sábado, 27 de abril de 2013

UMA CARTA EMBALADA



Los Angeles, 26 de abril de 2013.




Querido,


A última música que você me enviou, estou ouvindo-a. As cartas, guardando-as. O passado, estou querendo esquecer, neste martírio e gozo em círculo vicioso, onde você vive e morre, é belo e feio, amado e odiado, uma ponte entre viver e sobreviver, o caminho para eu alcançar a borda da felicidade e  tocar-lhe novamente, desde o último sonho, onde tudo parecia real e palpável.

Entenda, amor não se adapta, amor se aceita ou rejeita, não finge, acontece, não espera, berra. E mesmo que eu gritasse teu nome dezenas de vezes e pedisse para você compreender, nada adiantaria, pois, no fundo, no fundo, somos os pais da descrença, por isso, a morte da nossa felicidade.

Ah, você não acredita, mas éramos felizes, você e eu, assombrados com nosso encontro, ríamos, esperávamos, sabíamos ser reais, de tanto que nossos corações batiam em descompasso. Mas, ó, miséria humana, orgulhosos em nossos tronos de soberba e pretensão, sabíamos também apontar nossos indicadores, mostrando a mínima falha, procurando no outro, um vacilo, um descuido, o baixar da guarda.

Não soubemos ser a paz de um encontro bom, vivíamos preparados e bélicos, perdendo o melhor da peleja, a fruta, o sumo, considerando bom apenas o galgar dos galhos, a conquista, o aceite.

A música se repete em meus ouvidos, é tarde, é noite, é dia, aí? Você está feliz? Faço falta?

Por aqui, tudo bem, vou caminhando, fotografando portas, janelas, bancos vazios e também flores, vou caminhando, esquecendo-me de você, procurando vê-lo por outro prisma, a partir do meu próprio olhar e não mais através do que você imaginou encantar-me.

Você sabe reerguer-se? Eu também, embora quisesse dançar com você, beijar teus lábios grossos, dedicar versos e melodias, abraços e sussurros, despentear este teu cabelo armado e falso, deixá-lo ao natural.

Você se tornou de fonte de vida ao tempo de uma música ou sua repetição, ao tempo de um passeio na beira da praia, um tempo curto, frágil; de diamante a caco de vidro, que eu pego e me rasgo, às vezes, pelo prazer de saber que, a cada corte, corto-o também, assim como, a cada carta, despedaço o que você se esforça por manter inteiro. 

Querido, sou a verdade que bateu à sua porta. Você, a mentira que se instalou em mim.

Dorme, dorme, meu anjo, a música cessa.




Por Suzana Guimarães

Nota: ao som da banda Sigur Rós...

sábado, 20 de abril de 2013

Eu preciso escrever uma carta.

