| (arquivo pessoal de SCG - Abril/Primavera de 2009) |
terça-feira, 15 de março de 2011
COM VOCÊ, EU ENTENDI QUE O CÉU A GENTE É QUEM FAZ
Avisaram-me de você. Eu pisava chão duro, o ar era sempre seco e secas eram as cores à minha volta. Na casa da vizinha havia som, brilho e muitos tons. Avisaram-me de você e eu acreditava, mas depois passava a mão na testa, fazia um gesto tolo, como se retirasse um devaneio, um pouso leve de pena em minha pele e seguia meu caminho. Uma noite, em sonho, você chegou em pessoa, tão lindo, tão lindo, pediu que eu tocasse seu peito e eu toquei, pediu que eu ouvisse o pássaro que cantava dentro de si. Ouvi, maravilhada com seu semblante, seu cabelo em cachos nas pontas.
Segui o meu caminho, meus pés doíam naquele chão sempre áspero, sempre solitário. Eu o desejava, desejava, de mansinho, bem quieta no meu canto. Às vezes, debruçava-me sobre os livros, cansada, à noite, e chorava porque eu não o tinha, você não havia chegado.
O tempo de desistir chegou num dia qualquer e assolou meus sonhos e a minha fé, fiquei parecendo o poço eterno dos desejos não realizados, foi quando veio você, um minuto antes da hora mais linda, um minuto antes da esperança dar seu último giro em torno de mim. Você chegou, tocou meus lábios, meus olhos, a ponta do meu nariz, me viu. Reconheceu-me. Dei-lhe nome de rei. Eu o embalei em mantas de puro algodão, banhei você em moedas de ouro, cantei mesmo que desafinado. O chão que eu pisava foi pouco a pouco se tornando areia fina de praia. O ar tornou-se úmido e os aromas que vinham da casa da vizinha não eram melhores que os meus.
A cada nascer seu, ressurreições minhas. A cada passo seu, milhares meus. Cada gesto seu, uma batalha minha. Cada palavra sua, um discurso inútil meu. Você tão paz, eu imensamente bélica. Você me diz, sentado ao meu lado no carro, ouvindo música, você me diz, será confeiteiro de bolos... pela paz do ofício, pelo silêncio do construir e adornar. E eu diminuo em freadas bruscas o meu respirar, tento alcançar suas gentilezas. Penso que você será é diplomata, o pacificador. Você permite que eu lhe ensine a domar um cidadão com meia-dúzia de palavras e você me ensina trilhas para alcançar caminhos mais floridos e arejados, fazendo uso de tão parcos movimentos, assim como faz quando luta, lenta coreografia, até pra derrubar, você é ternura.
Com você, posso dar quantos giros for preciso em volta da Terra, posso caminhar na lama dos infernos e alcançar algodão nos céus. Com você, pego um dragão pelo pescoço e o esgano, com você, piso a relva macia, tocando de leve os querubins que criamos para nos distrair. Com você, eu caminhei para um mundo desconhecido, temerosa de que esse mundo o engolisse... mas você me provou que a determinação é silenciosa, de vestes simples, de voz mansa, riso solto, mas firme e prudente.
Com você, eu entendi que o céu a gente é quem faz.
Sua mãe
P.S.: eu o amei, eu o amava, eu o amo, eu sempre amarei você, eu amaria (de qualquer jeito fosse) e eu vivo só para amares tu.
Um texto de Suzana Guimarães
terça-feira, 8 de março de 2011
ELA
por Suzana Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
![]() |
| ilustração, por R.Meneghini |
Eu a vejo sempre. Perambula pela casa de calcinha e camiseta. Às vezes, chega à janela, espia, puxa as cortinas e some. Às vezes, vejo-a entrando no seu carro, parado em frente ao jardim. Às vezes, não a vejo, por temporadas.
Quando não está de calcinha e camiseta, fantasia-se. Dificilmente se repete. Às vezes, pouca roupa, tecidos ásperos, duros. Noutras, muita roupa, porém, sobrepostas malhas frias, gostosas, deslizantes feito o andar dela.
Hoje, eu a reparei melhor. Ela está diferente, as fantasias escorrem pelos braços, despenduram-se, pelas pernas, alcançando o chão. Ela não se importa, e anda, num passo também diferente, ora pesado, ora leve, em descompasso. Ela empilha malas na varanda e vez ou outra puxa uma para dentro, ou duas pra fora, arrastando-as pelas rodinhas. Amontoam-se nos cantos as fantasias que se desprendem do corpo. Por cima das mesas, adornos, brilhantes, foscos, braceletes.
Às vezes, ela esquece aquilo tudo, as malas, por ordem de tamanho, os costumes, e estira-se no sofá da sala ou se encolhe, conforme o calor do dia na alma, ou o frio da falta de cobertas. Ela ouve antiga música, som recente porém, e isso a transporta para aquele canto cinza onde um piano equilibra imagens.
