quinta-feira, 2 de junho de 2011
RECADO
MEDO,
Espere-me. Eu volto.
Vou ali, mas volto, depois te encontro de novo, pois é só você quem me dá equilíbrio.
Tire umas férias, guarde-se debaixo da cama, e durma.
Eu volto.
Suzana
sexta-feira, 13 de maio de 2011
JÁ NÃO ME CABE
| fotografia, por SCG |
O ônibus corria sem freios, o motorista tinha pressa. Eu estava sentada ao lado da janela quando passou o filme, ou seria a folha de jornal lançada ao vento? Será que apenas li por sobre o ombro o livro da outra, sentada ao meu lado? O ônibus corria sem freios e de pouco eu sei. Ficou apenas a sensação vazia. Eu havia comido muito, mas a digestão de tudo foi soberana. Rápida, igual ao ritmo do ônibus. Sequer poderia eu vomitar, pôr pra fora. Só sei que vi. Vi os ensaios da minha vida e percebi que já não me cabiam. Nada mais daquilo tudo me cabia. Daquilo tudo que sonhei por longos anos. Foi tudo um equívoco. Doce erro, meiga distração.
Se a vida perguntasse para você, "Encontra-se preparado?", o que você responderia a ela? Eu prontamente diria que sim. E você? Se a vida lhe dissesse, "Aqui estou, sou a realização do teu íntimo, me lanço a você", o que você faria? Você abriria os braços e a seguraria com todas as tuas forças ou você diria que ainda não era a hora? E sentado, olhando a vista, pela janela do ônibus, voltaria a sonhar os teus antigos sonhos, gostosos sonhos, tão delicados, tão arrojados...
Eu diria sim, por impulso, impulso de fugir do medo. "Sim, pronta estou, cadê você vida?". Mas a vida não aparece em janelas de ônibus, às 3h da tarde, batendo com o dedo indicador no vidro, apontando as folhas, o filme, o livro aberto... ela não faz isso para quem aprendeu que viver vai um pouco além do ato de sonhar, que entre esse e ela, existe a coragem e todos são convidados, porém poucos cedem ao tapa. Para esses, iguais a mim, a vida não se impõe, desliza, feito areia fina pelos dedos, calmo escorrer, lento, sem pressa, feito o linho que cresce nos campos, alheio. Ela sabe que o tapa não mais me dói, ou melhor, dói, mas eu passo a mão e continuo.
A vida não se impõe a quem está alheio. Ela só pega os obstinados, os sistemáticos sonhadores, aqueles que comem sonhos, dormem sonhos, respiram sonhos, anseiam por sonhos. Só sonhos e nada mais. A vida os vê, com suas cabeças encostadas, sonolentas, nas janelas que sacodem no gingado do ônibus. Ela sabe que o romance para eles é o próprio delírio, aquele que nunca saiu dos planos. E ela ri. Ela se delicia com todo aquele sonhar, ela come aquilo todo dia.
O ônibus corria sem freios, o motorista tinha pressa. Eu esperava, olhando a vista, ela passou, a vida, séria, mostrou-me o passado, o presente, e disse que o futuro era o grão do trigo. E eu percebi de forma crua tudo que já não mais me cabia, encaixava bem apenas um dia após o outro. Não, não pense em rotina, tristeza, mundo sem graça. Dia após o outro é o máximo do viver, é a essência da existência, é o tudo, o que basta. Não me coube ter porquinhos da Índia na infância, eles corriam o tempo todo num tablado retangular, corriam para um lado e para o outro, paravam, sentavam, se coçavam e voltavam a correr. Eu via aquilo sem entender o tamanho do meu desgosto. Hoje, entendo, da mesma forma não cabe mais em mim conjugar o verbo sonhar por sonhar em ritmo constante.
A graça está também em jogar tais sonhos pela janela do ônibus que corre sem freios.
Já que eles não cabiam mais em mim e o futuro era só semente, abri a janela, dispersei aquela leitura, saí da linha de corrida dos delírios, tornei-me gente completa.
