quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SOBRE SER INSUBSTITUÍVEL OU NÃO

arquivo pessoal
                                 



                                         Dedico este "post" aos meus leitores, principalmente a você que me lê (não apenas os textos), comenta, interpreta, agradece, insinua, pergunta as razões, se faz presente, se faz eterno em minha vida.


Tudo seria mais fácil se eu não gostasse tanto de você(s). Sim, eu sei o tamanho dos laços que vamos criando neste mundo estranho, onde não nos vemos, não nos pegamos, não sentimos cheiros e nem ventos. Sim, tudo seria mais fácil se eu não gostasse tanto. Mas gosto, por isso a agonia.

Agonia, curiosidade, mania, hábito. Vocês pensam que não sei de vocês e eu penso que de mim nada sabem, mas descobri nestes cinco meses de "vida além dos teclados", que somos todos muito espertos, bisbilhotamos, fuçamos, lemos por entrelinhas, sentimos o peso dos dedos nas teclas. Quando penso que vocês nem chegaram perto dos meus sentimentos, vocês ironizam, divertidos, sabendo, revelando minhas verdades...

Tudo seria mais fácil se eu não gostasse tanto de vocês, mas eu não gosto de verbos no subjuntivo. Eu não sei viver subjuntivamente. O mundo não se fez a partir de um verbo tão precário. Desconheço esse tempo verbal, conheço o presente e estico os olhos para tentar planejar ou imaginar o futuro. Então, eu digo: por gostar tanto de vocês, esta minha saída, mesmo que temporária, dói.

Estou aqui para tentar explicar o meu afastamento, inclusive a razão de marcar uma data longínqua para o meu retorno. Meu coração, principalmente ele, e a minha mente não querem que eu me afaste, mas meu corpo exausto e a alma desgostosa gritam para eu parar. Eu preciso me esconder para poder me achar. Preciso organizar os meus armários, dobrar as saias e guardá-las por ordem de serventia ou cor, ou mesmo desfazer-me delas. Preciso polir meu anéis, abrir livros fechados, enfileirar meus sapatos. Preciso brincar no quintal do meu mundo e me ocultar atrás dos lençóis que balançam desinteressadamente ao vento.

Preciso parar de escrever para vocês pedindo um tempo. Cinco meses de "Blogs", quatro pedidos de "break". Certa vez, contaram-me a história de uma louca. Ela fugia todos os dias. E era encontrada todas as vezes no mesmo lugar: em cima do muro do hospício, andando de um lado para o outro. E, se permitissem, de lá não sairia. Ela andava rindo ou cantando, vestida num camisolão, alheia ao mundo, não caía nunca e ia e voltava fielmente, cumpria a jornada do muro. Eu não nasci para isso. Ou pulo de vez para dentro e fico ou ganho a rua.

Nas vezes anteriores em que parei, eu planejava ficar um bom tempo ausente, mas os insubstituíveis chamaram-me de volta e eu voltei. Ao longo da minha vida, ora ouvia dizer que somos substituíveis, ora ouvia dizer que não. Aprendi com elas, com todas as pessoas que cruzaram o meu caminho, que somos insubstituíveis, mas, se quisermos, conseguimos o contrário. São as pessoas que decidem se serão ou não substituíveis na vida da outra. A minha mãe é insubstituível, porque ela quer ser assim na minha vida, ela faz a parte dela, ela se compromete comigo todo o tempo.

Você(s) é insubstituível para mim porque você assim quis e assim age. Você insiste, você quer, você teima. Você me ganha todos os dias, estando você bem ou não, feliz ou não. Você faz questão de estar na minha vida e quer que eu esteja na tua. Não há quem o substitua, você não cede o teu lugar, você se faz presente, você não vive subjuntivamente, você é o momento agora, esse em que me encontrou.

Por isso, eu sofro. Por isso, eu cantei a música "Agonia", do Oswaldo Montenegro no "post" anterior.

Fechei a caixa de comentários, mas o "e-mail" que está no meu perfil é o oficial. Quem quiser me escrever, que o faça, sem melindres. As palavras jamais deixarão meu mundo. Preciso ausentar-me, mas carinho e delicadeza não dispenso em hipótese alguma.

Pouco sei de muita coisa, mas muito sei sobre o tempo delas. Quem sabe esperar aprende a contar o tempo. As palavras aqui se ausentarão, mas as imagens, não. Fazendo questão de ser insubstituível em tua vida, passarei aqui ou aí, na tua casa, e deixarei um pouco do meu cheiro, aquele que só você consegue sentir.

Beijos,


Suzana C. Guimarães


Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.



segunda-feira, 18 de outubro de 2010


ilustração, por R. Meneghini



Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.




quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O QUE SEI SOBRE ESCAPAR


fotografia, por ROSE DALY



                     Suzana C.Guimarães


Sim. Fui (e talvez ainda seja) um muro, um galho de árvore, um bebedouro, um fio de alta tensão, um poste, uma grama, a areia da praia, os céus dos pássaros. Sim. Aceitando ou não, querendo ou não, fui.

E vinham eles me sobrevoar, alçar voos longos, rasteiros, me bicar. E vinham eles, em bandos ou solitários, se esfregar em mim, sacudir as penas, rodopiar, depositar seus minúsculos excrementos disfarçadamente, cantar para mim, fazer longos silêncios, sentir suas pernas machucadas, asas quebradas, roçar seus bicos, morrer em paz.

Fui feita para aceitar, acordar e esperar. Eu sempre soube disso. Minhas antenas ligadas, minha constante capacidade de prever atos e passos alheios, sonhar destinos, sentir com antecedência foram presentes a mim ofertados ao nascer; mas paga-se caro por serem tão especiais.

