quinta-feira, 31 de julho de 2014

SOBRE GOSTAR OU NÃO


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Dou-lhe toda a liberdade de gostar de mim ou não; de dar-me atenção ou não; de considerar-me eterna em sua vida ou não. Dou-lhe esses espaços porque aprendi a desgarrar-me. Você será importante para mim enquanto você quiser. Ao desgarrar-me, entendi que fica e continua quem quer, inclusive eu, com os mesmos direitos que você. Aprendi que estaremos bem se nos fizermos insubstituíveis, algo extremamente frágil, que quebra por muito pouco e aprendi que amizade e amor verdadeiros são o principal alvo dos invejosos e incompetentes. E do seu eterno dedo apontado para mim, julgando-me.

Deixa para Deus os julgamentos. Você é tão carne e mortal quanto eu.


Suzana Guimarães



Nota: Texto originalmente publicado em minha página no Facebook, no dia 29 de julho de 2014.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Trechos (cartas que escrevi) - II

(Ilustração, Antonio Cláudio Zamagna)


"(...) Aos vinte anos, eu me questionava sobre a minha vida aos quarenta porque seria essa a época de renovar a carteira de motorista. Quando essa data chegou, eu estava desmontando meu mundo para recriar outro, aqui. Atualmente, questiono-me onde estarei na minha velhice, o que estarei fazendo, com quem estarei, se terei conseguido alcançar algum estágio de plenitude... Então, percebo o quanto tudo é insustentável, etéreo demais, volátil. 

Será que ao invés de Portugal, eu estaria ganhando esta Europa que fascina? Não sei, sei que estou aqui, onde tudo é muito moderno e perfeito. Isso me basta, mas não mata as questões.

Alguma coisa contra a perfeição? Nada. Porém, a vista às vezes cansa. Não sei se você sabe, todos os shoppings e condomínios da Califórnia são semelhantes. Algum arquiteto ficou muito rico e nós bem pobres. Poucos em Los Angeles saem do padrão, mesma cor, mesmo design. No mais, sequência de déjà vus.

Sinto falta de cheiro de terra, de mato, de bosta de cavalo. Como são os voos dos pássaros daí? Eu vejo e escuto maritacas escandalosas - uma praga indestrutível, reproduziram-se em demasia - sobrevoando os altos das palmeiras Imperiais, e muitos corvos que nada têm de coisa ruim. Gosto do som que fazem, do jeito que bicam as calçadas de concreto. As gaivotas são belas quando se perfilam na areia da praia para assistirem ao pôr do Sol, mas agressivas por um naco de pão.

É março. Creio que voltarei a compactuar com os ares daqui. Penso que tudo é uma fase, longa, mas inexorável e esperada, quem entrou na chuva não pode reclamar do que se molhou ou não. (...)"

Suzana Guimarães



P.S.:  Estou relendo cartas que escrevi no passado, cartas reais. "Trechos" serão publicações de partes dessas missivas.

Trechos (cartas que escrevi) - I

Ilustração por Antonio Cláudio Zamagna


"(...)Descobri em minha solitária viagem que, em nosso cotidiano, muitas vezes, pegamos sentimentos concretos e os transformamos em utopia. Cansados, pegamos utopia e a transformamos em realidade. A razão disso, desconheço. O que importa, ao final, é descobrir que realidade pode ser sonho bom, muito diferente do que acontece na utopia.(...)"

Suzana Guimarães





P.S.:  Estou relendo cartas que escrevi no passado, cartas reais. "Trechos" serão publicações de partes dessas missivas.

domingo, 27 de julho de 2014


(Por Suzana Guimarães)


Estar apaixonada. 
Que coisa é essa que nos embeleza, nos enleva e faz a vida ser festa, alegria, pássaros em pradarias?

Suzana Guimarães

quarta-feira, 23 de julho de 2014

HÁ UMA VARANDA DENTRO DE MIM



O escritor chinês me deixou a lembrança da varanda... Não me lembro mais do seu nome e sequer o nome do livro, um exemplar bastante amarelado, guardado em minhas coisas, dentro de alguma caixa, no Brasil.

