beijos - aqueles seguidos de reticências!
beijos comportados, verdadeiros e carinhosos.
um beijo do Manoel, cada vez mais real...
te cuida, e fica bem!
um beijo, um abraço, uma mão na nuca com dedos adentrando teu cabelo!
 
A mão no pescoço precede ao beijo, os olhos ainda estão abertos, prazer em dominar, em ser dominada, e o beijo é para incendiar,  ou pode ser só um cafuné, carinho amigo, e um beijo de bons sonhos... daí fica a critério dos dois envolvidos, neste caso, nós. E aí, qual vai ser?
A minha despedida fica a cargo da tua decisão, aí de cima!
 

beijo, com todo meu carinho!
  

pensei numa mistura, carinho e tesão, aquele beijo que escorrega do pescoço ao ombro, puxando blusa, alça de sutiã, mas só ombro, e vontades...

aqui, despedida entre amigos são três beijinhos...

beijo é bom...beijo é bem bom...
Fica bem!
O que tu achas?
Abraço,
Abraço,
Abraço.


Edição de Suzana Guimarães

quarta-feira, 1 de maio de 2013

CARTA AO SABOR DE LICOR E AMOR



Los Angeles, 30 de abril de 2013.



Duas doses de Cointreau, uma  banda estranha tocando músicas mais estranhas ainda, um pedaço de chocolate amargo, o silêncio enfim alcançado, uma vontade enorme de deitar-me no sofá e deixar-me ficar por dias, noites, ensolaradas tardes ou não, para vestir a minha nova pele, delicadamente, em respiração regular...Todos dormem, já é noite e eu estou escrevendo  esta carta somente  porque você esperou a noite toda pela primeira... lembra-se? Faz tempo.  
Você nunca me pediu uma carta, nem um poema, sequer um leve conto, eu sei, não precisa contestar minhas palavras, nem pensar, não quero que você pense, apenas sinta e deixe-se levar, relaxa, a vida é bem menos e bem mais fácil do que você imagina. Acredito que não precisamos mais nos apresentar, já podemos dispensar as palavras, explicações, e esse é o único meio que tenho de dizer-lhe isso. Eu prometi  uma carta para você, mas depois, me vi perdida, por isso, a demora... escrever o quê?
Cara, eu cansei. Cansei, cansei, até o núcleo mais oculto das minhas células, algo tão forte que só renovando, fazendo de novo, recomeçando, sem olhar muito para trás. Não duvide da minha determinação, nunca faça isso, sou aquele tipo de pessoa que só diz que irá fazer se for mesmo.
Segui  ‘mensagens’ colocadas  ‘especialmente’ para mim pelo caminho que era percorrido... Creio nesses sinais, sim, são sinais, enigmas, o grande problema foi a tradução mal feita deles. Errei em muitas das minhas interpretações... e, aí, chega você fazendo-me perguntas, questionando certezas...
Seríamos felizes em nossa cumplicidade – maior que nós, que nossas tolas vontades, determinadas decisões de ‘nunca mais” – se você parasse de perguntar e eu de tentar explicar o que eu não sei. E, atualmente, como dizia meu pai, “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.
A música se repete, já não posso mais com tanto licor e eu preciso dormir cedo porque acordo às 6h. Por que você não vem conhecer o meu mundo? Eu tentaria caminhar no teu, eu ouviria aquele chato cantor das emoções, tomaria chá, que detesto, e tiraria todos os saltos das gavetas para parecer um pouco maior. Você comeria cactus fritos e saborearíamos algumas margaritas, sim, você iria tentar aprender a se embebedar. Ou então, seguiríamos para a Baviera e degustaríamos todas as cervejas de lá, ou o famoso uísque da Escócia. Que tal um tango que eu não sei dançar,  na Argentina? Ou simplesmente alcançar o mais alto dos morros de um Belo Horizonte para ver uma  entediosa segunda-feira morrer...
Não tenho longas cartas para você porque não precisamos mais... tenho mãos para compartilhar, voz arrastada para lhe dizer e uma enorme felicidade por saber que você está por perto, mesmo morando  abaixo da Patagônia e eu, para lá dos Montes Urais.
Não precisamos mais de palavras, precisamos de nós, francamente cúmplices, degustando o prazer de um encontro, porque  a chance de nos conhecermos era remotíssima.  Posso renunciar ao dinheiro, ao sucesso, ao sexo, mas, à felicidade, nem os loucos renunciam.

Beijo,

Suzana
Por Suzana Guimarães

sábado, 27 de abril de 2013

UMA CARTA EMBALADA



Los Angeles, 26 de abril de 2013.




Querido,


A última música que você me enviou, estou ouvindo-a. As cartas, guardando-as. O passado, estou querendo esquecer, neste martírio e gozo em círculo vicioso, onde você vive e morre, é belo e feio, amado e odiado, uma ponte entre viver e sobreviver, o caminho para eu alcançar a borda da felicidade e  tocar-lhe novamente, desde o último sonho, onde tudo parecia real e palpável.