E, mesmo predestinando, eu vivi a pedir desfechos. Desfecha nossa paixão, meu tesão, faz água rolar com razão, desfecha nosso amor, envia-me pombos com cartas longas, longas queixas, verdades quer sejam fragmentadas ou não, dá término, conclui, põe ponto final. Mas os pássaros sempre de nada souberam ou quiseram, preferiram as reticências, ou da poesia, de tudo aquilo que se aspira e não pode, ou aquelas, frutos da ignorância (tão fácil escrever et cetera!). Para mim, isso tudo hoje pouco importa.

Fui feita para aceitar, acordar e esperar, mas aprendi a escapar. Aprendi a fugir das prisões e da minha própria previsão. Aprendi a não mais implorar por ratificações, por meus à partes. Não os quero mais.

Que venham os pássaros e façam de mim pousada (breve estadia) ou mesmo um muro, um banco de praça, onde caem penas e excrementos, onde ouço música ou piu-pius, bater de asas e mais nada.

Que venham, pois eu me atirei ao chão, vestida em quimono, atada de largos esparadrapos nos punhos. Aprendi a desligar as antenas, desfazer-me da necessidade eterna de despedida, do "adeus", de ver o fim em tudo que cresce e acontece, pelo desespero de não querer nunca o abandono ou o desaparecimento sem corpo que prove a morte.

Encontro então o prazer de sentir a mim mesma e sentir bastante, pernas, músculos, tudo tão tenso, tão duro e apertado dentro de mim! Prazer incomensurável ao sentir meu corpo em espasmos, esquecer que poderia prever, mas não há tempo e eu digo "what do I do?" e vrumpt, estou presa e já nem sei mais que Língua falar. E não quero a minha língua e nem a tua. Não quero a nudez, a preliminar, o sexo. Não quero a sedução, o ato é em si o verdadeiro tesão, a garra, a força, a consciência de dois corpos agarrados. Não me importa teu cheiro, sequer tua saliva, teus gostos e desgostos. Quero a força do ato em si, do poder dele, único, sem futuro, sem finalidade aparente, sem finalmente. Cansei-me do pedido eterno de despedida, do gozo, da exaustão e deleite do fim. Quero a luta sem glória, sem medalha, a luta por lutar. Quero sentir dores onde nunca pude imaginar, meu corpo se jogando ao chão, sem medo da queda, quero a minha cabeça rodando, minhas labirintites se anunciando, minhas cãibras, minha sede. Quero a água da garrafa jorrando por fora da boca, molhando a cara, escorrendo pelo pescoço quente. Quero abrir minhas pernas por cima dos teus quadris, apertar teu estômago, espremer meus dedos em teu quimono, rir dos erros com você, tentar novamente e ganhar ou perder. Quero você em cima de mim, quero sentir teu corpo pesado, espremendo-me, suado também, sem intenção de mais nada. Quero aprender, quero que você seja mais sabido que eu, que você saiba qual o meu próximo movimento, quero que você tenha em mãos o dom da antena, o dom da previsão. Quero ver tua faixa colorida na cintura para sentir o prazer do respeito, e a minha tão branca, eu tão pouco, eu tão sem saber. Gosto de sentir minhas juntas se abrindo, sinto prazer da consciência dos pés, das pernas, das costas no chão, do virar por cima, dos panos entre, do não pegar na pele, pegar com o peso do corpo, sem falsas delicadezas, sem falsos pudores, sem tolas mãos. Um corpo pegando outro. Um corpo pesando outro. Dois num só, sem desejo de fim, um estar vivo impróprio, pois, se um dia eu precisar defender-me, não será de você, e, as medalhas, dispenso-as. Nossos atos, nossos passos no tatame diferem-se dos voos dos pássaros, tão vagos, e eu tola procurando neles concretude...

Quero a precisão e a beleza do movimento, onde poucas palavras bastam, ou nenhuma mesmo. Quero me esquecer dessas, que percorrem por todo o dia o meu corpo, frenéticas, desequilibradas, enfermas. Quero o silêncio de dois corpos. Quero me sentir macia sobre ti tão rígido. E saber que a maciez pode virar força. Quero espremer as mãos no teu pescoço, ver meus dedos lá marcados. Ouvir tua risada, escutar meus nervos pulando dentro de mim, as águas - não aquelas da libido - mas as que escorrem desinteressadamente.

Sim. Eu escapo. Saio por debaixo, empurro-o, viro-o e percebo que tolos são os pássaros que de nada sabem sobre força, tesão pela vida, um corpo pressionando outro, a luta. O prazer do sorriso compartilhado, o prazer de saber que conseguimos, que tentamos, tentamos, repetimos, repetimos até a plenitude de sentir uma bela queda, nem que seja por tão pouco tempo num dia tão longo, nem que seja.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTOS

fotografia, por SCG



                                                                     Suzana C. Guimarães


Eu ainda residia no Brasil. Vivia correndo de um lado para o outro, tentando resolver todas as questões antes de partir para a minha nova vida em outro país. Meu carro nunca foi um exemplo de limpeza, tenho crianças e, naquela época, carregava outras também. Não dá para mantê-lo limpo, mas sempre estou a catar as garrafas vazias, os papéis de balas e as pipocas, pedaços de comida, latas de refrigerante. O melado, o farelo, a areia, o suco derramado, não limpo sempre.

Um dia, sozinha dentro do meu Ford KA, a minha baratinha eficiente, aguardando por uma pessoa que pegaria carona comigo, vi, ou melhor, revi, no chão, por cima do tapete, num canto em frente à cadeira do carona, uma tira de papel azul celeste, cortada em linha reta, limpa, lisa, um retângulo, pouco menor que aqueles papéis que vêm dentro do biscoito da sorte.

Aquele papel azul estava lá há dias e eu nunca me prontificava a agachar e pegá-lo, enfiá-lo dentro da bolsa para depois lançá-lo ao lixo. Naquele dia, eu estava com tempo. Estendi o corpo e o peguei. Havia uma frase escrita, datilografada, na parte do papel que ficou escondida, "faça oferenda a Iemanjá".