By Man Ray 
 
 
Eu preciso escrever uma carta. Eu preciso escrever uma carta e isso sempre foi muito fácil para mim, mas, hoje, não. Estou desfocada da realidade ou absurdamente dentro dela, enquanto rolo as páginas do Google, vendo a vida, a morte e a loucura humana. Estou assim há tempos, de forma escondida, para não deixar transparecer o que tenho mais de real, um certo escapismo. Então, por consequência, não estou em lugar nenhum. Tenho vida ativa e ela corre, corre muito e eu me perco nas datas, e me vejo questionando meu colega ao lado, "hoje?, que dia é hoje?", e ele, com a cara pasma, responde: "hoje é segunda-feira e você não veio foi na quarta-feira passada, na sexta, você veio". Contudo, a loucura da realidade humana empurra-me para dentro, para a divagação, e eu me vejo, admirando, pelo lado de fora, as cortinas que cerram as duas enormes portas de vidro da minha casa. Do lado de fora, questiono-me o que se passa dentro, o mistério, a razão delas, as cortinas, estarem sempre em desalinho, e, às vezes, posso ver um pedaço de tapete, a luz acesa do abajur... como se tudo fosse desconhecido, mas não é, é meu.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas como? Eu queria estar em todos aqueles lugares, invisível presença, porque eu queria estar bem próxima de alguns e o que mais me deixa atônita é saber que não estou fazendo distinções entre o bom e o mau, nesse meu querer. Eu queria correr até lá, e gritar bastante e dizer que tudo é enorme absurdo e que somos apenas adubo e nem sempre podemos dar belas flores, eu diria, sim, para aquele belo homem, tudo aquilo que ele recusou diante do espelho. E o espelho é ele. E o espelho é o outro ao lado dele. E o espelho sou eu.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas eu quero mesmo é rir, desmanchar-me de rir pelas tolices dos plantonistas das verdades. Tem gente por aí só esperando o momento de lançar suas verdades, aos céus, aos léus, mesmo que não caiam em solo algum, mesmo que jamais façam brotar sequer um botão de flor. O que eu sei sobre a verdade? Nada. Tão pouco ele, tão pouco o que vive ou morre em dor dilacerante e nem o que mata. Não sabemos de nada neste solo de cultivos, somos simples sementes, pó, pólen, metragem de pele a secar, ossada quase eterna, almas embaralhadas em cartas dispersas sobre a mesa do enigma.
 
Eu preciso escrever uma carta, mas meu destinatário se foi na madrugada passada, entre duas esquinas, no barulho eterno das guerras humanas.
 
 
 
Por Suzana Guimarães

domingo, 7 de abril de 2013

Meu pai

 
 
Suzana Guimarães - arquivo pessoal
 
 
Nenhum amor me salva hoje e nenhuma palavra por mais bela, nem a ideia do futuro ou esta agonia presente, nem ela. Minha história se reconta em mim, de forma aleatória, sem datas, lembranças somente, nada, nada linear porque essa história começa a se enuviar. Dou-me ao direito do choro de filha. Descendo dele em corpo e alma, em nome, em tantas histórias contadas e que, se eu não cuidar, se perderão com ele. A partida dele tira-me o chão. E o que sou sem chão? Nem voos alcancei... Ele sempre teve chão e se pisou bem ou não, pisou, marcou seu território.
 
Nenhuma palavra me salva, nenhum conforto ou consolo, com ele, desvaneço-me, mesmo ainda inteira. Eu nunca soube que ele poderia tanto.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 4 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

PARA A NOITE ÓBVIA



Quando o ar faltar,
as persianas por fim se fecharem sobre
raízes podres e raquíticas debaixo de sol frio e distante;
quando a chuva deixar de ser poesia,
e não houver mais conforto em braços e olhos alheios...
quando tudo se tornar insuportável como a agonia dos que morrem por não saberem do remédio
eu lhe peço, sopra um vento raso e breve, lento, em meus ouvidos, ordena-me, implora-me, amarra-me à vida, mesmo que bem pouco seja tudo que você possa fazer.

Quando tudo parecer argila mal modelada, mal esculpida e espalmada,
quando as ruas parecerem sempre as mesmas, as trilhas sempre óbvias;
quando faltar o mistério, o aroma bom de um dia que se anuncia ou se extingue, e a minha presença for o mesmo que a minha sombra,
diz-me uma só palavra, a plena, aquela suficiente, que ressuscita. Diz que você está presente.

Quando a graça der lugar à desgraça e o mundo for apenas descrença no outro, olha-me, diz para mim um jardim inteiro de alegrias,
mostra para mim que nunca estive só, que sempre o tive, mesmo nos momentos de vácuo, quando as almas se perdem atrás de seus corpos.


Por Suzana Guimarães


domingo, 24 de março de 2013

ROL DE QUEIXA





Incerto o início do mergulho. 

Num sorver de ar, alguma novidade
Uma palavra amarga, outra amiga. 
Um ato de fé, outro que se desfaz. 
Alegria, alegria, próximo segundo, outra imersão. 

