sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
dOloreS CRÔNICAS
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domingo, 2 de fevereiro de 2014
"Sou todos os cantos em que seu machucado irá bater". Uma das crônicas do meu livro.
| (arquivo pessoal de Suzana Guimarães)
Prometi uma surpresa para fevereiro, é meu livro de crônicas. Setenta crônicas, dentre elas, algumas já postadas nos meus blogs nos últimos três anos, porém, revisadas, e também inéditas. Será um E-book. O idealizador do projeto é Roberto Meneghini. Definimos que ele seria publicado assim que entrasse fevereiro, mas eu inventei de escrever um pouco mais... o que seria cinquenta virou setenta... um número, o sete, que, particularmente, detesto. Aí você pergunta: "Se detesta, por que assim será?". Também não gosto de ler no computador. E também dizia que eu só escreveria em papel e hoje só escrevo no meu laptop. Por que será? Porque a gente vai deixando de lado muitas tolices e vai aprendendo que o importante nem sempre vem rico em detalhes. Então, se ele for publicado em fevereiro, ainda estaremos no mês, não é? E ainda estou cometendo o pecado de revisar eu mesma... Beijo!
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Suzana Guimarães
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
HASTA LA VISTA!
domingo, 5 de janeiro de 2014
UMA CARTA PARA AÇORES
Long Beach, 4 de janeiro de 2014.
Querida L.,
Escrevo-lhe para encurtar meus dias que parecem muito longos, uma claridade constante a invadir-me, os sons de um dia eterno, o entardecer que não me alcança...
Assim, neste ato de me virar para você, aí, tão longe, do outro lado de mim, escondida em terras de Portugal, onde o Atlântico parece-me mais convidativo....sei, eu sei, é gelado também, mas o nome soa meu, é minha casa materna, o fundo daquele reino que ficou para sempre, o quintal de todas as fantasias que vi passar por entre minhas pernas finas e meus braços desengonçados. Assim, nesse ato de me virar para você, eu entardeço e anoiteço, fecho-me em portas dobradiças, janelas de onde só se passa luz fina, mínimas frestas... e eu descanso.
Ouço 'Arrival of the birds', penso em você que dorme, não irei assustá-la, posso caminhar sem sons, sou desprovida deles, tenho até um péssimo hábito, o de suspender a minha respiração a todo momento. Seu quarto cheira a mirra, você gosta de cobertas claras, dobradas aos pés da cama e seus gurus cochicham enquanto lhe velam na chama que arde, amarela, hoje, amanhã, rosa... em um rosário sem fim de pedidos e ladainhas.
No cômodo ao lado, sinto cheiro de hortelã, e sei que lá fora há rochedos e silêncio; ruas estreitas que ora se cruzam para depois se estenderem até onde não mais alcança a vista.
Há um varal de roupas brancas, posso vê-lo, posso tocar os lençóis, as longas vestes e suas capas, posso contar para você a história de um guerreiro que pedia à mais bela das moças da vila para lhe besuntar com óleos sagrados, pois ele acreditava nos poderes dela e no poder de um corpo forte e escorregadio, cujos olhos pintados de negro afastavam espíritos malignos imbuídos de fazê-lo perder a batalha.
Posso lhe dizer como esses dedos brancos e finos o tocavam. E posso lhe garantir que ela desenhava nas costas desse guerreiro um mapa. Sempre o mesmo. Incontáveis vezes, tantas, que até hoje pode ser relembrado e desejado, o caminho da volta.
Esqueci de lhe dizer, eu sou a moça dos sonhos, aquela que os vendia por alimentos e você os comprava. E hoje retorno para ratificar um por um, sem ônus, por agora, um único, para você e para ele, meus sonhos tornaram-se de graça porque a fome do mundo não me ganhou, eu sobrevivi a ela, e jurei juntar as mãos que perdi num tempo que ninguém dele se recorda... só eu. Meu único pedido é que vocês sejam mais resistentes que o tempo que nos come.
Eu vim aqui para lhe dizer, principalmente, que meu nome é Recordação e não aquele com o qual me alcunham. E, depois que eu partir, assim que eu dobrar a esquina do seu jardim em labirinto, você se lembrará de um nome, do nome dele. E do seu, que você esqueceu.
A música cessa e junto com ela os sons da casa, todos eles, imbuídos de um poder maior, ancestral, o mesmo que sibilava ao passar pelas roupas expostas nos varais e fazia a gente acreditar que ali iniciava e morria toda a criação.