A única vez que fiz festa para a Rainha do Mar foi na virada de 2001 para 2002, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Festa inesquecível, a mais linda que vi em toda a minha vida. Entreguei palmas, pulei ondinhas, bebi champanhe, vestida de branco, feito a maioria ali na areia da praia.

Naquele dia, dentro do meu carro, entendi: eu estava deixando a minha cidade, a minha singela terra rodeada de montanhas, e indo morar na beira do Pacífico. Eu deveria então, ao chegar no meu destino, ofertar flores à Nossa Senhora, Iemanjá, a Rainha do Mar. O papel, eu não joguei fora, deve estar dentro de algum livro ou numa daquelas caixas de papelão que deixei para trás. Não joguei fora também o respeito que sempre tive por mensagens da vida para mim, guardei na memória a promessa de cumprir o pedido. Sem questionar, sem duvidar, sem pedir respostas. Aprendi no curso de Direito que fatos são fatos e contra eles não há argumentos. Pouco me importava, no momento da promessa, a minha religião, minha crença, minhas práticas e o meu desconhecimento sobre várias questões, inclusive sobre o culto à Rainha dos Mares.

O tempo passou, engoli os dois ou três últimos meses em Belo Horizonte, como se engole cachaça brava, fecha os olhos, toma atitude e jorra tudo goela abaixo de uma vezada só. Vim, vi o Pacífico no terceiro dia, já morando em meu novo lar (fiquei três dias sem sair de casa, desfazendo malas e refazendo-me do adeus), mergulhei meu corpo quente em suas águas geladas e não cumpri a promessa, mas também dela não me esqueci. Feito fome, sede, escovar dentes, tomar banho, eu me lembrava todos os dias. Mas nada fazia porque eu não sabia como lançar as flores.

No verão passado, fui visitar uma amiga num acampamento. Comprei um buquê de flor, fiquei com ele no carro, amolecendo todo, procurando um local, no caminho até à cidade onde ela estava, um pedaço de mar, despovoado, livre, sossegado, sem pedras, sem agitação, para ofertar meu agrado. Quando as flores já estavam quase desfalecidas, segui direto para o acampamento, parei de girar em círculos, e as entreguei para a minha amiga. Enfeitou a mesa de refeições estendida na varanda da moradia provisória.

Rodei a minha cidade e descobri que verão aqui dura apenas três meses e isso faz com que haja pessoas em todos os cantos, praias, "piers", inclusive à noite. Decidi que não passaria de um determinado domingo, comprei flores, procurei a praia mais deserta (não poderia chegar na madrugada, após determinado horário é proibido ficar nas praias ou entrar no mar) e fui, decidida a cumprir minha promessa, visse quem quisesse ver, se importasse quem quisesse se importar. Encontrei apenas algumas pessoas, sentadas naquelas cadeiras de metal, sentadas de frente para um mar escuro. Com certeza, nem ali presentes estavam, viajavam. Joguei as flores e metade voltou. Considerei mal dado o presente, mas me dei por vencida.

Um dia, caminhando pela cidade, a pé, encontrei a Santa, a poucas quadras da minha casa. Lá estava ela, majestosa, branca, na calçada de uma avenida movimentada, dentro de uma enorme concha, rodeada de vasos de plantas, flores em jarros, frutas, moedas e incensos. De frente para o mar, num gramado bem tratado, verde, um oásis no deserto. Parei em frente a ela, abri a boca e custei a fechá-la. Lá estava Iemanjá, recebendo oferendas, dando alívio a qualquer passante. Um lugar de orações, sem grades, sem portões, no tempo, aberto, respeitado, principalmente respeitado. Nem uma flor pisada, um jarro derramado ou quebrado. Um lugar que o espera. Dois tambores enormes com constante água limpa, duas dezenas de jarros de vidro, e enormes colheres para enchê-los, escondidos atrás da grande concha.

Eu queria rezar de costas para ela, de frente para o mar, mas não sou uma pessoa que gosta de causar estranheza (já me basta a oculta que carrego), eu queria assim fazer porque, para mim, tudo ali é apenas um símbolo, um belo significado, mas ela mora no mar, no ar, ela voa, ela mergulha, nada. Ela não se encontra ali tão parada e quieta, ela inclusive sai por aí deixando bilhetes nos carros das pessoas.

Passei então a levar um buquê de rosas, um punhado de flores ou um vaso, orquídeas, palmas, margaridas ou crisântemos, um por semana.

Até que parei, há quatro meses. Quando me lembro de que passaram semanas, conto-as nos dedos, compro os presentes que não foram comprados na data certa e levo-os todos de uma vez só.

Hoje, eu deveria ter comprado seis agrados. Comprei dois, comprei "lilys". Eles estavam na entrada do supermercado, enrolados em papel transparente, com o nome - tão meu conhecido agora - estampado em preto: "lily". Decidi entregar os seis, não de uma só vez, mas um por dia, mas comprei dois buquês porque não queria ver a Lily sozinha.

O curso de Direito também me ensinou: fatos são analisados da forma como se apresentam. Pois vou agora apresentar um fato.

