sábado, 10 de março de 2012

QUERIDA EMILY (e as minhas asas? São teus braços, respondeu o anjo),

(Suzana Guimarães, por Luís R.Meneghini)



Querida Emily,


Vou reorganizar minha agenda, remodelar os "biscuits" de anjos que enfeitam os cantos da casa. Reaprender a escrever com caneta, deslizar a tinta, alongar um pouco as letras que sobem, descer com elegância as que descem... Vou montar novo álbum! Nele, constarão todos aqueles que de alguma forma eu os achei belos, daquela beleza que fala sempre mais alto, grita. Nele, estarão todos aqueles que limparam meus sapatos nos dias dos lamaçais e bateram de leve em minhas costas, esvoaçando o pó que carrego há tanto tempo.

Mas, conte-me, conte-me sobre o menino do cabelo escuro e escorrido. Diz para mim, o que a faz se lembrar dele enquanto espera a luta que trava se findar. Conte-me. Enquanto espero em silêncio por tua vitória. O mal pode fazer crescer raízes perversas, mas eu acredito em milagres e no poder da vida. Vai ver, onde se multiplicam células, onde perturbada está a vida, crescida em excessos, está a cura de outros. Tua doença cura os males ao teu redor, pense nisso. Ou não, não pense, fale-me do menino indefinível que você reconhece no vento que chega bem antes dele. Conte-me, até que chegue o dia em que você pulará deste leito e irá até ele e a mim também, disposta a ver comigo minhas renovações. Nos mistérios que a cercam encontra-se meu norte.


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 7 de março de 2012

QUERIDA EMILY (uma palavra: nenhuma)


(fotografia, por SCG)


Querida Emily,

Por que eu lhe escrevo se você jamais irá me ler?

Outro dia, choveu forte. Respirei fundo ao alcançar o portão da varanda da casa onde moro. O tempo acolheu-me e levou-me aos braços da minha mãe, nos tempos todos que hoje representam um só. Naquele dia, pensei que onde eu estava poderia ser lá, qualquer lugar, ou mesmo aí onde você se encontra. E eu queria lhe dizer isto, que o tempo é mesmo muito vago, não se preocupe então com ele, ele é vago e senhor de si, passante. No portão de casa, neste leito que lhe dói os ossos do corpo, naquele país maravilhoso, esplêndido em suas florestas tropicais, de chuvas  -  sei, sei, vocês chamam de florestas de chuvas e eu acho isso lindo!  -, aqui, agora, onde estou, de frente para o computador, noite, cortinas fechadas, movimento constante em casa e meu corpo reclamando de dores e incômodos que minha alma despreza saber, o tempo pode ser o mesmo.

Era dia, era noite. Eu não sei, eu nunca sabia. Eu perguntei todas as vezes em que estive lá, "Que tempo faz lá fora?". Numa das vezes, ouvi: "Não se importe com ele, é o mesmo de ontem e de hoje." Uma vez, pedi: "Você poderia abrir a janela para eu ver um pouco o lado de fora?". "Não". Ele respondeu. "Há um muro feio, fundos de um prédio, janelas trancadas, vozes muito ao longe, muito de vez em quando". "Esqueça".

"Esqueça. Sim, esqueça, criatura", eu pensava. Vire-se para o  lado, há um mundo circulando à sua volta, olhe para ele, viva-o, ele espera por você, por sua participação.




Querida Emily,

A alma pede a bola, pede o jogo, o grito de vitória. A alma quer contar para as amigas que o menino mais bonito do colégio olhou por mais de um minuto, fixamente. A alma quer o beijo, pegar na mão, tocar aquele cabelo escuro e escorrido... mas, o corpo tenta pequenas manobras apenas: uma tentativa de virar um pouco mais para o lado,
coçar as costas que queimam.

E a noite alcança. Não há relógios, nem janelas abertas. Há um abrir e fechar de portas eternos. Há toques e picadas nos braços. Ninguém dorme, mas o rapaz que proíbe janelas abertas já se foi, agora é outro, então é noite. 