Às vezes, ela veste as fantasias que de si saíram, uma por cima da outra. Ao sair pela rua, atrás do seu carro, em frente ao jardim, vê que as perdeu no caminho, volta, as recolhe, joga-as no banco traseiro do carro, bate a porta e sai dirigindo, ouvindo música, lembrando-se do piano que a espera. Ela está ficando nua.
Ela se modifica dia após dia. Às vezes, as paredes da casa dela estão brancas, às vezes, vermelhas, predomina o palha. Ela sente um óleo a escorrer pela pele, isso faz com que ninguém mais a alcance e ela novamente recorda a casa do piano de músicas antigas. Nesses dias, ela não ouve música nova, ela aspira um odor antigo que lhe sobe pela boca, cheiro de merendeira da escola infantil, cheiro de bolachas, Q-Suco, leite achocolatado. Um certo perfume francês. Cheiro de vela acesa, flores em jarros. Ela consegue sentir os passos incertos, a loucura do bater de chaves em trêmulas mãos. E ela vai se modificando, dia após dia. Ela vai largando cada vez mais as fantasias, principalmente as mais pesadas, próprias para inverno rigoroso. Ela se afasta sem pedir licença, ela sequer faz barulho, gargalham atrás dela, saudades doídas, guardadas, camufladas. E ela então revê as malas, que ainda estão vazias.
Ela anda pela casa de calcinha e camiseta e sabe que, uma das malas, a menor delas, porém a mais compacta, irá vazia, feito ela. Nua, levará a mala, nua, alcançará uma vila, um sítio, uma praia, nua, fechará todas as janelas, e, nem eu, nem eu poderei vê-la.
por Suzana Guimarães
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
quarta-feira, 2 de março de 2011
"EU QUERO O SONHO, EU QUERO O PORTO, QUERO O REINO, O REINO DE OVIDAH"
| (arquivo pessoal - SCG) |
Na minha família, sou aquela pessoa a quem todos chegam perguntando qual a melhor roupa para se ir à festa, ao primeiro dia de trabalho, a um evento importante ou não. Acredito que é porque eles gostam do meus gostos e por isso questionam-me sobre o cabelo, maquiagem, bolsa de mão, gravata, gel ou não? Mas, sei também e eles afirmam satisfeitos que o principal motivo de quererem saber a minha opinião é a minha absoluta franqueza. Não chego ao ponto de magoar, mas transparece em mim a insatisfação, a dúvida, o desagrado.
Franck clica aqui é meu amigo e pediu que eu fizesse a apresentação do livro dele. Eu lhes confesso, eu faria a apresentação, após ler o material, gostando ou não, porque ele é meu amigo. Mas, ficaria só nisso, não passaria do preâmbulo ofertado. Minha contribuição seria um trabalho, feito com esforço, mas seria bem feito e nada mais.
Mas, Franck Santos, em FOGO-FÁTUO, não só escreveu contos, poemas, cartas, ele abriu seu coração, entregou-o para que nós o desfolhássemos e eu estou aqui para dizer a vocês que um livro é bom quando além de nos passar mensagens, nos inspira, nos enleva, nos faz rir ou chorar por ser cru, nu, e, isso, nos tempos atuais, a cara limpa, o coração exposto é pedra rara de se encontrar. Franck Santos nos ofertou a transitoriedade da vida, do fogo que nele ardeu, arde e ainda arderá, mesmo que por sob cinzas.
"(...) Fogo quente vermelho fogo azul. Eis aí teu cerne, teu centro, lágrimas, um beijo ao vento, uma caminhada na praia, um copo de suco de maracujá, porta que bate, que fecha, janelas em ti tão ensolaradas, a força de teus quereres, das tuas crenças, teu sexo."
"Quem é você, Franck Santos? Você é teu fogo, teu coração, teu senhor, teu dono. Você é o óbvio e a entrelinha, é ilha e um país, é palavra, é do norte, nordeste, tudo que em ti se encerra, é mato selvagem, é a brisa leve e fina, mas firme, onde tua alma adormece."
Suzana Guimarães
Endereço para contato: franck015@yahoo.com.br
Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O QUE SEI SOBRE TRISTEZA
| fotografia, por SCG |
Suzana Guimarães
Tristeza é a minha beca, meu vestido ornamentado, em pedras brilhantes, em outras foscas, linha dourada, pontos ínfimos, quase imperceptíveis. É meu vestido sem brechas que insisto em vestir e que aperta o corpo que não o aceita, mas que insisto, teimo. Não me cabe o vestido, não escorrega macio, aperta, estrangula minhas carnes arredondadas, esmaga sem dó os limites da fronteira. E não sei qual seria a melhor maneira de estar, pois incomoda o sentar, o levantar e nega descanso. Resta-me o andar incômodo, a sensação de prisão e há dias em que uma vez vestido, ele adere e fica.