Caminhei quinze minutos para ir e quinze para voltar. Na ida, parei no semáforo próximo à Santa e esperei o momento de atravessar a pista de pedestres. Do outro lado, havia uma senhora oriental, uma moça, igual a ela, empurrando um carrinho de bebê e um rapaz. Os três estavam juntos, também esperavam o sinal verde. Só havia nós. Passamos lado a lado ao chegarmos no meio da pista de rolamento, estávamos então num mesmo passo. Fui carregando os "lilys" para Iemanjá, eles seguiram em direção à praia, ao mar. Fiz tudo no meu ritmo normal, não tinha pressa. Enquanto os olhos ardiam por detrás das lentes escuras, peguei um jarro grande, enchi de água, depositei-o aos pés de Nossa Senhora, afastei-me um pouco e falei dois textos mal redigidos para ela. Expliquei a razão de eu ter me esquecido das oferendas semanais. Enxuguei as lágrimas, poucas, caminhei de volta para a faixa de pedestres. Do outro lado, havia uma senhora oriental, uma moça, igual a ela, empurrando um carrinho de bebê e um rapaz. Os três estavam juntos, também esperavam o sinal verde. Só havia nós. Passamos lado a lado ao chegarmos no meio da pista de rolamento, estávamos então num mesmo passo.

Num mesmo passo, no mesmo caminho, só nós, os mesmos, em sentidos contrários, mas repassando. A mais velha sorriu para mim, não resisti, devolvi o sorriso.


fotografia, por SCG

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O DESTINO DAS COISAS

(fotografia, por SCG)
 (Um texto de Robson Ezequiel)



"Imagine o seguinte; Alguns milhares de anos após o big bang as primeiras estrelas que surgiram ( chamadas de estrelas de primeira geração) eram formadas quase que na sua totalidade de hidrogênio ( não havia outra coisa no universo além de hidrogênio e hélio, ou seja a tabela periódica era bem mais fácil de se decorar) essas estrelas super gigantes brilharam no universo como faróis na escuridão iluminando o universo recém-nascido...


Um dia essas estrelas explodiram em supernovas fazendo germinar nas suas redondezas novas estrelas que por sua vez também chegariam ao fim da vida...e assim através desse processo novos elementos foram se formando no núcleo dessas estrelas...


Um dia em algum canto desse universo essa nuvem de restos de antigas estrelas mortas se condensaram novamente para formar uma nova estrela e dessa nuvem surgiram proto planetas que ainda giram no mesmo sentido dessa nuvem primordial...


Quis o destino que nesse sistema planetário as coisas se equilibrassem e a natureza de forma bastante caprichosa colocou os gigantes gasosos com maior influência gravitacional mais afastados da estrela mãe para assim servir de escudo de proteção para os planetinhas que se formavam no interior e mais próximo a sua estrela, dessa forma os planetas interiores estariam a salvo de grandes colisões com cometas e meteoros....


Um dia, um enorme corpo se chocou justamente com o terceiro planeta desse sistema e do sistema caótico desse choque surgiu após alguns milhões de anos seu enorme satélite...


Após intensa explosões cósmicas que irradiaram sob esse sistema quantidades enormes de radiações gama que junto de moléculas primitivas que estavam em cometas e asteroides que “mais uma vez” por capricho colidiram com o terceiro planeta que há essa altura já tinha bastante água, e com sua condição climática que bombardeava esses oceanos com chuvas de elementos como metano... surgiu a vida !


Se não bastasse tudo isso a forma de vida inteligente que surgiu nesse planeta desde o inicio da sua história fez guerras e teve também doenças que com tempo foram melhorando mas nem tanto...


Sexta 17 de setembro


Hoje você tá aqui lendo esse blog e carregando em seu sangue o ferro (taí o motivo dele ser vermelho) gerado lá naquela nuvem que formou nosso sol...e eu te pergunto: foi fácil chegar até aqui?


Você não imagina o numero de coisas que poderia dar errado e pra ser sincero muitas deram, mas o que importa é que você tá aqui.


O que importa é que alguma coisa deu certo e ainda podemos nos encontrar e fingir que não estamos sozinhos nessa imensidão, no meio de tanta gente e de tanta coisa, só assim fica fácil entender o amor...buscar no outro esse calor para justificar nossa existência nessa viagem que fazemos pelo cosmos.


Por isso mesmo que eu digo a você para amar bastante, ame com força, se alguma mulher mexe com você pare o trânsito por ela sem pensar no depois...beije-a como se só fosse dessa vez! Você pode não ter outra chance. Pense que no meio de todo esse caos que contei vocês se acharam e isso não pode ser por acaso... se existir algum plano nisso tudo...esse plano inclui vocês dois juntos pra sempre ou por duas horas, tanto faz , nessa escala das coisas vocês também são como estrelas cadentes destinados a cair no esquecimento...então meu amigo viva e ame!


Visto por esse lado você no meio de tanta gente de tanta coisa de tantas épocas está aqui agora, junto de mim, do seu vizinho, do jornaleiro, estamos nesse momento morando mesmo que de passagem nessa casa que é nosso planeta. Portanto não acredite que exista acaso, se você ama alguém ela está aqui por você! Como disse, não interessa se só por hoje ou para o resto da sua vida.


Não estou justificando a existência do amor, isso muita gente já tentou e errou. Estou dizendo que aqui, agora é o seu momento, se quer alguém busque, se está com alguém dê o seu melhor, as coisas acabam e na escala do universo não interessa o que você faz ou deixou de fazer, ele seguirá seu curso de expansão indiferente a tudo e portanto não devemos nos preocupar com detalhes idiotas como se você vai ou não parecer ridículo se fizer aquela declaração ou levar flores para ela no trabalho...as coisas estão aí para isso.


Nesse redemoinho de existências ninguém sabe nada! Por isso aquela mulher linda que você viu no metrô hoje pode ter sido a pessoa da sua vida, e você deixou ela escapar? Tudo bem! Como disse nesse redemoinho não temos para onde fugir, amanhã você esbarra com ela de novo pode apostar!


O que quero dizer é que duas pessoas se encontrarem nisso tudo é a coisa mais especial que pode te acontecer, e a ela também! É o milagre da natureza que nos criou do caos da destruição de estrelas, que precisaram morrer para um dia em algum momento você meu amigo, encontrar aquela mulher linda no metrô! Viu? Como uma simples coisa como essa não pode ser tão trivial? Não deixe que a rotina das coisas tire de você a visão da real importância das coisas simples, achar alguém, no metrô, na rua, na fila do banco...é a coisa mais sublime e bonita que pode te acontecer! Agora, quando você esbarrar com alguém que lhe chame a atenção simplesmente diga isso a ela e seja feliz."