Ando tão confusa, preciso de um tempo interno. Escrevo daqui, da CA, para uma amiga no Brasil, sobre um escritor que viveu na China... Ando cansada... Esgota-me falar em várias línguas! Até do Português ando esgotada e estou errando muito.



Preciso abrir a minha varanda do nada e nela me encontrar. Ele, o escritor, escreveu que na China antiga, as pessoas construíam em suas casas uma varanda que haveria de ficar vazia. Uma varanda criada para o nada. Uma varanda para reflexão, imune ao desejo humano de decorar.


Tenho uma varanda à minha frente, enquanto escrevo. Hoje, mal a vejo, puxei as cortinas, entranhei-me em casa e em mim mesma. Nessa varanda há uma árvore que dá flores Havaianas, Espadas de São Jorge, uma única minirroseira, um jasmineiro que ressuscitei. Há um vaso de lily. Há cactos e descaso, não cuido muito dela. Por ela, eu passo, molho as plantas, vejo como está o tempo para escolher a roupa que usarei. E só.

Atrai-me a varanda interna. Todos nascem com uma varanda para reconstrução íntima, para juntar os cacos da alma que foi estilhaçada, do amor-próprio ferido, das dores todas do mundo. É... ando assim, para dentro, no começo pensei que fosse amor mal tratado o que me dilacerou, mas nessa varanda, encolhida nela, percebi que não foi amor por outro, foi apenas e pobremente amor excessivo por mim mesma. Fui menosprezada, largada, deixada de lado, fui preterida. E isso cortou fino, caco de vidro finíssimo rasgando rápido a seda da alma. O corte alcançou a pele do corpo, minha engrenagem interna, o fluxo sanguíneo, fiquei doente.

O escritor relatou a necessidade da varanda. Não tenho varandas propícias, e nem quero, tenho a principal, a que existe dentro de mim.

A de fora está no frio, é outono aqui. Ela para mim também é importante, apesar da minha quase desatenção, porque, por ela, percebo que escrevo sabendo que o mundo existe, e não enclausurada em minhas vãs filosofias. Por ela, vejo as pessoas passarem nos corredores do prédio, quando as cortinas não estão cerradas, feito hoje. A enorme porta de vidro que separa a minha mesa, o meu computador, dela, mostra-me isso.

A de dentro andava largada - eu também sei abandonar! - mas agora dedico meu tempo a ela, ao nada, a mim mesma. Faço varreduras, arejo com sal grosso, perfumo com alfazema, clamo por um poder maior às minhas pequenezes. Escolho as flores que amarei, as músicas que permitirei, evito possíveis invasões. Nela, tenho permissão para controlar os sóis, as luas, as marés e todos os ventos. Nela, tenho permissão, total e absoluta, para impedir a entrada de pés em lama.

O escritor deixou de lembrança a varanda. A minha amiga, Sil Antunes, deixou-me uma frase:

"Em teu mundo, não é qualquer pé que sabe entrar. Nem qualquer alma."


por Suzana Guimarães.




Nota: Crônica originalmente publicada na Revista Mostra Plural (São Paulo).

terça-feira, 15 de julho de 2014

SOBRE O QUE É REALMENTE ETERNO


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Tive uma colega, muitos anos atrás, que me contou algo sobre a sua vida no Japão. Enquanto morou lá, ela fazia agrados, favores ou pequenas ou mesmo grandes gentilezas aos seus vizinhos japoneses. No dia seguinte, o vizinho agradado estava à sua porta segurando com muita honradez uma cumbuca de comida para ela. 

Já escrevi que adoro o livro "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry, mas que tenho birra dele em alguns momentos. O "eternamente responsável" soa bastante ditador e hipócrita. Sou mesmo responsável por toda a eternidade por certos gostares, pelo que conquistei nos corações alheios ou não? Sério? Por quê? Ele só diz isso e não justifica. 

