terça-feira, 29 de dezembro de 2015

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

QUE EU...

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Que eu fosse limitada, melhor palavra, burra. Que eu me calasse, apenas ouvisse, jamais contestasse. Que eu sentisse pudores de meus erros, vergonha por não saber... Que eu deixasse as ofensas debaixo das toalhas das mesas e me cegasse para o prazer da carne. Que eu fosse submissa, jamais debochada, nunca tão clara e vidente. Que eu me comportasse diante dos machos e das convenções. Que eu soubesse fechar bem os botões e dobrasse as pernas e dobrasse a língua... Que eu fosse outra. Que eu vestisse a roupa a mim ofertada... Porém, fui e fiz do jeito que eu quis. Não nasci para ser enfeite. 

Não sou galho de flor seco que adorna aparadores.


Por Suzana Guimarães




(Nota: originalmente publicado em 25 de julho de 2013, no Facebook e em 

http://omedodesuzana.blogspot.com/2013/07/que-eu.html)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015



Então, Deus falou:


_ Eu lhe darei vida e morte. Contarei no relógio de vocês. Em doze meses, você, Suzana, você viverá como se tivesse sido o triplo de doze. Você ficará nua, irá se banhar em muitas águas, caminhará até para trás, mas, no final desse tempo que lhe dou, você largará toda a bagagem porque muito do que se leva é somente falsa impressão, contudo, pesada. Eu a quero, Suzana, sem malas, malinhas, maletas. 

Eu a quero verdadeiramente leve atravessando o tempo e assim será.

(arquivo pessoal de SCG)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Só os fortes têm coragem de desistir #2.



(arquivo pessoal de SCG)


Você desiste quando não há mais respostas; internas. No fervor tudo se transforma, água para vapor, basta único filete de lava, uma coisa qualquer e você continua ou permanece. 

Só os fortes desistem porque somente esses conseguem conter a fúria, o desejo, a volúpia e isso dura anos que, num piscar de olhos, parece ontem. Importa nada qualquer pergunta porque todas as respostas se foram.

Você olha o mundo com os olhos parados, nem as órbitas se movem. Tudo é sossego e calmaria. Frieza. Daí você não quer mais e isso nem machuca. 

Foi assim quando eu desisti. Todas as vezes. Ninguém irá lhe socorrer porque isso é interno e opaco. 

É um raspão no vento. Um lance só; coisa de único movimento.

Ninguém vê, nem você, mas você sabe.

E caminhará com essa descoberta de morte. Tudo então será só recordação de um tempo em que você era outro. Agora você é novo. Se houver perguntas serão outras. 


Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

SOBRE LIBERDADE e cérebros que saem do lugar.


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Quem é mais feliz, o libertador ou o libertado?

Audácia minha tentar uma crônica sobre isso, ainda mais por ser a felicidade algo puramente pessoal, íntimo e mutável (sou feliz hoje e amanhã posso acreditar justamente no contrário, estando na mesma situação).

Quem é o mais realizado, então, já que posso usar outra palavra?

Quem abre a porta e diz, "Pode ir", quem bate as cartas na mesa e diz, "A verdade é que estou blefando!"? Quem é o mais pleno, o que ultrapassa a soleira da porta e ganha a liberdade ou o dono da chave? Seriam os colegas na mesa de jogo? Ou o mentiroso?

Eu não sei a resposta. Eu não sei mais muitas coisas porque venho perdendo-as pelo caminho - aquilo tudo que eu carregava -, como se meu cérebro tivesse saído do lugar. 

A minha mãe, ao telefone, disse-me isto: "Com a experiência, parece que não temos mais espaço para certas pessoas e suas idiossincrasias e por isso as deixamos, simplesmente porque nosso cérebro saiu do lugar e passou a funcionar de forma diferente. E essa "saída do lugar" é irreversível.".

Meu cérebro moveu-se. Ele não pensa mais como antes, da mesma forma que o universo desalinhou-se quando aconteceram as duas bombas atômicas. O movimento foi quase imperceptível, mas ocorreu, assim comigo. Não sei precisar data. Às vezes, penso que foi após a morte do meu pai e ele me deixar a herança de que se deve desejar viver até a pele trincar no osso, mesmo não tendo mais apetite, mesmo todo machucado, mesmo nem sabendo mais o seu nome. Viver! Isso eu lia em seus olhos o tempo todo. 

Por causa dessa mudança na posição do meu cérebro, eu poderia inclusive refazer toda a minha documentação e trocar de nome.

Você que me lê, poderia ajudar-me? Quem fica mais completo, quem ganha mais? Ou seriam os dois, cada um do seu jeito? Mas se falo em duas pessoas ou mais nunca terei igualdade de resultado. Cinquenta para um, cinquenta para o outro. Aquela coisa do "ficamos empatados"! Gente é matéria humana, não exata.

Se me apertarem um pouco, eu poderia dizer que quem ganha é o libertado porque o libertador tinha tudo, mãos cheias; o outro, não.

Mas há libertados que se dizem reféns, e, mais tarde, percebemos que a situação verdadeira era inversa, e que, ao se desfazer o laço, quem tinha as mãos cheias era o libertado, mas essas eram preguiçosas.