Tristeza não é depressão. Não é chorar faminta, sentada diante de mesa farta, com ventos sacudindo as cortinas da janela, deixando passar claridade solar. Não é carência de sexo, beijos, abraços, pequenas rusgas, posso tê-los assim que estico o braço e abro a mão em busca. Doutores curam depressão, ou pelo menos aliviam, há remédios, há conversa, há um pouco de solução. Depressão é doença, tristeza não.
Dentro do meu vestido não anseio a morte, não estanco a fome, não me considero mais um neste planeta e quero sim muito sexo, beijo, abraço, mas o vestido aperta e eu insisto nele. Não jogo fora velhas fotografias, retratos, instantes, lapsos felizes de um tempo passado. Não limpo a casa, não supero a perda. Insisto no meu querer, na minha dor, maldita dor que conheço bem, com nome e endereço. Insisto em cantar aquela música, a mesma, a de sempre, a que nao é mais minha.
Diante do espelho, penso em arrancá-lo de mim, mas não sei como fazê-lo, não sei me livrar do nó, do aperto, da companhia silenciosa e perversa. Eu me sento para logo me levantar para logo deitar. Eu quero correr até o mar, afundar naquelas águas, abrir a boca e engolir um pouco mais, mas sempre na tentativa de salvação, bato os braços, ergo a cabeça, procuro uma saída, mas não é fácil nadar vestido.
Deitada na cama, à noite, o vestido apertado me faz lembrar e eu me dou alguns minutos de gozo fúnebre, alcanço o que me mata, beijo, abraço, acaricio. Disseram-me que abraçando a dor, recebendo-a, ela se vai. Sim. Ela se vai, porém retorna, idêntica, a mesma, inconfundível. Meu vestido tão belamente bordado vira fantasma.
Tristeza é o meu vestido que me cala.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
quESTÃO de receita
Minha amiga indagou:
vem cá,
O que é melhor:
o antes, a expectativa, o peito arfando, os pensamentos embaralhados, a respiração falhando.
(o agridoce)
Ou, o durante, as línguas se encostando, um lábio a se morder, outro a se puxar entre dentes, os primeiros dedos, o cheiro, a vertigem, o precipício a lhe acenar.
(o sal)
o depois?
(suzana guimaraes)
sábado, 19 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
DEDOS ALQUEBRADOS
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
ELA É LINDA, É LOIRA E É MINHA
| fotografia, por SCG |
Teus fios ouro, finos, esvoaçam em meu casaco preto, no banco do carro, no sofá da sala. Eu amo teus finos fios ouro e esta tua força firme com que segura teus pés no chão, quase escorrega, mas não cai, quase chora, mas não chora, quase se entrega, mas não entrega. Você não sabe, mas ajoelho-me em imagem ao lhe ver refletida em minha pele, densa pele a tua que transfigura a minha em nada. Sou apenas olhos a lhe contemplar, e você nem sabe, apenas se move, soberana, loira, altiva e rica. É dona de mim, sem que eu ofereça resistência, por ti corto meu véu, no talho, perfumo meu corpo para o vento que soprar para ti seja quimera, seja conto. É rica porque me possui, é rica porque sabe o porquê veio, para que veio e a quem quer. Guardo teus fios ouro dentro dos meus olhos, cheiro teu corpo à distância, o pouco que alcanço, o pouco que toco, tudo bastante e grande, suficiente, que preenche cada poro meu, onde você passeia alheia.
por Suzana Guimarães
por Suzana Guimarães
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
POR QUE A SUZANA ESCREVE?
A minha querida Ana Diniz (clica aqui) presenteou-me com o selo acima. Havia algumas perguntas a serem respondidas, mas eu não as encontrei (demorei um pouco para buscar meu presente), então decidi escrever sobre mim, mais um pouco, por minha conta.
POR QUE A SUZANA ESCREVE?
Sempre digo que escrevo para fazer exorcismo de mim mesma, é isso, com absoluta certeza, pois tenho medo da palavra escrita, procuro não escrever nada que possa, um dia, empurrar-me a um hipócrita "eu não me lembro de ter escrito isso, devia estar perturbada na época".
Mas eu queria acrescentar que, dentro desse "mim mesma" passeiam as pessoas. E eu escrevo para provocá-las, só digitando, escrevendo (hábito perdido), é que posso assim fazer sem correr o risco de tornar-me indelicada, intrometida, presença inoportuna.
É que, apesar da miopia e do astigmatismo já eliminados, apesar da visão do olho direito nunca perfeita (ou seria a do olho esquerdo? Sempre me confundo!), eu sempre vi muito. Dom. Presente de Deus. Fato normal, há muitas pessoas com "olhar de raio X".
Mas eu não poderia sair por aí, falando o que bem entendesse, sou polida, tenho princípios.
Então, eu escrevia cartas mentais. Escrevi, escrevi, escrevi tanto que acabei por me cansar, lotou a caixa. Quando decidi escrever sobre a minha ex-doença (dúvida eterna em relação ao ex), decidi escrever tudo o que vinha transbordando em mim. Daí, os meus atuais Blogs.
