terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eu escreverei palavras de amor

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)



Antes que a morte me alcance; ou a você.
Antes que anoiteça e eu renasça melhor, mais leve e mais bela, independente...

(Antes do passo do homem mau
e da paciência do bom em desfazer esse passo...)

Eu escreverei palavras de amor.

Eu escreverei palavras de amor para você para que a gente se salve, para que as mortes não nos assustem mais; antes que você perceba que tudo é em vão e essa é a ideia principal

E que, por ela, é que a gente vive, pelo nada.

Então, por nada, para nada

Eu escreverei palavras de amor. Beba-as.



Suzana Guimarães

sábado, 19 de novembro de 2016

sobre a foto que se apaga...

(Fotografia por Luís Roberto G. Meneghini, por celular)



Expira suave, expira... calando-se em novembro, morrendo neste outono... das estrelas, dos infernos, das estradas, do ponto parado no infinito de todas as ideias. Expira suave, declina-se. Vai tão lento, tão infinitamente amado e desejado e dezembro o engolirá; suave.


​Bafeja. 




Suzana Guimarães​

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Era a vida valendo a pena.

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

Naquele tempo, o óbvio pautava nossos dias. O fundo da casa de dois andares era separado do grande quintal vizinho por um muro baixo. Naquele terreno ao lado, havia uma enorme mangueira, sempre lotada de mangas que pessoa alguma parecia colher, e havia ao pé da árvore um cachorro Pastor Alemão. Ninguém se atrevia a pular o muro e a vida transcorria. Não havia sofrimento ou mesmo algum pensamento mais forte sobre; era apenas um fato. 

​Não sei quando aquele cachorro ficou velho e passou a ser apenas presença. Não sei se foi substituído por outro e depois mais outro - eu ia lá somente nas férias. 

Não sei quando passamos a não mais olhar as mangas e o cão. ​

​Certa vez, alguém comentou que 'ele' não estava mais lá, mas ninguém acreditou. Alguns diziam que provavelmente ele apareceria surgido de algum canto daquele enorme terreno quase abandonado. 

​Não sei quando o desejo de todos por aquelas mangas passou. 

Não sei quando, mesmo passando ao lado, eu já não via mais aquele muro.

Não sei quando a gente perde a simplicidade de apenas ser. Hoje, não me bastariam aquela casa, o muro, as mangas e o cão. Nem os primos, muito menos as férias... - apesar deste álbum de fotografias imaginário conceder-me um certo frescor. 
Não me bastariam porque eu lotei a mim mesma de coisas vãs enquanto buscava o sumo em frutas nascidas no balcão do supermercado.


Suzana Guimarães