domingo, 24 de novembro de 2013

acalento

by Suzana Guimarães


Pai, para onde corre o rio?

Ele corre para o mar.

E para onde corre o rio de lágrimas?

Corre para nos acalentar.



Suzana Guimarães

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

SOBRE MERGULHOS, PULOS E UM CERTO LAGO

(fotografia gentilmente cedida por Ana Beatriz Maia)

De tudo, ao fim de um ciclo, que não sei bem quem assim o delimitou, mas que posso percebê-lo, vi e entendi que pulei mais vezes do que poderia ter pulado, ansiei por mergulhos profundos, em águas rasas. Ou me joguei sem saber ao certo quão profundo era aquele rio que me sorria, convidativo. 

Pulei em quaisquer águas, fingindo sabê-las. 

Ou me fiz brava nadadora nos mares que me atraíam...

Hoje, posso ver negro lago a noroeste de todas as coisas que deixei para trás, a sudoeste daquilo que nem cheguei a ver, diante das enchentes que se arrastaram. 

É tarde, faz frio em cada costela que me sustenta e eu posso ver o brilho das águas que se alastram, ao redor, como se esse lago germinasse outros pequenos lagos. Posso ver que cintila, posso saber, de mim, que nele, hesitarei, mesmo sentindo que esses ventos frios circulam entre nós. Há beleza também em só olhar. 

- eu que sequer quero olhar, bastando-me apenas um ponto na pele, sentido - 

De tudo, ao fim de um ciclo, um lago miragem, num deserto perdido num mapa nunca encontrado, diante de mim. 


Por Suzana Guimarães

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Por que pessoas pisam roseirais?



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Dá-me uma palavra e um olhar completos em si mesmos. Nada que eu tenha que acrescentar. Não sou boa no preenchimento de lacunas, tenho o hábito do aumento que todo sonhador dá.

Dá-me uma ótima notícia, de preferência absurdamente nova para mim, que eu me choque e perca um pouco o rumo para casa.

Dá-me sentimento verdadeiro, cansou-me o estado sempre vazio do outro.

Dá-me algo para eu guardar e nunca mais querer jogar fora, agradam-me eternidades.



Mas, você deu-me um olhar tão triste e decepcionado que cortou-me por dentro, das raízes ao centro nervoso, dos pés à minha alma mal-ajambrada. 

Você não viu o tanto que andei cortada, no caminho de volta. Nada era seu, tudo, meu. Carreguei sozinha, velho costume, embalando a tristeza e lembrando-me de que você olhou-me como se visse a faca cortando, um roseiral murchando, uma noite acabando-se feito eu que já nem disfarço mais. 

Você não sabe, mas seus olhos fizeram a mesma pergunta: 

Por que pessoas pisam roseirais?

Fica a noite. Fica, eu. Fica a certeza de que aquelas rosas nunca mais se reerguerão. Fica seu olhar tão negro quanto as minhas noites.



Por Suzana Guimarães 

sábado, 16 de novembro de 2013

SOBRE CLAREZAS


(desconheço autoria da imagem)

Uma carta chegou. Foi uma carta de amizade, uma doação. Neste mundo egoísta, aquelas letras brilharam nas águas que me invadem.

Há uma gente disposta a me proteger, a cuidar de bem valioso, por assim considerar, cristal que não se deve trincar, sequer isso... e eu perdendo-me em xingos que de nada adiantam, pensando em quem machuca não pelo prazer do ato, mas pela cegueira eterna, pela visão que não alcança nada além do próprio umbigo, ou uma verruga nova no pescoço. 

A minha mãe é assim, o meu filho... mesmo machucados, carregam-me porque gente que luta também precisa de mão estendida para se levantar do chão, porque às vezes tudo é só ruína, tudo dói e a gente chora mesmo sem querer, sem hora, sem pedir licença.

Eu me esqueci de quem faz suporte, de quem costura remendos; me perdi nos cortes.

