segunda-feira, 21 de junho de 2010

XIX - Agosto de 2004

    

     Em 1991, três anos após a nossa formatura, um colega de musculação, ex-usuário de drogas, disse-me maravilhas do médico psiquiatra dele. Ele tratava com homeopatia, e, como eu havia, anos atrás, me curado de amigdalite crônica com remédios homeopatas, acreditei que teria a solução para o meu "problema".
     Problema sem nome, que eu não sabia nem como explicar, e também não conseguia, por vergonha. O psiquiatra, que ele indicou, me viu pouco. Dr. A. conversava comigo de forma lenta. Perguntava muito pouco e eu não conseguia enxergá-lo bem, pois, ele ficava de costas para uma enorme janela aberta, de onde vinha toda a claridade dos céus de Belo Horizonte.
     Aquela claridade incomodava-me e eu nunca reclamava. O que importava para mim era escolher as palavras certas a fim de expor meu problema. Palavras certas? Eu as perdia ou as ocultava. Confusão mental e muita luz na cara! Nada que me facilitasse.
     Lembro-me ter dito ser muito ansiosa, mas não falei da tortura do confronto, dos tremores, do medo. Ele receitou Bryophyllum calycinum D2 (argento cultum) e uns glóbulos brancos para o momento mais intenso de ansiedade. Eu tomava a medicação e aquilo não fazia nem cócegas em mim. Sei que o remédio é muito bom. É um ansiolítico. Sei de pessoas que fazem uso constante dele e se sentem bem, mais calmas, mais ponderadas. Mas para mim aquilo fazia o efeito de água com açúcar. Dr. A., que me lembrava um padre, com suas perguntas leves, agia como se eu tivesse sofrido um ataque histérico minutos antes e estava a enxugar a baba, após eu ser controlada por ele. Ele falava procurando as palavras, medindo-as, pensando nelas. Hoje, penso que nem ele tinha certeza do que dizia. Eu não me abria, mas ele também não ajudava. Não contei os fatos com a intensidade com que ocorriam, não pus força, certeza na minha fala. Eu parecia mais uma tonta disposta a pagar consultas particulares a um médico um tanto quanto distante, evasivo, e esse, parecia me ver como alguém que inventava problemas.
     Naquela época, R. e eu estávamos separados. Eu me sentia infeliz e não queria dividir nada com ele. Terminei o namoro no final de 1990 e tentava encontrar alguém interessante. Conheci o tal colega numa academia de ginástica. Ele me dizia estar se curando, falava de progressos, por isso, eu procurei Dr. A.. Um dia, porém, me enchi daquilo, do médico e do meu colega. Eu nunca me encontrava com ele, com o musculoso. As minhas consultas eram marcadas sempre no mesmo dia e em horário próximo ao dele, mas ele tinha o dom de, no dia, cair da escada, arrancar dente e dar hemorragia ou perder a hora. A gente nunca se via, para depois das consultas, eu planejava sempre, ir ao cinema, tomar uns chopes. Foi pura sorte minha, mais tarde descobri que ele era homossexual.
     Em outubro de 1995, tirei um jornal de 1992 da gaveta. Estava amarelado pelo tempo. Eu havia lido o livro do Gugu Keller, Síndrome do Pânico. Não me lembro bem onde li comentários a respeito do livro, mas fui ávida atrás de um exemplar para mim. Nesse dia, eu desconfiei que talvez o que eu tivesse fosse doença também; quem sabe, prima distante? Só sei que fiquei empolgada, pois, pela primeira vez na minha vida estava lendo a história de alguém que viveu o pavor do medo, que evitava situações, que procurava respostas. Encontrei um par! Um igual a mim, ou pelo menos, bem semelhante. Alguém que descrevia em minúcias e com total sinceridade - de cara limpa - os horrores de ter medo, pavor de coisas "irreais". Ele foi a mão que me empurrou para o consultório do Dr. J.. Li o livro de uma vez só, numa sentada só. Abri minhas gavetas e procurei o jornal velho, guardado sem muita finalidade. Vi a foto do médico e o esclarecimento dele a cerca de várias doenças da ansiedade e também da depressão. Não havia nada sobre medo de escrever ou assinar em público, mas eu desconfiei que havia chegado a hora.
     Fui então, atrás das minhas próprias verdades. Conheci um verdadeiro psiquiatra. O outro, quis ser padre e foi ser médico. Dr.J. falou e me deixou falar. Caminhamos juntos ao encontro do diagnóstico. Eu o ajudei e ele me ajudou. Havia sintonia em nossa conversa. Ele fechou a questão na primeira consulta, naquele dia de sol. Senti o vento da esperança. Eu não era mais só. Aquele senhor de idade, sentado em seu sofá de couro, à minha frente, passou toda a confiança que eu precisava, me mostrou que eu era doente. Apenas isso. E não mais uma mocinha nervosa, filhinha de papai. Eu acreditei nele, porque a verdade e a sabedoria brotavam dele, como água que brota da fonte. Só que, depois do primeiro ano de tratamento, pensei que, apesar de ter acertado em cheio comigo, Dr.J. não servia para mim, que ele era muito chato, muito bravo e muito sistemático. Bebê ainda, achava ser eu a super-mulher adulta, aquela que fazia e acontecia e que outros psiquiatras menos chatos fariam o mesmo que ele. Fui embora sem dar satisfação.
     Consultei-me uma única vez com um psiquiatra do meu convênio e ele, a cada dez minutos, levantava-se da cadeira, ia até à porta do consultório, abri-a, dava uma olhada rápida, voltava e dizia: “Pode continuar”. Terminou a consulta perguntando qual era o remédio que eu tomava, e, se eu queria receitas. Ao sair, vi que a sala de espera estava lotada. Nunca mais voltei.
     Quando a medicação acabou fui a um outro psiquiatra, indicado pelo meu dentista, que era também meu amigo. Aleguei a ele, ao dentista, uma constante ansiedade que atrapalhava a minha vida. Até então, eu não assumia nem a doença e nem os remédios. O psiquiatra interrompia minha fala para, às 7 da manhã, atender a esposa aflita ao telefone, porque a babá do terceiro filho ainda não havia chegado. Esse me disse que eu gostava de ser doente. Que eu criara a doença para poder usufruir o dinheiro do meu pai de forma tranquila. Bom, eu não gostei do que ouvi e então respondi que eu não fazia diferente dele. Que meu pai podia me ajudar e eu aceitava tal qual ele, que teve a Pós-Graduação em Medicina, nos Estados Unidos, toda paga pelo pai, que também podia ajudar a prole. Informação preciosa que eu tinha, heim? O doutor engoliu sequinho.
     Voltei correndo para Dr.J., para o consultório dele, onde eu sempre pude sentir paz e segurança. Onde cada peça da decoração tem uma história e está sempre lá, no mesmo lugar. Voltei para onde se pode ouvir o silêncio, mesmo sendo numa rua movimentada. Voltei para a “sala do choro”, onde um sofá de couro está estrategicamente posicionado em direção ao sofá dele. Onde há uma cortina que deixa passar a luminosidade suficiente. Depois de tudo conversado, caminha-se para o escritório. Atravessa-se um pequeno corredor com seu relógio cuco na parede, e lá, nesta outra sala, eu posso me deliciar olhando livros arrumados em estantes, pequenos objetos presenteados por pacientes, fotografias emolduradas nas paredes, a cortina semiaberta, os estofados de tecido xadrez e a mesa toda arrumada, com um abajur sempre aceso, onde ele prescreve a medicação. Essa é a sala da conversa mais solta, relaxada, onde fala-se de tudo, enquanto se espera a secretária que buscará as devidas anotações e depois voltará com as receitas digitadas. E eu rezo para que ela receba mil telefonemas, para que se atrase, assim podendo aumentar meu tempo naquele lugar que me recebe como a criatura mais importante do mundo. Um ovo. Um ninho.
     Voltei correndo, mas de rabo baixo, morta de vergonha. A chata, era eu. A preciosista, era eu. Fui recebida da mesma forma solene, porém atenciosa, afetuosa, como se eu nunca tivesse partido. Lá fiquei por muitos anos, comparecendo, de três em três meses para a consulta de controle. E, sempre que necessário, volto. Aquele mal, eu curei, mas uma vez descido a ladeira, pode-se voltar a descer.
     Hoje, está tudo sob controle, e zelarei por isso. Não mais hesito em questionar, esmiuçar, escarafunchar os sintomas químicos, físicos e psíquicos do meu corpo. Aprendi que posso controlá-lo, mesmo que com ajuda de medicamentos, mas, os remédios sozinhos não podem tudo. Não podem me fazer sair de casa, encarar o mundo com todos os seus medos e pavores. Eu tenho que dar o primeiro passo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