A vida é redonda, as pessoas nem sempre nos gostam despretensiosamente, muitos atos são recebidos por educação de ambas as partes envolvidas e nem sempre "tudo aquilo" foi tão espontâneo assim. Mas, não importa, apesar de qualquer "senão", temos que estar o mais rápido possível diante da casa do outro com uma cumbuca de arroz nas mãos, para ofertar. Hipocrisia? Não. Educação. 

Deixo o "eternamente" para um único caso: se alguém salvar a minha vida - e eu sei como é -, estarei eu eternamente responsável por essa pessoa, de uma forma ou de outra. Porque é bem que só se paga na mesma moeda. Porque é mesmo para sempre. É inesquecível. Porque fica guardado no fundo da memória e dos pulmões. Porque eu só posso pagar com vida.

Se hoje você me dá um beijo, amanhã, retribuo com um abraço ou mesmo outro beijo. Uma cumbuca para cá, outra para lá e está tudo de muito bom tamanho.



Por Suzana Guimarães

domingo, 6 de julho de 2014

FIGURINHAS...

(Figurinhas do Facebook)

Se eu as tivesse, as figurinhas do in box do Facebook, à disposição, em mãos, se fosse possível tê-las, eu as teria aos montes nos bolsos dos casacos, para ir me comunicando assim: cada hora um sinal ou desenho mostrando claramente meus ânimos. Tenho certeza de que a comunicação seria mais fácil. Minha voz e minhas letras já não me servem muito. 

Momento filosófico de enorme grandeza com a Fátima Amaral, in box, claro.


Suzana Guimarães, em 5 de julho de 2014, no Facebook  -  Um retrocesso às cavernas...



domingo, 22 de junho de 2014

Assim, muito feliz ao me ver

(Fotografia gentilmente cedida por Daniela Ferreira)



Assim, muito feliz ao me ver. 

Passava a procissão das rosas e no tapete verde, extenso verde, réstia de luz entre as folhas, entre as moças, entre as pernas que seguiam; mornas, mulatas, maciças... Cálidas pisadas até você, assim, muito feliz ao me ver.

Passou tempestade, furacão, uma manada de efefantes. Passou uma brisa. Um menino e uma bola. E a moça, dona das rosas.

Passou uma cambada de idiotas, uma parva imperatriz, passou o homem que sonhou ser pássaro. Um helicóptero.

Assim, muito feliz ao me ver, passou e ficou você.




Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 5 de junho de 2014

By Suzana Guimarães

quarta-feira, 5 de março de 2014

Trecho da apresentação do livro "dOloreS Crônicas" por B. Leonardo


(fotografia de João Ricardo Sousa)


"Será fácil explicar a força dum tornado, a solidez duma gota de chuva? (...) – Talvez que alguns, os uns o possam afirmar que sim, os outros que não e ainda uns quantos nadas, como este, que não explicam, não sabem como explicar nem o pretendem: à escrita, à palavra que se faz vida, morte e ressurreição na sua escrita não se deve procurar pelo entendimento dos comuns… ou não fosse Suzana Guimarães um extraordinário e singular ser que em si já transportou a maternidade, esse princípio e encerrar de mundos, escritos e por escrever. A sua escrita não se explica; arrebata como só o acontece a quem domina as mais límpidas e violentas emoções dentro da mais ínfima das palavras. (...) nas palavras de Suzana Guimarães não existem jogos de espelhos, sombras artificiais, abrigos temporários – instigante e contundente, o tanto-quanto pura e delicada, Suzana Guimarães entrega-nos por este e neste livro que “é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”, a vida, como todos os livros deveriam entregar… (...)". Por Breve Leonardo, em "Dolores Crônicas".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O MEDO DE SUZANA PARA AQUI, sem data prevista para continuação

 Suzana Guimarães

Publiquei "Dolores Crônicas" e pretendo agora escrever um livro de cartas. Por isso, este espaço para aqui.
  • Agradeço os 3 anos e 9 meses da leitura de vocês!
  • Paz e sucesso em suas vidas!