Mas, não, a criação é obra oculta, de criador que não vende sonhos, apenas tampa-os para que nós, somente nós possamos os desvendar.
Nesses dias intensivamente claros, apresso-me, já que a hora se faz. Há uma morada sem sua dona, eu; há pequenas velas, redondas, acesas, apesar de toda a claridade... preciso recolher-me neste inverno que começou faz tempo. Faz-me falta o interior, o sombrio e o estar completamente só.
Desmontei a árvore de Natal com suas luzinhas, errei a tradicional data, tamanha é a pressa. Comprei tinta nova para os cabelos e um perfume diferente para neutralizar os do passado recente. Ouço outras músicas, enquanto ajeito minha casa para meu retiro, quero, a partir de agora, aprender a gostar do barulho que os ponteiros de um relógio fazem, aquele mínimo que eu tanto detestava, mas que traduz realmente minha vida germinando.
Aguardo suas novas, aguardo seu acordar.
Beijo,
Suzana
Por Suzana Guimarães
sábado, 28 de dezembro de 2013
CARTAS DE DEZEMBRO - a sétima
Los Angeles, 28 de dezembro de 2013
Querido F.,
Eu já lhe disse que gosto do seu nome, do seu nome de nascimento? Se ainda não, digo, prefiro-o ao apelido, gosto do movimento dos meus lábios para pronunciá-lo, que primeiro se abrem, pouco, para depois, fazerem dois biquinhos...
Há quanto tempo a gente não se fala, apenas passa correndo um pelo outro, "oi, bom-dia!", "oi, boa-tarde, como vai?"... e a vida enrolando-nos, levando-nos, a nós dois, em ricos tapetes persas, para terras jamais habitadas, ou lotadas, com desconhecida gente a nos sorrir, fazendo promessas, e nós, embriagados de poesia, carregando areias finas a nos incomodar em nossas barrigas - chamando-nos para o lúbrico - e a vida fazendo sinais, e nós, muito tontos, acreditanto em todos, pela eterna mania da aventura...
A mim, meu querido, cabe este deserto onde os 'tumbleweeds' parecem ilusão de ótica, bolas de mato seco voando aos pulos feito cangurus... A ti, estes lençóis, ah, estes lençóis maranhenses, diga-me, são mais belos que as dunas de Natal?
A nós, nossa realidade. Mas, a gente não aprende, não é? E, amanhã, no estacionamento do supermercado, você esbarrará seus olhos no amor de sua alma - e você acreditará nisso, com todas as suas forças, e, se contar para mim, eu direi, sim, sim... e você voltará para casa sorrindo, escreverá cartas, poemas e bilhetes de amor. Incensará o ambiente, comprará roupa de cama nova, alguma bebida forte, alguns cigarros... pedirá à Iemanjá, deixará seu barquinho de ofertas para que as ondas do mar o levem com seus pedidos mais secretos... eu sei, eu, de cá, bebo suco de maracujá, miro os céus, peço 'meu pai', e não completo a frase, e, compro um disco da Nina Simone, pensando em você, desenho cenas de amor no escuro da noite, acreditando também ser a rosa azul de alguém, a bailarina de um rei sedento de mim... isso me faz rir, mas somos nós.
A nós, meu querido, a vida é pouca, escassa, escorregadia porque somos dois excessos, dois pássaros de peito em chamas, dois voos em queda livre. Somos os de ontem, você ainda na loja de tecidos, sedas, cem fios de algodão egípcio; eu, debaixo da mangueira, esperando alguma manga cair, seguindo o conselho do meu avô S., 'dispensa as do chão, espera as de cima', ouvindo G. cantarolar enquanto lava panelas na água da bica... e somos hoje, ardentes, ansiosos, e, com certeza, somos o amanhã, e você convidará o amor de sua alma para tomar um café.
É o que importa, a certeza de quem somos. Deixa a loucura para todo o resto.
Eu li que o próximo ano será o ano do cavalo de madeira. Pois então, nele estaremos, com certeza, mesmo que para lugar nenhum, mesmo que dele a gente venha a desmontar, já que o que importa nesta vida é o coração um minuto antes do primeiro beijo na boca.
Abraço apertado,
Suzana
Por Suzana Guimarães
CARTAS DE DEZEMBRO - a sexta
| (arquivo pessoal de SCG) |
Los Angeles, 28 de dezembro de 2013.