UM POEMA: BLUE, by LRGM

    
     Fim do ano letivo!
     Há um ano, neste mesmo 17 de junho, decidi ir ao Brasil.
    Hoje, não decido, pois, fico. E o café aguado, o queijo canastra "verde", e as xícaras e mais xícaras ficam na saudade.
     Hoje, LR chora de saudades daqui - do professor que ele tanto gostou, dos colegas que para ele não são estrangeiros, e nem ele... acho que até de si mesmo, porque acho que ele também sente saudades de lá.
    Saudades recentes, saudades antigas...
   O café vai esperar sem esfriar... os passeios no Mercado Central, as avenidas estreitas, meu pai sentado vendo televisão, as ruas apinhadas de gente, carros que não param para você passar...
     A minha mãe vai esperar. Mães sempre esperam. Mas ela não vai cantar. E nem tocar.
     Eu vou esperar toda aquela água secar. Vou esperar o tempo parar pra todo mundo poder pensar.
     Fim do ano letivo... e eu dedico este post a LR. Cidadão do mundo. Menino valente. Inglês fluente. Parabéns, meu filho, você venceu. Os louros são seus!
     Vou postar aqui, a poesia do meu menino poeta:

                                                    BLUE

  Blue is cold
        like ice
        in your refrigerator

Blue is warm
      like a jacket
      warming you up

Blue is flying
      like a parrot
      in the sky

Blue is floating
      like the sky
      above my house
                                     by LRGM                                                                       

terça-feira, 15 de junho de 2010

QUARTO TERREMOTO NO QUARTO

                                               Suzana C. Guimarães


Ando contando...
Já contei: um assalto, uma quase morte e quatro terremotos!
Nos três, mesma incredulidade.
Nos três, um assalto.
Nos três, a solidão.
Nos três, a sua mente tenta se agarrar ao fato, mas escorrega todo o tempo pra esquerda. Para o passado.
Nos três, seca agonia.
Nos três, a mudez, em meio à vozes.
Nos três, incerteza.
Nos três, absoluta ignorância.
Nos três, aquilo que o bicho faz,
Para, quieta e aguça os sentidos.
Nos três, um labirinto desfocado em três.
Nos três, nada
Porque você não acredita.
No primeiro das minhas contas, eu estava na rua; no segundo, em casa, na rua, em casa (como é difícil acreditar!).
No terceiro das minhas contas que já é o quarto, eu estava no quarto.
Na rua, em casa, no quarto.
Não importa.
Amola,
Mas não é esmola.
Embola
E a vida rola.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

XVIII - Novembro de 2005

"A vida só é possível reinventada."

(Cecília Meireles)

sábado, 12 de junho de 2010

XVII - Novembro de 2005

“Fico pensando em você. Será que você perdeu mesmo os melhores anos da sua vida, ou melhor, os anos em que a gente faz as maiores escolhas que vão se refletir mais tarde em nossas vidas? Você é inteligente e perspicaz, pega as coisas no ar, adivinha o pensamento das pessoas. E diz na lata como são as coisas. E acerta. Você era uma das melhores, principalmente em Direito Penal. O que você poderia ter feito se não fosse esta doença?"


     Eu lhe respondi? Acho que não. Relendo nossa correspondência, encontrei este e-mail. Deixei de responder a certas perguntas porque não sabia o tanto que você pretendia me entender. Quando você abre uma janela, fecha uma porta. Quando abre uma porta, fecha a casa toda.
     Você já ouviu falar em ferida pessoal, aquela que ninguém vê, mas que sangra por dentro? Eu já me fiz a sua pergunta milhares de vezes. Sabe a Boceta de Pandora? A doença foi a própria. Foi a origem de todos os males. E, acrescento, todas as bondades também, porque eu realmente não sei o que foi bom, o que foi mau, o que poderia ter sido ou não, quem eu poderia ter sido, quem eu poderia ter escolhido para marido ou para amigo, quem eu perdi, quem ganhei, o que paguei, se é que paguei, o que deixei de ganhar, o que ganhei em troca, o que poderia ter sido eu.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O TEMPO E O NÃO

                                         Suzana C. Guimarães


Ontem fez um mês,
Mas parece três.
E anteontem, eu peguei aquele avião
Mas parece dezesseis
Vezes três.
Ontem, voltei pro mesmo chão,
E doze vezes dois já são.
Acho que perdi a vez.
Acho que naquele trem
Perdi o vagão.
Saí de cena.
Virei gaze
Ou comichão.
Flutuo nos ares
Ou cresço em algum coração.
Tudo é questão
Ou não!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

SOM EM LINHA

                                    Suzana C. Guimarães


Na sua mudez,
Ouço alto som.
Na sua mudez,
Compreendo o tom.
Todo o mais que não possa imaginar,
Em seu desequilíbrio equilibrado,
Em sua firmeza de uma única palavra:
Seca, polida, seca

leio frases...