Suzana Guimarães



P.S.: Estarei presente em "Ana por Ana" e em "Eu disse que gostava de diários?", esporadicamente. Endereços acima, no cabeçalho da página.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

dOloreS CRÔNICAS

(Meu livro)


Meu livro está disponível no www.Amazon.com para e-books ou www.Lulu.com para livros impressos. E também no www.amazon.com.br


Nota: No Amazon.com e no Lulu.com há um retângulo no alto da página. Digita: Dolores Crônicas e clica em GO ou IR. E o livro irá aparecer.
Links diretos:

http://www.lulu.com/shop/suzana-guimar%C3%A3es/dolores-cr%C3%B4nicas/paperback/product-21441581.html

http://www.amazon.com/Dolores-Cr%C3%B4nicas-Portuguese-Edition-Meneghini-ebook/dp/B00ICC4C2K/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1392074561&sr=8-2&keywords=dolores+cronicas

http://www.amazon.com.br/s/ref=nb_sb_noss?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&url=search-alias%3Daps&field-keywords=dolores%20cronicas


Para quem não tem o kindle: 

No site do Amazon, onde você compra o livro virtual, também tem um ícone onde se pode baixar um app (aplicativo, software) GRÁTIS para o seu PC, Android, iPhone, iPad etc. Com esse App você pode ler o livro em seu aparelho eletrônico seja ele qual for com a maior facilidade e conforto!

domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Sou todos os cantos em que seu machucado irá bater". Uma das crônicas do meu livro.


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Prometi uma surpresa para fevereiro, é meu livro de crônicas. Setenta crônicas, dentre elas, algumas já postadas nos meus blogs nos últimos três anos, porém, revisadas, e também inéditas. Será um E-book. O idealizador do projeto é Roberto Meneghini. Definimos que ele seria publicado assim que entrasse fevereiro, mas eu inventei de escrever um pouco mais... o que seria cinquenta virou setenta... um número, o sete, que, particularmente, detesto. Aí você pergunta: "Se detesta, por que assim será?". Também não gosto de ler no computador. E também dizia que eu só escreveria em papel e hoje só escrevo no meu laptop. Por que será? Porque a gente vai deixando de lado muitas tolices e vai aprendendo que o importante nem sempre vem rico em detalhes. Então, se ele for publicado em fevereiro, ainda estaremos no mês, não é? E ainda estou cometendo o pecado de revisar eu mesma... Beijo!

Suzana Guimarães

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

HASTA LA VISTA!

Suzana Guimarães (arquivo pessoal)


Vim correndo só para dizer, estarei ausente por todo o mês de janeiro, mas desta vez é por uma boa causa.
Tenho uma novidade para fevereiro.

Hasta la vista!

domingo, 5 de janeiro de 2014

UMA CARTA PARA AÇORES




Long Beach, 4 de janeiro de 2014. 


Querida L.,

Escrevo-lhe para encurtar meus dias que parecem muito longos, uma claridade constante a invadir-me, os sons de um dia eterno, o entardecer que não me alcança...

Assim, neste ato de me virar para você, aí, tão longe, do outro lado de mim, escondida em terras de Portugal, onde o Atlântico parece-me mais convidativo....sei, eu sei, é gelado também, mas o nome soa meu, é minha casa materna, o fundo daquele reino que ficou para sempre, o quintal de todas as fantasias que vi passar por entre minhas pernas finas e meus braços desengonçados. Assim, nesse ato de me virar para você, eu entardeço e anoiteço, fecho-me em portas dobradiças, janelas de onde só se passa luz fina, mínimas frestas... e eu descanso.