                                 Um texto de Robson Ezequiel


                                         http://horizontedoseventos.blogspot.com/




O sinal de que a gasolina do meu carro estava acabando começou a apitar. Senti um frio na barriga. Ia ter que parar meu carro num posto de gasolina e colocá-la eu mesma. Aqui, onde vivo, não existe  "frentistas". O posto tinha oito bombas. Escolhi a oitava por causa do número, tenho cisma boa com ele. Não fui feliz em minha empreitada, a bomba número oito estava com dois defeitos, mas eu sequer imaginava. Fiquei enlouquecida. Eu já havia pago a conta e não estava sabendo lidar com aquela máquina. Não sou uma pessoa paciente, não gosto de lidar com aquilo que não entendo, não gosto desse tipo de situação e meu Inglês é péssimo.

Desesperada, vi um carro parado na bomba número sete, atrás de mim. Vi um homem olhando-me . Gritei: "Can you help me?", querendo morrer ali mesmo.

Ele, calmamente, respondeu: " É claro que eu posso ajudá-la".

O som da Língua mãe entrou em mim como se viesse de muito longe, deslizando, infiltrando-se em minhas entranhas, parecia um som conhecido e me senti calma, meus pensamentos voaram para além do meu entendimento. Gastei segundos que pareceram horas e voltei no tempo, enquanto ele se aproximava. Ele havia visto uma pequena bandeira do Brasil no traseira do carro e ouviu palavras soltas que pareciam ser em Português, enquanto eu falava ao telefone celular. 

Bom, ali foi o começo de uma grande amizade. A bomba de gasolina tinha dois defeitos e o meu "anjo da guarda" gastou tempo ajudando-me.

Hoje, pergunto-me: eu tinha que parar o carro justo na bomba com defeitos? Ele tinha que parar o carro dele atrás do meu? Ele tinha que ser brasileiro?

Não se deve procurar respostas, apenas aceitar, isso nos faz mais felizes.


                                                                               Suzana

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

EXORCISMO



fotografia, por SCG

Você começou a ir embora quando o carro, aquele enorme carro, parou rente à calçada. Eu vi o prédio cinza, a grama perfeita, verde, as malas sendo enfileiradas por cima dela, depois arrastadas para dentro. Ali, foi o começo do fim. Entrei no prédio, a cabeça estourando de dor, desespero só de lembrar dos gritos da menina por horas e horas dentro daqueles dois aviões. Dezessete meses, dezessete horas.

Você começou a ir embora quando eu cheirei um ar diferente, marítimo, absorvi o silêncio profundo do mosteiro, quando senti um vento frio, fino, rasgante, encostando em mim, dando boas-vindas. Nada, nada para mim, já conhecido. 


Você começou a ir embora quando eu passei a amanhecer em calmas manhãs, acomodar-me em noites frias, vendo Sol que aborda bem no meio do inesperado das horas. Naquele dia cinza em que vi o "pier", e, de botas e casaco, enfiei meus pés nas areias em poças d`águas só para chegar bem próximo dele e acreditar de verdade que ele estava ali, parado, esperando-me.

Hoje, eu encosto minha cabeça no volante do carro. Acabo de entrar na terceira garagem desde aquele dia em que o carro parou rente à calçada. Depois daquele dia, as areias do deserto fizeram de mim o que bem entenderam e eu não ofereci resistência. Metamorfoseei-me em sopros de decisões. 


Hoje, eu encosto a cabeça, esperando a música do rádio parar de tocar. Música linda, já ouvida num tempo qualquer, mas que não me traz recordação alguma. Fecho os olhos e me sinto: pernas, braços, cabeça, massa. E eu então me despeço de você.

Eu lhe digo adeus. A você que habitou o mesmo corpo que eu. A você que me fez deixar bastante de mim para trás, e, nesta saída, fui obrigada a pisar folhas soltas, pétalas, botões amados que deixei cair, naquela pressa e urgência de largar o que me incomodava.

Refiz o trajeto passado, mais de 40 anos em poucos minutos, no pouco que faltava para a música acabar. Segurei o volante do carro, arranquei você de mim mesma, sem gentilezas, mas sem luta. Expulsei tudo o que restava de você, parei de gostar da lembrança. Parei de pensar que você era a escolha mais certa. Passei naquelas praças, ruas, vales, vi toda aquela gente. Vi você lá. Vi tudo, empurrei você para fora, enquanto as lágrimas escorriam. Não a matei. É preciso que você viva, para que eu me lembre de que todos nós podemos nos fazer substituíveis.


Você começou a ir embora naquele dia das malas enfileiradas. Você lutou por permanecer, mas enfim perdeu. Nós não somos mais a mesma pessoa.

A música parou. Enxuguei o rosto. Desci do carro. Virei as costas e fui embora sem olhar você parada, lá atrás, com um pequeno prato na mão, um prato de alumínio, amassado, a pedir migalhas.

Deixei você. Poderia até trocar de nome.

                                                                 por Suzana Guimarães

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

BLEFE



arquivo pessoal



Se quiser jogar

eu jogo

Mas aviso

sou boa jogadora

e, se preciso, blefo

Creio que está nas veias

genética

o sangue me ensinou o pôquer

e nele

aprendi a fazer a cara errada

(Suzana Guimarães)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

GIRA-ME, SÓ

fotografia, por SCG

Eu giro, giro no mundo da Emili. Ela é a menina da casa verde, no Rio Grande do Sul. Ela se veste de 'ladybug" e às vezes pega carona nos ventos. Lembro-me do dia, do leve toque no meu braço, avisando sua chegada.