Os dias mais lindos virão - já que todos são nascituros. Ouvirei 'Cherry blossom girl', beliscarei alguma Vodka que me lembre cisnes cinzas, dias cinzas, sentidos acinzentados, um par de mãos, algum desejo contido ou um sussurro que alcance os céus, qualquer coisa boa, porque qualquer coisa boa a gente encontra nesta vida, principalmente, quando não se está sozinho.


Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

"If you can not see my mirrors, I can not see you too."

Arquivo pessoal de Suzana Guimarães


Estou a fim de escrever, ou longas cartas, doces poemas ou algumas crônicas provocativas... mas, melhor, muito melhor, está sendo eu dormir, comer, ouvir música, fazer compras, estar com meus filhos, ir para a academia, rir do nada, rir por tudo, esquecer, curar minhas feridas, ignorar.

Li na traseira de um caminhão, hoje, mais cedo: "If you can not see my mirrors, I can not see you too."


Lembrei-me de um admirador que, meses atrás, quis conhecer-me pessoalmente. Ele admirava meus textos, meu jeito de ser, meus espelhos, bom, ele dizia isso... Um outro quis conhecer a fantasia, a Lily, pois, a pessoa, ele conheceu há muitos anos. 

Se não abrirmos a porta, não deixamos o outro ver. Mas, ele pode estar querendo ver apenas o que lhe convém... e aí perde a oportunidade de verdadeiramente enxergar quem abriu a porta.

Para minha surpresa, queriam estar comigo, porém, vieram com aviso pendurado no peito, quase em letras garrafais: Você tem unhas esmaltadas, não gosto. Você usa joias, não gosto. Usa perfume francês, não gosto. Veste-se para ir a um bar como se fosse a uma festa, detesto! Suas sobrancelhas são pintadas? 

E eu pensei, na hora, em pelos pubianos. 

A incongruência de muitos salta aos olhos. Eu não havia marcado um encontro sexual, eu não estava à venda, eu não sou mercadoria. 

Meus gostos, meus pelos, meus textos... tudo cabe em mim e, se em mim, nascem, em mim, morrem. Não preciso de extensão alguma. 

Há uma festa presente, e eu estou nela todos os dias, salvo no escuro do luto e nele venho estando já há algum tempo. Luto na alma e corpo. Contudo, a festa permanece, mesmo nas pausas. 

"Se você não pode ver meus espelhos, eu não posso ver você também." Tradução para a frase que chamou a minha atenção. 

Sim, e isso se chama congruência, feito a fluência de um rio que corre para o mar, feito a fluência do meu querer para as coisas e pessoas interessantes, feito eu para mim mesma.

Estou a fim de escrever, mas decidi deixar uma força maior escrever por mim, ela usa pessoas nas ruas, bocas alheias, um punhado de detalhes que ninguém vê. Ela escreve coisas novas, cochicha aos meus ouvidos, diz que irá me fazer sorrir.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A dona da casa



(desconheço autoria da imagem)

A dona da casa é pura finesse, fala sorrindo, é gentil. A dona da casa é agradável, cheia de papo, animada, a dona da casa é vivaz. Ouve lamentos e confissões, é dona de rara inteligência. A dona da casa às vezes esquece, mas só esquece uma vez. Às vezes, pede recurso, mas só pede uma vez. A dona da casa pode lhe dar os céus, como também os infernos, depende apenas de você. A dona da casa sempre lhe dirá que a casa é sua, aconselho a não acreditar.


Por Suzana Guimarães
 

domingo, 10 de novembro de 2013

Pin-up com soneto

Suzana Guimarães em ilustração de Antonio Cláudio Zamagna

Pin-up-com soneto,
faça um clique nas palavras acima e leia o soneto e a composição da montagemSobre o fotógrafo da obra original com Audrey Hepburn:
Robert Hanley "Bob" Willoughby - June 30, 1927, Los Angeles, California – 18 December 2009, Vence, France.

sábado, 9 de novembro de 2013

DESILUSÃO


(desconheço autoria da imagem)


Se você prestasse para mim, cataríamos conchas nas praias para construírmos o castelo que nunca se ergueria, e então seriam eternas as conchas nos bolsos das roupas. Se você prestasse para mim, eu não perderia tempo pois estaria eternizada numa coletânea de fotografias feitas por você. Se você prestasse, eu não precisaria pedir a Deus todos os dias para você me esquecer, pois ando preenchendo meus vazios muito bem, sozinha, mas inteira, e não com os pedaços com que você me deixa. Se você prestasse para mim, eu não seria escritora, eu seria poesia andando por aí, calmaria, fundo de quintal, alguma fruta vermelha marcando um falso batom na boca.