Querida Emily,

A vida que tínhamos até ontem, onde deixamos o livro marcado com uma flor seca ou um fio de linha dourada, o início de uma carta, uma lista de compras para o Natal, ou mesmo a matéria para a prova do dia seguinte, essa vida, a gente guarda no armário de metal do quarto. 


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 5 de março de 2012

QUERIDA EMILY (um ordinal: primeiro)

(fotografia, por SCG)




Querida Emily,

Perdoe-me, não aprendi tua língua, não consegui quebrar a pedra, transpor o muro, somente para estar frente a frente com você. Desculpe-me. O medo é uma figura de transfiguração e dele sei tudo, mas eu queria era saber de ti.

Limitei-me em cordas frágeis, mas fortes o suficiente para me manterem longe de ti, do passo que eu daria, do abraço que eu alcançaria, do melhor que de mim eu poderia extrair. Perdi-me em meus próprios corredores.

Mas, a menina da grande estrela me olha dentro a fora, precisa, exigente, por pouco não me sacode. Ela diz "sunny day", ela disse isso hoje, e também, ontem. Ao varar os meus olhos, alheia às minhas dores e queixas, sabendo-se apenas de si própria, diz que penteia meus cabelos, enquanto os penteia; diz que os enfeita com flores, enquanto faz guirlandas em torno de minhas orelhas. Ela roda na saia rosa, embaixo de um Sol de inverno, e você mal consegue se fixar nela, pois o gramado é bem mais extenso que qualquer teoria. Ela colhe flores, as mais lindas e diz me cuidar, e meu corpo estático decora-se, ela assombra a morte de mim.



Querida Emily,

Faz silêncio lá fora. É noite. Deitada em minha cama, vejo as frestas iluminadas. Passam sem esforço pelos filetes abertos da porta e na veneziana fazem festa de luz, quando os carros passam com seus faróis. Ainda há claridade, mesmo dentro deste escuro em que estou.



Querida Emily,

Silenciar um grito ou dois dentro do peito incomoda, e eu imagino todos os que você abafa, com teus dedos longos, com tua beleza que estonteia o diabo que lhe assombra nas madrugadas frias. Eu queria lhe dizer que o inverno é muitas vezes rigoroso para todos em determinado ponto do caminho, e que dói pensar sobre ou falar, mas ele pode um dia virar fotografia, apenas lembrança.

Eu peguei o meu grito, embalei-o carinhosamente, cantei para ele, escrevi versos, olhei para ele pedindo calma, mas ele foi mais forte, arvorou-se de mim, emudeceu minhas vontades, todas... e, ao fazê-lo, calou meu canto, secou minha voz, fez de minhas palavras um punhado de tosse. Deu-me febre, dor no peito e uma queimadura que parece eterna no fundo da garganta, lá, onde nem o médico alcança a vista.

Suzana Guimarães

domingo, 29 de janeiro de 2012

SOU ÁRVORE, NÃO CONHECI O REI



Meus textos são frutos que caem de mim, árvore velha e marcada, quase amarga ao toque, porém, ainda cheia de flores e frutos. Alguém me lê na Romênia. Acredito que seja a mesma pessoa, nem sei por quê. Lembro-me então da bailarina que dançava para o rei. Mas, eu não sou bailarina, e não existe o rei, sequer cheguei a segurar a coroa por entre as revoltas dos meus cabelos... nunca fui a amante preferida ou cortesã desejada. Nada vi de mil noites, e por mim, ninguém montou em um cavalo para me salvar, eu me salvei sozinha, todas as vezes, as incontáveis vezes, e gravei meus atos, no livro dos sonhos, para não me esquecer. E também desconheci o desespero da exigência da lembrança, não houve reis para me cobrá-la. Sou apenas aquela que passou, correndo por arvoredos, mergulhada nas sombras da noite, aclamada pela valentia; sou aquela que matou quem se atreveu desejar ser rei, aquele que morreu de medo, e, medo é o meu escudo, meu punhal e meu próprio túmulo. Sou aquela que matou o rei que não existiu. Dos novecentos fantasmas, nenhum apareceu para me assustar, inclusive o rei, que me daria o susto do amor. 