No fundo d'água, pressão que a vida faz. E assim, mergulho e ar,
Agonia, agonia, em retornados mergulhos. 
No fundo d'água, a paz que a vida dá. 

O que dói é o rio não ter fim.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Dominós enfileirados, um cai e assim segue..."

 

 Pela manhã, você acorda. Você pensa que a manhã é a mesma de ontem e anteontem, mas não é. As manhãs são as peças do dominó que estão a cair, uma por uma... apenas isso. O que me aguça é a oca sensação do que virá após todas as quedas. A alegria das quedas é o encontro com o outro.
 
Ela chegou ontem, embora esteja aqui o tempo todo. Eu abri dois pesados livros para ela, ou talvez, mais. Tantas palavras, frases, textos e mais textos... ela apontou algumas peças, uma delas caiu porque, estar numa mesa de jogo, é real demais para quem sonha apenas com o dia do jogo, enquanto isso, masturba sua alma no delírio alheio. Ela apontou uma outra peça, chocada, constatou que a peça imaginava-se inferior às outras... e não bastava e não adiantava e nada resolveria eu dizer que não era bem assim, que o que a peça continha em si era bem mais que fazer parte de um jogo de dominó.
 
Eu não soube ler a história do dominó. Ela contou para mim, como a gente faz para aquele que quer ler, mas não pode fazê-lo. Ela contou para mim a história de algumas peças e eu pedi que parasse, pois tenho vários amanhãs.
 
A alegria das quedas é o encontro com o outro. Agora, já posso ver tudo o que eu não via e queria ver... A peça que dispensa a realidade do jogo, para mim, é descartável. Desfez-se do contexto dos meus amanhãs.
 
A peça que se sente menor, enfileirada e caída, eu a coloquei novamente na mesa, mesmo que ela não queira. Posso guardar em mim quantos jogos e amanhãs eu quiser. Se cabem em mim ou não, problema meu, de mais ninguém, nem da peça. Guardo em mim o que quero pois é tudo o que eu realmente tenho, minha morada interna.
 
A peça me leva para longe das letras, não preciso mais da palavra, da forma que precisava antes. Apraz-me a verdade que alcancei ao saber os motivos daquela queda... e o dia se fez cinza clarinho e frio, meninos em jaquetas vermelhas, ardidas na brancura do lago ao fundo, deslizam-se em seus skates a caminho da escola. Eu deslizo também, pensando em alecrim, jasmim, em cheiro de boas manhãs, no entendimento do outro, numa boca que se fechou para mim, tão bela boca!
 
O que dói não é o medo. O que mais dói é ver alguém medindo-se menor do que realmente é.
 
Ó, pássaro, ó, saia da beira desta janela, alcança a vastidão que espera por você e voa, e, quando quiser, canta para mim um canto rouco...
 
Por Suzana Guimarães
 
Dedicado a Mary Cristiane Araújo.

sábado, 9 de março de 2013

Especial Suzana Guimarães, com carta do Teopha!

Suzana Guimarães, a Lily. Ilustração de Antonio ClaudioTuca Zamagna




HÁ QUEM PREFIRA MIGALHAS AO PÃO

 

Ontem, à noite, bateu-me algo maior que eu..."Parece que algo em mim, por dentro, vai tombar, algo horrível...", e, na ânsia de desviar a rota, escrevi para alguns amigos, pedi socorro. Um deles, o mais querido, foi cuidar de sua horta, foi dar leite para o gato, ocupou-se em juntar migalhas para formar um pão. Hoje, pela manhã, quatro mulheres já estavam na caixa de meus e-mails, passeando em espírito aqui na minha casa, pedindo às luzes, alento para mim... Algumas pessoas não entendem, outras, sim, se sou um sussurro, um caminho, um grito ou mesmo um exemplo, ou uma diversão, se sou indisponível, importante, se posso tocar sem colocar as mãos ou perceber e compartilhar sem estar perto é porque alguém se preocupou em cuidar disso. No livro "Não apresse o rio, ele corre sozinho", a autora nos diz que não se pergunta "posso carregar suas malas?", simplesmente, carrega-se. Pois bem, há muitos desejosos de compartilhar o que carrego em minha malas porque eles pensam precisar, mas poucos ajudam a aliviar o peso. Se você me quiser, sopre vento fino e manso, porque vendavais só me assustam, e também me assusta a total falta de preparo de alguns em lidar com o que não podem entender ou aceitar. Infelizes esses que não compreendem nem uma migalha de pão de si próprios.
 