Em suas frases,
Breves e curtas,
Curtas de medo, leio livros...
No seu silêncio,
Ouço te quero.
No te quero
Ouço te amo.
Sabotado,
De um não-amado.
Se você falasse,
Eu não leria.
Se você risse,
Eu não ouviria.
Se você me tocasse,
Eu não saberia.
Mas você não fala, não ri, não toca.
Você se cala.
Quanto mais cala
Mais fala.
Menos embaralha.
Eu queria que você me enviasse um livro
Pra embrulho.
Aí sim,
Eu saberia que você escrevia apenas uma linha.

domingo, 6 de junho de 2010

XVI - Julho de 2004

  
     Por quê?
     Eu queria entender muitas coisas... Entretanto, elas apenas me fogem. A verdade chega a roçar em meu rosto, brevemente, tão brevemente que não consigo fazer registro. Tenho o dom de não fazer registros.         
     Minha memória acumula fatos, cores, roupas, falas, datas, rostos, ocasionalmente nomes, mas não registra e autentica certos instantes rápidos como a luz ou tão quanto. Aqueles momentos que parecem verossímeis, na realidade, o são, mas eu acho que não acredito neles, talvez porque passam rápido demais ou talvez eu não os queira ver. Quanta coisa a gente não quer ver nesta vida? Mais do que possamos concretamente vivenciá-las. É como se tudo estivesse sob uma neblina ou acontecesse rápido, mas em câmera lenta. Difícil entender?
     Certa noite, há muitos anos, eu estava dentro de um táxi, no banco traseiro do carro, parada num semáforo, na Avenida Francisco Sá com Avenida Amazonas, em Belo Horizonte; quando surgiu um carro em alta velocidade na outra pista, vindo da Avenida Amazonas e abalroou o táxi em que eu estava. Era Natal. Havia uma concessionária de carros na esquina à nossa esquerda, de onde vinha o carro. Eu vi o carro voando para cima de nós; vi um pinheiro piscando suas pequenas luzes na tal loja, as piscadas eram lentas, bem lentas; eu me vi sentada no banco do carro. Tudo ficou em câmera lenta, mas com absoluta certeza, foi tudo rápido demais. Pois então, é assim que vivencio certos acontecimentos, mas não registro.   
     Será um bloqueio? Uma defesa? Certamente que, nos casos de risco de morte, toda pessoa liga uma espécie de válvula de escape, só que eu posso ligá-la em outros momentos também. Penso que é porque não ligo, não dou importância à coisa. Ou não?
     Muitos melhores momentos ou, inclusive, os piores que vivi, eu os senti de longe. Como se olhasse através de binóculos. Eu passo por eles. Eles passam por mim. E fica aquela sensação de que não foi bem da forma que deveria ter sido. Parece que olho um querendo ver três. Talvez seja ansiedade. Talvez a tal válvula de escape. Talvez a minha própria personalidade, meio esquiva. As pessoas, muitas vezes, pensam que eu mergulhei de forma profunda. E é essa a imagem que passo. Mas, na realidade, fiquei apenas boiando, como diz R. Pairo na superfície. Olho, mas não vejo. 

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O TEMPO

                          
                           Suzana Costa Guimarães

Penso:
Era tão negra assim
A noite?
As sombras tão altas assim
Que eu só as pudesse ver
Ao longe?
Era assim o tempo tão lento
Que eu não pudesse
Vê-lo?
Tê-lo?
Eram maçãs que caíam
Ou eu que perdia o tempo
Da colheita
Ou era que o tempo é que se esvaía?
E eu ia
E vinha pelas antigas trilhas.
Ou era eu que não contava os dias
Não mais em franca zina
Num tempo que rugia,
Em que as sombras eram só minhas?
Penso,
Era então dia,
Eu é que não via.
As sombras,
Curtas...
Iguais ao tempo que zunia.

XVI - SOBRE A RECAÍDA

     
     Iniciei meu tratamento com Dr. J em 13 de outubro de 1995. Em meados de 2004, tive uma recaída que não ultrapassou o ano de 2005.
     Só agora percebo que eu caí de novo - daí o nome "recaída"- e me levantei sem perceber. Foi um vento frio, mau, que bateu em mim, mas que passou. Feito aquelas chuvas que nos pegam às seis horas da tarde, num tempo tão curto, suficiente apenas para nos molhar até chegarmos ao nosso carro ou entrarmos naquele ônibus. E que, depois, passa. Fica parecendo que nem choveu apesar dos cabelos molhados e da roupa fria.
     Vasculhei a minha memória, tentando me lembrar daquele mal em mim, na entrada de 2006. Nada encontrei!
     Os e-mails trocados duraram apenas um certo tempo, mas a história continuou, é claro!
     Vieram as ondas do mar e me levaram, a partir de 2006.
     Em "Antes, uma carta para Dr. J", eu comento sobre a intensidade com que vivi os anos de 2007 e 2008. E, os dois últimos anos, vivendo em um outro país, me empurraram mar a dentro.
     Eu perdi, ao longo dos últimos quatro anos, qualquer tipo de controle formatado. Por isso, só hoje percebo, ao escrever neste Blog, que realmente me joguei no mar em nado livre.
     Houve tratamento, houve luta, entretanto, eu me levantei num estalar de dedos. E, esse bater de dedos foi tão leve, tão rápido, que nem percebi. De um instante a outro, naquele tempo - segundo - que antecede a minha mão direita lavar a esquerda, parei de prestar atenção à doença que me paralisou por mais de décadas.
     A cicatriz ficou, mas eu tenho muitas outras, internas e externas. São detalhes, contudo, pequenos detalhes. Todas elas são linhas feias que contam as minhas vitórias - e toda vitória é linda! - pois, em todas, eu venci a dor, e, em algumas, a morte.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