Ouço 'Arrival of the birds', penso em você que dorme, não irei assustá-la, posso caminhar sem sons, sou desprovida deles, tenho até um péssimo hábito, o de suspender a minha respiração a todo momento. Seu quarto cheira a mirra, você gosta de cobertas claras, dobradas aos pés da cama e seus gurus cochicham enquanto lhe velam na chama que arde, amarela, hoje, amanhã, rosa... em um rosário sem fim de pedidos e ladainhas.

No cômodo ao lado, sinto cheiro de hortelã, e sei que lá fora há rochedos e silêncio; ruas estreitas que ora se cruzam para depois se estenderem até onde não mais alcança a vista.

Há um varal de roupas brancas, posso vê-lo, posso tocar os lençóis, as longas vestes e suas capas, posso contar para você a história de um guerreiro que pedia à mais bela das moças da vila para lhe besuntar com óleos sagrados, pois ele acreditava nos poderes dela e no poder de um corpo forte e escorregadio, cujos olhos pintados de negro afastavam espíritos malignos imbuídos de fazê-lo perder a batalha.

Posso lhe dizer como esses dedos brancos e finos o tocavam. E posso lhe garantir que ela desenhava nas costas desse guerreiro um mapa. Sempre o mesmo. Incontáveis vezes, tantas, que até hoje pode ser relembrado e desejado, o caminho da volta.

Esqueci de lhe dizer, eu sou a moça dos sonhos, aquela que os vendia por alimentos e você os comprava. E hoje retorno para ratificar um por um, sem ônus, por agora, um único, para você e para ele, meus sonhos tornaram-se de graça porque a fome do mundo não me ganhou, eu sobrevivi a ela, e jurei juntar as mãos que perdi num tempo que ninguém dele se recorda... só eu. Meu único pedido é que vocês sejam mais resistentes que o tempo que nos come.

Eu vim aqui para lhe dizer, principalmente, que meu nome é Recordação e não aquele com o qual me alcunham. E, depois que eu partir, assim que eu dobrar a esquina do seu jardim em labirinto, você se lembrará de um nome, do nome dele. E do seu, que você esqueceu.

A música cessa e junto com ela os sons da casa, todos eles, imbuídos de um poder maior, ancestral, o mesmo que sibilava ao passar pelas roupas expostas nos varais e fazia a gente acreditar que ali iniciava e morria toda a criação.
Mas, não, a criação é obra oculta, de criador que não vende sonhos, apenas tampa-os para que nós, somente nós possamos os desvendar.

Nesses dias intensivamente claros, apresso-me, já que a hora se faz. Há uma morada sem sua dona, eu; há pequenas velas, redondas, acesas, apesar de toda a claridade... preciso recolher-me neste inverno que começou faz tempo. Faz-me falta o interior, o sombrio e o estar completamente só.

Desmontei a árvore de Natal com suas luzinhas, errei a tradicional data, tamanha é a pressa. Comprei tinta nova para os cabelos e um perfume diferente para neutralizar os do passado recente. Ouço outras músicas, enquanto ajeito minha casa para meu retiro, quero, a partir de agora, aprender a gostar do barulho que os ponteiros de um relógio fazem, aquele mínimo que eu tanto detestava, mas que traduz realmente minha vida germinando.

Aguardo suas novas, aguardo seu acordar.

Beijo,

Suzana


Por Suzana Guimarães

sábado, 28 de dezembro de 2013

CARTAS DE DEZEMBRO - a sétima



Los Angeles, 28 de dezembro de 2013



Querido F.,


Eu já lhe disse que gosto do seu nome, do seu nome de nascimento? Se ainda não, digo, prefiro-o ao apelido, gosto do movimento dos meus lábios para pronunciá-lo, que primeiro se abrem, pouco, para depois, fazerem dois biquinhos...