Pois então, a Suzana escreve o que sente, o que vê, o que a incomoda, o que conforta ou não. E, entre desejos, ardores, paixões e lágrimas e saudades, alguma ironia, algum questionamento, alerta, ou mesmo uma busca desenfreada por respostas.
Essa foi a melhor maneira encontrada por mim para dizer a você, a ele, a ela, lá longe, ou aqui perto, que há quem saiba, há quem entenda, que vê, neste mundo em que fingir de cego é arte fácil e na maioria das vezes, aceitável.
Escrevo e não ganho dinheiro, mas acrescento essência, nos outros, e, principalmente, em mim mesma.
Beijos,
Suzana
domingo, 13 de fevereiro de 2011
COMO TEM QUE SER
| fotografia ÁGUA-VIVA, por SCG |
Assisti ao filme "Cisne Negro", saí da sala de projeção totalmente perturbada, fora de um país qualquer, bastante fora de mim. Eu me vi em muitas cenas, só eu em meu silêncio conturbado, numa mistura de contragosto e gosto (diga-se gosto amargo, nada doce, como sempre). Ninguém me viu lá, mas eu me vi.
Hoje, li uma frase: "como tem que ser". E então, tudo aquilo que boiava em mim, o sentimento em pedaços soltos que o filme deixou, aflorou, tão claro, tão nítido!
Ela e eu, dois polos aparentemente antagônicos, aparentemente opostos... mas, que, num determinado momento se igualam. Ela pensava ter que ser, ou não ser ou mesmo fingir ser, ela queria sentir. Ela lutou para ser o cisne negro, o outro lado de todos, negro, quente, maravilhosamente sedutor. Eu pensava em não ter que ser, ou ser ou mesmo fingir não ser, eu não queria sentir tanto. Sempre foi demais, sempre foi apavorante, algo à beira do insandecido. O mesmo, tanto para mim, quanto para ela.
Como tem que ser... Como? Tem que ser? Será que não seria apenas ser, não ser ou fingir ser ou não ser para apenas sobreviver? O "ter", a obrigação, o mais íntimo violentado por regras impostas por nós mesmos, o que é pior que quando impostas por outro. Hoje, eu sei: é só ser ou não. É só sentir ou não. E é só isso mesmo.
De mim, eu sei, mesmo que visto de forma ardilosa, escondida. O excesso dela em querer ser foi o meu excesso em não ser que culminou em medo, que virou doença. Eu, uma exagerada economista de emoção que depois virou suicida emocional. Mas eu sempre soube que há também o "fingir ser ou fingir não ser", preciosidade, objeto de uso necessário se você quiser manter alguma sanidade mental. Mas, fiz exceção, jamais fingi o meu prazer e meu desprazer. Por alguma razão, deixei isso a salvo, incólume. Talvez eu tenha jurado para mim mesma em algum momento inconsciente, talvez eu tenha feito promessa de não me sabotar, mesmo dentro de qualquer excesso. Estampei na cara gosto e desgosto, inclusive para mim mesma, em fente ao espelho, ou no escuro da noite, buscando sono para conforto.
Eu me vi naquelas horas em que ela olhava para o nada, se isolava. Eu me vi quando ela criava em si a violência para com o outro, o mesmo eu fiz comigo mesma, não com os outros, porque nunca precisei dos outros para arrancar de mim o sentimento... o que me incomodava era o sentimento escorrendo pelos meus dentes, feito o sangue que sobra depois da mordida. Ela só passeava pelo caminho branco, tranquilo, confortável. Eu passeava e passeio pelos dois, e o antagonismo precisou ser domado, não extinguido, apenas controlado.
Respeito regras, não sou amoral, mas não me peçam, não me digam "tem que ser". Ter que ser, fruto que já experimentei, no meu caso "não ser", traz o brilho falso da pedra, gosto ruim do engolir em seco. É melhor ser, o que quer que esse ser signifique. Prefiro as podas naturais, quando o vento bate, o Sol seca, a água inunda, quando a natureza age por si só, livre, só assim o cisne se metamorfosea, pois não há nada vivo que não possa ser transformado, degustado, sentido ou não, liberdade é algo inerente à espécie humana.
por Suzana Guimarães
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
UMA CARTA PARA TI, EM TEU CÉU
| fotografia, por SCG |
Jeovanny,
A tinhosa anda me espiando, sem hora, sem trégua. Eu não sei o que essa senhora velha quer comigo, por que gosta tanto de rondar-me. Passou por mim, ontem, hoje, carregando nas mãos gélidas (ou seriam ardentes?), fotografias.
Ela as enconde de mim, não sei de quem são, mas ela faz troça comigo e eu não gosto. Ela usa meus amigos, uma folha rasgada no chão, um anúncio no jornal, um passante que me conta sobre ela. A morte, Jeovanny, anda fazendo troça comigo.