XV - Novembro de 2004

    
     Você ainda entenderá que as coisas da vida não são bem do jeito que as pessoas dizem que são: basta querer e fazer, e que querer é poder. Pois eu ando agoniada. Meu rosto voltou a queimar de calor e tenho ânsias de me esconder debaixo dos lençóis e sumir para o mundo e as coisas do mundo. Acordo todas as manhãs com os joelhos na boca. Meu estômago dói.
     Dr.J não me enganou. Nunca me disse que eu me curaria para sempre. Por eu ter guardado a doença por treze anos e ela ter começado tão cedo, certamente dificuldades haveria. Eu tinha três chances: cura total (o que seria um pouco improvável), cura parcial (dosagem mínima de remédios) ou nenhuma melhora.
     Agora, hoje, descobri que caí no segundo caso. Sabe o que é isso? Um retrocesso e você não está nem sabendo. No mínimo, me imagina pulando tranquilamente da nuvem rosa para a azul, no meu mundo que para você é todo perfeito. O céu.
     Eu queria que você soubesse que pessoas com problemas de saúde mental muitas vezes não conseguem e não é porque não querem. Simplesmente não conseguem. Podem até conseguir realizar algumas tarefas, mas à custa de muito sacrifício. Eu me sentia torturada, cansada. No final, após cumprir tarefa, estava exausta, pois o esforço havia sido imenso, intenso e, muitas vezes, infrutífero. Esforço que não compensava!      
     Você então se esconde, não se revela de modo algum. É quando surge o processo de evitação. Evita-se para não viver aquilo novamente; para não correr o risco de ser descoberto; para não sentir o sentimento de impotência que sempre assola.
     Como é que alguém pode ter medo de ter medo? Eu tive. Como é que uma pessoa tão normal poderia ter "aquilo"? Só que eu não fui a única. Não fui amaldiçoada ao nascer. A fada má não bateu a varinha em mim e disse "só você passará por este mal e ninguém mais" e baixou a maldição. É comum, acontece por aí o tempo todo, só eu não sabia.
     Os piores sentimentos são aqueles que ninguém pode ver. Os piores males são aqueles que ninguém quer ver.
     Paguei caro pelo meu silêncio, mas eu só tinha dezessete anos quando tudo começou, e não começou de uma vez só. Será que os meus pais iam entender tanta fragilidade? Será que o pessoal da escola ia entender? E os pretendentes namorados que ora apareciam, ora desapareciam? Eu nem sabia lidar com eles, tinha os receios normais de uma menina. Sexo? nem pensar! Minhas colegas, algumas, já faziam sexo, tão tranquilamente, tão simplesmente!... Um dia, uma colega de quinze anos chegou na escola. Estávamos no primeiro ano científico, no Colégio Santo Agostinho. Sentou-se no banco que havia em frente à sala, onde sempre estávamos, esperando o professor chegar, e disse bem alto para todos nós, um grupo de seis ou oito, dentre meninas e meninos, "gente, putei!". E nós, muito sem graça perguntamos "foi bom? gostou?". E ela feliz e satisfeita nos disse: "Não, mas dei e foi bom porque ele queria, disse que agora será outro homem, deixará a barba crescer." E eu pergunto se, naquela época, poderia contar minhas pobres fraquezas... eu que fiquei chocada com o "putei", que até hoje, vinte e tantos anos depois, lembro-me da cena e do sentimento sem palavras que se apoderou de mim e transparecia no rosto dos meninos, aqueles tontos meninos de quinze anos, que com certeza nem na boca haviam beijado. Eu também não havia beijado na boca e a outra havia “putado” e estava enormemente feliz. Naquela época, eu sofria de timidez. Nada demais. Mas a doença já me espiava, ou melhor, surgia lentamente, deslizando pelas minhas veias, passeando pelas vísceras, acomodando-se feito um gato nas minhas engrenagens internas. Silenciosamente.

terça-feira, 1 de junho de 2010

BAÚ INTERNO

                                              Suzana C. Guimarães

     Sempre escrevi, porém, apenas internamente. Foram poucas as vezes em que eu peguei um papel e uma caneta para escrever minhas abstrações ou  meus próprios conceitos.
     Nos tempos do colégio e na universidade, quando as frases vinham prontas, fluindo tão urgente e precisas que pareciam sair pela boca, eu rabiscava nas últimas folhas dos cadernos.
     Dos escritos da época da infância e adolescência, minha mãe guardou o pouco que encontrou, inclusive minhas primeiras receitas culinárias: "uma ovo, dois colheres de açucar...". Eu guardei somente o que considerei bom ou engraçado, feito as receitas. Mas,  foi tudo um quase nada!
     Neste meu processo interno, eu escrevia frases, capítulos, virava páginas, sem pensar sequer em pegar um lápis ou datilografar algo. Sim, fiz curso de datilografia! Quebrei muita unha em máquinas de escrever. Contudo, a datilografia só me serviu para fazer os trabalhos de colégio, da faculdade e os jurídicos.
     Ao escrever sobre a doença, procuro ser clara, mas não tão óbvia a ponto de enjoar. Acho que tudo explícito demais é chato e feio. O já esperado causa tédio e sono.
     Por escrever para mim mesma, sei que muitas vezes não sou clara. Para ser franca, faço todo o possível para ser obscura. A mim, pouco me importa ser entendida. Li, certa vez, uma entrevista com uma escritora (não me lembro quem!) que dizia escrever porque o macaco subia-lhe às costas. E ele ficava lá pendurado enquanto ela não acabava o tema. Acho que é mesmo um macaco ou algo semelhante que também me impulsiona. Aquele falatório na minha cabeça, de mim mesma para comigo mesma, começou a me incomodar. Passei então a digitar tudo o que me vinha. Vêm frases inteiras ou mesmo um período, sem que eu me esforce. Se eu me esforçar, não sai nada, sequer uma carta para a minha mãe.
     Escrevo para me preencher de satisfação ou para ficar livre do tal macaco. Escrevo o que sinto na hora, ou tudo aquilo que senti antes e guardei na minha espetacular memória. Escrevo para ver se me entendo. Talvez, escrevendo, eu chegue ao amadurecimento de uma questão. Talvez, escrevendo, eu faça confissões que jamais faria ou mesmo encontre aceitação para todos os meus por quês.
     Esse processo de escrever externamente começou há pouco tempo. Acho que foi o acúmulo que lotou a tampa do baú e as letras pularam para fora, afoitas por liberdade. Senti que era melhor esvaziá-lo sempre. Com certeza, um espaço limpo abre as portas para tudo de novo que possa vir a chegar. Ando, então, fazendo varredura. Pouco me importa se a faxina vai levantar dissabores, causar susceptibilidades. Eu não escrevo para você e nem para ninguém, repito: escrevo para mim mesma. Se, nas minhas escritas, algumas pessoas encontram arte, beleza, paz, respostas ou um simples prazer de me ler, confesso ficar enormemente envaidecida. Sou leonina com ascendente em Leão, gosto de plateia, gosto de cafunés no meu ego.  O reconhecimento para mim não é apenas pura vaidade, devo também acrescentar, é também recompensa. As palavras, muitas frases, algumas ideias chegam prontas para mim, mas custa tempo escrever, e me dá dor nas costas, nos olhos; me obrigo a vigiar a ortografia, a digitação, para não ofender muito a Língua Portuguesa e os letrados. E, às vezes, me agarro num período e sinto grande dificuldade para conectar as ideias. Sou uma pessoa que pensa rápido, fala rápido e escreve rápido, e, às vezes, as palavras se embolam.
     Não sei quanto tempo ficarei aqui, publicando meus textos. Outra característica acentuada do leonino é odiar rotina. Por isso, inclusive, vou batendo, enquanto escrevo sobre a fobia de desempenho, ou soprando, enquanto publico textos assim, tão leves e claros que parecem receita de bolo. Ou, por último, vou amornando a minha temperatura quando publico algo feito o encontro de amor do deserto com a noite ou digo que um dia fui água que escorreu pela calçada.
     O baú está aberto!