Há quanto tempo a gente não se fala, apenas passa correndo um pelo outro, "oi, bom-dia!", "oi, boa-tarde, como vai?"... e a vida enrolando-nos, levando-nos, a nós dois, em ricos tapetes persas, para terras jamais habitadas, ou lotadas, com desconhecida gente a nos sorrir, fazendo promessas, e nós, embriagados de poesia, carregando areias finas a nos incomodar em nossas barrigas - chamando-nos para o lúbrico - e a vida fazendo sinais, e nós, muito tontos, acreditanto em todos, pela eterna mania da aventura...

A mim, meu querido, cabe este deserto onde os 'tumbleweeds' parecem ilusão de ótica, bolas de mato seco voando aos pulos feito cangurus... A ti, estes lençóis, ah, estes lençóis maranhenses, diga-me, são mais belos que as dunas de Natal?

A nós, nossa realidade. Mas, a gente não aprende, não é? E, amanhã, no estacionamento do supermercado, você esbarrará seus olhos no amor de sua alma - e você acreditará nisso, com todas as suas forças, e, se contar para mim, eu direi, sim, sim... e você voltará para casa sorrindo, escreverá cartas, poemas e bilhetes de amor. Incensará o ambiente, comprará roupa de cama nova, alguma bebida forte, alguns cigarros... pedirá à Iemanjá, deixará seu barquinho de ofertas para que as ondas do mar o levem com seus pedidos mais secretos... eu sei, eu, de cá, bebo suco de maracujá, miro os céus, peço 'meu pai', e não completo a frase, e, compro um disco da Nina Simone, pensando em você, desenho cenas de amor no escuro da noite, acreditando também ser a rosa azul de alguém, a bailarina de um rei sedento de mim... isso me faz rir, mas somos nós.

A nós, meu querido, a vida é pouca, escassa, escorregadia porque somos dois excessos, dois pássaros de peito em chamas, dois voos em queda livre. Somos os de ontem, você ainda na loja de tecidos, sedas, cem fios de algodão egípcio; eu, debaixo da mangueira, esperando alguma manga cair, seguindo o conselho do meu avô S., 'dispensa as do chão, espera as de cima', ouvindo G. cantarolar enquanto lava panelas na água da bica... e somos hoje, ardentes, ansiosos, e, com certeza, somos o amanhã, e você convidará o amor de sua alma para tomar um café.

É o que importa, a certeza de quem somos. Deixa a loucura para todo o resto.

Eu li que o próximo ano será o ano do cavalo de madeira. Pois então, nele estaremos, com certeza, mesmo que para lugar nenhum, mesmo que dele a gente venha a desmontar, já que o que importa nesta vida é o coração um minuto antes do primeiro beijo na boca.


Abraço apertado, 

Suzana



Por Suzana Guimarães

CARTAS DE DEZEMBRO - a sexta



(arquivo pessoal de SCG)



Los Angeles, 28 de dezembro de 2013.



Querida E.,

Recebi poucas notícias de você nos últimos dois anos, mas algumas 'ladybuggies' e algumas fotografias que a mim chegaram avisaram a constância dos ventos bons ao seu encontro.

A primeira delas foi acompanhar sua barriga crescendo, criando um ser humano, uma pessoa muito linda, com nome de rainha. E, só isso já bastava! Quem com crianças anda, jamais envelhece. Andam por aí, à procura da juventude eterna, mas, poucos sabem que só as crianças podem isso transmitir. Aquele que se afasta delas cheira a pó antisséptico, minha irmã diria, cheiro de velho chato. 

Quem anda com crianças ao lado cheira a rosas, assim se foi minha avó, que deixou um guarda-roupa que assemelhava-se a um roseiral. Algo que ninguém nunca entendeu, apesar das filhas e netas terem vasculhado-o à procura do talco especial ou do sachê jamais descoberto.

Sei também que, quem estava longe, voltou. Cabe a você aceitar ou não, é o seu direito. Talvez esse alguém tenha vindo no cheiro da criança, da notícia da boa nova. Isso me alegra, saiba. Deixa os ventos sagrados cumprirem sua missão. Deixa o tempo tomar sua própria direção...

