sábado, 29 de dezembro de 2012

É INOCENTE CRER

(Picture by Suzana Guimarães)



O inverno pouco a pouco acomoda-se no deserto em que vivo, mas quase nada ainda sei desse frio. Estou bastante reclusa, sentindo prazer enorme no ato de cerrar portas e fechar cortinas. Nada metafórico. Sinto prazer quando minhas mãos descem e lacram persianas. Não é depressão, pois estou bem, apenas hibernando, olhando para dentro. Não! Não se trata de um olhar para dentro, mas sim de um olhar através. Não há espelhos me bastando, meu olhar ultrapassa qualquer reflexo.

Mudei em todos os sentidos e não houve ritual de passagem de ano, seis anos não se passaram, voaram pela janela onde eu só olhava a vida e desejava. Parei com toda a tolice de sonhar, que me perdoem os entusiasmados! Sonhar é grande tolice.

Como se eu tivesse me transportado para outra dimensão e eu nem cogitava sair do lugar... Tenho a inércia dos gatos, movimento-me apenas quando absolutamente necessário. Foi em um 'não sonhar' que eu troquei de capa, pele e tripas. Foi uma decisão sem quimeras, um correr solto de atitudes, o destroncamento de dogmas, o repúdio ao medo, a certeza de que eu tinha a obrigação de sair do lugar, mesmo não havendo aparente necessidade. Nem sei ao certo se foi num dia em que eu olhava a rua pela janela ou se foi no dia em que me deitei num sofá apertado, numa tarde insossa, e fiz uma lista enorme, quase tudo da minha vida, de tudo aquilo que eu já não suportava mais. Não havia sonho, apenas desgosto.

Houve mudança material e geográfica, mas a principal foi o desgarramento. Eu tinha dois grandes sonhos na minha vida. Eu os carregava para todos os lados. Agia em função deles. Dediquei-me a eles, rezei, lutei, chorei, forcei, vivi como lunática, perdi horas no esforço de alcançá-los. Ganhei enfastio. Exauri-me. Tudo me cansou muito mais que os dias mais quentes de um verão no deserto, muito mais que viver nos limites das forças, entre o continuar e o esticar-se no chão, rendida.

Cansou-me a sapiência do desnecessário. Quanta coisa fazemos desnecessariamente? A maioria. E essa maioria vem da ânsia dos sonhos. "De tudo o que você imagina não irá acontecer noventa por cento", dizia meu pai, quando eu era uma ansiolítica menina de 18, 19 anos, filha de um também ansiolítico, com certeza, ele estava sabendo o que dizia.

Desnecessários sonhos! Pesaram-me como as trouxas de roupas das lavadeiras que eu via passar. Aquelas mulheres fortes, de corpo em riste, olhar ao longe, passo firme, cabeça erguida...

Houve o mérito, mas o prazer do desprender-se do peso é absurdamente maior. Era tudo muito precioso para mim, vital, hoje, só lembrança. Recordações do tempo inocente da crença.

É inocente crer, porque é entrega cega. No meu caminho sem volta larguei a trouxa, a ladainha dos pedidos, o próprio caminho. Eu ainda creio, mas não sonho, não traço mapas, não aspiro, apenas vivo, e, apenas viver é sempre mais leve e livre.

Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

EU ESCREVO NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

Suzana Guimarães - arquivo pessoal



Eu poderia ter feito melhor, ter sido mais ao invés de alheia. Eu poderia ter me dedicado, não pense que eu não penso sobre isso! Só que, tudo o que eu pude fazer, eu fiz, o mais era para outra pessoa, não para mim.

Meus preconceitos, eu sempre ocultei. Não preciso expor minhas feiuras ao mundo, já basta o tanto que elas me incomodam. E eu percebi bem cedo na vida que haverá sempre um dedo a lhe apontar, uma gente tola que entra na fila sem saber para quê e os 'bostas', aqueles que, com pouca inteligência, conseguem manipular multidões.

Por isso, eu escrevo na primeira pessoa do singular. Às vezes, em alguns contos, uso a terceira pessoa, 'ela' ou 'ele', por causa da dificuldade que tenho de escolher nomes fictícios. Junto ao crescimento da comunicação caminha a reafirmação do hipócrita. Tudo o que se escreve ou se fala passou a ser severamente visto de forma genérica ou não política e ecologicamente correta. O meu 'eu' cala a tua vez, é isso o que faço.