Você não presta nem para erguer um reino de fantasia, muito menos para fotografias. Você presta apenas para eu confirmar minha eterna suspeita, a de que ser só é bem melhor. 

Por que, já que você não presta, você está no meu caminho? Porque a vida é assim mesmo, e, na estrada, sempre haverá pedras pontudas que nos machucam, matinhos insignificantes que nascem e duram em qualquer canto, chuvas devastadoras ou que pingam em terra árida, e uma porção de insetos. Tem flor bela que dura uma semana, tem coisa boa, coisa ruim; um cem vezes de vontade de pegar outra via, de perceber que tudo não é mais como a gente conhecia.

Se você prestasse para mim, eu não estaria sempre querendo ir embora.


Por Suzana Guimarães

terça-feira, 5 de novembro de 2013

SOBRE JULGAMENTOS


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

Conheci muitos homens homossexuais nem um pouco 'frescos' e muitos homens heterossexuais que resumem bem a expressão "isso é coisa de viado!'. Pouco me importa a opção sexual, eu já escrevi sobre isso, mas me incomoda homens gazelas e mulheres que se fantasiam de homens. A visão dessa imagem 'distorcida' da realidade, eu finjo que nem vejo, para não julgar e também não levar a vida dos outros para dentro da minha. 

Porém, imagino alguém lendo isso que escrevo, sentado numa poltrona, um homem de batom e vestido ou uma mulher de terno e chapéu, igual a uma que vi outro dia, atendente numa loja de instrumentos musicais. Imagino esse alguém triste, por um segundo que seja, pela total falta de compreensão ou tentativa de compreender um gosto, um delírio, ou mesmo um desajuste consciente, contudo, sem cura.

Daí, eu desisto dessa tentativa boba de opinar sobre a ' fauna' humana, há cores e espaço para todos, menos para a minha hipocrisia. Só posso mesmo dizer de mau ou bom gosto, ou, preferencialmente ficar calada.

Ando pensando nas pessoas suficientes, nas insuficientes e nas que aparentam ser uma das duas, mas só aparentam. O externo é lugar onde todo mundo passa, por isso é onde não costumo me ater, prefiro a caça ao interno. Ando pensando em tudo o que realmente me incomoda e me vejo sempre parada e triste diante de fatos onde é visível uma vontade oculta e perversa de atingir, entristecer, dar uma cutucada, no âmbito social ou familiar. 

Provocar as carolas ou as putas, dá na mesma. 

Ah, como adoro uma cutucada! Mas, além de só o fazer após ser provocada, até isso ando dispensando, só mesmo quando beira a água na borda do copo e eu me dou ao direito de ser incorreta. Inclusive, para isso, temos que nos dar chance: a de estarmos inteiramente inadequados, fora das aceitações. Permito-me agora a ofensa interna, silenciosa, só minha, que antes, eu, tão ética, não me permitia, como por exemplo, dizer 'sua vaca', 'seu viado', sorrindo.

Se você diz que estou julgando alguém, você também está julgando, a mim, então, estamos quites, um não é melhor que o outro. O que sabemos sobre o outro? Muito pouco. Apenas o que ele deixa revelar em partes. Mas, temos mania de toga, mesmo na hipocrisia de dizer não usá-la. Deixemos os julgados e os em julgamento para as Cortes, para os Tribunais, para os homens das Leis, nos casos de crimes assim entendidos como crime e não como preconceito ou implicância barata. E para Deus.


Por Suzana Guimarães