Mais provável que assim seja, um único leitor, absorvido pelos frutos que deixaram a árvore, ou, entretido com o reflexo que vê. Ele ou ela me lê silenciosamente. Quando venta em meus galhos e minha copa balança freneticamente, eu me desgosto. Ando procurando saber até onde vão meus galhos, minha sombra, o odor que de mim, exala. Sei das raízes, mas, elas não me atraem tanto quanto antes, pois sei que viverei enquanto as possuir e isso me basta. Eu me desgosto com o barulho das ventanias porque causa em mim ânsia, por querer  saber até onde tudo em mim chega e o que posso ainda descobrir em todo aquele que em mim se encosta, em lânguido prazer, ou devassa revelação. Constato, ao ler o nome do país, que também passei por lá, e hoje, sou memória, sou o tempo estagnado.

Sou árvore. Não fui bailarina. Não fui amante do rei. Não roubei o rei. Não rezei para o rei, não entreguei meu corpo como oferenda, sou Suzana. Antes que ele pudesse estender os braços longos para me alçar, cortei a veia, e, hoje, corto a raiz da árvore. Que morra seca, sedenta, de tanto pedir por água.


Por Suzana Guimarães


domingo, 22 de janeiro de 2012

BLOG TEMPORARIAMENTE FECHADO

fotografia, por SCG

domingo, 15 de janeiro de 2012

CRÔNICAS DE SUZANA GUIMARÃES

REVISTA MOSTRA PLURAL


Fui convidada a escrever para a REVISTA MOSTRA PLURA

Crônicas  já publicadas :

 HÁ UMA VARANDA DENTRO DE MIM

 A SOLIDÃO NÃO MORA NAS CIDADES E NEM CABE EM MIM


Caso queira me ler no papel, basta clicar  AQUI  ou  entrar em contato direto com: 


  Telefone
  +55 (11) 9322-3102

  

                                                 
 P.S.: não sou responsável pela Revista.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

SOLIDÃO





Solidão é você carregar a si mesmo, sentindo todo o tempo que nada, nada lhe preenche. E, quando pessoas e momentos tocam esse teu corpo vazio, você chora.


(Por Suzana Guimarães)

sábado, 17 de dezembro de 2011

OLHANDO VOCÊ, LAVEI MEUS OLHOS



(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)



Um ano que termina e eu quase me terminei nele. É dezembro! É final de ano, num final de mim, no recolher de flores do varal, ao perceber que uma decepção desorienta, dois desgostos e a certeza das perdas embaralham a mente; no recolher das frustrações, deparo-me com você.

Não sei bem ao certo quando você chegou. Nem sei se chegou. A sensação que me alcança é a de que você esteve sempre por perto, mesmo que distante a milhas... A você, dono dos meus mais belos poemas, do meu riso, dos meus dias felizes, este texto.

Eu dançava com fantasmas, num baile de solidão, e, perdida em minhas distrações, sequer percebi que escrevia para ti. Sim, para você, pousei os dedos no teclado, sem esforço, sem lágrimas - exceto um molhar feliz, agora - , para você, eu compus, teci, remendei, inventei. Por você, eu abracei cordas que me levaram a um infinito sempre azul, azul... virei pássaro, o bastante para fugir das prisões; virei gente, com pele, com vontade, renascida.

Olhando você, lavei meus olhos. Enxerguei. Olhando-o, entendi que a vida pode ser macia, pode ser sussurro, toque leve, mãos em nuvens. Entendi que palavras são na maioria das vezes, descabidas. Entendi que passei a vida fazendo esforço para me explicar e que isso nunca foi preciso. Entendi que eu nadava em mares de confusão. Vivi uma vida onde eu dominava a língua e eu falava, falava e ninguém me entendia... descobri que para me entender, desnecessário é o conhecimento de qualquer idioma, você provou isso. Basta me olhar, sou pouco, tudo se resume na minha face, basta ter olhos para ver, responder antes que eu pergunte, entender que compreender é entender junto, é ser companheiro, é estar com.