 
Por Suzana Guimarães.
 
 
 
Texto originalmente publicado em 6 de março de 2013, em minha página no Facebook.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

HORA DE PARAR

By Lelena Terra Camargo

Faz-me mal a escrita? Não, as consequências dela.
Por isso, vou parar por algum tempo.
O Blog ficará aberto para quem gosta de me ler.
 
Suzana Guimarães, a Lily
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

DESENCANTO


 
Parecia leve,
Consistente
Sereno
Ardente presente.
 
Foi ontem...
Numa breve viagem
Um descuido
Um deslize
Uma folha que cai
Um rio que flui
Um cão que passa
 
Parecia...
 
Parecia vida e nova e gostosa, delirantes risos, onde rios alcançariam os mares dos sonhos e os mares os corações de quem os visse passar.
 
Parecia.
 
Hoje, ausência que me espreita, folha pisada, rio sem água, a preponderância do não.
 

Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

NÃO ERA PARA TER SIDO ASSIM


 
(Imagem encontrada na Net)
 

Desperdiçadas palavras
enlatados pudores, amores, dissabores
na triste figura da esquina
 
Conta-me uma bela história
pedia, conta-me, embala-me
 
Todos já se foram
Tudo é passado e quieto
Só esta luz artificial...
 
Desperdiçado tempo?
Disputados espaços, truncados desejos, desamores...
na segunda triste figura da esquina
 
E, amanhã, outra e outra
Sombras de tudo o que nem chegou a ser
 
Apenas desbaratadas palavras...
 
Por Suzana Guimarães
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

AMOR E SEXO NA INTERNET

Suzana Guimarães, By  Hilário

A criação com toda certeza está preocupada... Do outro lado do mundo, fetos femininos são abortados, meninas morrem cedo, de fome ou abuso sexual. Abortos são feitos clandestinamente após estupros, que, a cada dia, elevam os números das estatísticas. Há uma gente impotente de tanto usar droga e álcool. Do lado de cá, mais estupros, mais descuido, mais abortos e o ato sexual humano está perdendo para o coito do cão com a cadela, no meio da rua.
 
Para completar, as pessoas decidiram amar e fazer sexo via computador, como se não estivéssemos em pleno século XXI, como se não houvesse aviões subindo e descendo em pistas por este mundo afora, como se as facilidades não fossem tantas! Parece que ainda tudo se faz na espera dos grandes navios mercantis. Como se não vigorasse a Lei do Divórcio na maioria dos países... não menciono obviamente as nações onde ainda os direitos humanos não são respeitados em sua íntegra, onde os costumes são os mesmos de trezentos anos atrás...
 
Pelo amor de Deus, pelo amor da criação, que amor é esse que não pode ser tocado, suado, trocado, feito, experimentado? Que papo é esse? O medo das doenças sexualmente transmissíveis é tão grande assim? Ah, medo, tempo... só falta agora me dizerem que papai noel realmente existe. A palavra é 'escapismo'. Intolerável cotidiano que me leva ao computador para sonhar com uma imagem e alguns sonetos doces de amor. E, então, o dia se faz cor-de-rosa e as noites azuis da cor dos olhos do(a) amado(a).
 