P.S.: Quando escrevo sobre a doença do medo, aí sim, escrevo de todo o meu coração para você que está doente ou para você que conhece alguém em situação semelhante e quer ajudar.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A MEMÓRIA DA ÁGUA

                                             


Eu era sólida.
Desci, desci,
fui descendo o morro,
o corpo,
na brasa da lava
queimando-se...
Descendo, descendo,
levada,
carregada,
deitada.
Escoada lávica
em velocidade
no declive
em erupção.
Virei água, água,
que escorre pela calçada,
Efusiva.
Do morro,
escorri...
Nas pernas
Da brasa.
Mal toco
Mal tocada
Mal deitada.
Tão lábil.
Virei água
Deitada,
Revirada.
No avanço da escoada,
Água.
E, se água,
acaba.
E, se lava,
acaba.
Mas, e a água?
Cadê a calçada?
Cadê a lava?


Por Suzana Guimarães.

domingo, 30 de maio de 2010

XIV - Junho de 2004


T.O., 10 de dezembro de 1972.

     À minha frente, estava o menino ruivo. Lembro-me das suas sardas, do corpo gordinho e do cabelo cor de ferrugem. Lembro-me, principalmente, do suor que descia da testa em direção ao pescoço. Definitivamente, ele estava em apuros. E eu sabia. Estava atrás dele, imaginando os infernos pelos quais eu também haveria de passar. Eu era a próxima. Ele não conseguia fazer letra bonita no diploma do pré-primário. A cada diploma novo colocado à sua frente, um garrancho cada vez mais feio aparecia. Dona E rasgava a folha com violência, jogava os pedaços ao longe, gritava com o menino e, antes de bater a cabeça dele na carteira, dava outra folha para ele “assinar”. O ruivinho chorava e suava. Eu, sentada no chão, esperava a minha vez. Ainda me lembro da cena. Estávamos sentados em círculo. Ela ia chamando um por um. Não me lembro de nenhum outro aluno. Nem sei se fui a última. Eu era apenas a seguinte. Espera  infernal. Eu sentia angústia, sensação de vazio, como se eu, de repente, tivesse perdido pai e mãe. Senti solidão, porque eu não podia falar nada. Não havia como protestar. O que era protesto? O que era um bando de crianças de cinco ou seis anos diante de uma mulher robusta, autoritária e dona da escola? Eu era o nada. Era uma criaturinha pequena, muito pequena, franzina, de cabelos curtos, sem muita beleza. Eu não tinha a beleza de cabelos longos, lisos e louros que vi despertando carinho de professoras. O mundo todo se resumia naquele instante. Não havia mais nada no mundo. Só aquele lugar, com aquela professora e aquele papel. Não me lembro dela me chamando. Só me lembro da espera. Lembro-me de estar sentada na carteira, a folha chegando, e eu tensa, dura, mal respirando, escrevendo meu nome. Escrevi devagar, bem devagar. Lentamente. Posso ler, hoje, a assinatura trêmula, pequena, alinhada com pressão no papel. Meu nome escrito de forma bela. Mas que eu acho triste. Formiguinhas pretas e miúdas numa cartolina grossa, amarelada; que minha mãe guardou por anos a fio, sem se importar de estar guardando. Apenas transferindo de gavetas para caixas e de caixas para gavetas ao longo dos anos e de nossas inúmeras mudanças de cidades. Lembro-me que o tempo do meu escrever não foi eterno, mas, quando terminei, estava cansada. Antes não ter acertado da primeira vez, só para poder irritá-la. Mas, eu era criança. Era uma menina que levava leite achocolatado e biscoitos de maisena na merendeira. Que tinha amigos na escola, mas adorava também brincar sozinha. Que queria muito aprender a ler, bem rápido. Eu era uma criança de seis anos.