Entenda, amor não se adapta, amor se aceita ou rejeita, não finge, acontece, não espera, berra. E mesmo que eu gritasse teu nome dezenas de vezes e pedisse para você compreender, nada adiantaria, pois, no fundo, no fundo, somos os pais da descrença, por isso, a morte da nossa felicidade.

Ah, você não acredita, mas éramos felizes, você e eu, assombrados com nosso encontro, ríamos, esperávamos, sabíamos ser reais, de tanto que nossos corações batiam em descompasso. Mas, ó, miséria humana, orgulhosos em nossos tronos de soberba e pretensão, sabíamos também apontar nossos indicadores, mostrando a mínima falha, procurando no outro, um vacilo, um descuido, o baixar da guarda.

Não soubemos ser a paz de um encontro bom, vivíamos preparados e bélicos, perdendo o melhor da peleja, a fruta, o sumo, considerando bom apenas o galgar dos galhos, a conquista, o aceite.

A música se repete em meus ouvidos, é tarde, é noite, é dia, aí? Você está feliz? Faço falta?

Por aqui, tudo bem, vou caminhando, fotografando portas, janelas, bancos vazios e também flores, vou caminhando, esquecendo-me de você, procurando vê-lo por outro prisma, a partir do meu próprio olhar e não mais através do que você imaginou encantar-me.

Você sabe reerguer-se? Eu também, embora quisesse dançar com você, beijar teus lábios grossos, dedicar versos e melodias, abraços e sussurros, despentear este teu cabelo armado e falso, deixá-lo ao natural.

Você se tornou de fonte de vida ao tempo de uma música ou sua repetição, ao tempo de um passeio na beira da praia, um tempo curto, frágil; de diamante a caco de vidro, que eu pego e me rasgo, às vezes, pelo prazer de saber que, a cada corte, corto-o também, assim como, a cada carta, despedaço o que você se esforça por manter inteiro. 

Querido, sou a verdade que bateu à sua porta. Você, a mentira que se instalou em mim.

Dorme, dorme, meu anjo, a música cessa.




Por Suzana Guimarães

Nota: ao som da banda Sigur Rós...

sábado, 20 de abril de 2013

Eu preciso escrever uma carta.

By Man Ray 
 
 
Eu preciso escrever uma carta. Eu preciso escrever uma carta e isso sempre foi muito fácil para mim, mas, hoje, não. Estou desfocada da realidade ou absurdamente dentro dela, enquanto rolo as páginas do Google, vendo a vida, a morte e a loucura humana. Estou assim há tempos, de forma escondida, para não deixar transparecer o que tenho mais de real, um certo escapismo. Então, por consequência, não estou em lugar nenhum. Tenho vida ativa e ela corre, corre muito e eu me perco nas datas, e me vejo questionando meu colega ao lado, "hoje?, que dia é hoje?", e ele, com a cara pasma, responde: "hoje é segunda-feira e você não veio foi na quarta-feira passada, na sexta, você veio". Contudo, a loucura da realidade humana empurra-me para dentro, para a divagação, e eu me vejo, admirando, pelo lado de fora, as cortinas que cerram as duas enormes portas de vidro da minha casa. Do lado de fora, questiono-me o que se passa dentro, o mistério, a razão delas, as cortinas, estarem sempre em desalinho, e, às vezes, posso ver um pedaço de tapete, a luz acesa do abajur... como se tudo fosse desconhecido, mas não é, é meu.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas como? Eu queria estar em todos aqueles lugares, invisível presença, porque eu queria estar bem próxima de alguns e o que mais me deixa atônita é saber que não estou fazendo distinções entre o bom e o mau, nesse meu querer. Eu queria correr até lá, e gritar bastante e dizer que tudo é enorme absurdo e que somos apenas adubo e nem sempre podemos dar belas flores, eu diria, sim, para aquele belo homem, tudo aquilo que ele recusou diante do espelho. E o espelho é ele. E o espelho é o outro ao lado dele. E o espelho sou eu.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas eu quero mesmo é rir, desmanchar-me de rir pelas tolices dos plantonistas das verdades. Tem gente por aí só esperando o momento de lançar suas verdades, aos céus, aos léus, mesmo que não caiam em solo algum, mesmo que jamais façam brotar sequer um botão de flor. O que eu sei sobre a verdade? Nada. Tão pouco ele, tão pouco o que vive ou morre em dor dilacerante e nem o que mata. Não sabemos de nada neste solo de cultivos, somos simples sementes, pó, pólen, metragem de pele a secar, ossada quase eterna, almas embaralhadas em cartas dispersas sobre a mesa do enigma.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas meu destinatário se foi na madrugada passada, entre duas esquinas, no barulho eterno das guerras humanas.
 