Acredito que, quem mais ganha é aquele que ganha, com a liberdade, a verdade; ou, quem ganha, com a verdade, a liberdade.

A frase acima parece dizer a mesma coisa, mas não diz. Só não vou explicar porque, como eu disse, meu cérebro saiu do lugar e ele cansou de desenhar para os outros entenderem.


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

ANO QUE VEM



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Espera a hora certa para todas as coisas, não! Não existe o melhor momento, a melhor festa, o dia perfeito e adequado. Amanhã, com certeza, estaremos todos mortos!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Os ventos sopram para onde bem querem...

(desconheço autoria da imagem)



Os ventos sopram para onde bem querem. A palmeira à minha frente é tão alheia... Esguia, balança-se superior... imagino seu tombo, penso em ventos fortes, da janela do meu carro tenho todo o tempo do mundo, todas as maldades e vontades de destruição... Mas a palmeira, apesar da sombra que dá, apesar da beleza que proporciona, inclusive alimento e abrigo para esquilos e pássaros, é partícula ínfima do todo e não sairá nem um centímetro do seu lugar e ela ainda ri das minhas tolices e grita junto com as maritacas, "Louca, louca, louca...".

Os ventos sopram para onde bem querem e essa palmeira, especialmente essa, que observo num sentimento de admiração e de aprendiz diz-me que os felizes nem sabem de ventos com suas rosas...

Pouco importa, norte ou sul, o mundo é um só multiplicado por ele mesmo.


(suzana guimarães)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Não adianta jogar comigo. Eu não sei jogar.



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


(por SCG)


Eu não escrevo com extrema perfeição, contudo, bem melhor que muitos dos meus pares. Gostaria de fazer duas considerações:

1. Quando eu peço, comento ou recomendo uma escrita mais correta, não estou pedindo isso para mim, mas para o mundo. Entendo tudo, por mais errado, truncado ou incluso. Entendo até demais.

2. Comentam que minhas crônicas são escritas no Imperativo. Não são! Escrevo no Presente do Indicativo. O fato é: o brasileiro conversa o tempo todo no Imperativo, pensando estar sendo mais cordial e doce. Ele troca um pelo outro. Para ele, os verbos no Presente do Indicativo são mandatórios. O problema é: verbos na língua portuguesa são difíceis e a grande maioria também não quer aprender.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

SOBRE 2015


(por SCG)

2015 foi um ano bem pouco meu. Fatos importantes e sérios relacionados às pessoas que amo calaram-me bastante e eu pouco ri. Essa falta de riso chegou a incomodar-me. Mês após mês, desde janeiro, eu lutei para manter uma certa fleuma e consegui. Comprei em Belo Horizonte, no meio do ano, um ímã da Mafalda com a palavra "Concentração" escrita bem grande, comprei para deixar na porta da geladeira e diariamente firmar nisso, na capacidade que temos e podemos de controlar o externo e nós. Não controlar com absoluto afinco, mas pelo menos, com certa elegância. Então, eu saía pelas ruas "no salto". Nas duas vezes em que bateram na traseira do meu carro, eu saí do carro de forma calma, mas sempre houve, em todas as ocasiões a postura planejada, contida, sabe quando o corpo fica todo elegante para entrar em um ambiente requintado, em uma festa? Parece até que eu respirava menos. Parecia estar de cinta. Parecia que eu me sentava feito bonecas arrumadas na prateleira: pernas bem juntinhas. Minha fisionomia era o tempo todo de poucos amigos, ou melhor, de amigo nenhum. O que me faz sorrir hoje é que eu venci a tudo. Eu venci porque eu soube lidar, só isso. Nem tudo ficou como deveria ter ficado. Nem tudo se transformou em flores eternas, postas num vaso de porcelana das mais finas. Tudo continuou da forma que a vida é: flores morrendo, apodrecendo, secando e outras tantas nascendo. Apreciei muito todas as que caíram inertes no chão porque adoro a realidade das coisas e das pessoas. Apreciei mais ainda as flores que eu mesma ressuscitei. É, com certa ajuda dos astros, do universo, sei lá do quê - coisa chata isso de ter que ficar denominando tudo! -, a gente pode realizar milagres já que milagre é tudo aquilo que a gente pensa ser impossível e acontece.

Não farei lista para o ano que vem. Mergulho nele como se mergulha a caneta em uma folha de papel das mais alvas e deixa a tinta fluir...


Suzana Guimarães.



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães - fevereiro de 2015)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Só os fortes têm coragem de desistir.


(arquivo pessoal de SCG)

Segundo o dicionário, desistir significa: “Renunciar; não prosseguir em um intento, abrir mão voluntariamente de (algo); abster-se, abdicar e também deixar de estar ligado a (alguém).”

A primeira vez em que renunciei conscientemente foi quando eu tinha menos de vinte anos e renunciei a um namoro que agradava a todos, menos a mim. Lembro-me bem da cara de espanto da minha família (ele fez questão de contar antes) e da minha estranha sensação de inadequada e errada. Ninguém me obrigou àquele namoro. Na realidade, foi tudo planejado porque eu queria estar igual a todos os meus amigos, isto é, namorando, e só.