sábado, 29 de maio de 2010

XIII - Maio de 2004


     Após a cura, ou melhor, a partir do tratamento, vêm as revoluções. E, depois do revolver interior, tão solitário e pessoal, não se volta atrás.
     Mudei muito e R não. Sem a minha cegueira e a tortura paralisante, passei a vê-lo como ele realmente sempre foi.  R mudou pouco, é quase o mesmo da época do nosso longo tempo de namoro. Dr.J disse que ele teria que se adaptar à nova pessoa que estava ao lado dele, senão adeus casamento. E ele fez e faz de tudo para que continuemos juntos. Mas há peculiaridades em cada um de nós que são tão entranhadas que não percebemos o tanto da sua gravidade e cometemos erros, ou mesmo esquecemos que o outro pode não gostar.
     A frieza de R é herança genética, e, coitado, nem ele pode com ela. Frio, mas irascível em certos momentos. Ele tenta melhorar, mas vive caindo no mesmo tropeço. R é uma rocha  fria e dura. Tínhamos vinte e um anos quando nos conhecemos e começamos imediatamente a namorar. Conheci R numa época em que eu tinha certeza das minhas dificuldades. Época da total consciência da minha doença. Pensei várias vezes em contar tudo para ele. Dizer que eu não entendia o que acontecia comigo, que queria muito conseguir fazer o que ele, e todos, faziam. Mas eu preferia que ele me visse bela e perfeita como imaginava ele que eu fosse. R era um desinfeliz em seu mundo familiar. R queria toalhas de mesa estendidas para um café ou um almoço. R queria menos filosofia. Mais contato físico. Menos teses. R também não havia se dado bem com as mulheres. Engravidou uma mulher que não era sua namorada, na primeira trepada, e então foi pai, aos dezenove anos. Ele vagava num mundo irreal. De realidade, só havia os empregos que batalhava para conseguir e conseguia. Sem muita ajuda de terceiros. Sem compreensão de ninguém. Ele era só. Se sentia só. Sabia o que queria, mas desconhecia a comunicação, apesar de nascido numa família bastante letrada. Considero a carteira de trabalho dele um de seus orgulhos. R precisava de mim. Eu tinha uma família, que, apesar das idiossincrasias de cada um, vivia muito bem. Unida, amorosa e forte. E, com toalhas estendidas durante as refeições. Um grupo forte para viver todas as dificuldades, todos os infortúnios. Minha família é a colcha de retalhos de tecidos extremamente ímpares, quase que impossível de se juntarem. Tecidos ásperos que se unem a sedas delicadas. Estampados que não se encaixam. Formas opostas. Porém, tudo muito bem costurado, pela minha mãe. Como ela conseguiu cerzir com tamanha habilidade, talvez um dia, quem sabe, eu possa descobrir. Minha família não é aquela que deu certo. Será que existe essa espécie? Será que existe aquela que deu certo? Entretanto, as costuras nos prendem, os cerzidos nos marcam de forma irretornável. E foram muitas as pequenas emendas, que minha mãe gastou tempo e reza, até fazê-las parecer poesia. Eu era a namorada dos sonhos de R:  bonita, inteligente e estudiosa. Por influência minha, ele estudou muito, fez amigos, conheceu aquilo que seria uma verdadeira família e eu não ia decepcioná-lo. Nem a mim mesma. Contar para ele seria impiedoso à minha pessoa. Eu precisava de R. Então, com ele, me tornei completa, uma bola fechada, totalmente preenchida, não mais linhas pontilhadas. Não mais uma paisagem solitária, com amores furtivos e deselegantes. Eu tinha um namorado vinte e quatro horas, que não me questionava nada e punha as mãos em mim na medida que eu queria. Você comentava o tanto que ele era presente. Lembra-se das constantes idas dele à universidade? Chegava ao ponto de assistir às nossas aulas. R estava em todos os espaços da minha vida. Nos espaços vazios também. Enfrentei o mundo para ficar com ele. Minha família considerava-o problemático demais. Meus irmãos tinham ciúmes dele. Minha mãe ora o aceitava, ora o rejeitava. Meu pai parecia gostar dele, apesar de nunca se pronunciar a respeito. A família dele nunca me aceitou de forma plena. Creio que eu descia pela garganta dos pais de R de forma espinhosa. É, eu devo ter sido o ouriço-do-mar que eles tiveram que engolir. As omissões, as palavras e as atitudes dos pais de R mostravam de forma clara para mim, que, para eles, R deveria ter ficado com a mãe do primeiro filho, aquela que ele sequer considerou uma namorada. Mas não fui eu quem os separou. Separou? Como separar o que nunca se juntou? Eu o encontrei livre, sem qualquer tipo de compromisso com outra mulher. Jogado numa lata de lixo, alvo de reprovações pela paternidade fora de hora. Cuidei dele. E ele de mim. Demoramos a casar por causa do meu medo, mas eu apenas dizia que ainda não era tempo. Eu comandava o tempo certo de todas as coisas. Eu gostava de me encostar naquela rocha fria e dura e esquecer da vida. Das minhas dificuldades. Dos meus medos. Com ele, eu podia muita coisa.
     Nós nos casamos, um ano após eu me encontrar com Dr. J. Naquela época, falei sobre a minha doença e ele entendeu tudo com tamanha compreensão que eu me deliciei. Contei para ele toda a minha história, numa noite, num bar, no mesmo dia em que fui pela primeira vez ao consultório de Dr.J. R passou a ser o meu cúmplice. Alguém que me tirava das situações embaraçosas e, para isso, até mentia. Ele jamais falou de mim, por mim. Se eu quisesse me explicar ou não, era decisão só minha. R fez o silêncio que se espera de uma rocha.
     Entretanto, ele tinha o hábito, que aumentou com o casamento, de não acreditar em minhas dores físicas. Acreditou na fobia, mas se recusava a acreditar em mim quando eu dizia estar sentindo alguma dor.
     Mas, esse assunto, vou deixar para outra ocasião.
     Hoje, estou cansada.
     Este e-mail é para eu me explicar melhor, pois, naquele churrasco em que nos encontramos, eu reclamei muito dele com você. Aproveitei os chopes para desabafar. Mas, eu não sei se você compreendeu-me. Primeiro, porque foi muita informação de uma vez só. Segundo, porque você bebeu mais do que eu.
     Este e-mail, vou enviar. Não ficará junto com os tantos outros que deixo guardados na pasta dos rascunhos. Lá, onde ficam os esboços de uma Suzana que poderia ter sido. E seus esboços, traçados por mim, também!
     Boa noite! Beijos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

XII - Março de 2004



     "Gostei de três mulheres - feito a música, ao contrário. A primeira preferiu ficar com a família dela. A segunda, tinha que cuidar da mãe. A terceira, dos filhos. Fiquei então com as outras, com as que cabiam em mim. Elas queriam viver aquilo. Elas gostavam do jeito que era. Se ficavam, é porque gostavam.
     Que bom! Não tenho mais complexo de inferioridade. Eu tenho baixa autoestima!
     Eu poderia ter um carro grande, uma moto grande... mas não tenho. Eu poderia ter a mulher que eu quisesse, mas não tenho.
     E fica assim. Ponto."
     