Ela correu atrás de mim, moço. Um ano após, ela o pegou. Ela o pegou quando aqui cheguei. Lembro-me do dia em que a minha mãe avisou-me. A voz dela veio cambaleante, hesitante, distâncias comem o conhecimento, aquele mais importante, "será que você está aí presente, já que não vejo o brilho dos teus olhos?". Ela disse: "Jeovanny morreu de Trombo Embolia Pulmonar, você sabe, ele não fumava, não tinha vida sedentária, não estava acima do peso, não tinha pressão alta, mas ele fez uma cirurgia boba, simples, trivial."
Jeovanny, recebi o aviso da tua morte duas vezes, dois tapas fortes, lascados, frios, duros, com dedos estalantes... aquela senhora velha havia lhe pegado. Um ano antes, ela veio da mesma forma para mim, mas se esqueceu do relógio, o meu, aquele que Deus a mim conferiu. Com você, ela veio rápida, rasteira, impiedosa... eu a odeio, Jeovanny, a odeio tanto, eu queria cruzar meus braços por sobre aquele pescoço sem fundo, fazê-la beijar o chão, dar tial para ela, fazê-la esfregar a cara no pó, até ela jurar me deixar em paz, pelo menos, isso, deixar-me em paz, em meu sossego. Mas quem sou eu? Apenas alguém que já sonhou com ela, toda ordinária, mas envolta em lenços multicolores, esvoaçantes, hipnotizantes e quase fatais de tão sedutores. Eu sonhei... Não sonho mais, hoje prefiro o desejo constante de desprezá-la.
Eu tive tanto tempo... Você nenhum. A desorientada daquela senhora (às vezes, ela se perturba) fez com que eu ganhasse doze horas, a ti nenhum minuto a mais para alcançar o leito do hospital de onde você havia acabado de sair.
Ela anda pisando leve, bem próximo a mim, mas eu prefiro lembrar-me de ti, que ela enlaçou injustamente, mas que não conseguiu queimar tuas obras. E aí, Jeovanny? Onde estão teus tubos de tinta? Creio que você espreme flores, folhas, terra molhada entre os dedos e colore teus sonhos, da mesma forma que você aqui fazia. Tuas romãs, maçãs, tuas inesquecíveis colchas de retalhos. Sabe, penso que você sabe, a minha mãe, quando vê a manta enfeitando em moldura a parede da sala, agasalha-se na lembrança que tem de ti. R. lembra-se de você enquanto lava a louça, enche os olhos de lágrimas e eu me lembro daquela sala, minha, perdida, guardada, fechada, respirando por frestas, onde abriga três de tuas obras.
Um dia, irei lá, eu sei, e chorarei aquele mundo, será dolorido, cortará como gilete, fino, agudo, um rasgo parecendo sem fim, eu sei, irei lá, dar destino para aquilo tudo, dar desfecho, e, alcançarei tuas telas, empilhadas, esquecidas... e você morrerá pela terceira vez.
Mas, depois comerei as romãs, pois só você para dar hiper-realismo à coisas sem vida, uma fotografia, uma faca, um vaso de flores sobreviventes em água, ou mesmo nos fazer sonhar, um Drummond passeando por Itabira. Aquela calvície dele, inconfundível, terno escuro... Só você para ensinar-me que o mundo não é tão impressionista, tão escuro, tão sombra, tão claridade, tão luz.
Saudades, Jeovanny, saudades... Eu não me despedi de você, imagino o susto que levou quando viu, aí do céu, R. perambulando por ruas desconhecidas, gélidas, escuro em panos, perdido em caminhos tortuosos, procurando alcançar propósitos, tocar com um dedo que fosse uma boa oportunidade, assim como você fez por toda a tua vida. Tua garra, Jeovanny, teus sonhos, tuas "vernissages", teus casacos de frio, tua presença em minha grande festa, teu sobrinho, tua irmã, teu ateliê. Teus amigos. Nossos sonhos estilhaçados, nossas promessas não pagas, nosso desasossego, nosso primeiro encontro... vinho, queijo e telas. Uma festa, duas, três. Tuas aulas. Tuas vendas... tão acanhadas... você e aquela dificuldade para falar em preço. Teu segredo, tua doação, teu óculos na ponta do nariz! Um encontro marcado, de tão amado, revisto, repetido. E eu não lhe disse adeus.
Nem direi. Fica aqui meu até breve, meu desdém àquela velha senhora. Fica aqui, um daqueles nossos abraços apertados, bem dados, tua voz calma, tua fala em forma de sorriso, teu jeito meio envergonhado. Fica aqui, meu último beijo, na testa.
Suzana Guimarães
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
O MEDO DE SUZANA FECHARÁ AS PORTAS, favor pedir senha
| SCG, por SCG |
Caros leitores,
A partir da primeira semana de Março/2011, O MEDO DE SUZANA passará a ser um Blog privado.
Estou fechando as portas desse Blog, muito pessoal, muito íntimo, meu coração escancarado... mas quem quiser a senha para entrar, favor enviar-me uma mensagem para guimaraes.suzana@yahoo.com.
Meu outro Blog, CONTOS DE LILY, permanecerá de portas abertas ao público em geral.