Pouco me importa até onde esse ônibus vai.
por Suzana Guimarães
quinta-feira, 5 de maio de 2011
E A RESPOSTA É...
| fotografia, por SCG |
Sim, fui obrigada a tornar meu outro Blog, O MEDO DE SUZANA, privado. Mas, ainda não recusei ninguém (o Blogger.com permite apenas 100 leitores), pois ele se tornou privado apenas para ser não-público a quem não quer aparecer de forma alguma. Respeito essa posição, se mostra quem quer, mas me vi no direito de esperar o pedido de convite ou mesmo o aceite ou a recusa ao meu convite. Sim, já convidei pessoas que não quiseram me ler, declinaram do convite. E, outro dia, removi uns dois.
Sim, machuquei alguns dedos no jiu jitsu e uma semana depois sofri um acidente doméstico. Sim, eu sei, acidentes acontecem, bem e mal querer também.
Sim, passei um ano surtando. Avisei meu afastamento dos Blogs em várias ocasiões, e, uma única vez foi por motivo de saúde. As outras vezes? Falta de preparo para lidar com situações conflituosas. Simples. Acumulei idade, cicatrizes e fantasmas nas caixinhas que eram para ser de música com bailarina, e não aprendo o saracoteado. Cadê a bailarina? Vira sapateado. Fica a música, a música que a gente, pelo menos, eu, eu continuo a ouvir, insistentemente.
Sim, sou temperamental. Sim, eu perco o tino. Sim, eu sei, há pessoas que me adoram e outras tantas que me odeiam, mas estou aqui por causa das que me amam. O tempo de me preocupar com os pensamentos e desejos alheios já se foi, perdido, perdido, mais perdido que um mosquitinho de brilhante nas areias da praia.
Não, eu não pretendo parar de escrever. Sim, continuo treinando e lutando jiu jitsu.
Não, eu ainda não viajei.
Sim, eu visito três ou quatro amigos blogueiros por dia, pois ainda não estou em férias, de fato, mas passo dias sem vir aqui, às vezes, e dias sem vê-los também. A partir de setembro, pretendo manter uma certa rotina (não sou boa nesse quesito).
Sim, eu consegui acabar com 2/3 daquela lista enorme que estava pregada na porta da geladeira.
Sim, avisei que ia diminuir as publicações e visitas, mas que não me ausentaria até à época da minha viagem. Porém, um problema na família desorientou-me e eu fechei as portas dos Blogs de forma repentina.
Não, eu não surtei.
Sim, eu me afastei por questões não-emocionais.
Sim, estou aqui para dizer que me dói ler que você sente falta dos meus escritos, das minhas risadas, do meu choro, dos meus passeios e comentários. E eu queria prometer um roseiral de textos, cachecóis coloridos para o frio, luvas de plumas, minhas mordidas de formiga cabeçuda da cabeça vermelha, hum... mordidas finas picadas... Eu queria escrever sobre os meninos que passeiam na orla da costa californiana, tatuados, em esqueites, soltos, ao vento, suados, olhares mornos... ou sobre certos homens dirigindo certos carros enormes que cruzam as esquinas e nos deixam sem viseiras, à beira... hum... isso me lembrou a Lua do Lobo Mau, sim, ela mesma, quem a conhece, sabe.
Eu também ouvi dizer que... e isso me dá um conto ou três.
Sim, estou viva, inteira e feliz apesar de.
SMACK aos amados,
"I`m sorry" aos demais.
por Suzana Guimarães/LILY
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
ENFIM, aconteceu
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| ilustração, por R. Meneghini |
Tempo, senhor traiçoeiro. Travaram luta, ele e minha alma. Ele queria todas as coisas, agenda completa, bem preenchida, caderno de receitas por ordem alfabética, livros enfileirados, roupas guardadas em degradê de cores. Ele queria cochilos imprevistos, beijos e abraços furtivos, locomoção, desvarios logo ao amanhecer. Ele queria palavras, palavras, um punhado de encher as mãos... Ela, a alma, queria silêncio, diálogo de olhos, perfume no ar. Ela queria esperar o dia certo dos acontecimentos, ela insistia em conjugar o verbo esperar, caminhar, e vivia sonhando, tentando alcançar primaveras eternas... ela também sempre ansiou por palavras, principalmente as mais difíceis.
Travaram luta, os dois. Não fiquei para ver o desfecho, parti para outros combates, ocupada demais, deixei que os dois se entendessem. Luta nem sempre é briga, pode ser dança. Que dancem os dois, então!
Mas o tempo, que não traiu minha alma, apenas a provocou, instigando-a a uma boa luta, traiu meu corpo, na estrada, enquanto eu fazia percursos incompletos, por puro medo dele, dele me alcançar; por isso, o incompleto.