Querida E.,
Recebi poucas notícias de você nos últimos dois anos, mas algumas 'ladybuggies' e algumas fotografias que a mim chegaram avisaram a constância dos ventos bons ao seu encontro.
A primeira delas foi acompanhar sua barriga crescendo, criando um ser humano, uma pessoa muito linda, com nome de rainha. E, só isso já bastava! Quem com crianças anda, jamais envelhece. Andam por aí, à procura da juventude eterna, mas, poucos sabem que só as crianças podem isso transmitir. Aquele que se afasta delas cheira a pó antisséptico, minha irmã diria, cheiro de velho chato.
Quem anda com crianças ao lado cheira a rosas, assim se foi minha avó, que deixou um guarda-roupa que assemelhava-se a um roseiral. Algo que ninguém nunca entendeu, apesar das filhas e netas terem vasculhado-o à procura do talco especial ou do sachê jamais descoberto.
Sei também que, quem estava longe, voltou. Cabe a você aceitar ou não, é o seu direito. Talvez esse alguém tenha vindo no cheiro da criança, da notícia da boa nova. Isso me alegra, saiba. Deixa os ventos sagrados cumprirem sua missão. Deixa o tempo tomar sua própria direção...
Só há um jeito de ser feliz, aprendi com a minha mãe, venho aprendendo com o meu filho de apenas 13 anos... algo muito difícil para mim e penso que para muitos, para ser feliz é preciso estar de todo livre, e, para estar de todo livre, é preciso ter os braços soltos, a mente vazia à espera do novo e a certeza de que no fundo, no fundo, não há gente perfeita. O que eles fazem, minha mãe e meu filho? Eles seguem as suas vidas, sofrendo também, mas bastante indiferentes a tudo o que lhes incomoda, parecem estar sempre deslizando por entre plumas, nuvens, em um riacho de águas doces...
Eu não a esqueci, apesar de que aquela Suzana vestiu-se e despiu-se de muitas ao longo do tempo. Feito um vendaval, fui desbravando as matas escuras da hipocrisia humana, soltando-me de amarras inúteis e infrutíferas. Parei de pedir por atenção. Nasceu em mim, um olhar novo, eu mesma me vendo e isso me bastou, basta-me.
Você será sempre o toque leve, a palavra pouca, mas suficente, um encontro que não precisa correr para dar certo.
Desejo-lhe um feliz ano novo, ao lado da sua princesa com nome de rainha, ao lado do homem belo que lhe acompanha.
Beijinho na testa,
Com carinho,
Suzana
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
CARTAS DE DEZEMBRO - a quinta
Long Beach, 26 de dezembro de 2013.
Querida E.,
Hoje, em um quase final de manhã, caminhei à beira-mar... como se eu fosse outra, vinda de alguma de todas as minhas casas. Imaginárias. Uma forma de me homiziar? Às vezes, penso que sim, às vezes, que não. São apenas casas que me escondem ou eu invento? O que sei é que hoje, pela manhã, diante do mar, tão azul, sem ondas, que recordou-me o rio Colorado, o mesmo tom forte, eu me revi, a mesma de quatro anos atrás que não sei bem onde esteve. Daí, a sensação de outra e de moradias, invisíveis moradas que me acolhem.
Revi as gaivotas, sabia que elas se perfilam todas as tardes para assistir ao pôr do sol? Não fiquei para ver, mas eu sei, via sempre, logo que cheguei aqui. Mesmo que a criança de cabelos longos as assuste, elas voltam quantas vezes preciso for, levantam voo e descem para repetir até à exaustação da menina. São agressivas por comida, podem lhe atacar, essas aves, contudo, para ver o crepúsculo, tornam-se pacíficas. Para você que gosta de filmes, tenho certeza de que foi daí que o diretor do filme 'Cidade dos Anjos' inspirou-se. Lembra-se dos anjos perfilados à beira-mar, nos finais de tarde?
Esta vida inspira-me. Sua mobilidade inspira-me. A minha própria estranheza cria meus palcos... Por onde andei, moça?