Amor adolescente. Tive um aos quinze anos. Mas, ele falava comigo, me dava carona, emprestava-me o seu caderno de matemática, ria, me ouvia, contava casos. Amor no Egito? As famílias escolhem os noivos e fazem o casamento e todos dizem amém. É para o bem deles mesmos, para as famílias e a comunidade. As famílias se fazem e se perpetuam por décadas na mesma vila... outros costumes, outros mundos. E é melhor eu parar por aqui porque eu tenho opinião sobre certas coisas, mas dispenso o levante da bandeira. Não é da minha conta. Nem o sexo e o amor dos outros, mas, puta merda, estou neste mundo e me deram boca para falar, olhos para ver e mãos para escrever. Não sou aquele macaco todo medroso, tampando tudo, para não saber, não tomar conhecimento, nem enfio a cabeça para dentro da terra, deixando somente pés e bunda à mostra.
 
Triste humanidade... o que mais temos de humano deixamos registrado somente em casas comerciais, alguma coisa 'ponto com'.
 
Quem possui um vibrador sabe, é interessantíssimo no primeiro dia. Bom na próxima semana e péssimo para sempre, quando usado na solidão de uma cama. Se for a dois, continua bom, se não, melhor lançar na lixeira. Falta braços, falta pernas, cheiros, pele.
 
E o amor? Tão lindo! Não paga conta, nem a do hospital.
 
Continue, continue com teu grande amor virtual e depois me diga quem foi que lhe estendeu a mão quando você se estrebuchava de dores no chão.
 
Por Suzana Guimarães

PRAZER, SOU FERNANDA

 
Fernanda Soares Clemente - arquivo pessoal
 
 
Num passado mais que perfeito, busquei a perfeição do amor e da felicidade como se pintasse óleo sobre tela, lesse Neruda ou caminhasse com Yung por calçadas suíças, interpretando sonhos e escarafunchando mentes humanas. Mesmo que entre passadas irregulares, faltava pouco para os melhores desfechos. No fim, o entendimento, o suspiro da última página e o quadro num museu de Arte. Hoje, tudo folha em branco, com poucos dizeres:
 
Sou mulher, sou Fernanda, não sou menina, não faço birra, dispenso a pose de moça, sou aquela que ousa. Alcancei a capacidade de enrolar-me e desenrolar-me em tramas alheias, na medida do meu querer.
 
Não creio em tudo o que me dizem, apenas no que constato. Não faço bicos, não monto olhares, não treino máscaras diante do espelho, não enlouqueço as pessoas... eu corro, eu corro muito, tenho crias, tenho tristezas, mas não tenho tempo para confinamentos, minha alma é poeta, mas posso ser seca, direta, mais fácil assim, não sou fantasia, não sou miragem de deserto, não tolero promessas vãs, não suporto amor forçado, não me atenho às falsas lágrimas. Sou concreta, mulher em carne e osso, não sou o sonho dos tolos homens Ken, sou morena, sou Fernanda, meus cabelos são escuros como a madrugada, meus olhos, você não penetra, é preciso me buscar além, no toque, na verdadeira conquista, sou a expectativa de um homem de braços fortes, valente, que conta histórias de guerreiros, para eu nunca me esquecer de onde vim.
 
Blefo, se eu quiser, ah, e nunca quero. Tolice! Sou gente, tenho o corpo fechado para o mal, aberto para a vida, mesmo que eu chore, mesmo que eu me acabrunhe, amanhã, estarei melhor.
 
Não abro portas que não poderei sustentar abertas. Não sei o canto da sereia. Minhas crias me amam, minha mãe me ama, meu passado me libera, nada mais sei de descartáveis quimeras.
 
A coroa de rainha, eu mesma ajustei em minha cabeça, e ela é de safira e eu sou Fernanda, e completo, hoje, 40 anos, então, não me diga o que fazer, para onde ir, como estou, pois eu simplesmente sou.
 
A perfeição do amor e da felicidade, rabisquei outro dia num papel de pão, ela existe num frágil ponto, entre o sim e o não, entre o último riso que dei e aquele que sonhei que poderia dar, entre nãos e vãos... nada importa, a partir de hoje, sou apenas a confissão muda de uma mulher de 40, que nada precisa explicar e entender, apenas respirar e viver.
 