Farei um caminho, o meu caminho, e sequer passarei pela Espanha. A minha rota é certa, longa e demorada. Não sei como estará ele, o tempo, nem minha alma (dela, ando me escondendo), mas com certeza, levarei no coração outros corações, pulmões, dedos em teclados, mãos. Levarei os toques que me deram, os enfeites nos cabelos, os presentes.
Meu caminho tem bilhete de ida e volta e com certeza haverá paradas para um café, ralo, sempre ralo, um pouco de pão, copos d'águas, a troca de nossos risos e até das mágoas.
Em cada parada, deixarei um pouco de mim, pois assim devemos ser, descascados, descascando, passando e deixando, pelo menos, pelo menos, um perfume ainda não inventado, algumas cartas, bilhetes, flores em ramalhetes.
Suzana Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
em segredo
| (fotografia, por SCG) |
Você chegou num dia vermelho, vermelho da china. Você chegou num hiato, entre um dourado e um pardo. Eu não notei, a princípio, vivia confusa, esbranquiçada, amarga, frustrada...
Nunca me viu, nunca me ouviu, não sabe ao certo o tom da minha pele. Não sabe se sou mesmo de verdade ou uma simples e estudada farsa.
Pouco sabe de mim, mas cuida da minha alma. Você a alcançou num dos teus giros, e eu pergunto "como"?
Tolas, tolas perguntas fazemos. Perdemo-nos em perguntas. O que importam?
Tenho em mãos, o amarelo e branco das margaridas que você me ofereceu. Veste em véu azul do céu que me ofereceu para descanso. Capim cheiroso, pisado de leve, para refrescar dos pesadelos. Algodão em flor para que eu me mova e enxugue as lágrimas.
Tuas mãos, eu nunca toquei, mas flexiono-me para ti, em respeito. Sinta-o.
por Suzana Guimarães
quinta-feira, 31 de março de 2011
ALGUÉM ESTÁ FALANDO DE MIM E DE VOCÊ
| (fotografia, por SCG) |
Lua
"A Lua
tão minha
provoca-me.
Quer me dar nesta noite
a solidão
tão sua"
(poema extraído do livro FOGO-FÁTUO, de Franck Santos)
Um coração
(por Franck Santos, em FOGO-FÁTUO)
"Dei um tiro no meu coração. Matei-o dentro desta noite chuvosa, quase madrugada, após ter me encharcado de álcool, saudade, lágrima e amor não correspondido. Agora meu coração jaz no ladrilho da cozinha, entre panelas, lixo, garrafas, copos e talheres; ele, ali exposto, vermelho, inútil e inerte. Matei-o com um estampido suave, coloquei silenciador, ele nem gritou, pego de surpresa, mas o expurguei de mim, esse coração, quando, quase louco, bêbado de álcool e saudade e tristeza e lágrima e solidão, lembrei-me desta arma na gaveta do criado-mudo, para momentos como este, matar corações sofredores. Claro, antes analisei as facas e adagas e punhais e canivetes; desinfetei-os, fiz tentativas vãs em certas noites, certos dias, mas esse coração, bandido, pressentia, me enganava com mimos, momentos, poemas, promessas, dias quase felizes.
Não vou chorar a morte do meu coração, quero é enterrá-lo logo, de manhã bem cedinho em alguma curva, algum jardim, ou melhor, darei meu coração ao primeiro que aparecer, que o queira, para usar e abusar, porque esse coração está morto, sem emoções, ateu. Tenho um coração que é uma falésia, agora. Um coração oco. Abissal. Uma rocha."
LANÇAMENTO DO LIVRO FOGO-FÁTUO, de Franck Santos
Local: PH Center (Espaço de Alimentação)
Data: 2 de abril de 2011
Horário: 9 às 12h
Endereço: Av. Jerônimo de Albuquerque, 300 - Angelim
São Luís - MA - Brasil
Participação musical de Déborah Arruda & Victor Hugo
Nota: mesma publicação, na mesma data, em
Contos de Lily.