      Lembro-me da universidade. Você e a P colavam de mim em Direito Constitucional e, na última prova, que valia trinta pontos, você copiou algumas coisas e foi embora. Disse que eu escrevia demais. Eu disse para você não ir. A P e eu fomos para o próximo período, fazer a matéria seguinte e você foi reprovado. Não é de hoje que você teima em não me ouvir. Falo demais, escrevo demais, critico demais...
     Você não sabe, mas cortei o cabelo, bem curto. Curtíssimo. E a tolerância foi com os cachos... palavras de R.
     Elis Regina disse: "quando cortei o cabelo bem curto, descobri a minha cara".
     Ele está cortado há mais tempo que a descoberta dessa fala da cantora. Cortei aos poucos, na medida em que fui sarando, sem perceber, sem voluntariedade. Todo mês, um pouco. Porque eu também me encontrei, feito a moça, e dizem que mulher quando quer mudar de vida, corta, pinta, faz permanente, aplique, o que for preciso. E eu fui mudando tanto que ficou faltando cabelo para eu cortar. Os cabelos tampavam a verdade diante do espelho. E até quando passo as mãos nele, eu gosto. Pouca coisa para pegar. A cura trouxe o desprendimento de muitos preciosismos. Você começa a querer encher menos a mão. E a cabeça, por consequência.
     Adoro as suas respostas "okay, ponto". Apesar de querer esganá-lo em outras muitas vezes. Mas eu não posso torcer o seu pescoço, mas posso provocá-lo com as minhas palavras. E, observação, não ligo nem um pouco se você se importa ou não. Como dizia o meu pai, papel aceita tudo. Você aceita se quiser, se for um papel, ou querer  brincar de ser. Depende de você. Lanço a flecha e você que corra ou não corra, faça o que quiser. Com a cura, também deixei de me importar com a opinião alheia, nem sua e nem dos amigos. Me importo apenas com o que penso de mim mesma e com o que Deus pensa de mim. E também não me importo se você chama Deus de "aquele cara". Tenho certeza de que Ele também não se importa com o que você pensa dele.
     Sua última namorada! Para mim, o namoro era apenas a ressonância de seu próprio vazio. Tantas mulheres e nenhuma! Tantas camas e uma estreita e seca em sua casa. O sinal do oco que você se nega a preencher. Nada que o identifique. Nem um quadro na parede ou um origami para o denunciar. Nem luzes, nem cheiros. Apenas o seu suor de macho que busca a antiga cortesã. Ah! Porque eu sei que você, nas caladas das manhãs, num tempo curto demais, que não se pode e deve contar, você busca o velho corpo, distante um tempo suficiente longo de você. E você se satisfaz com a furtividade da coisa. Como se fosse boa a amplitude do nada. 
     Você deveria aceitar conhecer algumas das minhas amigas. Mulheres que o conduziriam delicadamente de encontro a si mesmo. Mas você tem medo. Mas você não quer. Não aceita. Rejeita, como um dia rejeitei procurar Dr.J. Você poderia descobrir espaços alagados dentro de si mesmo, longe do corpo grande e árido. Lá onde um dia deixou depositadas esperanças e sonhos. Por que será que a gente resiste a ser feliz?
     Você me disse um dia, lembro-me bem, e foi pessoalmente, que não havia nada, nada mesmo entre vocês. Eu entendi: não havia amor, tesão, desejo. Havia um namoro tão-somente. Às vezes penso que sonhei, imaginei você ter falado isso. Mas falou sim. Você estava sentado no sofá da casa da sua mãe, eu numa cadeira, daí você disse isso e se levantou e foi para a cozinha. Sua eterna mania de falar e sair andando, como se não tivesse falado coisas importantes e deixa a gente com a sensação que alucinou de vez e anda ouvindo demais.
     Com suas mulherzinhas você só faz sexo. Você não beija na boca. Beijar na boca é mais que o ato em si. É uma arrebatação: o meu feliz eu e o meu infeliz ego se abrem no peito, quase que explodem. É mais fácil fazer sexo que beijar na boca. Viver é beijar na boca. É se arriscar, é ir além, é sorver o desconhecido.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

7. BATER, SOPRAR E TORNAR MORNO

Para você, Carina.

     Sou uma pessoa que lê tudo, tudo mesmo! Jornal velho e rasgado sujo de urina de cachorro, bula de remédio, papel de bala, avisos pregados nas paredes, rótulos... compulsivamente. Leio coisa boa e coisa ruim! Leio por ler, por vício. E, nessa mania que começou na infância, sei, já no início da leitura, se é coisa que presta ou não. Não. Não sou formada em Letras e nem crítica de qualquer coisa, mas eu sei o que presta para eu ler. Às vezes, leio do fim para o início ou do meio para o início... procurando frases ou palavras que me fisguem. Depois leio tudo e, se for bom, leio de novo. E posso vir a ler mais e mais vezes porque gostei da batida. Para mim, uma boa leitura é aquela que possui cadência. Bate e sopra, bate e sopra. E a batida tem que me levar...
     Encontrei uma pessoa num blog que escreve muito bem. Fiquei fascinada! Ela parecia ler em mim coisas que escrevi com muita dor em meu coração. Entretanto, senti num determinado instante que havia algo estranho e acabei percebendo que ela só bate. E a batida é pesada e forte, feito aquele tambor grande, o surdo, que de surdo não tem nada. Bate estalando os dedos, eu poderia ouvir os estalidos. E daí passou o meu encantamento.
     Não dá para escrever sem um momento de leveza, não dá! Ninguém apanha tanto, todo dia, que não lhe venha um sopro morno para lhe livrar da tortura e do desespero. Antes de imergir na língua Inglesa - e eu ainda não consegui o mergulho profundo ou mesmo aparente, pois vago perdida na superfície - eu não gostava de gente e coisas mornas. Morno para mim significava uma pessoa totalmente sem graça, bege ou gris. Uma coisa chatinha, bonitinha. Para mim, tudo e todos deveriam ter cor ou nenhuma. Contudo, aprendi com os americanos a gostar do morno. Há muitas coisas mornas e gostosas. Minha filha no banho sempre diz, "Tá quente, mamãe" ou "Tá frio, mamãe", ela nunca reclama, "Tá morno"! Quando está morno, ela se senta na banheira silenciosamente. Os americanos usam a expressão housewarming , para aquilo que seria o nosso "chá de casa nova". Para eles, a casa nova será abraçada, acariciada, amornada de amores dos amigos. Muito lindo isso!
     Penso que mesmo aqueles que sofrem dor cruel ou qualquer tipo de violência conseguem sentir os ventos mornos dos espíritos de Deus ou mesmo do Espírito Santo a lhes acalentar, diminuindo-lhes o sofrimento ou mesmo extinguindo-o. Feito uma capa invisível que coloca o corpo e a alma sofridos num patamar acima do mal. Embrulhada numa névoa morna, a pessoa sente menos ou deixa de sentir. E o sopro da Vida não poderia ser quente ou frio porque dói ou assusta.
     Essa pessoa a qual me refiro, se esquece, ao escrever, de soprar. Talvez, quem sabe, ao soprar uns ventos mornos ou que fossem frios ou quentes, mas fossem sopros e não somente batidas, ela encontrasse mais beleza na vida, nela mesma e nos outros? Talvez esteja faltando ela apenas soprar.
     Gostei de muitos dos seus textos, Carina, porque você bate, mas sopra. Ontem, bateu com força. Hoje, abriu o baú da família do marido e me fisgou já nas primeiras linhas. Eu pude ver o azul dos olhos do bisavô, a '"véia" mostrando onde estaria o pelo e vi inclusive, você perambulando pelos túmulos atrás do cantinho dela. Cheguei a ver as flores que você colocaria de presente ao fazer pedidos para a "santa".
     Eu li o seu texto, do início ao fim e depois, li de novo. E posso voltar lá novamente para ver se deixei passar algo.
     Bom, primeiro eu postei um comentário abaixo da sua publicação e depois fui fritar bifes, cebolas e tomates, e, enquanto fazia isso, fiquei pensando em coisas mornas, olhares mornos, uma tarde na Bahia morna, um chá morno. Infelizmente, a água morna e o café morno justificam o mau uso da palavra. O dicionário diz que morno é tépido e, também, coisa sem energia, frouxa! Pois bem, então coloquemos menos energia nas coisas, sejamos mais frouxos. A dureza pode estafar. A moça do blog deveria tentar a inércia, o exercício do querer menos ou nada mesmo. E é geralmente nessas horas que o nossos desejos se realizam!
     É melhor se deixar balançar na tarde morna de um país calorento, espantando moscas.