Com os pés naquelas águas geladas, rezei para o meu pai, as 'Ave Marias' saíam sem policiamento... pensei em tudo e em nada, lembrei-me de você, ah, nem seu movimento arvorou-me ou precipitou qualquer coisa a correr. Eu andava, eu orava, pensava, mas estava em mim tudo muito parado, ao contrário de você que me lembra o filme 'Corra, Lola, corra'. Tudo quieto, ações meramente coadjuvantes... certa vez, meu pai comentou, "não acredito nestas tuas cinzas, elas não existem, se cutucarem, sai faísca", quando eu, indolentemente e de forma muito desanimada, contei para ele que aquela, aquela agitada, falante, barulhenta era só cinzas.
Você perdeu a beleza que eu vi, mas guardei para ti essa sensação de molejo de um corpo em um trem, em um ônibus, em uma kombi velha que eu peguei no sul da Bahia e sacolejava meus miolos, minhas tripas, ao som de musiquinhas do Caribe. Meu amigo, ao meu lado, disse-me, "isso está me lembrando Almodóvar". É tudo o que me lembra você, pois eu lhe conto histórias enquanto você se movimenta, sobe e desce, corre, atravessa a Avenida Paulista, espia o homem de terno branco que passa, sonha algo parecido a um filme, poderia, sim, ser o filme argentino que você me recomendou, e, esse homem sorriria para você e você para ele, vocês achariam tudo muito engraçado, engraçado e feliz, incrível e inexplicável alegria por aquela visão não planejada, mas sonhada, num fundo de cinema, enquanto engole a tela à frente e deseja, bem no íntimo, 'ah, isso um dia acontecerá comigo!'.
Com certeza, você tem suas belezas para ver. Mas, a gente sabe, de repente, aquele belo homem cospe no chão, enfia o dedo no nariz, merda, destrói tudo! É nesse instante que a gente cria-se outra e confina-se em alguma casa, qualquer espaço vago, onde caiba, nós.
Meu passeio de hoje foi uma fuga, eu estava exausta da mesmice do meu apartamento, do falatório de todos, somos quatro, e vivemos há quase cinco anos em constante círculo vicioso. Nós nos temos, nos gastamos, nos reiventamos, nos odiamos e nos amamos. Brigamos constantemente por nosso direito à individualidade, delimitamos espaços, quando batemos as portas de nossos quartos. Falamos em duas Línguas, bom, eu insisto que seja em uma só, mas a minha filha de seis anos, nascida na realidade em Nova Lima, e, não, em Belo Horizonte, que seria o lógico, grita: "oh, man!". E eu rio, e ela consegue muita coisa de mim porque seu sotaque de americana é lindo demais.
Sabe um passeio isento? Foi esse.
Meu filho mais velho - ainda não comentei, estávamos, claro, juntos, nesse passeio, mas eu os abandonei debaixo do pier e caminhei sozinha - disse-me, "você já aproveitou esta cidade, agora, você está vivendo-a". Moça, de repente, nossa criação fica melhor que nós, seus criadores. Eu falei que não aproveitava mais meu pequeno paraíso... então, é isto, estou no momento seu, instante de intensa locomoção e nem me dou conta... pois as outras de mim atraem-me para suas estranhas casas...
Tenho mania de filme, mania de fotografia e de sagrado. Tenho hábito de sonhar com coisas eternas, almas etéreas, amores que não se acabam. Até hoje, atravesso ruas, com fundo musical, feito por mim, para mim, não me pergunta quais são essas músicas, mas o palco existe, e eu invento-me.
Sabe o homem de terno branco? Ele passará por você, mas presta atenção, vocês se reconhecerão, e, para isso, esqueça todas as suas invenções, todos os roteiros, porque, garanto-lhe, vocês ficarão feito bobos, não saberão muito bem o que fazer e o diretor, esse, está tomando um café do outro lado da rua, de costas para a Avenida Paulista, rascunhando algum longa metragem. Acontece, E., acontece.
São Paulo dorme, você dorme, eu, não. É cedo. Estamos todos na sala do nosso apartamento, na realidade, duas salas que se juntam, onde fizemos três ambientes. Estou diante do meu Laptop, em minha mesa de vidro que é um jardim desenhado; minha filha calou-se, enfim, assiste a um filme em seu presente de Natal (alguns cavalinhos coloridos, pequeninos, assitem com ela, enfileirados, diante do Tablet); meu filho joga algum jogo que nunca saberei sequer ligar e meu marido está lendo alguma coisa, com os óculos pendurados na ponta do nariz. Chega uma hora que ninguém aguenta mais de sono, porém todos permanecem imóveis, parece que estendendo o dia um pouco mais.