Contos de Lily.
terça-feira, 15 de março de 2011
COM VOCÊ, EU ENTENDI QUE O CÉU A GENTE É QUEM FAZ
| (arquivo pessoal de SCG - Abril/Primavera de 2009) |
Avisaram-me de você. Eu pisava chão duro, o ar era sempre seco e secas eram as cores à minha volta. Na casa da vizinha havia som, brilho e muitos tons. Avisaram-me de você e eu acreditava, mas depois passava a mão na testa, fazia um gesto tolo, como se retirasse um devaneio, um pouso leve de pena em minha pele e seguia meu caminho. Uma noite, em sonho, você chegou em pessoa, tão lindo, tão lindo, pediu que eu tocasse seu peito e eu toquei, pediu que eu ouvisse o pássaro que cantava dentro de si. Ouvi, maravilhada com seu semblante, seu cabelo em cachos nas pontas.
Segui o meu caminho, meus pés doíam naquele chão sempre áspero, sempre solitário. Eu o desejava, desejava, de mansinho, bem quieta no meu canto. Às vezes, debruçava-me sobre os livros, cansada, à noite, e chorava porque eu não o tinha, você não havia chegado.
O tempo de desistir chegou num dia qualquer e assolou meus sonhos e a minha fé, fiquei parecendo o poço eterno dos desejos não realizados, foi quando veio você, um minuto antes da hora mais linda, um minuto antes da esperança dar seu último giro em torno de mim. Você chegou, tocou meus lábios, meus olhos, a ponta do meu nariz, me viu. Reconheceu-me. Dei-lhe nome de rei. Eu o embalei em mantas de puro algodão, banhei você em moedas de ouro, cantei mesmo que desafinado. O chão que eu pisava foi pouco a pouco se tornando areia fina de praia. O ar tornou-se úmido e os aromas que vinham da casa da vizinha não eram melhores que os meus.
A cada nascer seu, ressurreições minhas. A cada passo seu, milhares meus. Cada gesto seu, uma batalha minha. Cada palavra sua, um discurso inútil meu. Você tão paz, eu imensamente bélica. Você me diz, sentado ao meu lado no carro, ouvindo música, você me diz, será confeiteiro de bolos... pela paz do ofício, pelo silêncio do construir e adornar. E eu diminuo em freadas bruscas o meu respirar, tento alcançar suas gentilezas. Penso que você será é diplomata, o pacificador. Você permite que eu lhe ensine a domar um cidadão com meia-dúzia de palavras e você me ensina trilhas para alcançar caminhos mais floridos e arejados, fazendo uso de tão parcos movimentos, assim como faz quando luta, lenta coreografia, até pra derrubar, você é ternura.
Com você, posso dar quantos giros for preciso em volta da Terra, posso caminhar na lama dos infernos e alcançar algodão nos céus. Com você, pego um dragão pelo pescoço e o esgano, com você, piso a relva macia, tocando de leve os querubins que criamos para nos distrair. Com você, eu caminhei para um mundo desconhecido, temerosa de que esse mundo o engolisse... mas você me provou que a determinação é silenciosa, de vestes simples, de voz mansa, riso solto, mas firme e prudente.
Com você, eu entendi que o céu a gente é quem faz.
Sua mãe
P.S.: eu o amei, eu o amava, eu o amo, eu sempre amarei você, eu amaria (de qualquer jeito fosse) e eu vivo só para amares tu.
Um texto de Suzana Guimarães
terça-feira, 8 de março de 2011
ELA
por Suzana Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
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| ilustração, por R.Meneghini |
Eu a vejo sempre. Perambula pela casa de calcinha e camiseta. Às vezes, chega à janela, espia, puxa as cortinas e some. Às vezes, vejo-a entrando no seu carro, parado em frente ao jardim. Às vezes, não a vejo, por temporadas.
Quando não está de calcinha e camiseta, fantasia-se. Dificilmente se repete. Às vezes, pouca roupa, tecidos ásperos, duros. Noutras, muita roupa, porém, sobrepostas malhas frias, gostosas, deslizantes feito o andar dela.
Hoje, eu a reparei melhor. Ela está diferente, as fantasias escorrem pelos braços, despenduram-se, pelas pernas, alcançando o chão. Ela não se importa, e anda, num passo também diferente, ora pesado, ora leve, em descompasso. Ela empilha malas na varanda e vez ou outra puxa uma para dentro, ou duas pra fora, arrastando-as pelas rodinhas. Amontoam-se nos cantos as fantasias que se desprendem do corpo. Por cima das mesas, adornos, brilhantes, foscos, braceletes.