Deparo-me com você na curva da estrada, logo após o despenhadeiro, quando as rodas do carro cantam fino, mas você já estava ali, eu apenas não tinha olhos para vê-lo. Eu só tinha dedos, e a ti, escrevia. Hoje, sorrindo, carrego teu cheiro neles, nas pontas dos dedos, nas pontas d`alma.

Meus olhos viam cores no cinza dos outros. Meus olhos enxergavam demais. Eu colori outras vidas e desbotei a minha... Nos teus olhos, lavei os meus. Purifiquei minha alma. Reaprendi a sorrir, a rir, a desmanchar de rir. Reaprendi a respirar. Teu corpo carregou o fardo do meu, aquele que ninguém via, nem eu. Cada toque seu, um descarrilhamento meu, meu passado, esquecido, meu futuro, sem pensar, meu presente, meu hoje, para mim, o fluido que ninguém vê, que escorre de teus poros para os meus, lavando tudo, descarregando, depurando, no milagre do silêncio, a comunhão do nosso bem querer.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

RECORDAÇÃO DOS PASSOS




A cada passo
Um rasgo
Em eterno deserto

No tempo da maturação
As costuras
Em engasgos secretos

Não sei o que foi pior
Os rasgos
Ou os alinhavos


(Por Suzana Guimarães)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MINHAS MÃOS SÃO ROSAS



Minhas mãos, quando você as toca, são rosas
Quis eu mumificar-me
Parar as horas
Cessar meu respirar
Não seria morte,
Apenas vida...

porque é o pouco que me basta.

Se eu não tivesse anjos
Pararia de caminhar
(não preciso mais)
Pararia de pedir
(pois acabo de receber)
Pararia de sofrer
(acabou-se a busca)

Só assim,
eternizada por esse momento,
Lançar-me-ia a nado
ao encontro dos confins do mar da vida.


por Suzana Guimarães

sábado, 26 de novembro de 2011

O maior deleite é ler com as mãos

REVISTA MOSTRA PLURAL


A Francy`s e a Lu Guedes convidaram-me para ser colunista na Revista Mostra Plural, que acaba de nascer.

Nasceu em mim um texto, "Há uma varanda dentro de mim".

Os interessados em ler a revista, que terá seu primeiro volume distribuído gratuitamente, deverão escrever para a Francy`s, pedindo um exemplar, no seguinte endereço:



O maior deleite é ler com as mãos!

Suzana Guimarães/LILY

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DOS HOMENS QUE GOSTO



(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)



Eu gosto dos homens de sorriso fácil, cujos olhos são sérios. Eu gosto dos homens que não me levam muito a sério, dos homens que se divertem com meu riso solto, minhas gargalhadas sem licença. Eu gosto dos homens que gostam de mim, que me entendem de forma fácil, mesmo que nada compreendam. Gosto dos homens que acreditam em certezas, mesmo que tenham dúvidas, mesmo que o tempo se feche, gosto dos homens que se entregam e dos que não me encostam na parede, são eles próprios a parede, onde posso deslizar feito pluma ou pesar feito chumbo. Não gosto de homens que gritam 'ai', prefiro a palavra feia. Não gosto de homens que não gostam de espelhos, principalmente os da alma. Gosto de homens com cheiro bom ou mesmo com cheiro nenhum. Gosto de homens que sabem abrir a garrafa de vinho, despejá-lo na taça, que saibam abrir um sutiã. Gosto de homens cavalheiros, gosto daqueles que acompanham, que fazem graça, só para ouvir meu riso ou meu xingo, que carregam sacolas, que dizem 'sim', que esperam pelo meu passo calmo na calçada; e dos que não se esforçam para abrir portas, gosto dos que não comparam sentimentos. Gosto de homens com respostas curtas, incansável bom humor, poucas promessas, mas valentes, fortes, despojados, senhores de si mesmos. Gosto dos homens que fazem cafuné. Gosto de homens educados, mas não gosto de príncipes, não gosto dos homens enciclopédia, e nem dos que fumam, dos que não praticam esporte, dos que falam alto, dos que acordam falantes, dos que não sabem apreciar o nada, dos que não aparam a barba. Gosto de homens que não pegam na minha nuca e dos que não beijam minhas mãos. Gosto de homens que esperam a hora e a minha hora. Gosto de homens que procuram compreender o que é sangrar e parir. Gosto de homens que elogiam minha pele despida. Gosto dos homens que entendem meu falatório barato e meus profundos silêncios. Gosto dos homens que não me deixam ranzinza, que me distraem e dos que gostam de aprender e de ensinar. Gosto dos homens com palavras doces, dos calmos, mas que sabem bater na cara de qualquer safado. Eu gosto dos homens que me fazem rir.