Atenciosamente,
Suzana/LILY
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
A TI, IEMANJÁ
| fotografia, por SCG Depois que li as cartas, eram duas, decidi, "amanhã, amanhã, farei silêncio". Igual fazia nos tempos da escola de freiras, numa cidade do interior de Minas Gerais. Um dia todo falando o mínimo possível, e, se possível, falando nada. Eu, sempre tão lotada de palavras e risos, eu bem que gostava daquilo. As colegas, algumas freiras e eu íamos todas para a mata do colégio, para meditar, naquela idade, para mim, fazer nada. E eu gostava muito daquilo, apesar de todos os meus excessos. Depois do já prometido para mim mesma, tomei meu banho, espécie de descarrego, às vezes bom, às vezes ruim, hoje, foi silencioso, simplesmente silencioso. Depois do já prometido, abri o "laptop" para desligá-lo. Por vício, rolei as atualizações dos amigos. Encontrei uma postagem do meu amigo Lu Cidreira (clica aqui), prestando homenagem à Iemanjá. Lembrei-me do meu texto (clica aqui), lembrei-me das duas cartas, cada uma com seu peso de silêncio. E eu tão sempre lotada de palavras, estou sem nenhuma. Iemanjá passou feito vento ligeiro, espirrou perfumes em mim, espiou as cartas, seguiu adiante, deixou-me com a certeza de que amanhã (quase hoje aqui, já amanhã no Brasil) é dia de retiro, dia de silêncio no colégio das freiras. Suzana C. Guimarães |
sábado, 29 de janeiro de 2011
CARTA À MINHA MÃE
| (SCG - arquivo pessoal) |
Los Angeles, 29 de janeiro de 2011.
Mãe,
Ontem, lembrei-me da morte. Lembrei-me dela em sua forma mais cruenta e não com toda aquela autoridade que costumo ter, dizendo que não é o fim, que tudo de mim permanece em alma, fora deste meu corpo cansado e limitado. Lembrei-me dela, mãe, e chorei. Chorei meu choro escondido no banheiro, debaixo da ducha. Há tempos não choro naquela forma explícita, escancarada, dentro do carro, dirigindo, olhando os passantes, parada no semáforo. Ou diante da lagoa debaixo de fina garoa, no aeroporto, na porta da escola ou vendo meu filho cantando cantigas às mães. Escondi meu choro, mãe, da mesma forma que escondi algumas flores em botões, alguns desejos procrastinados, olhares velados... algumas cenas e alguns rostos, inclusive o teu, pois não posso aprofundar meu pensamento em ti, é dolorido, é machucado exposto.
Você sabe que a morte e eu temos um pacto oculto, do qual não me lembro mais, mas ela, sim. Para mim, ela é aquela mãe que ameaça o filho com palmadas e nunca as dá e por fim ela perde o respeito. Assim sou eu, não a temo. Lembra-se, mãe? Lembra-se daquela manhã na Casa de Saúde? Ela ficou do lado de fora do prédio, sentada num banquinho. No início, pensando se me levava ou não, logo na minha primeira hora neste mundo... você sofria, eu sofria, vó sofria e pai se fazia de durão, e ela, sentada, tomando um pouco de Sol de inverno, pensava e catava florzinhas de mato, brancas, amarelas, surgidas na força de tantas pisadas e de nenhum trato. Encantada em arrancá-las do chão, perdeu-se no ato de cheirá-las e enfiá-las nos bolsos negros da veste... Noutras vezes, ela retornou, mas sempre um pouco alheia, um pouco distraída, na principal volta, esqueceu o relógio para trás.
Eu poderia, mãe, escrever-lhe contando sobre o tempo aqui, o melhor da América. Perguntando sobre as chuvas tropicais... sei, fazem estragos enormes aí, minha pátria mãe, mas cá de longe atenho-me apenas nas levezas, uma forma de auto-preservação.
Cá de longe, opto pela saudade dos dias felizes, da mesa servida para o café, dos nossos passeios de carro, de nós olhando vitrines, e você querendo me dar presentes, fazendo-me sempre levar mais de um. Daquelas idas correndo à igreja para assistir à missa rápida de dia de semana, das visitas às tias velhas, do passeio no mercado e das paradas para tomar um café "capuccino". Lembro-me de todas as vezes em que eu não tive um amigo, uma amiga, um colega para tomar um sorvete, ir a um cinema, e você foi, satisfeita pela escapulida dos seus afazeres. Lembro-me de nós e de nossas gargalhadas, de nossos feitos, de flores. Ah, as flores! Eu as vejo tanto... não, não as naturais, mas sim as de couro ou tecido. Vejo-as aplicadas em bolsas, sandálias, sapatos, fivelas de cabelo. Passo uma das mãos, como quem nada quer, mas quebrados os ossos de saudade, chego a sentir a moleza, a dor descendo pelos braços... vejo você nelas e lhe toco. Sinto você, mãe. Eu poderia fechar os olhos, estender a mão, sentir tua presença, contornar tua cabeça, relembrar teus olhos brilhantes, hoje tão apagados, teu sorriso de dentes quadrados, enfileirados, brancos. É um instante, mãe, um instante, é quando perco a chave do esconderijo e abro a porta da lembrança.