Às vezes, ela esquece aquilo tudo, as malas, por ordem de tamanho, os costumes, e estira-se no sofá da sala ou se encolhe, conforme o calor do dia na alma, ou o frio da falta de cobertas. Ela ouve antiga música, som recente porém, e isso a transporta para aquele canto cinza onde um piano equilibra imagens.
Às vezes, ela veste as fantasias que de si saíram, uma por cima da outra. Ao sair pela rua, atrás do seu carro, em frente ao jardim, vê que as perdeu no caminho, volta, as recolhe, joga-as no banco traseiro do carro, bate a porta e sai dirigindo, ouvindo música, lembrando-se do piano que a espera. Ela está ficando nua.
Ela se modifica dia após dia. Às vezes, as paredes da casa dela estão brancas, às vezes, vermelhas, predomina o palha. Ela sente um óleo a escorrer pela pele, isso faz com que ninguém mais a alcance e ela novamente recorda a casa do piano de músicas antigas. Nesses dias, ela não ouve música nova, ela aspira um odor antigo que lhe sobe pela boca, cheiro de merendeira da escola infantil, cheiro de bolachas, Q-Suco, leite achocolatado. Um certo perfume francês. Cheiro de vela acesa, flores em jarros. Ela consegue sentir os passos incertos, a loucura do bater de chaves em trêmulas mãos. E ela vai se modificando, dia após dia. Ela vai largando cada vez mais as fantasias, principalmente as mais pesadas, próprias para inverno rigoroso. Ela se afasta sem pedir licença, ela sequer faz barulho, gargalham atrás dela, saudades doídas, guardadas, camufladas. E ela então revê as malas, que ainda estão vazias.
Ela anda pela casa de calcinha e camiseta e sabe que, uma das malas, a menor delas, porém a mais compacta, irá vazia, feito ela. Nua, levará a mala, nua, alcançará uma vila, um sítio, uma praia, nua, fechará todas as janelas, e, nem eu, nem eu poderei vê-la.
por Suzana Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
quarta-feira, 2 de março de 2011
"EU QUERO O SONHO, EU QUERO O PORTO, QUERO O REINO, O REINO DE OVIDAH"
| (arquivo pessoal - SCG) |
Na minha família, sou aquela pessoa a quem todos chegam perguntando qual a melhor roupa para se ir à festa, ao primeiro dia de trabalho, a um evento importante ou não. Acredito que é porque eles gostam do meus gostos e por isso questionam-me sobre o cabelo, maquiagem, bolsa de mão, gravata, gel ou não? Mas, sei também e eles afirmam satisfeitos que o principal motivo de quererem saber a minha opinião é a minha absoluta franqueza. Não chego ao ponto de magoar, mas transparece em mim a insatisfação, a dúvida, o desagrado.
Franck clica aqui é meu amigo e pediu que eu fizesse a apresentação do livro dele. Eu lhes confesso, eu faria a apresentação, após ler o material, gostando ou não, porque ele é meu amigo. Mas, ficaria só nisso, não passaria do preâmbulo ofertado. Minha contribuição seria um trabalho, feito com esforço, mas seria bem feito e nada mais.
Mas, Franck Santos, em FOGO-FÁTUO, não só escreveu contos, poemas, cartas, ele abriu seu coração, entregou-o para que nós o desfolhássemos e eu estou aqui para dizer a vocês que um livro é bom quando além de nos passar mensagens, nos inspira, nos enleva, nos faz rir ou chorar por ser cru, nu, e, isso, nos tempos atuais, a cara limpa, o coração exposto é pedra rara de se encontrar. Franck Santos nos ofertou a transitoriedade da vida, do fogo que nele ardeu, arde e ainda arderá, mesmo que por sob cinzas.
"(...) Fogo quente vermelho fogo azul. Eis aí teu cerne, teu centro, lágrimas, um beijo ao vento, uma caminhada na praia, um copo de suco de maracujá, porta que bate, que fecha, janelas em ti tão ensolaradas, a força de teus quereres, das tuas crenças, teu sexo."
"Quem é você, Franck Santos? Você é teu fogo, teu coração, teu senhor, teu dono. Você é o óbvio e a entrelinha, é ilha e um país, é palavra, é do norte, nordeste, tudo que em ti se encerra, é mato selvagem, é a brisa leve e fina, mas firme, onde tua alma adormece."