Eu estou aqui, mas ainda lá, à beira-mar, como eu lhe disse, tenho mania de eternizar. Uma manhã igual a todas as outras, onde nada de surpreendente aconteceu, somente o fato de que, se eu não fosse até lá não estaria mais feliz, agora.
Beijo,
Suzana
Por Suzana Guimarães
Nota: fotografia feita no dia do passeio...
Nota: fotografia feita no dia do passeio...
sábado, 21 de dezembro de 2013
CARTAS DE DEZEMBRO - a quarta
| Suzana Guimarães - arquivo pessoal |
Long Beach, 20 de dezembro de 2013.
Querida S.,
Escrevo-lhe para contar das minhas saudades, pois, hoje, um passado muito antigo e guardado pegou-me de assalto, logo cedo, enquanto eu dirigia em direção às escolas dos meus filhos. Lembrei-me de algum Natal ou todos eles, de uma só vez, que passamos na casa da vó. Talvez, porque chovia, porque eu jamais tenha esquecido de verdade aquela época, talvez porque senti um cheiro especial, daqueles tempos, algo que fez saltar da minha memória a cozinha, os afazeres em torno do fogão, um entra e sai naquela casa... cheiro de assados, doces caramelados, eu não sei.
Fiz então uma viagem rápida, para trás, imperceptível, pude ver a avenida em frente ao supermercado Cruzeiro, alagada, os carros passando, a gente indo comprar alguma coisa a pedido da vó. Hoje, era manhã; em minha lembrança, um início de noite. Um lapso. Um cometa rasgando o céu, a rapidez do piscar de olhos. Éramos nós.
Éramos você e eu, a cidade que se perdeu - ou nós a abandonamos, os tios e tias, os laços que não se rompiam... tudo girando em torno daquela senhora baixinha de cabelo cinza... eu só fui feliz naqueles dezembros e nunca mais. Os demais foram forçosos, cansativos, uma ladainha sem fim de lamentos, a televisão programando a nossa alegria, ninguém mais querendo esperar a meia-noite.
De tanto desgostar de todos os Natais que se seguiram, de tanto desejar fugir, eu fugi, me escondi aqui, bem longe, ao lado do Pacífico, mesmo sabendo que da nossa história, não escapamos. Não me arrependo de nada. Sou feliz. Assimilo dia a dia uma outra cultura. Cuido do meu pequeno mundo, lotado de minhas ideias e devaneios. Parei inclusive de olhar para trás, com aquela insistência que eu tinha, fixei meu olhar para o amanhã. Porém, não ultrapasso esse amanhã. A gente economiza dinheiro, deixa nossos últimos desejos por escrito, e isso é pensar para frente, mas, no meu caso, só vou até aí. Agrada-me olhar para os céus, principalmente nos dias cinzas, e imaginar os lírios crescendo sozinhos...
Há um arrastar de malas de rodinhas pelos corredores do prédio onde moro e nas calçadas, nos elevadores... Frenesi no ar! Em mim, meu luto, que ainda dói. A família vai lentamente dissolvendo-se... virão outras, mas nunca mais aquela, que a vó manteve unida.
Lembro-me de nossos pais, sempre próximos nas festas, lembro-me de nossas viagens, dois carros, uma casa alugada, quinze dias em Iriri... meu pai tão falante e agitado, o seu, calmo, pacífico, dos meus tios, o que eu mais gostei, o melhor deles e pensar que era um tio 'torto'... Uma dupla que deu certo, os dois. E, vejo, hoje, outra: nós duas.
Saudades, saudades, saudades. Nossas idas ao cinema, nossos filmes preferidos, nossos papos, as viagens, tudo, tudo, coisa boa e ruim, tudo embolado dentro de mim. Um correr de anos, Natais, finais de semana, nossos desencontros, nossas eternas tentativas eficazes de reaproximação, de entendimento...
Há uma cena que insiste em mim: na casa dos meus pais, nós, sentados à mesa da sala de jantar, meu pai tão velhinho, calado, apenas nos olhando, nada mais dizendo (isso doía, ele nada mais falava, como maltratava aquele silêncio!) e você, carinhosamente, catando os fios de cabelo, brancos como neve, do casaco de frio dele. Fotografei para sempre, guardei para mim. Eu nunca disse nada, digo agora. Eu queria tanto lhe dizer isso, digo em carta, pois, pessoalmente, jamais direi. Eu não sabia que você gostava tanto dele...