Gosto de visitá-la pelo que ela é, jeito doce que eu não tenho. Gosto da ternura, da simplicidade dela, da forma como ela me oferta amor, algo que sempre tive dificuldade para fazer. Ela oferta amores, como se os carregasse num tabuleiro de prata com pano bordado em cima, fino linho branco. Se eu fosse fazer o mesmo, eu ia complicar a oferta. E, no final, ninguém, nem você e muito menos eu saberiamos se algum amor foi realmente oferecido. Possivelmente, eu lhe entregaria cubos coloridos e pediria para você revelar o segredo, em minha constante necessidade de ver além da carne, além do brilho dos olhos, ultrapassar fronteiras inimagináveis, tocar o intocável, empurrá-lo ao desafio.


Eu giro, giro no mundo da Emili. Vou lá toda noite, madrugada no Brasil. Há sempre música linda girando. Há um globo colorido, tantas águas azuis, e eu vejo a Europa, a África, o Brasil. Paro os olhos no grande coração verde e tento fazê-lo parar na minha visão, mas ele permanece a girar, girar. E me vejo, um pontinho verde, pulsando. Impressiona-me  aquele pulsar. Sinto meu coraçao bater junto. Descontrolo minha respiração.


Às vezes, penso que me escondi ali, aqui, na beirada do Pacífico. Às vezes, penso que não, cumpri meu destino, meu sonho, meu querer.


Mundo grande, redondo, bola que gira, gira, mundo de Deus, mundo bom, mundo mau, mas mundo e eu sou giramundo.


Giro em mundos alheios e também nos meus, sem saber se algum dia aprenderei a arte de carregar tabuleiros de amor. Sempre foi assim, uma necessidade constante para tocar almas e não tabuleiros. Mas é preciso o tabuleiro, é preciso o fino linho para que o outro descubra. Minha vó dizia " menina difícil, ela, a gente tem que pegar na marra, abraçá-la, apertá-la, ela aceita, vá lá, faz isso!". Mas, quem é que ia? Faltava coragem, faltava amor para  tocar na menina que parecia não estar presente, que parecia fechada em paus, alheia, alheia. Ninguém se arriscava, mas a minha vó, sim, vinha, pequenina, mas forte, me pegava pelos braços com força e apertava-me. Eu gostava. Aspirava o cheiro sempre bom dela, o sentimento da posse, mas não me importava o abraço em si. Com o tempo, fui me doutrinando, eu dizia para mim mesma, chega na frente, abra os braços e aperta, mas aluno que precisa estudar muito, não é o melhor aluno.


Estou aprendendo. Eterna aprendiz de abraços, de amor.


E gira, gira, gira o pontinho verde, gira-me.
                                                                                           Suzana C.Guimarães


Para conhecer a Emili, clica no endereço abaixo:

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

TU

fotografia, por SCG



Eu queria abrir sua palma

(como se abre um livro)


Não me basta vê-lo

(estático na prateleira)


Eu queria folhear sua alma

(em minha insana avidez)


Cravar meus olhos

(sinta-os agora, estão sobre você)


Ler linha por linha

(não saltar uma vírgula)


A parte crua da alma

(a fina película)


Eu queria desvendar o incognoscível

(para você, tão sofrível)

Eu queria ler o livro inteiro

(nada de prefácios)


Cavar seu chão

(até alcançar a parte fácil)


Cutucar seus céus

e também seus infernos, não me falta coragem


(eu queria brincar de ser Deus)

Suzana Guimarães

domingo, 19 de setembro de 2010

TEMPO


ilustração, por R.Meneghini



Nota: mesma publicação, na mesma data, em Contos de Lily.



domingo, 12 de setembro de 2010

CÓDIGO DE BARRAS

ilustração, R.Meneghini


Eu não ando por aí de chita e chinelão.

Não nasci para vestir uma canga branca e ganhar o mundo carregando uma sacolinha, vivendo da bondade alheia e elevando o meu espírito. Admiro estas pessoas, que abandonam os bens materiais, seus castelos e principados para buscar o nirvana. Creio que até as invejo. Há momentos em minha vida que eu gostaria muito de fazer isso. Pegar a sacolinha e partir.

Gosto do poder do dinheiro, de possuí-lo e com ele satisfazer as minhas necessidades e também as desnecessárias vaidades humanas, mas isso é acessório, acompanha o principal, mas não é o principal .

Odeio todos os "sites" de relacionamento. Já tive Orkut duas vezes, não tenho mais, para nunca mais. Tenho Facebook, mas apenas suporto aquilo, vou pouco lá. Tenho Twitter, e até hoje não sei para que serve. Tenho MSN, poucos contatos, não dou o endereço para ninguém e pouco vou lá. Para mim, ótimos lugares para se disputar quem tem mais amigos, postar fotografias da última viagem e não responder aos amigos uma pergunta simples.

Sou estranha. Se eu entrar no seu carro, não me pergunte depois se os estofados eram de couro ou não. Não me pergunte a marca do carro e muito menos o ano. Não me aponte aqueles carros conversíveis, pois eu vou olhar com desdém. Ferrari para mim era o sobrenome do amigo do meu pai.

Mas eu não viveria numa "motorhouse", cortando os EUA. Gosto de casa fixa. Gosto da certeza do meu endereço, pois já basta a mim, o tanto que minha mente vagueia feito balão se soprar.

Não gosto de copos e talheres de plástico, pratos de papel. Faço questão de beber as bebidas em seus copos apropriados. Não me sirva em copo, vinho, café... cerveja no bico. Aprecio cristais, toalhas finas, brancas, estendidas para um banquete e uso tudo o que tenho. Há pessoas que guardam certos objetos para "ocasiões especiais", dias de festa. O dia da festa para mim é hoje, a hora é agora. Dizem que eles quebram, os cristais, e as toalhas mancham com o vinho derramado, mas e eu, e eu que me quebro também, todos os dias, e meu corpo que se marca, mancha-se, corta-se e  costura-se, e ele?