Suzana Guimarães
Endereço para contato: franck015@yahoo.com.br
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
SOBRE MENINOS E MENINAS
| arquivo pessoal - SCG |
"E eu que não sou Deus, que nem sou poeta, tão pouco sou destino ou uma destas coisas sobrenaturais, eu que não vento pra sussurrar palpites e arrepios, eu que só escrevo um menino nestas linhas retas, te digo menino: que nuvem linda e alta esta que tu voa, que menina mais bela esta que tu ama, que nos cantos dos olhos tem lâminas, que te deixam menino, aos pedaços, que menina mais graça esta menino, que tu traz nas pontas dos dedos em carinhos marotos, que eu trago nas pontas dos dedos a cada letrinha que eu cato neste teclado falante.
E eu que nem sei de nada, que nem sou vivido nas coisas do amor, eu que nem fogo, paixão eu nem vi, te digo menina: que sonho doce e real é este que tu mora!deste menino sonhador, menina poesia, deste menino criador, menina criatura, o meu menino te ama menina, te ama, e eu que só escrevo e leio e tento frases e penso textos, não sei bem quando te deixei sair dos meus textos pra virar possibilidade.
E eu que não sou pretensioso, que nem tenho todos os sorrisos que este menino e esta menina merecem, que não sei nada de profecias, tão pouco de ser incondicional, eu que nem sei ser óbvio, e nem sei ser utópico, eu que nunca andei em círculos, eu, só te digo menina: o impossível não existe pra quem sonha, mesmo pro menino que suspira tentando imaginar o gosto do beijo, mesmo pra mim que suspiro tentando escrever pra vocês dois, um final feliz!"
Um texto de Rafa Feck.
Queridos,
Os dias foram cinzentos e eu me agarrei às duas palavras para mim, da Kika Carvalho, clica aqui, "longo ânimo". Machuquei os dedos no jj, fiquei com eles presos, depois sofri um acidente doméstico e aí surtei. Decidi escafeder, viajar, ir atrás de um "longo ânimo".
Muitas foram as mensagens de carinho dos meninos e das meninas e eu estou aqui para dizer que,
Mesmo com a lista de "Para fazer, urgente", pendurada na porta da geladeira, que só cresce, mesmo com a casa revirada e não muito limpa, mesmo com o braço direito sem poder apoiar bem na mesa para digitar, mas feliz pelos dedos soltos, pela sorte de eu não ter me estatelado no chão, no meio daquela neve toda (e eu pensava tantos nos meus ferimentos, mas a mania fuçadeira que existe em mim não permite que seja diferente... e eu então fui xeretar o desconhecido),
Mesmo com todos os contudos, poréns e afins, voltei. E voltei disposta a retomar minhas visitas costumeiras, a escrever meus textos e a matar minhas saudades. De que me importa o resto?
Eu gosto mesmo é de poetas profetas e finais felizes.
Suzana/LILY
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O QUE SEI SOBRE TRISTEZA
| fotografia, por SCG |
Suzana Guimarães
Tristeza é a minha beca, meu vestido ornamentado, em pedras brilhantes, em outras foscas, linha dourada, pontos ínfimos, quase imperceptíveis. É meu vestido sem brechas que insisto em vestir e que aperta o corpo que não o aceita, mas que insisto, teimo. Não me cabe o vestido, não escorrega macio, aperta, estrangula minhas carnes arredondadas, esmaga sem dó os limites da fronteira. E não sei qual seria a melhor maneira de estar, pois incomoda o sentar, o levantar e nega descanso. Resta-me o andar incômodo, a sensação de prisão e há dias em que uma vez vestido, ele adere e fica.
Tristeza não é depressão. Não é chorar faminta, sentada diante de mesa farta, com ventos sacudindo as cortinas da janela, deixando passar claridade solar. Não é carência de sexo, beijos, abraços, pequenas rusgas, posso tê-los assim que estico o braço e abro a mão em busca. Doutores curam depressão, ou pelo menos aliviam, há remédios, há conversa, há um pouco de solução. Depressão é doença, tristeza não.