Por Suzana Guimarães.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Êmbolo oco vazio



 
Eu pensei que fosse vomitar. Subiu um êmbolo oco vazio do estômago para a boca. A garganta se trancou, fecharam-se todas as portas, janelas, ventilações.
 
Antigo sentimento, conhecido meu. Não se pode sair correndo, pois não há para onde ir, como eu mesma disse, tudo se fechou, em lanças pontudas. Uma enorme rede enredou-se em minhas vísceras. No passado, isso era motivo de desespero, por se perder o chão. Mas, agora, tudo é diferente, eu caminhei muito e alcancei a sabedoria de eliminar males em minutos, seriam segundos? Como é que a gente consegue isso? Simples, porque, quando se aprende, é rápido; complicado, porque o aprendizado é lento. Simples, como suportar pequena vertigem. Complexo, pois, durante anos, você aprende que se vive um pouco todo dia, e todo dia se vive, pouco a pouco, e todo dia é só mais um dia e, amanhã, contarei outro, e depois, outro... assim, sucessivamente, aos goles. Nesta ladainha do pouco, só hoje, só mais hoje, você caminha o mundo todo.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CARTA PARA O MEU PAI ( # II )

Suzana Guimarães - arquivo pessoal
Los Angeles, 7 de fevereiro de 2013.

Pouco posso lhe dizer agora, talvez sobre o tempo, talvez sobre o cachorro que dorme debaixo dos seus pés. Eu queria lhe contar os últimos acontecimentos. Os de hoje, principalmente esses, e tenho certeza de que você diria, "Você é uma heroína!". Tenho certeza de que nós mudamos, você e eu, eu o vejo melhor, você me reconheceu. Somos amigos, pacíficos, renascidos. 

Tenho dirigido tanto, estou dirigindo, você que me disse que no seu carro eu não tocaria, mas que depois liberou e até me deu algumas aulas, perdidos nós nas ruas estreitas do Prado... e ríamos porque o carro parecia ser um avião de tanto que eu não conseguia dominá-lo. Pois é, estou avistando o porto de Los Angeles que se comunica com o de Long Beach... é enorme, pai, o mundo passa por aqui, e, sem carro, estou sem mãos e pés. Tudo é longe, demorado, e eu sou aquela que você nunca imaginou tão distante. E você sabe, até hoje sabe, no profundo de seus silêncios, na sua mudez, na sua total falta de assuntos, sabe que eu não acompanhei ninguém, sou aquela que empurra, aponta, mostra o caminho.

Ando correndo mais que você, repetindo as mesmas coisas, reclamando que tudo tem que ser explicado. Ando só. Será que você era um homem solitário? Os fortes andam por aí em plena solidão porque todo mundo pensa que força cai dos céus, gratuitamente, feito chuva, e que, nós, os guerreiros, simplesmente de nada precisamos, porque nos basta abrir a boca para ingerir as dádivas. Entendem, os fracos, que o mundo é deles, para servir às suas eternas doenças, inabilitações e descrenças. Eles se dizem à margem, mas a chuva cai para todos e eu me pergunto: por que será que essa gente não consegue se mover? Doença, acomodação... são tantos os termos, dispenso todos, pois, você e eu vimos limitações - você fingiu que nem via - mas, nós fomos, trêmulos ou não, dar a cara às águas.

Você ainda faz isso, de outra forma, mas faz porque quer. Continua decidindo por sua vida. Ah, questão de honra! Um homem igual a você não tomba fácil, mesmo assim, do jeito que está.

Você, hoje, madrugada numa minúscula cidade do interior, onde um avião nunca passou, nem navio nenhum aportou. Onde o rio transborda e assusta, ouve-se o bailado das árvores no mato, os pássaros, os ônibus que passam freiando, onde a poeira precisa de água, os cães andam sarnentos e alheios, olhos vigiam pelas frestas das janelas e um menino corre, sorrindo, mostra para a professora todo o dinheiro que ganhou vendendo garrafas vazias.