Por Suzana Guimarães

domingo, 20 de novembro de 2011

CONSTATAÇÃO





Ela só faltou gritar

Se tivesse gritado, ao pular, você a alcançaria?

Você pularia e juntos

ganhariam o vácuo, igual passarinhos?


Mas ela não gritou

Você também não pulou


E a vida rola mansa

No pomar, frutas secas, pendentes, anseiam o chão

Na cesta, as rosas murcham

O rio caudaloso secou


Mundo de descaminhos, precipícios que se abrem em vão

Quantas belezas em franco desperdício?


No pomar, sementes nascentes anseiam por você

Na cesta, rosas secas perfumam o ar que a rodeia

O rio caudaloso secou

Virou caminho, virou tudo aquilo que o tempo apagou



por Suzana Guimarães

sábado, 12 de novembro de 2011

A[S]SIM


(fotografia de Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


É mais ou menos assim, sou ave que não se pega, penhasco que não se alcança, essência que não se farta. Sou o beijo que deixei de dar, a lembrança do que dei e pedi, e também o sonho daquele que darei. Sou a água fina que escorria da bica, no quintal da casa grande. A casa era maldita, mas havia poesia por lá, os passantes a deixavam, os pássaros, o riacho escondido atrás do morro.

É mais ou menos assim, sou um bicho arisco, forte, perigoso porque conheço o medo, sou muitas vezes a bebida amarga além do gosto da boca, a comida que desce agarrando, mas posso ser o único alimento que alimenta teu vazio, teu buraco em meio ao peito. É mais ou menos assim, sou excesso de vírgulas para você saber que imponho limites, mas sou também reticências, sou promessa concreta, pois desconheço sonho sem pernas, desconheço palavras sem ação.

Sou mais ou menos, nunca serei o que habita entre os dois.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

NAQUILO EM QUE NÃO PUDE SER, FUI APRENDIZ


fotografia de SCG - arquivo pessoal



Como é que alguém pode ser quase? Acredito em quase beijo, quase abraço, quase fim, quase tropeço, mas em quase pessoa, quase gente ou quase qualquer coisa que seja (do verbo ser), eu não creio e não aceito . Pois eu só sei ser. Eu sou. Eu sou mulher, sou brasileira, sou mãe, sou esposa, sou advogada, sou artista de nascença.

Em minha plenitude, vago nos mundos que quero e sou livre.

Andam confundindo literatura - pois estou escrevendo poemas, contos, cartas e crônicas - com a minha vida pessoal. Esmiuçam-me, caçam em minhas letras minha essência. Fiz a graça de criar dois Blogs. Em O Medo de Suzana, escrevo verdades; em Contos de Lily, ficção. E quem é que acredita nisso? Quem é que acredita que consigo separar esses dois mundos?

Se confundo, perdoem-me, mas eu nunca me vi como esclarecedora de coisa alguma. Sou sim, questionadora. Questiono tua alma, questiono teu querer, tuas verdades e mentiras. Questiono você inteiro, mesmo sem nunca ter visto o brilho dos teus olhos. Artistas de nascença ganham o dom. Há em mim uma janela de frente para o universo e por ela vejo muito além do que meus olhos me permitem.