Dentro do meu vestido não anseio a morte, não estanco a fome, não me considero mais um neste planeta e quero sim muito sexo, beijo, abraço, mas o vestido aperta e eu insisto nele. Não jogo fora velhas fotografias, retratos, instantes, lapsos felizes de um tempo passado. Não limpo a casa, não supero a perda. Insisto no meu querer, na minha dor, maldita dor que conheço bem, com nome e endereço. Insisto em cantar aquela música, a mesma, a de sempre, a que nao é mais minha.
Diante do espelho, penso em arrancá-lo de mim, mas não sei como fazê-lo, não sei me livrar do nó, do aperto, da companhia silenciosa e perversa. Eu me sento para logo me levantar para logo deitar. Eu quero correr até o mar, afundar naquelas águas, abrir a boca e engolir um pouco mais, mas sempre na tentativa de salvação, bato os braços, ergo a cabeça, procuro uma saída, mas não é fácil nadar vestido.
Deitada na cama, à noite, o vestido apertado me faz lembrar e eu me dou alguns minutos de gozo fúnebre, alcanço o que me mata, beijo, abraço, acaricio. Disseram-me que abraçando a dor, recebendo-a, ela se vai. Sim. Ela se vai, porém retorna, idêntica, a mesma, inconfundível. Meu vestido tão belamente bordado vira fantasma.
Tristeza é o meu vestido que me cala.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
quESTÃO de receita
Minha amiga indagou:
vem cá,
O que é melhor:
o antes, a expectativa, o peito arfando, os pensamentos embaralhados, a respiração falhando.
(o agridoce)
Ou, o durante, as línguas se encostando, um lábio a se morder, outro a se puxar entre dentes, os primeiros dedos, o cheiro, a vertigem, o precipício a lhe acenar.
(o sal)
o depois?
(suzana guimaraes)
sábado, 19 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
DEDOS ALQUEBRADOS
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
ELA É LINDA, É LOIRA E É MINHA
| fotografia, por SCG |
Teus fios ouro, finos, esvoaçam em meu casaco preto, no banco do carro, no sofá da sala. Eu amo teus finos fios ouro e esta tua força firme com que segura teus pés no chão, quase escorrega, mas não cai, quase chora, mas não chora, quase se entrega, mas não entrega. Você não sabe, mas ajoelho-me em imagem ao lhe ver refletida em minha pele, densa pele a tua que transfigura a minha em nada. Sou apenas olhos a lhe contemplar, e você nem sabe, apenas se move, soberana, loira, altiva e rica. É dona de mim, sem que eu ofereça resistência, por ti corto meu véu, no talho, perfumo meu corpo para o vento que soprar para ti seja quimera, seja conto. É rica porque me possui, é rica porque sabe o porquê veio, para que veio e a quem quer. Guardo teus fios ouro dentro dos meus olhos, cheiro teu corpo à distância, o pouco que alcanço, o pouco que toco, tudo bastante e grande, suficiente, que preenche cada poro meu, onde você passeia alheia.
por Suzana Guimarães
por Suzana Guimarães
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
POR QUE A SUZANA ESCREVE?
A minha querida Ana Diniz (clica aqui) presenteou-me com o selo acima. Havia algumas perguntas a serem respondidas, mas eu não as encontrei (demorei um pouco para buscar meu presente), então decidi escrever sobre mim, mais um pouco, por minha conta.
POR QUE A SUZANA ESCREVE?
Sempre digo que escrevo para fazer exorcismo de mim mesma, é isso, com absoluta certeza, pois tenho medo da palavra escrita, procuro não escrever nada que possa, um dia, empurrar-me a um hipócrita "eu não me lembro de ter escrito isso, devia estar perturbada na época".
Mas eu queria acrescentar que, dentro desse "mim mesma" passeiam as pessoas. E eu escrevo para provocá-las, só digitando, escrevendo (hábito perdido), é que posso assim fazer sem correr o risco de tornar-me indelicada, intrometida, presença inoportuna.
É que, apesar da miopia e do astigmatismo já eliminados, apesar da visão do olho direito nunca perfeita (ou seria a do olho esquerdo? Sempre me confundo!), eu sempre vi muito. Dom. Presente de Deus. Fato normal, há muitas pessoas com "olhar de raio X".
Mas eu não poderia sair por aí, falando o que bem entendesse, sou polida, tenho princípios.
Então, eu escrevia cartas mentais. Escrevi, escrevi, escrevi tanto que acabei por me cansar, lotou a caixa. Quando decidi escrever sobre a minha ex-doença (dúvida eterna em relação ao ex), decidi escrever tudo o que vinha transbordando em mim. Daí, os meus atuais Blogs.