Hoje, uso taças de vidro. Nego-me a possuir o que já tenho, mas que se encontra guardado em caixas, numa sala solitária e fria em Nova Lima, que empoeiram e ninguém olha, nem mesma eu. Guardei coisas de valor material para um dia usar, pois nem sempre podemos carregar tudo o que queremos. Guardei um pedaço grande da minha vida em papelão, e nem sei se um dia vou resgatá-lo, pois, perdi as pedras que caprichosamente levava nos bolsos. Larguei os cristais, livros, os belos quadros, fotografias em papel, as porcelanas e os torrões de amargura e dependência lá.

Adoro aquelas lojas que vendem coisas para se montar um salão de beleza. Foi uma das primeiras lojas que procurei quando cheguei na América. Sou atraída por elas feito agulha para o ímã. Compro mais esmaltes que preciso ter. Hidratantes, maquiagem, coisas pequenas com tantas finalidades que me perco nas instruções. E uso tudo, até acabar. Sinto prazer em vê-los terminando.

Não gosto de quebrar unha e de sujar as mãos. Odeio ficar na fila para almoçar ou jantar. Não, eu não odeio, apenas não fico. Procuro outro lugar. Odeio que me apressem, já sou apressada por natureza. Qualquer coisa além é aberração. Mas, meu passo é calmo, lento.

Meus três relógios de pulso são velhos. Um deles já debutou. Nunca tenho mais de dois frascos de perfumes. Em compensação, tenho mais sapatos que a necessidade de andar por aí e mais bolsas que meus braços e mãos possam suportar.

Gosto de pão e água, considero um manjar, mas não dispenso caviar e sei a diferença entre as ovas do esturjão e as torradinhas.

Vivo intensamente, até exagero. Não perco meu tempo, só se for para comigo mesma, eu e eu. E não gosto que me deixem esperando, pois eu não deixo ninguém a me esperar, se não chego na hora, chego cinco minutos antes.

Odeio gente que cola em mim. Gosto dos ares da liberdade que me deixam flutuar, uma pessoa agarrada só atrapalha o processo. E odeio gente que tenta me usar. Não uso pessoas, só uso coisas. Odeio aquela gente tola que pensa poder me manipular, subir na minha energia (tão dificilmente equilibrada) para alcançar algo. Definitivamente, não sou escada para ninguém.

Se eu quiser, se eu cismar, faço-me degrau, escadinha, pezinho... o que for para o outro. Mas, só se eu quiser, e as regras do uso, eu as dito.

Respeito lugares sagrados. Repeito a fé do outro. Respeito diários alheios. Sou uma pessoa que pode ir e voltar, voltar e ir na sua vida, mas jamais ofenda o meu pedaço sagrado, pois, nesse caso, não há volta.

Gosto de livros e revistas questionadoras, mas não dispenso aquelas fúteis. Porém, não sigo moda, não sigo padrão, tendência. Minhas roupas são a extensão de mim mesma, talvez por isso eu goste tanto de saias e vestidos, pois, no meu passo manso, eles balançam ao vento. Gosto daquela confusão de pernas e saias ao sair do carro. Gosto de roupas que revelam o que sou e não que me escondam ou me mostrem diferente.

Não tolero nem coisas e nem gente falsa. Uma pessoa falsa, um perfume falso, uma bebida falsa, um amor falso não deixa nem cheiro depois que passa. Talvez, dor de cabeça.

Ah! eu não olho os bancos de um carro, mas reparo os calçados das pessoas.

                                                                 Suzana C. Guimarães



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

PARA SILVIA

SIL


Silvia, Clara, Alma, Alva,

Cidra, Silvia, Cidreira, Silvo,

Silvia, Sara, Palma, Silva,

Sibilar, Silvar, Amar, Arar, Silvia,

Sinta, Aura, Silvia, Magra, Bela, Alta, Silvia...




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

VENHA CÁ

ilustração, R.Meneghini


 por Suzana C. Guimarães

(seja qual for o seu tamanho, só use se servir)


Grite meu nome e sobrenome
(não quero que a seta se desvie do alvo)
Confesse todo o ódio que lhe causo
(e também amor, se oculto)
Berre todas as suas verdades sobre mim
(saiba que me dará a oportunidade de resposta)
Diga o quanto sempre me desprezou
(mas confirme a minha suspeita de que você tinha medo de você mesmo)
Abra a cortina da boca e exponha suas raivas engolidas
(aquelas todas que jorrei em você)
Acuse, diga que esperava sim
(quando eu me fazia distraída)
Acuse, e diga que esperava a minha entrega
(mas eu me fazia sempre alheia)
Faça-me olhar seus olhos
Obriga-me a revelar a verdade daquela entrega
(aquela que você nunca saberá)
Espume a boca e diga que sou apenas tudo aquilo que fere, corta e mata
Não me bata
(você pode não assistir ao final dessa história)
Mas grite, escreva, devolva o presente que lhe dei
(devolva-o agora!)
Tire esta roupa toda
(máscaras, perucas e enfeites - tudo!)
Me dê o prazer de vê-lo
(totalmente nu)

domingo, 5 de setembro de 2010

DO(r) AMOR, GOZO

fotografia, por SCG


                                                                     
                                                                      Suzana Guimarães


Ninguém partiu. Nem ela. Nem ele. Era tempo do ciclo. Ela passava tranquila. Era noite alta.

Outra moça, outra moça bonita, Lara, clara, recitava na praça um poema de dor. A moça que andava não percebeu quando ele chegou. Veio rápido, feito raio. Pressionou-a na parede. Ela, um degrau de porta acima, sentiu o corpo todo e todo ele. Chovia fino.