 
 
Por Suzana Guimarães

domingo, 7 de abril de 2013

Meu pai

 
 
Suzana Guimarães - arquivo pessoal
 
 
Nenhum amor me salva hoje e nenhuma palavra por mais bela, nem a ideia do futuro ou esta agonia presente, nem ela. Minha história se reconta em mim, de forma aleatória, sem datas, lembranças somente, nada, nada linear porque essa história começa a se enuviar. Dou-me ao direito do choro de filha. Descendo dele em corpo e alma, em nome, em tantas histórias contadas e que, se eu não cuidar, se perderão com ele. A partida dele tira-me o chão. E o que sou sem chão? Nem voos alcancei... Ele sempre teve chão e se pisou bem ou não, pisou, marcou seu território.
 
Nenhuma palavra me salva, nenhum conforto ou consolo, com ele, desvaneço-me, mesmo ainda inteira. Eu nunca soube que ele poderia tanto.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 4 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

PARA A NOITE ÓBVIA



Quando o ar faltar,
as persianas por fim se fecharem sobre
raízes podres e raquíticas debaixo de sol frio e distante;
quando a chuva deixar de ser poesia,
e não houver mais conforto em braços e olhos alheios...
quando tudo se tornar insuportável como a agonia dos que morrem por não saberem do remédio
eu lhe peço, sopra um vento raso e breve, lento, em meus ouvidos, ordena-me, implora-me, amarra-me à vida, mesmo que bem pouco seja tudo que você possa fazer.

Quando tudo parecer argila mal modelada, mal esculpida e espalmada,
quando as ruas parecerem sempre as mesmas, as trilhas sempre óbvias;
quando faltar o mistério, o aroma bom de um dia que se anuncia ou se extingue, e a minha presença for o mesmo que a minha sombra,
diz-me uma só palavra, a plena, aquela suficiente, que ressuscita. Diz que você está presente.

Quando a graça der lugar à desgraça e o mundo for apenas descrença no outro, olha-me, diz para mim um jardim inteiro de alegrias,
mostra para mim que nunca estive só, que sempre o tive, mesmo nos momentos de vácuo, quando as almas se perdem atrás de seus corpos.


Por Suzana Guimarães


domingo, 24 de março de 2013

ROL DE QUEIXA





Incerto o início do mergulho. 

Num sorver de ar, alguma novidade
Uma palavra amarga, outra amiga. 
Um ato de fé, outro que se desfaz. 
Alegria, alegria, próximo segundo, outra imersão. 

No fundo d'água, pressão que a vida faz. E assim, mergulho e ar,
Agonia, agonia, em retornados mergulhos. 
No fundo d'água, a paz que a vida dá. 

O que dói é o rio não ter fim.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Dominós enfileirados, um cai e assim segue..."

 

 Pela manhã, você acorda. Você pensa que a manhã é a mesma de ontem e anteontem, mas não é. As manhãs são as peças do dominó que estão a cair, uma por uma... apenas isso. O que me aguça é a oca sensação do que virá após todas as quedas. A alegria das quedas é o encontro com o outro.
 
Ela chegou ontem, embora esteja aqui o tempo todo. Eu abri dois pesados livros para ela, ou talvez, mais. Tantas palavras, frases, textos e mais textos... ela apontou algumas peças, uma delas caiu porque, estar numa mesa de jogo, é real demais para quem sonha apenas com o dia do jogo, enquanto isso, masturba sua alma no delírio alheio. Ela apontou uma outra peça, chocada, constatou que a peça imaginava-se inferior às outras... e não bastava e não adiantava e nada resolveria eu dizer que não era bem assim, que o que a peça continha em si era bem mais que fazer parte de um jogo de dominó.
 
Eu não soube ler a história do dominó. Ela contou para mim, como a gente faz para aquele que quer ler, mas não pode fazê-lo. Ela contou para mim a história de algumas peças e eu pedi que parasse, pois tenho vários amanhãs.
 
A alegria das quedas é o encontro com o outro. Agora, já posso ver tudo o que eu não via e queria ver... A peça que dispensa a realidade do jogo, para mim, é descartável. Desfez-se do contexto dos meus amanhãs.
 
A peça que se sente menor, enfileirada e caída, eu a coloquei novamente na mesa, mesmo que ela não queira. Posso guardar em mim quantos jogos e amanhãs eu quiser. Se cabem em mim ou não, problema meu, de mais ninguém, nem da peça. Guardo em mim o que quero pois é tudo o que eu realmente tenho, minha morada interna.
 
A peça me leva para longe das letras, não preciso mais da palavra, da forma que precisava antes. Apraz-me a verdade que alcancei ao saber os motivos daquela queda... e o dia se fez cinza clarinho e frio, meninos em jaquetas vermelhas, ardidas na brancura do lago ao fundo, deslizam-se em seus skates a caminho da escola. Eu deslizo também, pensando em alecrim, jasmim, em cheiro de boas manhãs, no entendimento do outro, numa boca que se fechou para mim, tão bela boca!
 
O que dói não é o medo. O que mais dói é ver alguém medindo-se menor do que realmente é.
 
Ó, pássaro, ó, saia da beira desta janela, alcança a vastidão que espera por você e voa, e, quando quiser, canta para mim um canto rouco...
 
Por Suzana Guimarães
 
Dedicado a Mary Cristiane Araújo.

sábado, 9 de março de 2013