P.S.: Eu, por pudores, deixei de postar esse comentário em seu Blog porque considerei uma invasão. O comentário tomou ares de redação de vestibular, quando não se contam linhas, se é que isso é possível. Vou deixar postado aqui no meu blog. Mas, é para você, Carina, as minhas conjeturas a respeito de bater, soprar e tornar morno!

terça-feira, 25 de maio de 2010

XI - Março de 2004

      

     Sim. Você não cobra das suas mulheres. E eu sei a razão. Você não cobra porque você escolhe apenas as mulheres que cabem no seu tamanho. Mulheres que não possuem suas próprias medidas nem para estar com você e tão pouco em suas próprias vidas. Pobres mulheres desorientadas! E você se sente à vontade. Não precisa pensar no que falar, no que vestir, no que explicar ou mesmo se comportar, não é?, você aparece quando quer e na hora que quer. E você não passou a vida fazendo isso apenas com as suas "grandes amigas", fez com os amigos também. Marcava encontro e não aparecia. Você não sabe que eu sei, e nem deve se lembrar deste fato - lembra-se de quando me disse "memória seletiva"?- certa vez, se encontrou com uma amiga no clube. Disse a ela que havia filhotinhos em sua casa, filhotes dos seus cães. Ela foi com você ver os cachorros. Quando chegaram na casa dos seus pais - você ainda morava com eles - você a deixou vendo a ninhada. E deixou mesmo! Sumiu. Saiu pela porta da rua sem ao menos dizer adeus. E foram muitos os amigos que sofreram em suas mãos. O homem que sumia! Quantas pessoas você deixou esperando-o ?
     Porque a sua preocupação é sumir com o feio que você pensa ter. Porque você se sente um homem de mau gosto, que não deveria ser tão alto, que não deveria ser do jeito que se vê no espelho: suas mãos, seus pés, sua pele, sua altura, tudo é uma carga que você carrega mas não queria ter que fazê-lo. Você gostaria de arrancar tudo e refazer, renascer; como se a vida fosse tomar outro rumo no momento em que você se dispusesse de tudo isso, mas são coisas indisponíveis e ninguém consegue se dispor das suas origens.
     No começo, quando nos conhecemos, eu pensava ser você um indiferente, alienado. Com o passar dos anos, eu via desprezo em seus olhos, no jeito que dava as costas e partia. Mas, eu estive em contato com Dr. J por longo tempo e aprendi muita coisa. Aprendi muito também enquanto meu mundo girava em torno do meu umbigo. Eu mantinha atenção fixa nele, no meu umbigo, e acabei por descobrir as minhas idiossincrasias e as alheias. Nós jamais seríamos um casal feliz. Somos opostos: você tão grande por fora e tão pequeno em seu "complexo de inferioridade"; e eu, tão pequena por fora e enorme por dentro. Dr. J me ensinou que está fora de moda a expressão "complexo de inferioridade ou de superioridade". Hoje, se fala em alta autoestima ou baixa autoestima.
     Como é que pode? Estranho, não é? Depois de tudo que lhe contei, como é que eu poderia ter alta autoestima? É claro que Dr. J não me disse isso no início do tratamento. Ele esperou o meu tempo de maceração. Esperou que eu afrouxasse os nós, desfizesse os laços, me entregasse às minhas próprias descobertas. Porque eu já não era um ser sozinho vasculhando o meu umbigo entulhado de dogmas ou incertezas. Eu era um ser acompanhado por alguém que sabia o que estava fazendo. Como dizer para uma pessoa doente, angustiada e mergulhada em dúvidas e revoltas íntimas; sufocada durante anos pelo sentimento de medo, repleta de desacertos e insucessos, a verdade de que ela mesma se jogou naquilo? É claro que eu já sabia tudo sobre noradrenalina e seus desequilíbrios, já estava ciente de que eu tinha um mal físico desencadeado por uma desordem nas minhas fibras nervosas. Quando ele me fez a revelação, eu já sabia e ele sabia que eu sabia. Eu não podia chorar, senão era fraca; eu não podia pedir porque significava humilhação; eu não podia abraçar porque o meu trono era mais no alto e ficava difícil descer. Eu não me permitia letra feia, nota feia, cara feia. Precisei alcançar o tempo da compreensão. Entender que eu era apenas uma pessoa que podia ou não pecar, podia ou não ter certezas, mas eu continuaria sempre do mesmo tamanho com a mesma qualidade, não importando as minhas escolhas. 
     E você? O que é que você tem? Por que é que tem? Nós dois sabemos. Repito: você tem sentimento de inferioridade. Muito engraçado. Nós em polos opostos. Nossa velha antagonia. Estamos nós, no meio de dois fenômenos psicológicos aparentemente opostos e antagônicos. Porém, num certo momento, eles quase que se igualam, pois os resultados e consequências são parecidos. Quando eu fiz a análise grafológica da sua letra, você confirmou o que eu disse. Mas parece apenas tudo muito teórico, não? Mas não é. Você, quando esnoba as mulheres, parentes e amigos, não dizendo aonde vai, porque vai, não se importando em descumprir sem avisar compromissos previamente marcados e dados como certos; quando você parece guardar mistérios, e se faz calado, de poucas palavras; quando você não responde de forma clara, diz coisas andando, sem olhar nos olhos; quando você sai por aí sem dar ouvido a conselhos amigos de pessoas sensatas; quando você demonstra preciosismo para com você mesmo, você na realidade está tentando esconder sua baixa autoestima. Então você demonstra superioridade. Mas não convence a mim. Na realidade, você faz tudo de tal forma para parecer que é o mais perfeito, o mais amigo, o mais leal, o mais amoroso, o mais atencioso. Que você não tem rachaduras na alma. Porque você, assim como eu fui, não quer ser revelado, posto às claras para todo mundo ver. Eu só podia mostrar belezas. Você não pode mostrar feiuras. Não pode deixar o outro ver que você se sente do tamanho da sua letra: minúsculo. E assim, permanecemos iguais.