Nesse meu mundo que ganhei e que criei para mim, posso escrever sobre dor, sobre sexo, amor, flor, risos, festas e também sobre a merda do cachorro na calçada. Escrevo sentimentos, sensações, e muito mais que os cinco sentidos juntos.

Mas há quem confunda a minha arte de escrever comigo mesma. E, se carrego dor na alma ou não, isso é problema meu. Claro, claro que carrego, eu sou plena, não sou quase. Sou um ser completo. Guardo mágoas, sim. Guardo dor. Guardo o que bem entender. Guardo vitórias e muitas. Ganhei da morte várias vezes, tenho dois filhos, na realidade tive quatro, perdi dois dentro da barriga, mas foram os meus filhos, pouco importando nome e sexo. Recomecei minha vida após os 40 anos. Sou plena. O corpo já não mais acompanha tão bem quanto antes o espírito, mas as horas em cima de um tatame ajeitam músculos e peles, e, principalmente, mente, no topo. Muitas vezes, entro na academia arrastando-me feito lagartixa, mas saio sempre de lá, uma águia.

Ah, uso a literatura também para xingar. E, naquilo em que não pude ser, fui aprendiz.


                                            por Suzana Guimarães

domingo, 30 de outubro de 2011

SOBRE A FALTA DE ADEUS




O que sei, é que não se entra na vida de alguém anunciando ' estou entrando, viu? '. A gente entra por acaso ou por vontade, por curiosidade, porque gostou, achou bonito, e muitas vezes sem ao menos saber que entrou. Mas, entrou. Abriu janelas, fechou, bagunçou gavetas ou não, mas entrou e se mostrou e foi visto, foi aceito, cortejado, amado. Se o invadido ou seduzido permitiu ou não, pouco importa.


Excetuando os casos de invasão imprópria, indevida ou abusiva, ninguém gosta de quem entra, fica um tempo longo ou curto, ou incontável, e depois some, desaparece.

Não se entra na vida de alguém com lista de por fazer pregada no peito ou no meio da testa. Acontece. Entra-se. Instala-se no sofá, compartilha música, vinho, segredos, risos e muitas vezes rios de águas, águas fáceis, que escorrem no rosto amparado por dois olhos atentos, presentes, quem sabe chorosos também.

Excetuando os casos ' foi melhor assim', aquelas saídas silenciosas, porém necessárias, ninguém gosta da falta de adeus, da falta de anúncio de morte comprovada.

Chegou a mim, uma comprovação de morte, mas não chorei. Simplesmente porque chorei quando o corpo desapareceu. Chorei demais! Na época, gritei, emudeci, tentei correr mesmo que para lugar nenhum, pensei enlouquecer, sofri, doeu, incomodou dia e noite, fiquei sem saber se era fome ou má sorte. Enfim, me descabelei, me rebelei e depois calei.

Quando se entra na vida de alguém, deixa-se pelo menos um nome, aquele que, mais tarde, você encontrará na sala de embarque de um aeroporto, numa voz aguda que chama por alguém que se atrasou; na sala de aula, no programa da televisão. Em letras garrafais num 'outdoor', miúdas em folha de jornal, num bilhete perdido numa sala de cinema... um mesmo nome, um outro alguém.

O que sei, é que quando se entra na vida de alguém, ocupa-se um espaço.

Ontem, eu não chorei, meus olhos apenas umedeceram. Senti um aperto no peito. Seco. Um estranho silêncio apoderou-se do ambiente à minha volta, digo, do espaço até onde vai o brilho de minha aura - silêncio de dor. Coisa só minha, incomunicável, indizível. Não se morre duas vezes.

Foi a comprovação da morte de alguém que sumiu sem dizer adeus, volto já, vou ali pra nunca mais, me esqueça. Um certo alguém que entrou na minha vida, ficou um certo tempo e se foi, sem deixar um sinal sequer de despedida. Depois, arrependido ou sentindo falta, quis voltar. Tarde demais.



Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

36 HORAS DE CONSULTA PSIQUIÁTRICA AO LONGO DE 10 ANOS...

(SCG fotografada por Ana Diniz Echabe)



Meu cabelo é marrom escuro, mas a partir do momento em que os brancos começaram a aparecer, eu comecei a colorir minha cabeça. Ora preto, ora vermelho, dourado, Henna e hoje, um cabelo totalmente artificial. Ficou loiro demais, loiro quase branco, apesar 
do fundo escuro... Mas, eu estive pensando que isso não é de todo ruim. Esse detalhe falso talvez faça bem em mim, uma pessoa tão transparente, tão nua, desprovida de máscaras.



Há quem diga que tenho armadura, que sou dura demais, crítica demais, mão pesada. Há quem esconda e não diz, mas deixa claro que não tolera minhas rebatidas, minhas palavras ácidas que caem da ponta da língua, minhas opiniões sinceras e francas, sem dó. Nesse último quesito, defendo-me: não falo tudo o que eu gostaria de dizer, nunca fiz isso. Deixo muita coisa por dentro da manga da camisa, para uma ocasião propícia ou enterro para sempre, por delicadeza. Mas, há quem saiba, isso há, que também sou eterna menina, em saia de roda, leve, serena.



Ninguém fica do jeito que fiquei por acaso ou por nascença. A gente vai se transformando, no meu caso, houve ajuda profissional, competente, humana, um médico que me salvou de mim mesma, de meus medos, de minhas fugas sem rumo.



Trinta e seis horas, ao longo de 10 anos, consultando com Dr. Jorge Paprocki, médico residente em Belo Horizonte, Brasil. Trinta e seis horas que empurraram-me, primeiro, em direção a mim mesma, para 'des-cobrir' o que eu não enxergava, segundo, para me conduzir 'armada, adequadamente armada', para o mundo.



Houve o uso de remédios. Medicação que ainda faço uso, mas simplesmente porque quero, porque quero sempre melhoria de qualidade de vida, e, em doses pequenas ajuda a manter uma certa flegma neste mundo frenético.



Trinta e seis horas? O que são trinta e seis horas? Não chegam a dois dias.



No dia em que ele me falou isso, ao telefone, eu já morando aqui, nos EUA, não mais como paciente dele, fiquei perplexa. Meu marido ficou. Minha mãe também. Quem não ficaria? Até ele ficou. Por curiosidade, ele mandou a secretária dele fazer um levantamento e me enviou: duas consultas em outubro de 1995, seis, oito, duas, uma... fevereiro, março, dezembro... dez anos, e apenas um tanto de horas.



Um tanto de horas que me deixou assim, firme, determinada, por vezes dura (eu já escrevi que a vida não é um passeio singelo por campos floridos), por vezes medrosa. Claro, serei sempre uma pessoa que foi doente, um pé estará sempre lá, a sombra dele, mostrando-me que o pé poderá ir por inteiro, em carne viva ou mesmo os dois. Portanto, medo é um conhecido meu, que às vezes, me alivia, às vezes, me sufoca, faz doer o corpo todo, inventa doenças, desestabiliza, me faz acreditar que o chão em que piso não é de verdade, é utópico, e, de verdade, apenas algo quente e venenoso que corre pelas minhas veias, angustiando-me e me proibindo os movimentos, levando-me ao eterno 'deixa pra depois'.



Trinta e seis horas e realmente esse cabelo não haverá de me incomodar. Ele irá crescer, as raízes ficarão brancas pedindo retoques escuros e terei tempo, então, o suficiente para pensar se gosto ou não. Se a artificialidade caiu bem ou não.



Trinta e seis horas é muito pouco, mas o muito bom mora dentro de nós, na maioria das vezes, totalmente oculto, e as horas precisam correr, precisam existir, o momento, o ato, o movimento, o pelejar... para que possamos estar muito bem, mesmo que entre cercas, entre falsos, entre nós mesmos.




Suzana Guimarães