Fui olhada como a um animal raro, excêntrico e mau. 

Meses depois, meu pai, que nunca havia se pronunciado sobre, enquanto todos almoçavam, disse, “Parabéns por ter terminado aquele namoro. Aquele sujeito é muito burro”.

Poucas vezes, eu renunciei. Não é fácil renunciar e isso significa abrir mão de algo ou alguém importante para você.

Até escrever sobre é difícil, pois tenho que renunciar ao desejo de agradar.

Eu já renunciei à profissão sonhada, ao meu país... Renunciar ao país significa deixar para trás, sem ânimo de retorno, a língua, a comida, a família, os amigos, alguns costumes, os títulos, os anos de caminhada – o conhecer; significa cortar as relações sociais e profissionais (nenhuma rede social consegue suprir isso; nem mesmo a antiga e velha carta). 

Renunciar à profissão pode ser faca cortando para sempre, devagar, serra cega. 

Desde sempre, eu ouvi dizer que só os fracos desistem; que quem é forte teima e consegue e ganha a taça da vitória. Aos fracos ficam as desistências...

Pois eu, sem pestanejar, digo que estou renunciando. Serei maldosa e não direi ao quê renuncio. Direi apenas o que sinto: já não me importam a flor singela que nasce entre as frestas do concreto, nem o vento que traz notícias; não me importam mais todos os sinais. Eu não me atrevo mais, pego o que incomoda e sufoco até a morte, e escondo qualquer sinal disso ter feito. Parecerei alheia, sublime, altiva e esperançosa. Parecerei. Com o passar do tempo, acostuma-se.

Renunciar é encarar o rosto do outro balançando-se negativamente. É se sentir um perdedor, é ser o perdedor! Renunciar porque escolheu outro caminho não é renúncia. Renunciar – aquele que faz doer - , para mim, é dispensar, descartar, desistir para sempre. Se é desistência para retomar após um ano ou mais é tanta coisa... é leviandade, preguiça, redirecionamento, esperteza, burrice, maluquice, jogo, ardil, ou simplesmente, desejo de aventurar-se.

Eu falo de desistir para nunca mais, mesmo que doa, que se lembre para sempre. É estar diante da pessoa que você amou e que morre. É fim. 

Não tenham pena de mim porque eu não estou perdida. Nem triste. Eu apenas vejo pacificamente meu reflexo na poça d`água, quando passo, em direção às minhas opções, em frente ao mundo que contemplo; sabendo que tudo tem seu tempo de ser e não ser, até a singela flor por entre os buracos da calçada. Vou ao templo e a ele confio em pensamento as fases boas e más, a vontade de continuar e a de dar um basta. Não tenho que ser nada do que esperam de mim. Tenho direito à renúncia, ao não, mesmo que isso signifique sofrer mais tarde, pois sofrer é sempre, é antes, durante e depois do simples começar a existir. 

Para mim, aos fracos ficam a persistência improdutiva e enganosa. Ficam o desgaste físico e mental. A cobrança em frente ao espelho. A vontade de gritar e não poder. Aos fracos fica a segurança falsa porque, na maioria das vezes, aquilo a que se renuncia já estava encaminhado para assim ser . Aos fortes, fica a certeza de que chorar, perder, cair e nunca mais retornar é sinal de humanidade. 



Suzana Guimarães


P.S.: não era isso o tudo que eu queria dizer. Eu queria falar do silêncio ao redor e dentro.


_texto editado em 15/11/2016.

​Se eu escrevesse um tratado sobre portas, adiantaria?

(fotografia por Suzana Guimarães)
(fotografia por Suzana Guimarães)
(fotografia por Suzana Guimarães)
(fotografia por Suzana Guimarães)


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

MIGALHAS DE PÃO

(por Suzana Guimarães)


Obrigada, senhor de todas as coisas, senhor universal, pelas pessoas delicadamente retiradas da minha vida, obrigada, Deus.

​Insistente que sou, neguei-me a retirar a venda dos olhos, insisti em aceitar as migalhas   do pão - como se faminta eu fosse. Insisti no laço, no passado, no amargo. Insisti no pouco, no quase nada. Eu queria os nós, as fitas amarfanhadas, tudo que me mantivesse presa, agarrada, de boca aberta a esperar migalhas de pão.

Pássaros minúsculos alçam voos com essas migalhas. Em mim, por quase todo o tempo, pesaram iguais a concreto. Como são pesadas as migalhas de pão! Só sendo pássaro, só sendo vento, e eu não sou! 

Insistente que sou, apeguei-me à venda nos olhos. Delicadamente, como tu és, fizeste com que todas elas, entrepostas, caíssem uma a uma, assim como caem as maçãs de suas macieiras indiferentes.

Delicadamente, como tu és, mostraste que a luz para fora das vendas pode arder, mas será sempre luz, nunca escuridão onde almas desinfelizes gostam de atirar farelos de pão. 



Por Suzana Guimarães