Mãe, ontem eu pensei na morte. Pensei nela dona de si e nem um pouco distraída, esquecida... eu a vi, lançando um meu amado por mim ao chão. Um corpo caído, esgotado. Entregue. Totalmente passivo. Rasga-me pensar na notícia da chegada dela. No vento forte e quente, abrasivo, ou frio feito pedra batendo em minha cara, na certeza. Imagino quem dará a notícia, como falará... igual eu fazia nos tempos de criança, na adolescência, até pouco tempo atrás, naquele meu masoquismo de me fazer vivenciar algo que temo, que sei que a mim chegará e que nunca saberei como lidar. Deixei o vazio da notícia pesada de lamentos apoderar-se de mim, no meu corpo cansado, molhado, debaixo da água quente, perturbado pelas palavras de T., ao telefone, dando-me notícias que você não as dá, aquelas outras, que você faz questão de esquecer de contar, pois o que você quer, a única coisa, eu sei, é ouvir minhas risadas, minhas besteiras faladas ao telefone, meus delírios de eterna romântica e sonhadora (que só você conhece), ou mesmo meus xingos, minha cólera, meus milhões de atos desfeitos que se refazem horas depois.
Horas depois de eu ouvir tua voz, em tantos e diversos tons, em nossa conversa eterna em que muitas palavras muitas vezes não são ditas, mas muito bem entendidas. Nem que no meio delas, a gente reclame daquele que nos interrompeu, perguntando onde pôs as chaves, pedindo para que fechemos a porta, nem que a ligação caia, e a retomamos, teclando os números com raiva e pressa. Nada, nada, perturba nossa cumplicidade.
Eterna, suave, suave companhia a minha a ti, e, principalmente a tua a mim.
Saudades, mãe. Saudades tão doídas que ninguém pode alcançar. Carrego você em mim, pendurada feito amuleto bom, mas eu não a tenho e hoje, hoje, mãe, depois de ontem, tão sombrio e perdido, eu não quero me enganar... Enganar a ti? Como enganar você? Você me entende e me conhece ao ouvir a minha primeira palavra ao telefone, ou mesmo um segundo antes, parece que um vento sopra-lhe segredos aos ouvidos. Às vezes, mãe, dou umas tossidas para tentar lhe enganar, para tentar disfarçar o desconsolo na voz, mas você sempre sabe, sempre adivinha, tem certezas. Aquelas que insisto em esconder, que a ninguém revelo e sou capaz de esganar com meus dedos quem insistir.
A ti, todas as minhas verdades e tentativas tolas de esconder o que só você vê, minhas cores, fortes ou desbotadas, minha alma nua. Para ti, meu íntimo, pleno ou não, mas todo teu. A ti, só posso lhe oferecer minha voz, minha gargalhada, meu choro ou mesmo meu silêncio naqueles dias em que demoro um certo e difícil tempo para emitir som.
A ti, esta carta que escrevo tentando ser adulta ao mesmo tempo em que caço, nos meus cantos internos, aos prantos, a menina magricela, aquela feinha que você achava normal, aquela menina calada que você entendia e segurava pela mão. Aquela que virou as costas no aeroporto e não teve coragem de olhar para trás. Que carregou e carrega uma única certeza, a certeza de lhe pertencer mesmo quando presente em lugar nenhum.
Beijo.
Sua filha,
Suzana Costa Guimarães
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
UMA CARTA, POIS É TEU ANIVERSÁRIO
![]() |
| (fotografia retirada da Internet) |
Querido(s),
A Suzana Martins convidou-me para escrever uma carta. Para mim, um convite simplesmente irresistível... amo cartas, já escrevi sobre isso...
Espero você(s) no Blog CARTAS SEM SELO - clica aqui!
Beijos
PRESENTE DO TEOPHA PARA MIM

Teopha,
Obrigada pela cartola! Ficou charmoso!
E eu tiro o chapéu para você, com muita honra.
Adorei o carinho, a surpresa... você tem o dom de me fazer sorrir.
Meu coração agradece ao teu.
Beijos,
Suzana/LILY
P.S.: adorei o "baixinha gigantesca", mas sou só baixinha mesmo!
Às vezes, muito às vezes, de salto... rs! Sei que você odeia isso...
CLICA AQUI, para você conhecer o Teopha
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
20 de janeiro de 2011, dois anos, importa a marca do sabão em pó que eu usava?
| fotografia, por SCG |
Dois anos na América e isso não é exílio, é vida nova, mas é muito nova e eu muito velha, cheia de histórias. É vida nova, então, vida sem passado, sem rostos que um dia conheci e tentaria lembrar-me de onde, sem ex-qualquer coisa. Sem esquina, sem bar, sem bairro onde fiz amor ou desamor, onde vaguei perdida ou totalmente encontrada, sem álbum de fotografia.