Poucas pessoas passavam, ninguém via a intrepidez, o desejo terso. Às vezes, os céus comprometem-se.

Ele havia voltado e ela novamente sentiu água na boca. Aquelas palavras, rajadas de palavras, perfumes em letras, fortes, homem lúbrico. Palavras ao pé do ouvido. As águas desciam internas, da boca, escorrendo corpo abaixo, alma abaixo, e retornavam paradas em meio às coxas. Suspensas. "Inside".

Ninguém partiu. Vício não é brisa. A voz da moça, olhos grandes, "kajal", unha marrom, recitando poema de amor. Era madrugada, chovia grosso.

Ele pensava ver visão, apalpava para ter certeza. No peito, projeção de um filme antigo. No corpo, verdades que não lhe cabiam, saltavam aflitas. Corpo perdido na rota. Imagem do fantasma, refletida na retina. Gosto de chuva na boca, gosto da chuva que só desagua lá fora. "Outside".

Ele a segurou com os olhos, a comeu com as palavras. Ela via a outra moça, a moça clara, ao longe, girando com a praça. O relógio branco em neve invertendo o tempo, aquele entre o parado e o que girou - suspenso. Chovia intenso.

Os passantes se foram, ficou a voz da moça e os dois. Ficaram dois corpos presos, encurralados em seus próprios braços que se confundiam. O vestido dela ficou. Saíram as rendas finas, os cordões, os anéis. As fitas. Caíram ao chão. Ela nua. Ele em terno. Ela crua. Ele interno.

Ela abriu a boca, ia gritar. Gritar para ele partir. Gritar para ele ficar. Ele emudeceu. As palavras migraram. A moça, a outra, Lara, a clara, na praça, recitava poema de gozo. Inundação.

Um córrego desaguou num rio que virou um mar. Ninguém viu água, ninguém viu as dádivas, as árias.

Ninguém partiu. Nem ele. Nem ela. Era tempo do cio.



P.S.: o nome Lara, uma homenagem a LARA AMARAL, do Blog TEATRO DA VIDA.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

NUDEZ

fotografia, por SCG


Texto escrito por AC.
Para conhecê-lo, clica no seguinte endereço:
http://ac-wwwinterioridade.blogspot.com/





"Procurei-te
No mais fundo de mim
Desenhei-te
Nos contornos do viajar intranquilo
Adivinhei-te
No vulto que dobrava a esquina
Ah, quanta cegueira
Quanta insistência na receita errada
Por uma quimera mil vezes desejada
Ah, quanta solidão
Quanto rebuscar no vazio
Em constantes vagas de frio
Então chegaste
Vinda do nada
E desmontaste
Com risos despreocupados
A construção do labirinto
Mil vezes tecido
Em adornos florais
Só então
No desespero da nudez
Vislumbrei
A génese da promessa
E percebi
Como tudo começou."

sábado, 28 de agosto de 2010

SUZANA`s

                                      

(SCG - arquivo pessoal)




                                                 por Suzana Guimarães

Eu não suportaria certas Suzana`s três dias seguidos

Suzana cansa.

Suzana cobra.

Suzana exige.

Mas há outras

E eu as revezo

Sou tantos livros lidos.

Sou mansa.

Sou morta.

Sou a que permite.

Mas há outras

E eu as revezo

Sou tantas idas e vindas

Voltas que vão

Vão e voltam

Eu não suportaria certas Suzana`s dois dias seguidos

Suzana descansa.

Suzana tinge.

Eu não suportaria a mim mesma um dia inteiro.

E me vou, dentro da noite, vagando em meus ritos

Para amanhecer outra

Feito amanhã,

Qual a que acordará?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

TIRAR A PELE

fotografia, por SCG


Tirar a pele não é feito tirar a pele de quando se bronzeia muito e descasca. Tirar a pele é entrar no curtume, fechar a porta, esquecer onde pôs a chave e ficar. Primeiro, procura um espelho, que seja o do banheiro minúsculo do fundo da casa. Para e olha para ele pelo tempo que precisar. Não procure as belezas que você tanto conhece. Caça os defeitos. Abra bem os olhos. Eles estarão lá dentro de você. Esse é o primeiro passo para você ter certeza de que a pele que será arrancada é a tua mesma.

Depois, pega sal e se esfrega. Esfrega-se todo para descarregar a alma e protegê-la de si mesmo. 

Não pense que o processo cheirará a magnólias. No curtume só há fedor. Não é fácil arrancar a pele. Não é fácil tentar ser outro. Talvez, você consiga, talvez não. Mas ninguém, nem você se esquecerá de que você tentou, você entrou no curtume, fechou a porta e se esqueceu por um longo tempo de lá sair.

Retirando a pele, esqueça-se de você, larga mão, despreza-se. Vá puxando a pele que dói e pensa nos outros. Você só conseguirá arrancar toda a pele velha, arrancar teu mundo velho, se você conseguir enxergar o outro. O outro é o mestre, é o guia, a estrela, teu carrasco, tua brisa, tua guerra, teu repouso. O outro poderá lhe mostrar o caminho. Ou não. Mas, não se preocupe, o mundo está cheio de outros. O mundo é cheio de tudo, mas você precisa encontrar o outro no vazio que o mundo lhe entrega. Não se sinta o único e nem o primeiro. Você é mais um.

Depois de um certo tempo, quando se sentir mais leve, sem toda aquela pele, procura a chave - ela estará na sua mão, você apenas se esqueceu dela - abra a porta e saia.

Se, amanhã, precisar, volta lá. Repita o processo até o dia em que nem mais pensará no assunto, por muito ocupado em que estará, fazendo o(s) outro(s) feliz(es).


P.S.: O fedor não é de todo ruim, durante o processo, mas procura não se acostumar com ele. Não pense que são magnólias.


Por Suzana Guimarães