Pois então, a Suzana escreve o que sente, o que vê, o que a incomoda, o que conforta ou não. E, entre desejos, ardores, paixões e lágrimas e saudades, alguma ironia, algum questionamento, alerta, ou mesmo uma busca desenfreada por respostas.
Essa foi a melhor maneira encontrada por mim para dizer a você, a ele, a ela, lá longe, ou aqui perto, que há quem saiba, há quem entenda, que vê, neste mundo em que fingir de cego é arte fácil e na maioria das vezes, aceitável.
Escrevo e não ganho dinheiro, mas acrescento essência, nos outros, e, principalmente, em mim mesma.
Beijos,
Suzana
domingo, 13 de fevereiro de 2011
COMO TEM QUE SER
| fotografia ÁGUA-VIVA, por SCG |
Assisti ao filme "Cisne Negro", saí da sala de projeção totalmente perturbada, fora de um país qualquer, bastante fora de mim. Eu me vi em muitas cenas, só eu em meu silêncio conturbado, numa mistura de contragosto e gosto (diga-se gosto amargo, nada doce, como sempre). Ninguém me viu lá, mas eu me vi.
Hoje, li uma frase: "como tem que ser". E então, tudo aquilo que boiava em mim, o sentimento em pedaços soltos que o filme deixou, aflorou, tão claro, tão nítido!
Ela e eu, dois polos aparentemente antagônicos, aparentemente opostos... mas, que, num determinado momento se igualam. Ela pensava ter que ser, ou não ser ou mesmo fingir ser, ela queria sentir. Ela lutou para ser o cisne negro, o outro lado de todos, negro, quente, maravilhosamente sedutor. Eu pensava em não ter que ser, ou ser ou mesmo fingir não ser, eu não queria sentir tanto. Sempre foi demais, sempre foi apavorante, algo à beira do insandecido. O mesmo, tanto para mim, quanto para ela.
Como tem que ser... Como? Tem que ser? Será que não seria apenas ser, não ser ou fingir ser ou não ser para apenas sobreviver? O "ter", a obrigação, o mais íntimo violentado por regras impostas por nós mesmos, o que é pior que quando impostas por outro. Hoje, eu sei: é só ser ou não. É só sentir ou não. E é só isso mesmo.
De mim, eu sei, mesmo que visto de forma ardilosa, escondida. O excesso dela em querer ser foi o meu excesso em não ser que culminou em medo, que virou doença. Eu, uma exagerada economista de emoção que depois virou suicida emocional. Mas eu sempre soube que há também o "fingir ser ou fingir não ser", preciosidade, objeto de uso necessário se você quiser manter alguma sanidade mental. Mas, fiz exceção, jamais fingi o meu prazer e meu desprazer. Por alguma razão, deixei isso a salvo, incólume. Talvez eu tenha jurado para mim mesma em algum momento inconsciente, talvez eu tenha feito promessa de não me sabotar, mesmo dentro de qualquer excesso. Estampei na cara gosto e desgosto, inclusive para mim mesma, em fente ao espelho, ou no escuro da noite, buscando sono para conforto.
Eu me vi naquelas horas em que ela olhava para o nada, se isolava. Eu me vi quando ela criava em si a violência para com o outro, o mesmo eu fiz comigo mesma, não com os outros, porque nunca precisei dos outros para arrancar de mim o sentimento... o que me incomodava era o sentimento escorrendo pelos meus dentes, feito o sangue que sobra depois da mordida. Ela só passeava pelo caminho branco, tranquilo, confortável. Eu passeava e passeio pelos dois, e o antagonismo precisou ser domado, não extinguido, apenas controlado.
Respeito regras, não sou amoral, mas não me peçam, não me digam "tem que ser". Ter que ser, fruto que já experimentei, no meu caso "não ser", traz o brilho falso da pedra, gosto ruim do engolir em seco. É melhor ser, o que quer que esse ser signifique. Prefiro as podas naturais, quando o vento bate, o Sol seca, a água inunda, quando a natureza age por si só, livre, só assim o cisne se metamorfosea, pois não há nada vivo que não possa ser transformado, degustado, sentido ou não, liberdade é algo inerente à espécie humana.
por Suzana Guimarães
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