Só há um jeito de ser feliz, aprendi com a minha mãe, venho aprendendo com o meu filho de apenas 13 anos... algo muito difícil para mim e penso que para muitos, para ser feliz é preciso estar de todo livre, e, para estar de todo livre, é preciso ter os braços soltos, a mente vazia à espera do novo e a certeza de que no fundo, no fundo, não há gente perfeita. O que eles fazem, minha mãe e meu filho? Eles seguem as suas vidas, sofrendo também, mas bastante indiferentes a tudo o que lhes incomoda, parecem estar sempre deslizando por entre plumas, nuvens, em um riacho de águas doces...

Eu não a esqueci, apesar de que aquela Suzana vestiu-se e despiu-se de muitas ao longo do tempo. Feito um vendaval, fui desbravando as matas escuras da hipocrisia humana, soltando-me de amarras inúteis e infrutíferas. Parei de pedir por atenção. Nasceu em mim, um olhar novo, eu mesma me vendo e isso me bastou, basta-me.

Você será sempre o toque leve, a palavra pouca, mas suficente, um encontro que não precisa correr para dar certo.

Desejo-lhe um feliz ano novo, ao lado da sua princesa com nome de rainha, ao lado do homem belo que lhe acompanha.


Beijinho na testa,

Com carinho,


Suzana



Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

CARTAS DE DEZEMBRO - a quinta

(by RMS)


Long Beach, 26 de dezembro de 2013.



Querida E.,


Hoje, em um quase final de manhã, caminhei à beira-mar... como se eu fosse outra, vinda de alguma de todas as minhas casas. Imaginárias. Uma forma de me homiziar? Às vezes, penso que sim, às vezes, que não. São apenas casas que me escondem ou eu invento? O que sei é que hoje, pela manhã, diante do mar, tão azul, sem ondas, que recordou-me o rio Colorado, o mesmo tom forte, eu me revi, a mesma de quatro anos atrás que não sei bem onde esteve. Daí, a sensação de outra e de moradias, invisíveis moradas que me acolhem.

Revi as gaivotas, sabia que elas se perfilam todas as tardes para assistir ao pôr do sol? Não fiquei para ver, mas eu sei, via sempre, logo que cheguei aqui. Mesmo que a criança de cabelos longos as assuste, elas voltam quantas vezes preciso for, levantam voo e descem para repetir até à exaustação da menina. São agressivas por comida, podem lhe atacar, essas aves, contudo, para ver o crepúsculo, tornam-se pacíficas. Para você que gosta de filmes, tenho certeza de que foi daí que o diretor do filme 'Cidade dos Anjos' inspirou-se. Lembra-se dos anjos perfilados à beira-mar, nos finais de tarde?

Esta vida inspira-me. Sua mobilidade inspira-me. A minha própria estranheza cria meus palcos... Por onde andei, moça? 

Com os pés naquelas águas geladas, rezei para o meu pai, as 'Ave Marias' saíam sem policiamento... pensei em tudo e em nada, lembrei-me de você, ah, nem seu movimento arvorou-me ou precipitou qualquer coisa a correr. Eu andava, eu orava, pensava, mas estava em mim tudo muito parado, ao contrário de você que me lembra o filme 'Corra, Lola, corra'. Tudo quieto, ações meramente coadjuvantes... certa vez, meu pai comentou, "não acredito nestas tuas cinzas, elas não existem, se cutucarem, sai faísca", quando eu, indolentemente e de forma muito desanimada, contei para ele que aquela, aquela agitada, falante, barulhenta era só cinzas.