Dois anos na América e isso não é exílio, é vida nova, então é quase feito nascer de novo, fica-se sem o passado, ganha-se autonomia. E a marca do sabão em pó que você usa não importa nem um pouco.
Aconteceu há pouco tempo, quatro ou cinco meses atrás. Uma amiga veio à minha casa, trouxe outra que vendia produtos de uma marca famosa americana. O de sempre, você faz o pedido via telefone ou computador e eles entregam na tua casa. A moça iniciou a conversa dizendo que talvez eu não quisesse mudar a marca do sabão que eu usava para lavar roupas...
Estou muito feliz hoje, faço aniversário, dois anos de terra nova, vida nova, mesmo que num corpo nem assim tão novo mais. Se fosse só a Língua para vivenciar seria fácil. Se fossem apenas outros endereços, outros números e rostos para se acostumar, seria fácil. O problema foi achar um coador de plástico pequeno no supermercado; encontrar uma panela de pressão e explicar para o meu amigo para o que ela serve e como funciona; saber de qual parte do bicho é aquela carne; qual absorvente usar, pois todos são "mini" ou para casos de hemorragia. Difícil foi saber se aquilo era uma loja, uma residência ou um escritório, difícil entender se era mercado ou farmácia. E eu não sei por que as pessoas abreviam as palavras, e eu demorei a aceitar que é certo mesmo avançar o sinal vermelho à direita, e a achar menos estranho ficar parada no meio do cruzamento de duas avenidas, esperando um momento para convergir à esquerda, eu até hoje penso que estou fazendo algo errado e às vezes sinto a colisão que não ocorre.
Dois anos e isso é ótimo. Aprendi a comprar absorventes, mas os internos ainda são um problema, aprendi a falar embolado e o melhor, aprendi que muito do que a gente fala, não presta para nada. Não entender metade da conversa não tem muita importância. Custei a entender os tamanhos das roupas de cama e a conseguir dizer o que quero para as atendentes das lojas sem ter que falar uma frase enorme, explicando que quero o lençol que fica em cima do colchão, as fronhas, o outro lençol para cobrir...
Outro dia, esperando a minha aula de jiu jitsu começar, dei de cara com uma moça alta, olhos verdes, puxados. Nós nos olhamos e eu senti que a conhecia, coloquei os olhos nela e os tirei várias vezes para me lembrar de onde. Creio que ela sentia o mesmo. Lembrar de onde? Dois anos não é tempo suficiente para se criar limo. Fiquei com a curiosidade até descobrir que ela havia treinado lá, umas poucas vezes, assim que cheguei pela primeira vez, um ano atrás, levando meu filho pela mão.
Aqui não há casa de vó ou de tio para deixar as crianças e fugir para um cinema ou um jantar. Guaraná custa caro, e coxinha de galinha, você faz em casa, aprende. Aqui, aprende-se tudo: pôr gasolina no carro, fazer bainha na calça, depilação (só as contorcionistas conseguem) e saber cozinhar é coisa de rei. Eu ia ter que aprender a fazer minhas sobrancelhas, mas antes que eu perdesse as duas, encontrei uma indiana que usa linha de costurar e cobra barato. Dói mais que pinça, mas fica lindo o resultado final. Só que, se você se distrair um pouco, ela passa a linha em todo o teu rosto...
Os homens são acanhados, não há a mínima possibilidade de eu ouvir um fiu fiu vindo de uma construção. E pensar que eu odiava isso! As mulheres são belas aqui na costa californiana, loiras, orientais, coloridas, resolvidas, pouco delicadas com portas, ou melhor, todos muito pouco delicados com portas. A maioria anda pelas ruas ou dirige seus carros carregando um copo enorme de café. Já experimentei, é frio.
Vivo uma experiência nova, sei que há saudades, muitas, e há um quê de belo naquelas ruas de calçadas estreitas, nas chuvas tropicais, no jeito de ser que jamais perderei. Sou aqui distinguida como brasileira igual às outras conterrâneas, pela bunda. Bom, para dizer a verdade, pensam primeiro que sou francesa, depois italiana, e quando, por fim, digo que sou do Brasil, vejo brilhantes olhos à minha frente, curiosos... em minha experiência, percebi, mulher brasileira aqui é lenda.
Não há passado, por isso, é comum o sentimento de exílio. Não há álbum, não há colega de infância, mas há certezas, muitas que não tive fora daqui. Há menos medo, apesar da constante ameaça de terremotos. E, após dois anos, tentando e aprendendo a lidar com os mapas geográficos, humanos e também aqueles de conduta que ninguém ensina e você vai pulando os deslizes por não ter nascido em tal núcleo, após, você percebe que pouco importa a marca do sabão em pó que você usava, usa ou passará, amanhã, a usar.
Por Suzana Guimarães
Assinar:
Postagens (Atom)