Já é noite. Deixei essa carta inacabada na tela do computador. Parou de chover faz tempo. Não escuto mais os sons de fora, todos já se recolheram em seus apartamentos. A Califórnia também sabe se fazer invernal. Gosto desse tempo para dentro, reflexivo, menos alvoroço, praias desertas, um frio a silenciar nossas dores e também nossos sonhos. Como se tudo hibernasse.
Farei uma feijoada no dia 25. Não haverá convidados. Poderia ser você, a nossa, vindo da forma que eu lhe disse, outro dia, carregando apenas a bolsa de mão, sorridente, leve e livre, que fosse por três dias, que fosse por dez... mas, fosse. Temos uma longa praia para caminharmos, toda ela para rirmos de engasgar, temos este mosaico humano que é a minha cidade para contemplarmos.
Você diz que é utopia, eu digo que é amanhã.
Um abraço apertado,
Suzana
Por Suzana Guimarães
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Já que é dezembro...
| Suzana Guimarães, por Hilário |
Eu a via sempre, parecia paga para uma eterna propaganda de pasta de dente. Sim, pasta de dente, assim a gente falava, "rímel, laquê, japona", uma lista enorme de palavras que foram expulsas de nossas bocas e do mundo porque decidiram chamar roxo de berinjela e bege de nude. Mas, voltando, eu parei de gostar dela porque ela ri demais e eu me cansei dela. Não, ela não ri demais, eu sei o que é rir demais. Ela força sorriso e ele fica plástico.
Eu gostaria de fazer minhas últimas críticas, posso? Ando com mania de lista e aproveitarei para fazer a última deste ano, assim espero.
Faço fofoca quando quero, quando a tampa explodiu porque a comida dentro da lata apodreceu.
Gostei de alguns livros do Paulo Coelho, gostei mesmo, Na margem do rio Pietra, eu sentei e chorei, por exemplo. E daí? Você critica, por quê? Detesto Cazuza, mas se você gosta, respeitarei. Aprecio a estabilidade do Silvio Santos, sempre o mesmo modelo de terno e o microfone no mesmo lugar, fixado na gravata. Um apresentador de televisão educado que ouve seus convidados.
Às vezes, penso em morder meus colegas de jiu jitsu, quando é para o pau quebrar. Depois, levanto-me do chão toda sorriso e grata, faço reverência, agradeço.
Perdendo seu tempo para dizer do que não gosta, todo santo dia, ou de três em três? Cansa. Fecha a casa, quebra o computador, queima os livros e revistas, vai morar no Afeganistão, procura uma toca, uma gruta, e esquece a eletricidade.
Eu adorava ler, aos treze anos, "Sabrina, Júlia e Bianca". Assustados? Também li os russos e o prazer era o mesmo, outra idade, outra época, mas, tudo, leitura. Detesto gente que caça perfeição e coisa boa o dia todo. Deixa de ser otário. Isso não existe, feito você, que só é perfeito em sua cabeça insana. Há mais normais nos consultórios psiquiátricos que doentes. Eles vão lá para conseguir conviver com os doidos.
Falo palavrão, não falava, agora, sai mais vezes da minha boca do que eu queria. Nem por isso perdi a pose, a elegância, sou chique, se você não me conhece, fica então sabendo.
Empáfia em criança... penso rapidamente em reformatório, para os pais. Empáfia em adultos, há várias maneiras de evitar o contato, não se obrigue ao convívio, melhor que a falsidade visível.
Não gosto do Roberto Carlos, mas há certas músicas que admiro e eu separo o artista da pessoa quantas vezes eu quiser, só me faltava ter arrancado de mim o direito ao gosto, num mundo onde muitos fizeram e fazem a questão de me criticar por qualquer coisa, e num mundo hipócrita, onde as pessoas se tratam por "queridas", "amigas de infância", e dão risinhos bobos, querendo, na realidade, estrangular. Prefiro a mim quando penso em morder meus colegas. Prefiro gente que anda de cara feia pelas ruas afora. Eu ando assim, bem emburrada, e não demonstro o menor sinal de que vou mudar. Faço cara boa quando a ocasião pede, convida-me.
Estou tão cansada de gente que comecei a ficar surda para o Português também, já não ando ouvindo bem em língua alguma.