Quando dizem para não sermos preconceituosos com os negros e homossexuais, estão incluindo também por opção política, religiosa e por nacionalidade? Não é o que ando vendo. O que vejo é gente levantando bandeira para o que lhe é proveitoso. Dentro dos preconceitos que carrego em absoluto segredo, eu tive um que expurguei de mim faz longo tempo. Muito antes de pensar em viver nos Estados Unidos, consegui perceber por 'n' motivos que se apresentaram, que eu era uma tola generalista. Eu não comprava produtos americanos, eu não bebia Coca-cola. Eu não iria à América nem a passeio.

Hoje, não troco muitos americanos por muitos brasileiros e vice-versa. Não considero nenhuma terra, terra de maus ou bons. Alguns brasileiros vivem aqui há anos e só sabem falar mal do país, e eu me pergunto o porquê deles não arrumarem as trouxas e retornarem ao Brasil.

Não aplaudo dias e nem cotas especiais. Entendo que, dizer que um cabelo é ruim significa que ele é ruim de pentear, de fazer penteados, e, não, nunca, ruim de mau ou feio. O cabelo da minha mãe é extremamente liso e ela sempre reclama que ele é ruim de pentear. Chamo o meu filho que é muito branco de ' meu neguinho', porque rima com o sobrenome dele. É mais fácil identificar alguém referindo-se à alguma característica física. Ele é negro, não é? Ela é branquela, não é? Para mim, dizer que fulano é gordo ou baixinho ou tem a cara torta é o mesmo que dizer 'aquele de olhos verdes, aquela de cabelos encaracolados'.

Para os brasileiros, se o cara tiver olhos puxados é japa, de japonês. Quem é que eu quis ofender? Ninguém. É hábito, é costume, não é maldoso, mesmo que não seja 'correto'. Outro dia, eu disse: "Você encontra muitos mexicanos na porta da loja." O filho de uma mexicana não gostou e me repreendeu, disse que eu deveria dizer 'latinos'. Não é generalização, não posso saber com certeza a nacionalidade de cada um, e, certamente, a maioria lá é mexicana.

Durante seis anos, a minha vizinha, uma mulher na casa dos quarenta, me chamou de Silvana e durante seis anos, eu a atendi. A minha avó trocava meu nome com o da Simone, e nós a atendíamos. Quando preencho algum documento, tenho que marcar com um 'x' a minha raça. O Consulado do Brasil recomendou optar por 'other'. Eu sou 'other' e isso não me afeta em nada. Outro dia, uma colega me perguntou se eu me considero latina, respondi, "claro, sou da América Latina". Não entendi a pergunta e também não me deu a mínima vontade de perguntar o por quê.

Uma brasileira que conheci na faculdade de Inglês arrepiou-se toda quando eu disse que não gostava do Cazuza. Olhou-me incrédula, disse que era um absurdo. Absurdo é alguém se horrorizar com isso. Vejo um excesso de preciosismo por aí.

Bem cedo na vida, meu pai me disse: "não levante bandeiras, minha filha, isso é tolice". Certíssimo, a bandeira levantada haverá de se voltar contra você quando ventos mais fortes ou sedutores tocarem-na ou a ti.

Na minha turma da faculdade de Direito havia uma ladra. Ela furtava, todos desconfiavam dela e ninguém dizia ou fazia nada porque "calúnia é crime", diziam, e ela continuava raposa esperta. Um dia, ela furtou a minha carteira. Eu interrompi a aula do professor para pedir para reclamar, ele me repreendeu, saí da minha carteira e em pé, em frente aos colegas, perguntei que espécie de advogados eles seriam. Olhei para a turma do 'deixa disso' e para os hasteadores de bandeiras, perguntei se algum deles iria comigo até o chefe de departamento. Fui sozinha. No dia seguinte, tudo que havia sido furtado foi devolvido, inclusive a minha carteira.

Quem tem bandeiras para hastear, que o faça, mas, por favor, não queime sutiãs, isso é ridículo. Atos barulhentos em praça pública não bastam. Levante a bandeira, mas tenha coragem de deixá-la encostada num canto de parede para ir à luta, à briga, à ação. Seja coerente e respeite os direitos alheios, saiba pelo quê está protestando ou reivindicando. Não seja mais um que só aguarda o momento propício para ter seu dia de abutre, não aumente a fila da corja.

Uma banda russa, de música, composta por três mulheres, decidiu protestar contra o governo dentro da principal catedral do país, em meio a um culto. Foram presas por vandalismo; após a prisão, pediram desculpas ao público religioso presente naquele momento. Foram condenadas e muita gente se abalou contra, o que vejo com bons olhos, a humanidade está atenta. Considero a pena de dois anos muito alta, desproporcional, mas, por que essas criaturas não foram protestar em lugar mais adequado?

Burrice e alienação mental não são transmissíveis, graças a Deus, mas preconceito é. Aquilo que você mais condena baterá à tua porta, esteja certo disso.


Por Suzana Guimarães