Você, hoje, é o silêncio daquelas noites, e eu sou tudo aquilo que eu ainda poderia ter lhe dito.


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

MĀO, LUVA E UM CERTO PERFUME



(Imagem retirada da Internet pelas mãos da Cris Araújo)


Perceba que posso ser aquela que você desejar. Nāo porque me metamorfoseio ao macho, nāo sou daquelas mulheres que trocam de esporte, leitura e roteiro de viagem a cada troca de homem, só para acompanhá-lo, como se tivessem passado a vida escalando montanhas, mas, de verdade, sempre nadando, três vezes por semana, na academia perto de casa.

Perceba que posso ser todos os teus desejos pelo simples fato de que sou, em uma, todas que você desenhou, nas últimas páginas dos cadernos, pensando que nāo houvesse mulher que um dia poderia vir a se encaixar em tuas medidas. Tudo questāo de métrica, meu bem, as melhores vestes dispensam ajustes.


Por Suzana Guimarāes

sábado, 2 de fevereiro de 2013

"(...) ser uma espécie qualquer de ave." UMA CARTA

 
 
 
 
 
Los Angeles, fevereiro 2, 2013.
 
 
Querido,
 
Você escreveu "ser uma espécie qualquer de ave". E a frase colou em mim, andou comigo por aí, tantas coisas para fazer, nesta terra onde tudo é muito longe e demorado... há tempos, venho percebendo bandos de aves que me sobrevoam, justo quando passo, de carro, em diferentes lugares, em diferentes horas. Percebo também que pessoas na rua também olham para o céu e observam o bailado, assim como eu.
 
Parece promessa cumprida. Parece aviso. Ando tão surda, muda e cega que não traduzo bem, não sei o que querem dizer, o que querem me dizer. Eu, que tanto quis sair de meu próprio peito e voar por aí, livre, desapegada, em bando ou de forma solitária, assim como a águia, assim como o pássaro verde que vi, ontem, escondido debaixo de uma folha de palmeira.
 
Eu, que decidi colher ramos de flores para enfeitar a minha solitária casa, eu, que acendi inúmeras velas, pequeninas velas, redondas, brancas, e, que acesas, lembram-me um antigo chalé, uma antiga pessoa, tão conhecida minha... que dispensei campos de morangos, a fome, a sede, o passo, o som de piano, os meus amores, a minha terra, quente e molhada, difícil, esburacada, um mastro com bandeira linda que tenta se manter em pé, firme, aplaudido...
 
Eu, que agora dispenso murmúrios de anjos, que rasgo o mapa e rio das profecias... neste mundo ora chato, ora cruel, uma saga infinita por não sei o quê... estou aqui, a pensar em pássaros voando, em capela, na vida de uma escritora do passado, nem um pouco reconhecida, numa fuga a dois, porém, separados, numa casa que se fechou para sempre, por ninguém, para nada...
 
Eu, e meus sonhos reincidentes que agora se tornaram cansaço constante no meu corpo desejoso de sossego, de descanso, de música ao longe... sonhos reticentes, onde toda a minha vida passa, filme chato, sem cronologia, sem roteiro, apenas um embaralhamento de ideias, e que me fazem acordar sem saber em qual dos meus antigos endereços estou, nunca no atual, perdida, sem saber se depois da quinta-feira é segunda-feira, sem saber se deixei alguém para trás...
 
Alguém chega e diz uma frase qualquer, não, uma linda frase, e leva você para aquele lugar onde você deixou tua blusa de frio, teu diário ou mesmo a merendeira com cheiro de chocolate da infância.
 
Querido, presta atenção no que você me diz ou escreve, pois eu tenho medo.
 
Beijos,
 
 
Por Suzana Guimarães