Se eu pegar meu celular numa reunião, numa festa ou num Café, peça licença e se vá, pois eu já nem sei mais de você. Ou, me dá uns minutos, e tenha certeza, irei embora para nunca mais. Mas, se eu nem me lembrar do telefone - algo que detesto, você será rei, rainha, olharei você nos olhos, sorrirei, lhe darei um mundo melhor que um parque de diversão.
Quando eu chorar, quando eu perder, tenha certeza, estarei esperando de você, no mínimo, um parco uso de gentilezas. Se você não pode me dá-las, não fica me pedindo coisas, favores, lembra-se de algo chamado reciprocidade, se você não sabe o que é, é dar para poder receber. Estou sempre de olho em mim e nas pessoas, por mais tonta que eu possa parecer.
Adoro diplomacias, embora insista no desejo de morder. Sorria, seja feliz, porém, por amor da realidade humana, não se torne o Curinga, que, de tanto rir, virou monstro, e isso lembra-me as hienas histéricas, elas até passam, pois são quadrúpedes; em humanos, fica péssimo.
Por Suzana Guimarães
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
CARTAS DE DEZEMBRO - a terceira
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| By Luís G. Meneghini |
"Uma cidade no alto do Brasil, numa noite quente, num meio de dezembro de 2013.
A lua estava mais linda que nunca, entendi Fernando Pessoa, hoje, e, de fato, se eu tivesse nascido apenas para vislumbrar a magnitude da lua nesta noite, digo, já valeria a pena ter vivido.
Vinha caminhando devagar, apenas para poder contemplá-la um pouco mais. Saí tarde do trabalho. Apesar de ter dormido apenas 3h na noite passada, sentia-me feliz, a energia da noite estava boa, coloquei os fones de ouvido, 'Legião Urbana', e ao som da maravilhosa voz de Renato Russo ouvia o que a lua segredava a mim...
Ela sussurrava “há relacionamentos que trazem vida, outros que a tiram ao invés” e Renato Russo cantava “mas tudo bem, tudo bem, acho que estou gostando de alguém, e é de ti”.
(...)
Não tinha como não escrever nessa noite, não tinha como não dividir...
Beijo grande!
Que os bons ventos te cerquem...
K."
Uma cidade no sul dos Estados Unidos, numa noite fria, num meio de dezembro de 2013.
E eu dirigi sozinha até a academia porque meu filho não foi, estava reclamando de dor na mão esquerda... sinto falta dele, acostumei-me com sua presença, embora, já tenha ido só inúmeras vezes. Mas, agora, ele já é um adolescente, todo curioso e muito interessante e interessado e eu aprecio muito a sua companhia. Ele gosta de jazz, acredita?
Olhei para a Lua e ela estava opaca, bonita, mas opaca, toda enevoada, pois, aqui é inverno. E eu pensei em algum casal que não se encontra, que ainda não se encontrou. Uma dupla perdida, onde, enquanto um anda para o norte, o outro vai para o sul. Pensei que entre os caminhos há muito mais chão que aparenta haver. Há túneis quase nunca ultrapassáveis, há pinguelas prestes a não esperar mais por ninguém. Há vãos entre as rotas, entre as trilhas, há mais espaço que possamos imaginar. O mundo é enorme e o espaço e tempo para nos encontrarmos é pequeno.
É preciso uma força enorme para nos unirmos e outra, mais enorme ainda, para estarmos um diante do outro, em plenitude, inteiros. Não nos falta coragem, isso nós temos. Não nos falta desejo, isso já esparrama pelo chão, já pulou para fora do corpo, transbordou. Falta-nos a certeza de que realmente é real, palpável, a certeza de que não é mais delírio porque vivemos em oculta febre, a exagerar, a sonhar por além da conta. Após a visão de vários oásis, quando o verdadeiro se apresenta, é preciso alguém para nos beliscar, é preciso um empurrão, um grito de Deus, mesmo que seja um raio cortando o céu... mas, o momento do encontro e decisão é um instante ímpar, sem par mesmo, sou eu e o meu destino, cara a cara, e ninguém mais, mesmo que entre mil rostos. É a oferta: você escolhe ou não.
Meu pai sempre dizia, "O cavalo está aqui, cadê o reino?". O cavalo um dia chega e o perigo é pensarmos que não. Uma das coisas mais fáceis de se fazer na vida é desejar, pedir, pedir... Uma das coisas mais difíceis na vida é fazer a troca: aqui está o meu reino, me dá o cavalo; montar nele e ganhar o mundo.