Você perdeu a beleza que eu vi, mas guardei para ti essa sensação de molejo de um corpo em um trem, em um ônibus, em uma kombi velha que eu peguei no sul da Bahia e sacolejava meus miolos, minhas tripas, ao som de  musiquinhas do Caribe. Meu amigo, ao meu lado, disse-me, "isso está me lembrando Almodóvar". É tudo o que me lembra você, pois eu lhe conto histórias enquanto você se movimenta, sobe e desce, corre, atravessa a Avenida Paulista, espia o homem de terno branco que passa, sonha algo parecido a um filme, poderia, sim, ser o filme argentino que você me recomendou, e, esse homem sorriria para você e você para ele, vocês achariam tudo muito engraçado, engraçado e feliz, incrível e inexplicável alegria por aquela visão não planejada, mas sonhada, num fundo de cinema, enquanto engole a tela à frente e deseja, bem no íntimo, 'ah, isso um dia acontecerá comigo!'. 

Com certeza, você tem suas belezas para ver. Mas, a gente sabe, de repente, aquele belo homem cospe no chão, enfia o dedo no nariz, merda, destrói tudo! É nesse instante que a gente cria-se outra e confina-se em alguma casa, qualquer espaço vago, onde caiba, nós.

Meu passeio de hoje foi uma fuga, eu estava exausta da mesmice do meu apartamento, do falatório de todos, somos quatro, e vivemos há quase cinco anos em constante círculo vicioso. Nós nos temos, nos gastamos, nos reiventamos, nos odiamos e nos amamos. Brigamos constantemente por nosso direito à individualidade, delimitamos espaços, quando batemos as portas de nossos quartos. Falamos em duas Línguas, bom, eu insisto que seja em uma só, mas a minha filha de seis anos, nascida na realidade em Nova Lima, e, não, em Belo Horizonte, que seria o lógico, grita: "oh, man!". E eu rio, e ela consegue muita coisa de mim porque seu sotaque de americana é lindo demais.

Sabe um passeio isento? Foi esse. 

Meu filho mais velho - ainda não comentei, estávamos, claro, juntos, nesse passeio, mas eu os abandonei debaixo do pier e caminhei sozinha - disse-me, "você já aproveitou esta cidade, agora, você está vivendo-a". Moça, de repente, nossa criação fica melhor que nós, seus criadores. Eu falei que não aproveitava mais meu pequeno paraíso... então, é isto, estou no momento seu, instante de intensa locomoção e nem me dou conta... pois as outras de mim atraem-me para suas estranhas casas...

Tenho mania de filme, mania de fotografia e de sagrado. Tenho hábito de sonhar com coisas eternas, almas etéreas, amores que não se acabam. Até hoje, atravesso ruas, com fundo musical, feito por mim, para mim, não me pergunta quais são essas músicas, mas o palco existe, e eu invento-me. 

Sabe o homem de terno branco? Ele passará por você, mas presta atenção, vocês se reconhecerão, e, para isso, esqueça todas as suas invenções, todos os roteiros, porque, garanto-lhe, vocês ficarão feito bobos, não saberão muito bem o que fazer e o diretor, esse, está tomando um café do outro lado da rua, de costas para a Avenida Paulista, rascunhando algum longa metragem. Acontece, E., acontece.

São Paulo dorme, você dorme, eu, não. É cedo. Estamos todos na sala do nosso apartamento, na realidade, duas salas que se juntam, onde fizemos três ambientes. Estou diante do meu Laptop, em minha mesa de vidro que é um jardim desenhado; minha filha calou-se, enfim, assiste a um filme em seu presente de Natal (alguns cavalinhos coloridos, pequeninos, assitem com ela, enfileirados, diante do Tablet); meu filho joga algum jogo que nunca saberei sequer ligar e meu marido está lendo alguma coisa, com os óculos pendurados na ponta do nariz. Chega uma hora que ninguém aguenta mais de sono, porém todos permanecem imóveis, parece que estendendo o dia um pouco mais. 

Eu estou aqui, mas ainda lá, à beira-mar, como eu lhe disse, tenho mania de eternizar. Uma manhã igual a todas as outras, onde nada de surpreendente aconteceu, somente o fato de que, se eu não fosse até lá não estaria mais feliz, agora.


Beijo,


Suzana


Por Suzana Guimarães 

Nota: fotografia feita no dia do passeio...