"Há relacionamentos que trazem vida, outros que a tiram...", e o que mais vi foi a retirada e a gente aceita e se acostuma, parece que temos, na verdade, mania de sofrer. Pagamos altos valores por qualquer ninharia, um pequeno agrado, uma pequena decisão, uns galanteios que não trazem frutos. Uns beijos chochos, umas olhadelas preguiçosas, a gente até pergunta, "está interessado em ouvir?". Alguns sinais de interesse mais céleres que a desgraça, pois, essa, sim, instala-se, puxa a coberta, ajeita o travesseiro e fica. Geralmente, ocupa o mais reservado dos cômodos, o mais escondido e distante do resto, porque chega para ficar.
Mas, é noite, é dezembro, é o mês dos ventos na alma. É o tempo da calmaria, do descanso...
E eu ouço Groove Armada, Think Twice... feito um mantra.
Suzana
Por Suzana Guimarães.
Nota: a primeira carta foi enviada a mim, editada por mim e publicada com enorme carinho.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
PARA O ANO NOVO
| By Suzana Guimarães |
Treinarei mais a língua inglesa e o jiu jitsu. Comerei mais frutas, mais peixes de água salgada, tudo que tenha iodo, e aprenderei a gostar de tofu. Caminharei na praia, assim como fazia anos atrás. Estarei mais vezes no meu lugar sagrado. Selecionarei melhor os amigos. Ouvirei e obedecerei meu coração, um sábio que eu vivo a desprezar. Voltarei a deitar-me no sofá da sala, para assistir aos filmes que gosto, e também para o nada. Acenderei mais velas. Farei o meu segundo mistério profundo. Terei mais rituais, visitarei templos. Passarei a ver melhor para ter certeza; deixarei um pouco de lado meu jeito distraído, nem que para isso, eu largue tudo só para ficar olhando, para fora. Farei então dos meus olhos, câmera fotográfica. Voltarei a bronzear-me e a pintar as unhas das mãos, em casa. Lerei a pilha de livros que ganhei e comprei. Levarei meu carro para o lava-jato, pelo menos, uma vez por mês. Voltarei a contemplar as noites. Tocarei o meu mais sagrado sonho e farei isso várias vezes, para ter sempre a certeza do milagre. Não comprarei presentes para quem não os quer ganhar. Morderei a minha língua, mas não darei corda aos imbecis. Cozinharei somente para os meus eleitos. Estarei bastante ausente para muitos, porém, sempre presente em minha lista de prioridades. Vou parar de desenhar para os outros entenderem, nunca fui boa em desenhos, com isso pouparei-me de muita chateação. Vou emagrecer três quilos. Conhecerei três lugares diferentes e vou pedir a Deus, todas as manhãs, três vezes seguidas, para livrar-me do mal, da inveja e de gente ignorante. Vou ser eu, ser individual, e, para garantir tudo isso, já comecei o treinamento, neste dezembro, dez.
Suzana Guimarães
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
SOBRE PROMESSAS
Duas doses do melhor aguardente, ardente sol a queimar-me tal qual a fogueira em que me pus a arder, flamejar, queimando, rasgando, doendo por vasto tempo quase tão quanto meu tempo de vida... a insanidade querendo dizer-se absoluta, dona minha, e eu na fé do caminho sobre o meio-fio. E agora me encontro a rir.
Vocês viram? Ninguém. O sol, as palmeiras, o calor, o instante. A promessa ardendo feito chama.
Vocês ouviram? Eu gritei, gritei tão alto, para além dos céus, fixei a retina, gravei porque eu sempre soube que gravado estava, mas eu quis ter certeza, milagres nos tornam irreais. Tolos os que não deliram nessas febres de insistência. Doente, insistente, eu recuei, às vezes, para retornar com mais vontade.
Lambi o infinito, faminta, perdida, neste deserto em que caí.
Sou o chão, sou o calor e a brisa da noite, pois os desertos prometem e cumprem... se você se curvar, se você se fizer oferenda.
Três raios tem a lua, três raios tem o sol, três vezes eu sou e sou aquela, de outro dia, de onde não se conta mais por ser totalmente imensurável.
Sepulto a finitude de todas as minhas existências. Eu professo, eu vi o sol, a lua, e a insanidade que fugiu, pega em sua mentira, todos eles por fresta, na fumaça que aquele índio soprou e me alcançou.
Por Suzana Guimarães
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